Nicholas Spark


O MILAGRE


Traduo
Elvira Serapicos


AGIR

2010 

Para Rhett e Valerie Little, pessoas maravilhosas, 
amigos maravilhosos. 


Agradecimentos 

Como sempre, tenho de agradecer  minha 
esposa, Cathy, por seu apoio enquanto escrevia 
este romance. Tudo o que consigo fazer devo a 
ela. 
Tambm tenho de agradecer a meus filhos: Miles,
Ryan, Landon, Lexie e Savannah. O que possodizer? Fui abenoado no momento em que cadaum de vocs surgiu na minha vida e tenho muitoorgulho de todos vocs.
Theresa Park, minha agente, merece uma grandesalva de palmas por tudo o que faz por mim. 

#
Parabns por sua nova agncia  a Park Literary 
Group (para todos os aspirantes a escritor queesto por a). Sinto orgulho por poder chamada deamiga.
Jamie Raab, minha editora, merece meu 
agradecimento, no apenas pelo modo como elaedita meus romances, mas por toda a confiana 
que deposita em mim. Eu no sei o que teria 
acontecido com minha carreira se no fosse porvoc, e sou muito grato por sua generosidade eateno. 
Larry Kirshbaum e Maureen Egen so amigos ecolegas, e considero um privilgio trabalhar comeles. Eles so simplesmente os melhores naquiloque fazem.
Denise DiNovi tambm merece meu 
agradecimento, no apenas por causa dos filmes 
que fez a partir de meus romances, mas poraqueles telefonemas nas horas certas, que sempreiluminam meus dias. 
Obrigado tambm a Howie Sanders e Dave Park,
meus agentes na UTA, e tambm a Richard Green,
na CAA. 
Lynn Harris e Mark Johnson, que ajudaram a 
transformar The notebook naquele filme 
maravilhoso, tambm merecem minha gratido.
Obrigado por nunca terem deixado de acreditar no 
romance. 
Agradecimentos especiais tambm para Francis 
Greenburger. Ele sabe por qu  e eu lhe devo 
uma. 
E, finalmente, obrigado quelas pessoas que 
trabalham tanto nos bastidores e se tornaram 

#
como uma famlia para mim com o passar dos 
anos: Emi Battaglia, Edna Farley e Jennifer 
Romanello, no Departamento de Publicidade; Flag,
que fez outro trabalho fantstico com a capa; ScottSchwimer, meu advogado; Harvey-Jane Kowal, 
Shannon O'Keefe, Julie Barer e Peter McGuigan. Eutenho muita sorte por trabalhar com pessoas tomaravilhosas. 


Captulo 

UM 

Jeremy Marsh sentou-se com o resto do pblico doestdio ao vivo, sentindo-se estranhamente 
visvel. Sentado no meio de apenas meia dzia dehomens presentes no auditrio, naquela tarde demeados de dezembro, estava vestido de preto, claro, e com seu cabelo 
escuro ondulado, olhos 
azul-claros e a estilosa barba por fazer, parecia 
exatamente o nova-iorquino que era. Enquantoestudava o convidado que ocupava o palco naquele 
momento, ele conseguiu observar 
sorrateiramente a loira atraente sentada trs 

#
fileiras acima. Sua profisso freqentementeexigia que fizesse vrias coisas ao mesmo tempo.
Ele era um jornalista investigativo em busca de 
uma histria, e a loira era apenas mais uma 
pessoa no auditrio; ainda assim, o observador 
profissional que havia dentro dele no poderiadeixar de notar o quanto ela ficava atraente comaquele top frente nica e jeans. Jornalisticamente 
falando,  claro. 
Desviando o pensamento, ele tentou voltar sua 
ateno de novo para o convidado. Aquele caraera mais do que ridculo. Ofuscado pelas luzes dateleviso, Jeremy tinha a impresso de que o guiaesprita parecia estar 
com priso de ventre, 
enquanto garantia ouvir vozes do alm. Ele haviaassumido uma intimidade falsa, agindo como sefosse o irmo ou o melhor amigo de todo mundo, eparecia que a grande 
maioria do pblico, apavorada 
 inclusive a loira atraente e a mulher com 
quem o convidado estava falando , considerava-

o a prpria ddiva dos cus. O que fazia sentido,
pensou Jeremy, j que era sempre esse o destinodas pessoas amadas falecidas. Os espritos do 
alm estavam sempre cercados por uma luz 
angelical brilhante e envoltos em uma aura de paze tranqilidade. Jeremy jamais ouvira falar de umguia esprita que se comunicasse com aquele 
outro lugar, mais quente. Os mortos queridos 
jamais diziam que estavam sendo assados num 
espeto ou cozidos num caldeiro de leo, por 
exemplo. Mas Jeremy sabia que estava sendo 
cnico. E, alm disso, tinha de admitir, era um 
timo espetculo. Timothy Clausen era bom  
#
muito melhor do que a maioria dos charlates 
sobre os quais Jeremy tinha escrito ao longo dos 
anos. 

 Eu sei que  difcil  Clausen disse no 
microfone , mas Frank est lhe dizendo que est
na hora de deixar que ele se v.
A mulher para quem ele se dirigia com tanta meu-
Deus empatia, parecia que ia desmaiar. 
Cinqentona, ela usava uma blusa verde listrada e
seu cabelo vermelho encaracolado parecia crescer
e encaracolar em todas as direes. Suas mos 
estavam to apertadas na altura do peito que os
dedos estavam esbranquiados por causa da 
presso.
Clausen fez uma pausa e colocou a mo na testa,
aproximando-se do "alm", como ele dizia. No 
silncio, a multido inclinou-se coletivamente para
a frente em suas poltronas. Todos sabiam o que
viria em seguida; a mulher era a terceira pessoa
da platia escolhida por Clausen. No era de 
surpreender que Clausen fosse o nico convidado
apresentado pelo popular talk show naquela tarde. 
 Voc se lembra da carta que ele lhe mandou?
 Clausen perguntou.  Antes de morrer?
A mulher sufocou um grito. A seu lado, o 
assistente da produo aproximou o microfone 
ainda mais para que todos os que estivessem 
assistindo  televiso pudessem ouvir claramente. 
 Sim, mas como voc poderia saber...?  ela 
gaguejou.
Clausen no deixou que ela terminasse.  Voc se
lembra do que dizia?  ele perguntou. 
 Sim  a mulher resmungou. 
#
Clausen acenou com a cabea, como se ele 
prprio tivesse lido a carta.  Ela falava sobre 
perdo, no  mesmo?
No sof, a apresentadora do programa, o talk 
show vespertino mais popular da Amrica, cravouo olhar em Clausen e depois na mulher, e depoisem Clausen de novo. Ela parecia ao mesmo temposurpresa e satisfeita. 
Guias espritas eram semprebons para os ndices de audincia.
Enquanto a mulher da platia acenava com a 
cabea, Jeremy notou que o rmel comeou a 
escorrer por seu rosto. Rapidamente, as cmeras 
se aproximaram para exibir o close. Isso era a 
televiso em seu aspecto mais dramtico. 

 Mas como  que voc poderia...?  a mulher 
voltou a dizer. 
 Ele tambm estava falando a respeito de suairm  Clausen murmurou.  E no apenas dele.
A mulher encarou Clausen, transfigurada. 
 Sua irm Eilen  Clausen acrescentou, e com 
aquela revelao a mulher finalmente soltou umchoro convulsivo. As lgrimas brotavam como numesguicho automtico. Clausen  bronzeado e 
elegante em seu terno preto sem um nico fio decabelo fora do lugar  continuava a acenar com acabea como aqueles cachorrinhos que voc 
prende no retrovisor do carro. A platia olhava 
para a mulher em silncio profundo. 
 Frank deixou outra coisa para voc, no ? Umacoisa do seu passado.
Apesar do calor provocado pelas luzes do estdio,
a mulher pareceu ter ficado realmente plida. Emum canto do set, alm da rea mais ampla em 
#
torno do palco, Jeremy viu o produtor girando odedo indicador como se fosse o movimento de um 
helicptero. Estava chegando a hora do intervalocomercial. Clausen olhara de maneira quaseimperceptvel naquela direo. Ningum, alm deJeremy, parecia ter notado, 
e ele sempre se 
perguntava por que as pessoas nunca 
questionavam o fato de a comunicao com o 
mundo dos espritos estar em to perfeita 
sincronia com os intervalos comerciais. 
Clausen continuou.  Que ningum mais poderiasaber a respeito. Uma chave, certo?
Os soluos continuavam, enquanto a mulher 
concordava com a cabea. 

 Voc nunca pensou que ele tivesse guardado,
no ? 
O.k., esse  o gancho, Jeremy pensou. Outro 
verdadeiro crente a caminho. 
  do hotel em que vocs ficaram em sua lua-demel. 
Ele a deixou l para que, quando a achasse,
voc se lembrasse dos tempos felizes que
passaram juntos. Ele no quer que voc se lembre
dele com sofrimento, porque ele a ama. 
 Oooooooooohhhhhhhhhhhhhh...!  a mulher 
choramingou.
Ou algo parecido. Um gemido talvez. Do lugar em
que estava sentado, Jeremy no poderia dizer com 
certeza, porque o choro foi interrompido por
aplausos sbitos e entusiasmados. De repente, o
microfone foi retirado. As cmeras se afastaram. 
Acabado o seu momento de glria, a mulher da
platia desabou na poltrona em que estava 
#
sentada. Nesse exato momento, a apresentadorase levantou do sof e olhou direto para a cmera. 

 Lembrem-se de que isto que vocs esto 
assistindo  real. Nenhuma dessas pessoas jamaisse encontrou com Timothy Clausen.  Ela sorriu. 
 Estaremos de volta com mais uma comunicao 
depois dos comerciais.
Mais aplausos quando o programa foi interrompidopara os comerciais, e Jeremy recostou-se em suapoltrona.
Como jornalista investigativo conhecido por seu 
interesse pela cincia, ele havia construdo umacarreira escrevendo sobre pessoas como essas. Namaior parte do tempo, gostava do que fazia e 
tinha orgulho de seu trabalho, como se fosse umaespcie de servio pblico valioso, numa profissoto especial que tinha seus direitos enumeradospela Primeira Emenda 
da Constituio dos EstadosUnidos da Amrica. Em sua coluna habitual na 
Scientific American, ele havia entrevistado 
ganhadores do Prmio Nobel, explicado as teoriasde Stephen Hawking e de Einstein em termos 
acessveis aos leigos, e uma vez teve seu mritoreconhecido por ter deflagrado um movimento naopinio pblica que levou a Food and Drug 
Administration (FDA) a tirar do mercado um 
poderoso antidepressivo. Ele escrevera 
extensivamente a respeito da misso Cassini, a 
respeito do espelho defeituoso nas lentes do 
telescpio espacial Hubble, e fora um dos primeiros 
a condenar publicamente a experincia dafuso fria realizada em Utah como sendo uma 
fraude. 
#
Infelizmente, apesar de toda a repercusso da suacoluna, ela no dava muito dinheiro. Era o seu 
trabalho como freelancer que pagava a maioria 
das contas, e, como todos os freelancers, ele 
estava sempre se movimentando para descobrirhistrias que pudessem interessar aos editores derevistas e jornais. Seu segmento de atuao tinhase ampliado de forma 
a incluir "tudo o que fosse 
incomum" e, nos ltimos quinze anos, ele haviapesquisado e investigado videntes, guias espritas,
mdicos espirituais e mdiuns. Ele havia reveladofraudes, mistificaes e embustes. Visitara casas 
assombradas, lanara-se na procura por criaturasmsticas e envolvera-se na busca das origens delendas urbanas. Ctico por natureza, era dotado 
da rara capacidade de explicar conceitos 
cientficos difceis de uma forma que o leitor 
mediano conseguisse entender, e seus artigoshaviam sido publicados por centenas de revistas ejornais ao redor do mundo. A desmistificao 
cientfica, para ele, era to nobre quanto 
importante, mesmo que o pblico nem sempre 
gostasse. Freqentemente, depois da publicao 
de seus artigos como freelancer, seu correio 
eletrnico ficava repleto de palavras como "idiota",
"retardado" e a sua favorita, "puxa-saco do 
governo".
O jornalismo investigativo, ele tinha aprendido, eraum negcio ingrato.
Refletindo sobre isso com o semblante fechado, 
ele observou a platia conversando 
animadamente, imaginando quem seria o prximoa ser escolhido. Jeremy lanou outro olhar furtivo 

#
na direo da loira, que examinava o batom emum espelhinho de mo.
Jeremy j sabia que as pessoas escolhidas porClausen oficialmente no faziam parte do nmero.
Porm, como a presena de Clausen havia sidoanunciada com antecedncia, os ingressos para oprograma haviam sido disputados furiosamente. Oque significava,  claro, 
que a platia estava cheiade pessoas que acreditavam na vida aps a morte.
Para elas, Clausen era autntico. Como ele saberia 
coisas to pessoais a respeito de estranhos, se nofalasse com os espritos? Mas como com qualquerbom mgico que tinha seu repertrio muito bemdecorado, a iluso 
ainda era uma iluso; e, pouco 
antes de comear o programa, Jeremy no s 
havia percebido como ele iria agir, como tambmhavia obtido provas fotogrficas para mostrar.
Desmascarar Clausen seria o maior feito de Jeremyat ento, e era exatamente o que merecia o 
sujeito. Clausen era um trapaceiro da pior espcie.
Ainda assim, o lado pragmtico de Jeremycompreendia que esse era o tipo de histria queraramente fazia sucesso e ele queria tirar o mximo 
proveito dela. Afinal, Clausen estava no augede uma enorme celebridade; e, na Amrica, 
celebridade era tudo o que importava. Apesar desaber que era uma possibilidade absolutamente 
improvvel, ele fantasiou sobre o que aconteceriase Clausen realmente o escolhesse a seguir. Ele 
no esperava que isso acontecesse; ser escolhidoseria o mesmo que ganhar um prmio acumulado 
na loteria; mas mesmo que no acontecesse, 
Jeremy sabia que tinha uma excelente histria. A 

#
diferena entre excelente e excepcional,
entretanto, muitas vezes dependia dos caprichosdo destino, e ao terminar o intervalo comercial ele 
sentiu dentro dele um pequeno lampejo de 
injustificada esperana para que de alguma formaClausen dirigisse sua ateno para ele.
Ento, como se Deus tambm no estivesse muito 
satisfeito com o que Clausen estava fazendo, foiexatamente isso o que aconteceu. 

Trs semanas depois, o inverno castigavaManhattan sem compaixo. Uma frente fria vindado Canad tinha feito as temperaturas 
despencarem at quase zero, nuvens de vapor 
saam das grades dos esgotos antes de pousarsobre as caladas escorregadias. No que algum 
parecesse se importar. Os intrpidos cidados 
nova-iorquinos exibiam sua habitual indiferena atudo o que dissesse respeito s condies 
meteorolgicas, e as noites de sexta-feira no 
poderiam ser desperdiadas de maneira alguma.
As pessoas davam um duro danado durante a 
semana e no iriam deixar de sair uma noite, 
principalmente quando havia motivos para 
celebrar. Nate Johnson e Alvin Bernstein jestavam celebrando fazia uma hora, assim como 
uma dzia de amigos e jornalistas  alguns da 
Scientific American  que tinham se reunido para 
homenagear Jeremy. Muitos j estavam na fase 
mais animada da noite e se divertiam bastante, 
principalmente porque os jornalistas costumam ter 
uma grande preocupao com o oramento, e 
aquela noite era por conta de Nate. 

#
Nate era o agente de Jeremy. Alvin, que trabalhava 
como cameraman freelancer, era o melhor amigode Jeremy, e eles haviam se reunido naquele barmodernoso do Upper West Side para celebrar a 
presena de Jeremy no Primetime Live da rede 
ABS. As chamadas do Primetime Live tinham ido 
ao ar naquela semana  a maioria delas 
mostrando Jeremy de frente e no centro, e 
prometendo uma grande revelao  e pedidos 
para entrevistas em todos os cantos do pasestavam chovendo no escritrio de Nate. No incio 
daquela tarde, a revista People telefonara e eles 
haviam marcado uma entrevista para a segunda-
feira pela manh.
No fora possvel organizar um espao reservado 
para o encontro, mas ningum parecia se 
importar. Com seu imenso bar de granito e umailuminao teatral, o lugar superlotado era o 
prprio reino dos yuppies. Enquanto os jornalistas 
da Scientific American usavam jaquetas esportivas 
de tweed com protetores de bolso e se 
amontoavam num canto do salo, conversando 
sobre ftons, a maioria dos outros clientes pareciater vindo direto do trabalho, na Wall Street ou na 
Madison Avenue: palets de ternos italianos 
pendurados nas costas das cadeiras, gravatasHermes com o n frouxo, homens que pareciamno querer fazer outra coisa alm de examinar asmulheres que freqentavam 
o lugar, enquantomantinham o olho grudado no Rolex. Mulheres quetrabalhavam em editoras ou agncias de 
publicidade vestiam roupas de griffe e usavam 
saltos absurdamente altos, bebericando Martinis 

#
aromatizados, enquanto fingiam ignorar os 
homens. Jeremy estava de olho numa ruiva alta do 
outro lado do bar que, aparentemente, estava 
olhando em sua direo. Ele se perguntou se ela oteria reconhecido das chamadas da televiso, ou 
se queria companhia apenas. Ela virou o rosto, 
aparentemente desinteressada, mas depois olhoude novo para ele. Diante do olhar que se demorouum pouco mais desta vez, Jeremy ergueu o copo. 

 Vem c, Jeremy, presta ateno  disse Nate, 
cutucando-o com o cotovelo.  Voc est na TV! 
Voc no quer ver como foi?
Jeremy desviou sua ateno da ruiva. Erguendo oolhar na direo da tela, ele se viu sentado diante 
de Diane Sawyer. Estranho, ele pensou; era como 
estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ainda 
parecia que no tinha acontecido de verdade. 
Nada naquelas trs ltimas semanas parecia teracontecido de verdade, apesar de todos os seusanos na mdia. 
Na tela, Diane o estava descrevendo como "o 
jornalista cientfico mais respeitado dos Estados 
Unidos". A histria no s acabara por se transformar 
em tudo o que ele queria, como Nate estavanegociando com o Prime-time Live uma 
colaborao regular de Jeremy, com a 
possibilidade de matrias adicionais para o Good 
Morning America. Apesar de muitos jornalistasacharem que a televiso era um veculo menosimportante do que outros, mais srios, parareportagens, isso no impedia 
que a maioria delesalimentasse intimamente a idia da televiso 
como o Santo Graal, o que no fundo queria dizer 
#
muito dinheiro. Apesar dos cumprimentos, havia 
inveja no ar, uma sensao to estranha para 
Jeremy quanto uma viagem espacial. Afinal, 
jornalistas da sua espcie no estavam 
exatamente no topo da hierarquia social da mdia

 at hoje. 
 Ela falou que voc  respeitado?  Alvin 
perguntou.  Voc escreve a respeito do P 
Grande e da lenda de Atlantis? 
 Sshhh!  Nate soprou, os olhos grudados na 
televiso.  Estou tentando ouvir. Pode ser 
importante para a carreira de Jeremy.
Como agente de Jeremy, Nate estava eternamentepromovendo eventos que "poderiam ser 
importantes para a carreira de Jeremy", pela 
simples razo de que o trabalho como freelancer 
no era assim to lucrativo. Alguns anos antes, 
quando Nate estava comeando, Jeremy havia 
aceitado a proposta para fazer um livro, e eles 
estavam trabalhando juntos desde ento, 
simplesmente porque tinham se tornado amigos. 
 Tudo bem  disse Alvin, ignorando a rabugice.
Enquanto isso, brilhando na tela atrs de DianeSawyer e de Jeremy, estavam os momentos finaisda performance de Jeremy no programa vespertinoda televiso, quando 
Jeremy havia fingido que era 
um homem lamentando a morte do irmo que 
perdera na infncia. Esse menino, segundoClausen, estava querendo entrar em contato comJeremy. 
 Ele est comigo  Clausen estava anunciando.
 Ele quer que voc o deixe ir, Thad. 
#
A imagem ento mudou para mostrar a 
interpretao que Jeremy fazia de algumangustiado, o rosto contorcido. Ao fundo, Clausenacenava com a cabea, exalando compaixo ourevelando a priso de ventre, 
conforme a 
perspectiva. 

 Sua me nunca mexeu no quarto dele  o 
quarto que voc dividia com ele.  Ela insistia 
para que fosse mantido do mesmo jeito, e vocainda tinha de dormir ali  Clausen prosseguiu. 
 Sim  Jeremy soluou. 
 Mas voc tinha medo de ficar l e, de raiva, 
voc pegou uma coisa dele, uma coisa muito 
pessoal, e a enterrou no quintal dos fundos. 
 Sim  Jeremy conseguiu dizer de novo, comose estivesse muito emocionado para falar mais doque isso. 
 O aparelho que ele usava para corrigir os 
dentes. 
 Ooooooohhhhhhhhhh!  Jeremy gemeu, 
cobrindo o rosto com as mos. 
 Ele o ama, mas voc precisa entender que eleest em paz agora. Ele no sente raiva de voc... 
 Oooooohhhhhhhhh!  Jeremy choramingou denovo, contorcendo ainda mais o rosto. 
No bar, Nate observava os bacanas em 
concentrao silenciosa. Alvin, ao contrrio, estava 
gargalhando quando ergueu bem alto o seu copode cerveja. 
 Esse cara merece um Oscar!  ele gritou. 
 Foi bastante impressionante, no foi? Jeremy 
perguntou, com um sorriso cnico. 
#
 Eu j avisei vocs dois...  Nate falou, sem 
esconder sua irritao.  Esperem para falar 
durante os comerciais. 
 Tudo bem  Alvin disse novamente. "Tudo 
bem" sempre fora a expresso favorita de Alvin.
No Primetime Live, a fita de vdeo sumiu numa tela 
preta e a cmera enfocou Diane Sawyer e Jeremysentados um de frente para o outro novamente. 
 Ento, nada do que o Timothy Clausen disse eraverdade?  Diane perguntou. 
 Nem uma palavra  disse Jeremy.  Como 
voc j sabe, meu nome no  Thad, e embora eurealmente tenha cinco irmos, todos esto vivos e 
bem. 
Diane segurava uma caneta sobre um bloco depapel, como se estivesse prestes a fazer algumaanotao.  Ento como  que o Clausen fazia 
essas coisas? 
 Bem, Diane  Jeremy comeou.
No bar, Alvin ergueu a sobrancelha que tinha um 
piercing. Inclinando-se na direo de Jeremy, ele 
perguntou:  Voc a chamou de Diane? Como se 
vocs fossem amigos! 
 Por favor!  disse Nate, a exasperao 
aumentando naquele instante.
Na tela, Jeremy continuou a falar:  O que Clausenfaz  simplesmente uma variao do que as 
pessoas tm feito h centenas de anos. Em primeiro 
lugar, ele  bom na leitura das pessoas, e  
um especialista em fazer associaes 
extremamente vagas mas com grande carga 
emocional, respondendo ao que as pessoas da 
platia deixam escapar. 
#
 Sim, mas ele foi to especfico. No s com 
voc, mas com os outros convidados. Ele tinha 
nomes. Como ele consegue?
Jeremy encolheu os ombros.  Ele me ouviu falar 
de meu irmo Marcus antes de comear o 
programa. Eu simplesmente inventei uma vida 
imaginria e a divulguei em alto e bom som. 
 E como isso chegou aos ouvidos de Clausen? 
 Trapaceiros como Clausen so conhecidos por 
usar uma infinidade de truques, incluindo 
microfones e "ouvintes" pagos que circulam pelarea de espera antes do programa. Antes de me 
sentar, eu dei algumas voltas e conversei com 
muita gente da platia, prestando ateno para 
ver se algum demonstrava algum interesse 
especial pela minha histria. E no tenha dvida, 
eu me deparei com um homem especialmente 
interessado. 
Atrs deles, a fita de vdeo foi substituda por umafoto ampliada que Jeremy havia tirado com uma 
pequena cmera escondida em seu relgio, um 
brinquedinho de espionagem de alta tecnologia 
que ele j havia lanado como despesa na 
Scientific American. Jeremy adorava brinquedos dealta tecnologia, tanto quanto adorava lan-los naconta dos outros. 
 O que estamos vendo aqui?  Diane 
perguntou.
Jeremy mostrou.  Este homem estava se 
misturando com as pessoas no estdio, fazendo-sepassar por um visitante de outra cidade. Eu tireiessa foto enquanto conversvamos, pouco antes 
#
de comear o programa. Por favor, algum d um 
zoom aqui.
Na tela, a foto foi ampliada e Jeremy fez um gesto
para se aproximar dela. 


 Est vendo o pequeno broche dos EUA na 
lapela? Isso no  apenas um enfeite. Na verdade,
 um microtransmissor conectado a um gravador
nos bastidores. 
Diane franziu a testa.  Como voc sabe disso? 
 Porque  Jeremy falou, erguendo uma 
sobrancelha  eu por acaso tenho um igual a 
esse. 
Dito isso, Jeremy colocou a mo no bolso do palet
e tirou dali o que parecia ser o mesmo broche dos
EUA, ligado por um fio comprido como um arame a
um transmissor. 
 Este modelo em especial  fabricado em Israel 
 a voz de Jeremy podia ser ouvida ao fundo, 
enquanto a cmera mostrava um close da engenhoca 
 e  bastante sofisticado. Ouvi dizer que 
usado pela CIA, mas,  claro, no tenho como 
confirmar essa informao. O que eu posso lhe dizer 
 que a tecnologia  bastante avanada  este
pequeno microfone  capaz de captar conversas
em uma sala lotada, barulhenta e, com os sistemas 
de filtro apropriados, tambm  capaz de 
isol-las. 
Diane examinou o broche com evidente 
fascinao.  E voc tem certeza de que isto era
realmente um microfone e no apenas um broche? 
 Bem, como voc sabe, eu j estava de olho em
Clausen h algum tempo, e uma semana depois do
programa eu consegui obter mais algumas fotos. 
#
Uma nova fotografia apareceu na tela. Apesar de 
um pouco granulosa, era uma foto do mesmo 
homem que estava usando o broche dos EUA. 

 Esta foto foi tirada na Flrida, diante do 
escritrio de Clausen. Como voc pode ver, o 
homem est entrando no escritrio. O nome dele  
Rex Moore, e ele  realmente um funcionrio de 
Clausen. Ele trabalha para Clausen h dois anos. 
 Uuuuuuhhhhh!  Alvin berrou, e o resto da 
transmisso, que j estava terminando, foi 
abafada quando os outros, invejosos ou no, sejuntaram com vaias e gritos. A boca-livre tinha 
feito sua mgica, e Jeremy foi sufocado por 
cumprimentos quando o programa acabou. 
 Voc estava fantstico  disse Nate. Aos 
quarenta e trs anos, baixo e ficando careca, Natetinha o costume de usar palets muito apertadosna cintura. Mas isso no importava. O homem eraa encarnao da energia 
e, como a maioria dos 
agentes, ele realmente se movimentava com 
intenso otimismo. 
 Obrigado  disse Jeremy, tomando o que 
restava de sua cerveja. 
 Isso vai ser muito bom para sua carreira  
continuou Nate.   sua passagem para uma 
apresentao permanente na televiso. Voc nomais vai ter de batalhar por trabalhos ruins como 
freelancer para uma revista qualquer, no mais vai 
ter de procurar histrias de OVNIS. Eu sempredisse que com esse visual voc foi feito para a TV. 
 Voc sempre disse isso  Jeremy concordou,
com um virar de olhos tpico de algum que ouveum sermo repetido muitas vezes. 
#
 Estou falando srio. Os produtores do 
Primetime Live e do Good Morning America no 
param de telefonar, falando que poderiam aproveitar 
voc como colaborador permanente dos 
programas. Voc sabe, "o que essas ltimas 
notcias cientficas significam para voc" e coisas 
do gnero. Um salto e tanto para um reprter decincias. 
 Eu sou jornalista  Jeremy disse, torcendo onariz , no um reprter. 
 Tudo bem  disse Nate, gesticulando como seestivesse tentando se livrar de um mosquito.  
Como eu sempre disse, seu visual  perfeito para ateleviso. 
 Eu sou obrigado a concordar com Nate  Alvinacrescentou, piscando o olho.  Quer dizer, de 
que outra forma voc conseguiria fazer mais sucesso 
do que eu com as mulheres, apesar de terpersonalidade zero?  havia anos que Alvin e 
Jeremy andavam juntos pelos bares, atrs de 
garotas.
Jeremy soltou uma risada. Alvin Bernstein, cujo 
nome evocava um contador bem-apessoado, de 
culos  um daqueles inmeros profissionais queusavam sapatos Florsheim e levavam uma valisepara o trabalho  no parecia um Alvin Bernstein.
Quando era adolescente, ele tinha assistido Eddie 
Murphy em Delirious e decidira ento fazer do 
couro-total seu prprio estilo, para horror de 
Melvin, seu pai, que usava sapatos Flrsheim e 
carregava uma valise quando ia para o trabalho.
Felizmente, o couro parecia combinar com suas 
tatuagens. Alvin achava que as tatuagens eram 
#
um reflexo de sua esttica singular, e ele era 
singularmente esttico em ambos os braos, atos espaldares dos ombros. Tudo isso complementava 
os mltiplos Piercings nas orelhas de Alvin. 

 Ento, voc ainda est pensando em fazer 
aquela viagem para o Sul, para investigar aquela
histria de fantasma?  Nate apertou o cerco. Jeremy 
podia sentir claramente a corda puxando e
apertando dentro de sua cabea.  Quer dizer, 
depois da sua entrevista para a People. 
Jeremy tirou os cabelos escuros da frente dos 
olhos e fez um sinal pedindo outra cerveja para o 
barman.  Claro, acho que sim. Com Primetime ou 
sem Primetime, eu ainda tenho contas para pagar,
e acho que poderia usar isso em minha coluna. 
 Mas voc vai manter contato, certo? No vai 
fazer como daquela vez em que se infiltrou entre
os "Justos e Sagrados"?  Ele estava se referindo 
a uma matria de seis mil palavras que Jeremy
havia feito para a Vanity Fair a respeito de um 
culto religioso; naquela ocasio, Jeremy tinha 
cortado basicamente toda a comunicao por um
perodo de trs meses. 
 Eu manterei contato  Jeremy disse.  Essa 
histria no  tudo isso. Talvez eu saia de l em 
menos de uma semana. "Luzes misteriosas no 
cemitrio" no  grande coisa. 
 Ei, por acaso voc no vai precisar de um 
cameraman!  Alvin sugeriu. 
Jeremy olhou para ele.  Por qu? Voc est 
querendo ir junto? 
 Claro. Pegar o inverno no Sul, talvez encontrar
uma bela sulista simptica, enquanto voc estiver 
#
concentrado no trabalho. Ouvi dizer que as 
mulheres daquelas bandas deixam um homem 
louco, no bom sentido. Vai ser como tirar umas 
frias exticas. 

 Voc no deveria estar filmando alguma coisa 
para Law & Order na semana que vem? 
Por mais estranho que Alvin parecesse, sua 
reputao era impecvel e seus servios eram 
sempre muito requisitados. 
 Claro, mas vou estar livre l pro fim de semana
 Alvin disse.  E olha s, se voc est levando a 
srio esse negcio de televiso, do jeito que Natedisse que voc deveria levar, seria bom ter 
imagens decentes dessas luzes misteriosas. 
 Isso se acreditarmos que h alguma luz parafilmar. 
 Voc vai comeando o trabalho e me mantm 
informado. Eu vou deixar minha agenda em 
aberto. 
 Mesmo que haja alguma luz, no  uma grandehistria  Jeremy avisou.  Ningum da televisovai se interessar por ela. 
 At o ms passado, talvez  disse Alvin.  Masdepois de terem visto voc esta noite, eles vo seinteressar. Voc sabe como so as coisas na 
televiso  todos aqueles produtores correndo 
atrs do prprio rabo, tentando descobrir qual vaiser o prximo grande acontecimento. Se o Good 
Morning America ficar de repente muito em 
evidncia, ento voc sabe que o Today no vai 
demorar a telefonar e o Dateline vai bater na sua 
porta. Nenhum produtor quer ficar de fora.  assimque eles perdem o emprego. A ltima coisa que 
#
eles querem  ter de explicar para os executivosporque  que perderam o barco. Acredite  eu 
trabalho na televiso. Conheo essa gente. 

 Ele tem razo  Nate falou, interrompendo aconversa.  Voc nunca sabe o que vai acontecer,
e talvez seja uma boa idia planejar alguma coisa.
Voc definitivamente marcou presena esta noite.
No se faa de bobo. E se voc puder conseguiralguma imagem dessas luzes, talvez seja 
exatamente o que o GMA ou o Primetime esto 
esperando para tomar uma deciso.
Jeremy lanou um olhar enviesado para seu 
agente.  Voc est falando srio? Essa histria 
no  nada. Eu s aceitei fazer porque precisavade uma folga depois do Clausen. Essa histria, sim,
tomou quatro meses da minha vida. 
 E veja o que voc conseguiu com ela  disse 
Nate, colocando a mo no ombro de Jeremy.  
Talvez essa no seja uma grande matria, mas 
com imagens sensacionais e um bom pano de 
fundo, quem sabe o que a televiso vai achar?
Jeremy ficou em silncio por um instante, antes desacudir os ombros e dizer finalmente:  Est 
certo.  Ele olhou para Alvin.  Eu saio na tera. 
Veja se consegue estar l na sexta. Eu telefono 
antes disso para passar os detalhes.
Alvin pegou sua cerveja e tomou um gole.  Por 
Deus!  ele disse, imitando um comediante 
bonacho.  Eu vou pra terra do torresmo e dapolenta. E prometo que no vou cobrar caro.
Jeremy riu.  Voc j esteve no Sul alguma vez? 
 No. E voc? 
#
 Eu j estive em Nova Orleans e em Atlanta  
Jeremy admitiu.  Mas so cidades grandes, e 
cidades assim so praticamente iguais em qualquer 
parte. Para fazer esta matria, vamos ter deir para o Sul de verdade. Para uma cidadezinha daCarolina do Norte, um lugar chamado Boone 
Creek. Voc devia ver o website da cidade. Fala 
das azalias e cornisos que florescem em abril, eexibe com orgulho uma foto do cidado mais 
importante da cidade. Um cara chamado NorwoodJefferson. 

 Quem? 
 Um poltico. Ele fez parte do Senado Estadualda Carolina do Norte, de 1907 a 1916. 
 Quem liga? 
 Exatamente  Jeremy disse, com um aceno dacabea. Olhando para o outro lado do bar, ele 
percebeu, desapontado, que a ruiva tinha sumido. 
 Onde fica esse lugar exatamente? 
 Entre o "meio do nada" e "onde  que ns 
estamos?". Eu vou ficar num lugar chamado 
Greenleaf Cottages, que a Cmara do Comrciodescreve como um lugar pitoresco e rstico, 
embora moderno. Sabe l o que isso quer dizer.
Alvin riu.  Isso est com cara de aventura. 
 No se preocupe com isso. Tenho certeza de 
que voc vai se adaptar muito bem por l. 
 Voc acha? 
 Com certeza  Jeremy disse.  Eles 
provavelmente vo querer adotar voc. 
#
Captulo
DOIS 


Na tera-feira, um dia depois de sua entrevista 
para a revista People, Jeremy chegou na Carolinado Norte. Passava um pouco do meio-dia; quandosaiu, Nova Iorque estava cinza, coberta de neve echuva, e a meteorologia 
anunciava mais neve 
ainda. Ali, com um imenso cu azul se estendendo 
sobre sua cabea, o inverno parecia muito 
distante. 
De acordo com o mapa que ele havia adquirido nalojinha de presentes do aeroporto, Boone Creek 
ficava no Condado de Pamlico, quase duzentos 
quilmetros a sudeste de Raleigh e  se a estradapudesse ser considerada indicativo de alguma 
coisa  a zilhes de quilmetros do que ele 
considerava civilizao. Em ambos os lados, a 
paisagem era plana e esparsa, e to excitante 
quanto uma chapa de fazer panquecas. As 
fazendas eram separadas por estreitas fileiras depinheiros, e levando em considerao o trfegoesparso, no havia muita coisa para impedir queJeremy pisasse no acelerador 
por puro tdio. 

#
Mas no era to ruim, ele tinha de admitir. Bem, 
pelo menos a parte que dizia respeito a ter dedirigir. Estava provado que a leve vibrao do 
volante, o barulho do motor e a sensao causada 
pela acelerao aumentavam a produo de 
adrenalina, principalmente nos homens (ele j publicara 
uma matria a respeito disso). Mas a vidana cidade tornava suprflua a posse de um carro,
e ele jamais teria como justificar tal despesa. Em 
vez disso, ia de um lugar a outro em trens de 
metr superlotados, ou correndo o risco de 
fraturar o pescoo dentro de um txi. A locomoona cidade era barulhenta, febril e, dependendo domotorista do txi, bastante arriscada. Porm, 
tendo nascido e crescido em Nova Iorque, h muito 
tempo ele havia aceitado o fato de que esse era 
apenas mais um aspecto excitante da vida no 
lugar que ele chamava de lar.
Seus pensamentos se voltaram para sua exmulher. 
Maria, ele pensou, teria adorado um 
passeio desses. Nos primeiros anos de seu 
casamento, eles de vez em quando alugavam um 
carro e iam at as montanhas ou at a praia,
passando s vezes muitas horas na estrada. Ela 
trabalhava na publicidade da revista Elle quando 
se conheceram numa festa da revista. Ao 
perguntar se ela gostaria de ir com ele at umcaf das redondezas, ele no fazia a menor idia 
de que ela acabaria sendo a nica mulher que eleamaria na vida. A princpio, ele pensou que tinhacometido um erro convidando-a para sair, 
simplesmente porque eles pareciam no ter nada 
em comum. Ela era irascvel e emotiva, mas 

#
depois, quando a beijou na porta de seu 
apartamento, ficou encantado.
Ele acabou gostando de sua forte personalidade,
de suas intuies infalveis a respeito das pessoas,
e do modo como ela parecia aceit-lo inteiramente 
sem julgamento, bom ou mau. Um ano depois,
eles se casaram na igreja, cercados por amigos epela famlia. Ele estava com vinte e seis anos, 
ainda no era um colunista da Scientific American, 
mas estava decididamente construindo sua 
reputao, e eles mal podiam pagar o pequenoapartamento que tinham alugado no Brooklyn. Na 
cabea dele, era o xtase conjugal de batalha ejuventude. Na cabea dela, ele acabaria por suspeitar 
depois, o casamento deles era forte na 
teoria, mas sua base de sustentao no era muito 
firme. No comeo, o problema era simples: porcausa do trabalho, ela tinha de ficar na cidade, 
enquanto Jeremy viajava em busca da grande 
histria, onde quer que ela estivesse. 
Freqentemente, ele ficava fora durante semanasseguidas, e apesar de garantir a ele que conseguialidar com a situao, ela deve ter percebido,
durante suas ausncias, que no conseguia. Logodepois de seu segundo aniversrio de casamento,
quando ele se preparava para outra viagem, Maria 
sentou na cama ao lado dele. Com as mos 
entrelaadas, ela ergueu os olhos castanhos paraolhar nos olhos dele. 

 Isso no est dando certo  ela disse apenas,
deixando as palavras soltas no ar por um instante.
 Voc no pra mais em casa e isso no  justocomigo. No  justo conosco. 
#
 Voc quer que eu desista?  ele perguntou, 
sentindo uma pequena onda de pnico crescer 
dentro dele. 
 No, desistir no. Mas talvez voc pudesse 
encontrar alguma coisa na cidade. No Times, por 
exemplo. Ou no Post. Ou no Daily News. 
 Isso no ser assim para sempre  ele 
argumentou.  E s por algum tempo. 
 Foi o que voc disse seis meses atrs  ela 
falou.  No vai mudar nunca. 
Fazendo esse retrospecto, Jeremy percebeu quedevia ter prestado ateno naquele aviso. Mas, napoca, ele tinha uma matria para escrever, sobreLos lamos. Ela apresentava 
um sorriso vago norosto quando ele lhe deu um beijo de adeus, e elepensou brevemente na expresso dela ao ocuparseu lugar no avio, mas quando voltou para casaela 
parecia ter voltado ao normal e eles passaram 
o fim de semana enfiados na cama. Maria 
comeou a falar em ter um beb, e apesar do 
nervosismo que sentiu, ficou emocionado com aidia. Ele deduziu que tinha sido perdoado, mas oescudo protetor de seu amor havia sido arranhado, 
e ranhuras imperceptveis iam aparecendo cada 
vez que ele se ausentava. A rachadura final 
ocorreu um ano mais tarde, um ms depois deuma visita a um mdico no Upper East Side, quelhes apresentou um futuro que nenhum dos doisjamais tinha imaginado. Muito 
mais que suas 
viagens, a visita prenunciou o fim do seu 
relacionamento, e Jeremy percebeu isso. 
#
 Eu no posso ficar  ela disse a ele depois.  
Eu quero, e uma parte de mim vai te amar parasempre, mas eu no posso.
Ela no precisou dizer mais nada, e nos momentossilenciosos, de auto-comiserao, depois do 
divrcio, ele s vezes se perguntava se ela realmente 
o amara. Podia ter dado certo, ele disse a si 
mesmo. Mas, no final, ele entendeu intuitivamente 
porque ela havia ido embora  e no guardavanenhum rancor. Ele at conversava com ela pelotelefone de vez em quando, apesar de no ter 
conseguido ir ao casamento dela com um advogado 
de Chappaqua trs anos depois.
O processo do divrcio fora encerrado sete anosatrs e, para ser franco, isso foi a nica coisa 
realmente triste que lhe aconteceu em toda a suavida. Poucas pessoas poderiam dizer uma coisa 
dessas, ele sabia. Nunca tinha se ferido 
gravemente, tinha uma vida social ativa, e tinhadeixado a infncia sem aquele tipo de trauma 
psicolgico que parecia afligir tantas pessoas da 
sua idade. Seus irmos com suas respectivas 
esposas, seus pais e at seus avs  todos os 
quatro na faixa dos noventa anos  eram saudveis. 
Eles tambm eram chegados uns aos 
outros: em alguns fins de semana todo o cl sereunia na casa de seus pais, que ainda moravamna mesma casa em que Jeremy havia crescido, noQueens. Ele tinha dezessete 
sobrinhos e sobrinhas, 
e apesar de, s vezes, se sentir um peixe forad'gua nessas reunies familiares, j que ele 
estava solteiro de novo numa famlia de pessoasmuito bem casadas, seus irmos o respeitavam 

#
bastante e no questionavam os motivos que 
provocaram o divrcio.
E ele j havia superado. A maior parte, pelo 
menos. s vezes, em passeios como esse ele 
sentia uma dor lancinante, imaginando o que 
poderia ter acontecido, mas agora esses 
momentos eram raros, e o divrcio no azedara 
suas relaes com as mulheres em geral.
Alguns anos atrs, Jeremy havia acompanhado umestudo que pretendia verificar se a percepo dabeleza era produto de regras culturais ou da 
gentica. Para a realizao desse estudo, 
mulheres atraentes e mulheres menos atraentes 
foram convidadas a segurar crianas, e a distnciado contato dos olhos entre as mulheres e as 
crianas foi comparada. O estudo havia mostradoa existncia de uma correlao direta entre beleza 
e contato do olhar: as crianas olhavam mais 
demoradamente para as mulheres atraentes, 
sugerindo que a percepo que as pessoas tm dabeleza  instintiva. O estudo ganhou destaque na 
Newsweek e no Time. 
Ele teve vontade de escrever uma matria 
criticando o estudo, em parte porque omitia o queele achava que eram requisitos importantes. A beleza 
exterior poderia atrair rapidamente o olhar dealgum  ele sabia que era to suscetvel a umasupermodelo quanto o cara do lado , mas elesempre acreditara que a 
inteligncia e a paixoeram muito mais atraentes e determinantes com o 
passar do tempo. Essas caractersticas 
demoravam um pouco mais para ser decifradas, ebeleza no tinha nada a ver com isso. A beleza 

#
poderia prevalecer a curto prazo, mas a mdio elongo prazo, as normas culturais  basicamente 
aqueles valores e normas influenciadas pela 
famlia  eram mais importantes. O seu editor, 
entretanto, engavetou a idia por consider-la 
"muito subjetiva" e sugeriu que ele escrevesse 
alguma coisa a respeito do uso excessivo de 
antibiticos na alimentao das galinhas, fato compotencial para transformar o streptococus na 
prxima peste bubnica. Isso fazia sentido, Jeremyobservou contrariado: o editor era vegetariano, e 
sua esposa era to linda e quase to radiante 
quanto o cu do Alaska no inverno.
Editores. Havia muito tempo que Jeremy chegara concluso de que a maioria deles era hipcrita.
Mas, como em quase todas as profisses, imaginava 
ele, os hipcritas costumam ser to 
apaixonados quanto sbios politicamente  em 
outras palavras, sobreviventes corporativos , o 
que significava que eram eles os que no apenasdistribuam as tarefas, como tambm os que 
acabavam pagando as contas.
Mas, como havia sugerido Nate, talvez ele cassefora logo. Bom, no totalmente fora. Alvin 
provavelmente estava certo quando dizia que osprodutores de televiso no eram diferentes doseditores, mas a televiso pagava o bastante paratocar a vida, o que 
significava que ele teria condies 
de escolher seus projetos, em vez de estaragitando o tempo todo. Maria estava certa quandoreclamara de sua carga de trabalho tanto tempoatrs. Em quinze anos, essa 
carga de trabalho notinha mudado absolutamente nada. Est certo que 

#
as histrias podiam agora ter outro perfil, ou talvezele tivesse mais tempo para fazer seus trabalhos 
como freelancer, por causa das relaes queconstrura ao longo dos anos, mas nada disso tinhaalterado o desafio essencial de ter sempre de 
aparecer com alguma coisa nova e original. Ele 
ainda tinha de produzir dezenas de matrias para 
a Scientific American, pelo menos uma ou duasgrandes matrias investigativas, e mais uns quinzeartigos pequenos por ano, alguns ligados aos assuntos 
da estao. Est chegando o Natal? 
Escreva uma matria sobre o verdadeiro So 
Nicolau, que nasceu na Turquia, tornou-se bispo deMyra, e ficou conhecido por sua generosidade, 
amor pelas crianas e preocupao com os 
marinheiros.  vero? Que tal uma matria sobre 

(a) o aquecimento global e o inegvel aumento de
0.8 graus na temperatura no decorrer do ltimosculo, que antev conseqncias como um 
cenrio tipo Saara por todo os Estados Unidos, ou 
(b) como o aquecimento global pode provocar aprxima era do gelo e transformar os Estados 
Unidos em uma tundra gelada. O Dia de Ao deGraas, por outro lado, era bom para contar a 
verdade a respeito da vida dos Pilgrims, que no 
era feita apenas de jantares amigveis com os 
americanos nativos, mas tambm inclua a caa s 
bruxas de Salm, epidemias de varola e uma 
grave tendncia ao incesto.
Entrevistas com cientistas famosos e artigos sobreinmeros satlites ou projetos da NASA eram 
sempre respeitados e fceis de publicar, no 
importava a poca do ano, assim como revelaes 
#
a respeito de drogas (legais e ilegais), sexo, 
prostituio, jogo, bebida, casos envolvendo aescoletivas nos tribunais e qualquer coisa, 
absolutamente qualquer coisa, a respeito do 
sobrenatural, a maioria com pouca ou nenhumaligao com a cincia, e mais com embusteiros 
como Clausen. 
Ele tinha de admitir que o processo no fora nadado que ele havia imaginado que seria a carreira nojornalismo. Em Columbia  ele fora o nico dos 
irmos a entrar para a faculdade e tornara-se oprimeiro na histria da famlia a tirar um diplomauniversitrio, fato que sua me jamais deixara decontar s pessoas 
de fora , ele se formara emfsica e em qumica, com a inteno de se tornarprofessor. Mas uma namorada que trabalhava nojornal da universidade convenceu-o a escrever 
uma matria  construda com o uso abundante 
de dados estatsticos  sobre os resultados 
tendenciosos dos exames de SAT usados para aadmisso no ensino superior. Seu artigo acabousendo o estopim de uma srie de manifestaesestudantis, e Jeremy percebeu 
que tinha jeito paraescrever. Ainda assim, sua opo profissional nomudaria at seu pai ser lesado em quarenta mildlares por um consultor financeiro desonesto, 
pouco antes de Jeremy se formar. Com a casa dafamlia em perigo  seu pai era motorista de 
nibus e trabalhara para a Port Authority de NovaIorque at se aposentar , Jeremy deixou de ladoa cerimnia de formatura para ir atrs do vigarista.
Como um possesso, ele pesquisou registros 

#
pblicos e judiciais, entrevistou colegas do 
vigarista e produziu um dossi minucioso.
Como se fosse obra do destino, a promotoria 
pblica de Nova Iorque estava atrs de peixesmais grados do que um artista da fraude sem importncia, 
de forma que Jeremy voltou a checartodas as informaes com suas fontes, condensou 

o dossi e redigiu a primeira pea de jornalismoinvestigativo de sua vida. No final, a casa foi salvae a revista New York publicou a matria. O editorda revista 
o convenceu de que a vida acadmicano o levaria a nada e, com uma sutil mistura de 
adulao e discurso sobre a busca do grande 
sonho, sugeriu que Jeremy escrevesse uma 
matria sobre o Leffertex, um antidepressivo que,
na poca, j estava na fase nmero III dos testesclnicos e era tema de intensa especulao por 
parte da mdia.
Jeremy aceitou a sugesto, trabalhando durante 
dois meses na histria por sua prpria conta. Aofinal, seu artigo levou o fabricante a retirar o remdio 
do exame da FDA. Depois disso, em vez deseguir para o MIT e fazer seu mestrado, ele viajoupara a Esccia, a fim de acompanhar um grupo decientistas que iriam investigar 
o monstro do lagoNess, a primeira de suas matrias de 
entretenimento. A, ele presenciou a confisso noleito de morte de um proeminente cirurgio queadmitiu ter forjado, junto com um amigo, a 
fotografia que ele havia tirado do monstro em 
1933  foto que havia tornado pblica a lenda ,
em um domingo  tarde, com a idia de passar umtrote. O resto, como dizem, faz parte da histria. 
#
No obstante, quinze anos correndo atrs de 
histrias eram quinze anos correndo atrs de 
histrias, e o que ele havia recebido em troca? Estava 
com trinta e sete anos, solteiro e vivendo em 
um sombrio apartamento de um quarto no UpperWest Side, a caminho de Boone Creek, Carolina do 
Norte, para explicar um caso de luzes misteriosasem um cemitrio. 
Ele sacudiu a cabea, sentindo a mesma 
perplexidade de sempre com os rumos que suavida havia tomado. O grande sonho. Estava por a 
em algum lugar, e ele ainda sentia na alma a 
paixo para busc-lo. S que agora ele comeavaa refletir se a televiso no seria o instrumento 
para alcan-lo. 

A histria das luzes misteriosas havia comeado 
com uma carta que Jeremy recebera um ms 
antes. Assim que terminou de ler, sua primeiraidia foi a de que daria uma boa histria para oHalloween. Dependendo da abordagem da histria,
talvez despertasse o interesse da Southern Living 
ou mesmo do Reader's Digest para a edio de 
outubro; se acabasse ficando mais literria e 
narrativa, talvez interessasse a Harper's ou 
mesmo a New Yorker. Por outro lado, se a cidade 
estivesse tentando faturar um pouco como 
Roswell, no Novo Mxico, com os OVNIS, a histria 
talvez fosse mais adequada para um dos grandesjornais do Sul, que poderia talvez revend-la 
depois. Se ficasse pequena, ele poderia us-la em 
sua coluna. Seu editor na Scientific American, 
apesar da seriedade com que encarava o contedo 

#
da revista, tambm estava extremamente 
interessado em aumentar o nmero de assinantes, 
e estava sempre falando a respeito disso. Ele sabiamuito bem que o pblico adorava uma boa histriade fantasmas. Podia mostrar alguma hesitao 
enquanto lanava um olhar para a foto de sua esposa, 
fingindo que avaliava a qualidade, mas 
nunca deixaria passar uma histria dessas. Os 
editores gostavam de entretenimento tanto 
quanto uma pessoa comum, pois os assinantes 
eram a fora vital do negcio. E o entretenimento,
infelizmente, estava se tornando a matria-primada mdia. 
No passado, Jeremy havia investigado sete 
aparies fantasmagricas; quatro delas tinham 
ido parar em sua coluna do ms de outubro. 
Algumas eram decididamente banais  vises de 
espectros que ningum poderia documentar 
cientificamente , mas trs delas envolviam 
fantasmas, teoricamente espritos malignos que 
conseguiam efetivamente movimentar objetos e 
causar estragos. Segundo pesquisadores para-
normais  um oximoro, no entendimento de 
Jeremy , os fantasmas em geral eram atradospara uma determinada pessoa em vez de um lugar. 
Em cada um dos casos investigados por 
Jeremy, inclusive aqueles muito bem 
documentados pela mdia, a fraude havia sido acausa dos acontecimentos misteriosos. 
As luzes de Boone Creek, entretanto, pareciam seralgo diferente; aparentemente, eram to 
previsveis que haviam levado a cidade a 
patrocinar um "Passeio pelo Cemitrio Assombrado 

#
e pelas Casas Histricas", durante o qual, segundo

o folheto, as pessoas poderiam ver no apenascasas construdas nos anos de 1700, mas tambm, 
se as condies meteorolgicas permitissem, "os 
aflitos ancestrais da nossa cidade em sua marcha 
noturna no mundo dos mortos". 
O folheto, cheio de fotos da ordeira cidade e 
declaraes melodramticas, lhe havia sido 
enviado junto com a carta. Enquanto dirigia, 
Jeremy recordava as palavras da carta. 
Prezado Sr. March: 
Eu me chamo Dris McCllelan, e dois anos atrs eu 
li a histria que o senhor escreveu para a Scientific 
American sobre o fantasma que estava 
assombrando Brenton Manor em Newport, Rhode 
lsland. Na poca eu pensei em lhe escrever, mas 
no sei por que, no escrevi. Acho que 
simplesmente esqueci, mas com as coisas que 
esto acontecendo agora em minha cidade, 
reconheo que j est mais do que na hora de lhe 
falar a respeito. 
Eu no sei se j ouviu falar do cemitrio de Boone 
Creek, Carolina do Norte, mas diz a lenda que o 
cemitrio  assombrado por espritos de antigos 
escravos. No inverno  de janeiro at o incio de 
fevereiro  tem-se a impresso de que h luzes 
azuis danando sobre as lpides das sepulturas 
quando cai a neblina. Alguns dizem que elas 
parecem luzes estroboscpicas, outros juram que 
tm o tamanho de bolas de basquete. Eu tambm 
as vi; para mim, parecem aquelas bolas que ficam 
girando e refletindo as luzes nas danceterias. De 

#
qualquer modo, no ano passado, algumas pessoas 
da Universidade Duke estiveram aqui 
investigando; acho que eram meteorologistas ou 
gelogos ou algo assim. Eles tambm viram as 
luzes, mas no conseguiram dar uma explicao, e 

o jornal local publicou uma grande matria sobre 
esse mistrio todo. Se viesse at aqui, o senhor 
talvez conseguisse explicar o que so realmente 
essas luzes. 
Se precisar de mais informaes, ligue pra mim no 
Herbs, um restaurante aqui da cidade. 
O resto da carta oferecia mais informaes sobre 
possveis contatos; depois ele examinou o folhetoda Sociedade Histrica local. Leu as legendas quedescreviam as vrias casas visitadas durante o 
passeio, passou os olhos pelas informaes 
relativas  parada e ao baile do celeiro na sexta-
feira  noite, e viu-se erguendo uma sobrancelhadiante do anncio de que, pela primeira vez, umavisita ao cemitrio seria includa no passeio de 
sbado  noite. No verso do folheto  cercados 
pelo que pareciam ser alguns desenhos feitos mo pelo prprio Gasparzinho  havia testemunhos 
de pessoas que haviam visto as luzes e umtrecho que parecia ter sido retirado de um artigodo jornal local. No centro, havia uma foto granulada 
de uma luz brilhante em um lugar que poderia,
ou no, ter sido o cemitrio (a legenda dizia queera).
O seu interesse havia sido despertado, apesar deaquilo no ser exatamente a Borley Rectory, umaconstruo "mal-assombrada" da era Vitoriana, 

#
que fica ao norte do rio Stour, no condado de 
Essex, na Inglaterra, a casa mal-assombrada maisfamosa da histria, onde o "roteiro turstico" 
inclua cavaleiros sem cabea, msicas de rgose tilintar de sinos sobrenaturais. 
Depois de tentar encontrar sem sucesso o artigomencionado na carta  no havia arquivos no 
website do jornal local , ele fez contato com 
vrios departamentos da Universidade Duke e 
acabou encontrando o projeto de pesquisaoriginal. Ele havia sido escrito por trs estudantesda graduao e, apesar de ter seus nomes e 
telefones, ele duvidava que houvesse algumarazo para telefonar. O relatrio da pesquisa notinha nenhum dos detalhes que ele esperava 
encontrar. Ao contrrio, o estudo tinha apenasdocumentado a existncia das luzes e o fato de o 
equipamento dos estudantes estar funcionando 
adequadamente, o que no significava 
absolutamente nada diante das informaes de 
que ele precisava. Alm disso, se existia uma coisaque ele tinha aprendido nos ltimos quinze anos,
era que no devia confiar no trabalho de ningumalm do seu. 
Na verdade, esse era o grande segredo desse 
ramo de trabalho. Apesar de todos os jornalistas 
alegar que faziam sua prpria pesquisa, e a 
maioria realmente fazia uma parte, eles ainda 
confiavam muito nas opinies e meias-verdades 
que j tinham sido publicadas. Assim, muitas 
vezes cometiam erros, normalmente pequenos, s 
vezes colossais. Todos os artigos de todas as 
revistas tinham erros, e, dois anos atrs, Jeremy 

#
tinha escrito uma matria a esse respeito,
expondo os hbitos menos louvveis de seus colegas 
de profisso. Seu editor, contudo, vetou a 
publicao. E nenhuma outra revista mostrou 
qualquer entusiasmo pela histria.
Ele via os carvalhos passarem pela janela,
pensando que talvez precisasse de uma mudanaem sua carreira, e de repente sentiu vontade deinvestigar a histria dos fantasmas a fundo. E seno existissem as tais 
luzes? E se a pessoa queescreveu a carta fosse uma impostora? E se nohouvesse sequer uma lenda que justificasse a 
redao de um artigo? Ele sacudiu a cabea. Suapreocupao era intil e, alm disso, agora era 
tarde demais. Ele j estava ali, e Nate estava 
ocupado, administrando os telefonemas em NovaIorque.
No porta-malas, Jeremy tinha todos os itens 
necessrios para a caa aos fantasmas (de acordo 
com o que tinha sido publicado no livro Ghost 
busters for real!, que ele tinha comprado de 
brincadeira depois de uma noite de bebedeira). Eletinha uma cmera Polaroid, uma cmera de 
35mm, quatro filmadoras e trips, gravadores deudio e microfones, detector de radiao de 
microondas, detectores eletromagnticos, bssola,
culos para viso noturna, laptop e uma poro de 
bugigangas.
Tinha de fazer a coisa direito, afinal de contas. A 
caa a fantasmas no era coisa para amadores.
Como era de se esperar, seu editor havia 
reclamado dos custos das engenhocas mais 
modernas que ele tinha comprado, e que pareciam 

#
absolutamente necessrias em investigaesdesse tipo. A tecnologia avanava com rapidez, e 
as engenhocas de ontem eram o equivalente a 
ferramentas da idade da pedra, Jeremy havia 
explicado ao editor, fantasiando sobre a comprade uma mochila com o raio laser que Bill Murray e 
Harold Ramis tinham usado em Caa-fantasmas. 
Ele adoraria ter visto a expresso de seu editor aoouvir isso pelo telefone. Como era de se esperar, ocara havia ficado alterado como um coelho cheio 
de anfetaminas antes de finalmente autorizar a 
compra desses itens. Ele certamente ficaria muitobravo se a histria acabasse na televiso e no na 
coluna. 
Sorrindo ao lembrar da expresso de seu editor,
Jeremy passeou por vrias estaes de rdio  
rock, hip-hop, country, gospel  antes de pararem um programa local que estava entrevistandodois pescadores de linguado que defendiam 
apaixonadamente a necessidade de reduzir o pesopermitido para a pesca. O apresentador, que 
parecia excessivamente interessado no assunto, 
falava com sotaque carregado. Os comerciais 
anunciaram a exibio de armas e moedas na LojaManica de Grifton e as ltimas mudanas nas 
equipes da NASCAR.
O trfego ficou mais complicado perto de 
Greenville, e ele fez um desvio em torno da 
cidade, perto do campus da Universidade da 
Carolina do Leste. Ele atravessou o largo curso deguas salobras do rio Pamlico e pegou uma 
estrada rural. O asfalto parecia mais estreito  
medida que serpenteava pelo campo, espremido 

#
em ambos os lados por terras no cultivadas porcausa do inverno, densos bosques de rvores e,
eventualmente, uma sede de fazenda. Cerca de 
trinta minutos depois, ele viu que estava chegandoem Boone Creek. 
Depois do primeiro e nico semforo, o limite develocidade caa para quarenta quilmetros por 
hora, e ele reduziu a velocidade, observando o 
cenrio desanimador. Alm da meia dzia de 
casas pr-fabricadas, amontoadas 
indiscriminadamente na beira da estrada, e 
algumas ruas cruzando o asfalto, a paisagem eradominada por dois postos de gasolina e uma 
borracharia caindo aos pedaos. O luminoso queanunciava a borracharia de Leroy fora colocado noalto de uma pilha de pneus usados que, em qualquer 
outro lugar do mundo, seria visto como umestopim em potencial para um incndio. Jeremychegou no outro lado da cidade em um minuto, e apartir desse ponto o limite 
de velocidade subia denovo. Ele estacionou o carro no acostamento. 
Ou a Cmara do Comrcio tinha usado fotografiasde outra cidade em seu website ou ele tinha feito 
alguma coisa errada. Verificou o mapa novamente, 
e de acordo com aquela verso do guia Rand 
McNally, estava em Boone Creek. Ele deu uma 
olhada pelo espelho retrovisor, perguntando-se 
onde diabos ficava aquilo. As ruas tranqilas e 
arborizadas. As azalias em flor. As lindas 
mulheres usando vestidos. 
Enquanto tentava entender, ele viu a torre de umaigrejinha branca despontando acima da linha dasrvores e decidiu ir at l pegando uma das ruas 

#
que tinha cruzado. Depois de uma curva em S, apaisagem mudou abruptamente, e ento ele 
comeou a atravessar uma cidade que talvez tivesse 
sido graciosa e pitoresca, mas agora parecia 
estar morrendo de velhice. Varandas fechadas, 
decoradas com plantas que caam dos vasos 
pendurados, e bandeiras americanas no 
conseguiam esconder a pintura descascada e o 
bolor sob os beirais dos telhados. Os quintais eramprotegidos por rvores macias de magnlias, mas 
os arbustos de rododendros, cuidadosamente 
podados, escondiam apenas parcialmente as 
fundaes em runas. Ainda assim, tudo parecia 
bem amigvel. Alguns casais mais idosos, 
protegidos por suteres, descansavam nas 
cadeiras de balano de suas varandas, e 
acenavam quando ele passava.
Foram necessrios muitos acenos para que ele 
percebesse que eles estavam acenando no 
porque pensassem que o tinham reconhecido, mas 
porque as pessoas aqui acenavam para todo 
mundo que passava de carro. Serpenteando de 
uma estrada para outra, ele acabou chegando nazona ribeirinha, o que o lembrou de que a cidadehavia se desenvolvido na confluncia do crregoBoone e do rio Pamlico. 
Atravessando a rea 
central, que sem dvida alguma j havia sido umaregio comercial movimentada, ele percebeucomo a cidade parecia estar definhando. Perdidas 
entre espaos desocupados e janelas cobertas 
com tbuas, havia duas casas antigas, uma 
lanchonete antiquada, um bar chamado Lukilu e 
uma barbearia. A maioria dos estabelecimentos 

#
tinha nomes tpicos do lugar e parecia quefuncionavam h dcadas, mas estavam travando 
uma batalha inglria contra a extino. Os nicossinais de vida moderna eram as camisetas com 
cores berrantes, enfeitadas com slogans do tipo 
Eu sobrevivi aos fantasmas de Boone Creek!, 

penduradas na janela do que deveria ser a versorural e sulista de uma loja de departamentos.
O Herbs, onde trabalhava Dris McClellan, foi bem 
fcil de achar. Ele ficava perto do final do 
quarteiro, em uma casa vitoriana da virada do sculo 
que fora restaurada, cor de pssego. Havia 
carros estacionados na frente e no pequenoestacionamento com piso de cascalho que ficavado lado. Era possvel ver as mesas atravs das 
cortinas das janelas e tambm na varanda 
fechada. Ao constatar que todas as mesas 
estavam ocupadas, Jeremy decidiu que talvez 
fosse melhor voltar para falar com Dris depoisque a multido tivesse se dispersado.
Ele localizou a Cmara do Comrcio, um pequenoedifcio de tijolos, indefinvel e localizado na beirada cidade, e voltou para a estrada. Impulsivamente, 
entrou em um posto de gasolina.
Depois de tirar os culos de sol, Jeremy abaixou ovidro. O proprietrio tinha cabelos grisalhos e 
usava um macaco encardido e um bon de Dale 
Earnhardt. Ele se levantou lentamente e comeou 
a andar na direo do carro, mastigando o queJeremy sups ser uma espcie de fumo. 

 Posso ajuda?  o sotaque era 
inconfundivelmente sulista e seus dentes eram 
amarelados. Seu nome era Tully. 
#
Jeremy pediu uma orientao para chegar at ocemitrio, mas em vez de responder, o 
proprietrio ficou olhando para Jeremy 
longamente. 

 Quem morreu?  ele perguntou 
finalmente. Jeremy piscou.  
Desculpe? 
 T indo prum enterro, n?  perguntou o 
proprietrio. 
 No. Eu s queria ver o cemitrio.
O homem acenou com a cabea.  Bom, parece 
que o senhor t indo prum enterro.
Jeremy olhou para suas roupas: blazer preto sobre 
uma blusa preta de gola alta, cala jeans preta,
sapatos pretos Bruno Magli. O homem realmente
tinha razo. 
 Acho que eu simplesmente gosto de me vestir
de preto. Quanto  direo...
O proprietrio ergueu a aba do bon e falou 
lentamente.  Eu num gosto de enterro. Me faz 
pensa que eu devia ir mais na igreja pra acerta as
coisas antes que seja tarde demais. J aconteceu
isso pro senhor?
Jeremy no estava muito certo sobre o que 
responder. No era uma pergunta que ele 
estivesse habituado a ouvir, principalmente como 
resposta a uma pergunta sobre qual direo 
seguir.  Eu acho que no  ele arriscou 
finalmente. 
O proprietrio tirou um farrapo do bolso e 
comeou a limpar a graxa das mos.  T vendo 
que o senhor no  daqui. O senhor fala 
engraado. 
#
 Nova Iorque  Jeremy revelou. 
 J ouvi fal, mas nunca tive l  ele disse. 
Ento olhou para o Taurus:  Esse carro  seu? 
 No,  alugado.
Ele acenou com a cabea, sem dizer nada. 
 Bem, quanto ao cemitrio  Jeremy lembrou. 
Pode me dizer como chegar l? 
 Acho que sim. Qual que o senhor t 
procurando? 
 O nome  Cedar Creek? 
O homem olhou-o com curiosidade.  Purque que 
o senhor quer ir at l? Num tem nada l pra 
ningum v. Tem uma poro de cemitrio mais
bonito no outro lado da cidade. 
 Para ser franco, estou interessado apenas 
neste. 
O homem no parecia ter escutado.  O senhor 
tem algum parente enterrado l? 
 No. 
 O senhor  um daqueles manda-chuva cheio de
dinheiro l do Norte? Deve t pensando em faz
uns apartamentos ou um daqueles shopping que 
vocs tm por l?
Jeremy negou com a cabea.  No. Na verdade, 
eu sou jornalista. 
 Minha mulher gosta de shopping. De 
apartamento tambm. Pode ser uma boa idia. 
 Ah!  disse Jeremy, imaginando quanto tempo
ainda aquilo iria demorar.  Eu gostaria de ajudar,
mas essa no  minha rea de trabalho. 
 Precisa de gasolina?  o homem perguntou, 
caminhando para a traseira do carro. 
 No, obrigado. 
#
Ele j estava tirando a tampa do tanque.  
Premium ou comum? Jeremy endireitou-se no 
banco, concluindo que o homem tinha todo o 
direito de trabalhar de vez em quando.  Comum,
eu acho. 
Depois de ligar a bomba, o homem tirou o bon e
passou a mo pelo cabelo, enquanto caminhava
de volta para o lado da janela do carro. 


 Se tiver qualquer problema com o carro, notenha dvida em me procurar. Eu sei conserta osdois tipos de carro, e por um preo justo, tambm. 
 Os dois? 
 Os de fora e os daqui  ele disse.  Que que osenhor achou que eu tava falando?  Sem esperar 
por uma resposta, o homem sacudiu a cabea, 
como se Jeremy fosse idiota.  A propsito, o 
nome  Tully. E o seu ? 
 Jeremy Marsh. 
 E o senhor  urologista? 
 Jornalista. 
 No tem nenhum urologista na cidade. Mas temalguns em Greenville. 
 Certo  disse Jeremy, sem se preocupar em 
corrigi-lo.  Mas, afinal de contas, sobre o 
caminho para Cedar Creek...
Tully coou o nariz e ergueu os olhos na direo daestrada, antes de olhar novamente para Jeremy. 
Bom, o senhor no vai ver nada agora. Os 
fantasmas s aparecem de noite, se  pra isso queveio. 
 Perdo? 
#
 Os fantasmas. Se o senhor no tem parenteenterrado no cemitrio, ento o senhor veio porcausa dos fantasmas, certo? 
 O senhor ouviu falar dos fantasmas? 
  claro que ouvi. Eu vi eles com meus prpriosolhos. Mas se o senhor quiser ingresso, vai ter de irat a Cmara do Comrcio. 
 Precisa ter ingresso? 
 Bom, o senhor no pode simplesmente ir 
entrando na casa dos outros, pode?
Demorou um pouco para Jeremy acompanhar a 
linha de pensamento. 
 Claro, est certo  Jeremy falou.  "O Passeio 
pelo Cemitrio Assombrado e as Casas Histricas",
certo? 
Tully encarou Jeremy como se ele fosse a pessoa
mais estpida sobre a face da terra.  Bom,  
claro, ns num tamo falando do passeio?  ele 
disse.  Do que  que o senhor achou que eu tava
falando? 
 Eu no tenho muita certeza  Jeremy falou.  
Mas a direo... 
Tully sacudiu a cabea. 
 T bem, t bem  ele disse, como se tivesse 
ficado aborrecido de repente. Ele apontou na 
direo da cidade. 
 O que tem a fazer  voltar para o centro da
cidade, a seguir pela estrada principal para o 
norte at chegar no desvio que fica uns seis quilmetro 
longe de onde a estrada acabava antes. A
tem que virar para oeste e continuar em frente at
onde tem a bifurcao, e a seguir pela estrada
que passa pela propriedade do Wilson Tanner. A  
#
s virar pro norte de novo onde ficava o ferro-
velho, a tem que ir reto um pedao, e o cemitrio
vai estar bem ali. 
Jeremy assentiu com a cabea.  O.K. 


 Tem certeza que entendeu? 
 Bifurcao, propriedade de Wilson Tanner, 
ferro-velho  ele repetiu mecanicamente.  
Obrigado por sua ajuda. 
 No tem de qu. Fico feliz em ajuda. Deu setedlares e quarenta e nove centavos. 
 O senhor aceita carto de crdito? 
 No. Nunca gostei dessas coisas. No gosto dogoverno sabendo tudo que eu ando fazendo. No da conta de ningum. 
 Bem  disse Jeremy, procurando pela carteira, isso  um problema. Ouvi dizer que o governotem espies em toda a parte.
Tully fez que sabia com a cabea.  Aposto queisso  pior pra vocs, mdicos. O que me lembra... 
Tully continuou a falar sem qualquer intervalo 
durante quinze minutos. Jeremy ficou sabendo dasexcentricidades do tempo, dos ridculos atos 
governamentais e como Wyatt  o proprietrio dooutro posto de gasolina  seria capaz de esfolarJeremy se algum dia ele parasse l para abastecer,
pois Wyatt adulterava a calibragem das bombasassim que o caminho da Unocal ia embora. Mas oque Jeremy mais teve de ouvir foi o relato de Tullysobre seus problemas 
com a prstata, que o 
obrigavam a levantar-se pelo menos umas cincovezes todas as noites para ir ao banheiro. Ele pediu 
a opinio de Jeremy a respeito disso, j que ele 

#
era urologista. E tambm fez perguntas sobre o 
Viagra.
Depois de ele ter recomeado a mastigar umasduas vezes, parou outro carro do lado contrrio dabomba, interrompendo a conversa. O motorista 
levantou o capo, e Tully abaixou a cabea para daruma olhada, antes de mexer uns fios e dar uma 
cuspida no cho. Tully garantiu que poderia fazer oconserto, mas j que ele estava muito ocupado, ohomem teria de deixar o carro ali por pelo menosuma semana. Parecia 
que o estranho j esperava 
uma resposta desse tipo, e pouco depois eles 
estavam falando a respeito da sra. Dungeness edo gamb que havia invadido sua cozinha na noiteanterior e comido as frutas de sua fruteira. 
Jeremy aproveitou a oportunidade para escapar.
Ele parou na loja de departamentos para comprar 
um mapa e um jogo de cartes-postais quemostravam os pontos mais importantes de BooneCreek, e em pouco tempo j estava na estradasinuosa que o levaria para fora 
da cidade. Como 
que por mgica, ele encontrou tanto o desvio 
quanto a bifurcao, mas infelizmente deixou 
passar a propriedade de Wilson Tanner. Refazendoum pedao do caminho no sentido contrrio, eleacabou chegando em um estreito caminho cobertopor cascalho, quase escondido 
sob rvores exageradamente 
grandes de ambos os lados.
Ele ento virou e foi sacudindo pelo caminho cheiode buracos at a floresta comear a ficar menos 
densa. No lado direito havia uma placa indicandoque ele estava chegando em Riker's Hill  local 
onde havia ocorrido um dos conflitos da Guerra 

#
Civil , e alguns minutos depois ele parou o carrodiante do porto principal do Cemitrio Cedar 
Creek. Ao fundo, elevava-se a colina de Riker's Hill. 
Naturalmente, "elevava-se" era um modo de dizer, 
pois parecia que era a nica colina naquela partedo estado. Qualquer coisa pareceria elevada poraquelas bandas, pois o lugar era to plano quantoos peixes pescados 
na regio.
Cercado por colunas de tijolos e rodeado por umacerca de ferro batido enferrujado, o Cemitrio deCedar Creek ficava em um pequeno vale, de forma 
que parecia estar afundando aos poucos. A 
superfcie estava coberta pelas marcas da sombrados carvalhos carregados de bromlias, mas a 
macia rvore de magnlia que ficava no centrodominava tudo. As razes se espalhavam desde o 
tronco e despontavam sobre a terra como se 
fossem dedos atacados pela artrite.
Embora o cemitrio pudesse ter sido algum dia umlugar de descanso ordeiro e pacfico, agora estavaabandonado. O caminho cheio de sujeira que vinhado porto principal 
estava tomado por sulcos 
causados pelas guas das chuvas e coberto de 
folhas. Os poucos caminhos com grama encobertapareciam fora do lugar. Havia galhos cados aqui eali, e o terreno ondulado fez Jeremy se lembrar dasondas correndo 
para a praia. Havia muito mato emtorno das lpides, e quase todas pareciam estarquebradas.
Tully estava certo. No havia muito o que olhar.
Mas, para um cemitrio mal-assombrado, estavaperfeito. Especialmente para um que poderia 

#
acabar aparecendo na televiso. Jeremy sorriu. Olugar parecia ter sido produzido em Hollywood.
Jeremy saiu do carro e esticou as pernas antes detirar a cmera do porta-malas. A brisa estava 
fresca, mas no lembrava em nada o ar gelado deNova Iorque, e ele respirou profundamente,
aproveitando o cheiro de pinho e capim-do-campo.
Acima dele, nuvens brancas passeavam pelo cu eum falco solitrio rodava em crculos a distncia. 
Riker's Hill era salpicada de pinheiros, e nos 
campos que se estendiam  sua frente ele viu umimenso barraco abandonado. Coberto por 
trepadeiras, com metade do telhado de zinco 
faltando e uma das paredes desmoronando, eleestava caindo para o lado, como se o sopro deuma brisa mais forte pudesse ser suficiente paraderrub-lo. Fora isso, no 
havia qualquer outro 
sinal de civilizao. 
Jeremy ouviu o ranger da dobradia quandoempurrou o porto enferrujado e caminhou pelatrilha coberta de sujeira. Olhou de relance para aslpides em ambos os lados, 
perplexo pela 
ausncia de palavras, at compreender que as 
linhas escritas originalmente deviam ter sido 
apagadas pelo tempo e pelo passar dos anos. Aspoucas que ele conseguiu identificar datavam dofinal dos anos de 1700. Mais  frente, uma criptatinha o aspecto de 
que havia sido invadida. A 
cobertura e as paredes estavam caindo, e, poucomais adiante, outro monumento desabara no 
caminho. Ele viu outras criptas danificadas e 
monumentos destrudos. Jeremy no encontrou 
sinais de vandalismo proposital, apenas a 

#
decadncia natural, ainda que sria. Tambm noviu sinais de que algum tivesse sido enterrado alinos ltimos trinta anos, o que explicaria por que olugar parecia 
to abandonado.
A sombra da magnlia, ele parou, imaginando o 
aspecto daquele lugar em uma noite nebulosa. 
Provavelmente fantasmagrico, o que poderia dar 
asas  imaginao de qualquer pessoa. Mas se 
havia luzes inexplicveis, de onde estariam vindo?
Imaginou que os "fantasmas" seriam apenas luzesrefletidas, transformadas em prismas pelas gotasde gua da nvoa, mas no havia postes de luz alie o cemitrio no 
era iluminado. Ele tambm no 
viu qualquer sinal de moradia em Riker's Hill que,
talvez, pudesse ter sido responsvel por isso. Eleimaginou que elas talvez pudessem vir das luzesde carros que estivessem passando, apesar de tervisto apenas uma 
estrada estreita, e as pessoas jteriam percebido essa ligao h muito tempo.
Ele teria de conseguir um bom mapa topogrficoda regio, alm do mapa de ruas que havia 
trazido. Talvez a biblioteca local tivesse um. De 
qualquer forma, ele teria de dar uma parada nabiblioteca para pesquisar a histria do cemitrio eda prpria cidade. Ele precisava saber quando que as luzes tinham 
sido vistas pela primeira vez;
talvez isso lhe desse alguma idia do que poderiaexplic-las. Naturalmente, ele tambm teria de 
passar algumas noites na cidade dos fantasmas, 
se o tempo enevoado estivesse disposto a 
cooperar.
Caminhou algum tempo pelo cemitrio, tirando 
algumas fotos. Essas no seriam publicadas; 

#
serviriam como pontos de comparao, caso eleencontrasse fotos mais antigas do cemitrio. Ele 
queria ver quais tinham sido as mudanas 
ocorridas com o passar dos anos, e talvez pudesselhe ser til saber quando  ou por que  os 
estragos tinham ocorrido. E tambm tirou uma 
foto da rvore de magnlias. Era sem dvida a 
maior que ele j havia visto. Seu tronco negro 
estava enrugado, e seus galhos baixos teriam 
mantido a ele e seus irmos ocupados durante 
horas quando eram meninos. Quer dizer, se no 
estivesse cercada pelos mortos.
Enquanto estava revendo as fotos digitais, para tercerteza de que eram suficientes, com o canto doolho ele viu alguma coisa se mexer ali perto.
Erguendo os olhos, viu que era uma mulher 
caminhando em sua direo. Usando jeans, botas 
e um suter azul-claro, que combinava com a 
bolsa de lona que ela carregava, tinha cabelos 
castanhos que batiam levemente nos ombros. Suapele, com um leve toque de oliva, dispensava ouso de maquilagem, mas foi a cor de seus olhos 
que atraiu sua ateno:  distncia, pareciam 
quase violeta. Quem quer que fosse, tinha 
estacionado seu carro bem atrs do dele. 
Por um momento, ele ficou imaginando se ela 
estava se aproximando para pedir-lhe que fosseembora. Talvez o cemitrio estivesse condenado e 
a entrada fosse proibida. Mas talvez aquela visitafosse apenas uma coincidncia.
Ela continuava a caminhar em sua direo. 
O que o levou a pensar que aquela era uma 
coincidncia bastante atraente. Jeremy endireitou 

#
o corpo enquanto colocava a cmera de volta noestojo. Ele abiu um sorriso largo quando ela seaproximou. 
 Muito bem, ol pra voc  ele disse.
Ao ouvir isso, ela diminuiu ligeiramente o passo, 
como se no tivesse notado sua presena. A 
expresso da moa era quase divertida, e ele 
achou que ela fosse parar. Em vez disso, passoupor ele, embora ele fosse capaz de jurar que tinhaouvido uma risada. 
Com as sobrancelhas erguidas em sinal de 
avaliao, Jeremy ficou olhando para ela. Ela noolhou para trs. Antes de poder pensar em algo,
ele saiu atrs dela. 
; Ei!  ele chamou. 
Em vez de parar, ela simplesmente se virou e 
continuou a andar de costas, a cabea erguida 
com curiosidade. Mais uma vez Jeremy viu a 
expresso de divertimento. 
 Sabe, voc no deveria ficar encarando desse 
jeito  ela falou com a voz alta.  As mulheres 
gostam de homens que sabem ser sutis.
Ela se virou de novo, ajeitou a bolsa de lona noombro e continuou andando. De longe, ele ouviu arisada de novo. 
Jeremy ficou de boca aberta, sem saber o que 
responder dessa vez.
Tudo bem, ela no estava interessada. Nada 
demais. Mesmo assim, a maioria das pessoas teriadado pelo menos um ol como resposta. Talvez 
fosse coisa tpica do Sul. Talvez os caras 
estivessem sempre dando em cima e ela estivesse 
#
cansada. Ou talvez ela simplesmente no quisesseser interrompida enquanto estivesse... estivesse...
Estivesse o qu?
Est vendo? Esse era o problema do jornalismo,
ele suspirou. Tinha feito dele um sujeito muito 
curioso. Na verdade, no era da sua conta. Alm 
disso, ele lembrou a si mesmo, aquilo era um 
cemitrio. Ela provavelmente estava ali para 
visitar algum que havia morrido. As pessoas 
faziam isso o tempo todo, no ?
Ele franziu a testa. A nica diferena era que, namaioria dos cemitrios, tinha-se a impresso deque, de vez em quando, algum aparava a grama, 
enquanto este se parecia com So Francisco 
depois do terremoto de 1906. Ele calculou que 
poderia ter ido atrs dela para descobrir o quetinha vindo fazer ali, mas ele j havia conversadocom um nmero suficiente de mulheres para saberque bisbilhotar poderia 
gerar conseqncias muitomais horripilantes do que encarar.
Jeremy procurou seriamente desviar o olhar 
enquanto ela desaparecia atrs de um dos 
carvalhos, a bolsa de lona balanando no 
compasso de cada uma de suas passadas 
graciosas.
Somente depois que ela desapareceu  que eleconseguiu se lembrar de que garotas bonitas notinham importncia agora. Ele tinha um trabalho 
para fazer e o que estava em jogo era o seu 
futuro. Dinheiro, fama, televiso etc., etc., etc. 
Est certo, e agora? Ele tinha visto o cemitrio...
talvez fosse bom dar uma olhada na rea ao redor. 
Meio que sentir o lugar. 

#
Voltou para seu carro e pulou para dentro, feliz porno ter feito nada alm de dirigir um rpido olhar,
a fim de ver se ela estava olhando para ele. Doispoderiam jogar um jogo. Mas  claro que isso 
pressupunha que ela ao menos se preocupassecom o que ele estava fazendo, e ele tinha certezade que no era o caso.
Um olhar rpido do banco do motorista mostrouque ele estava certo.
Ele ligou o motor e foi saindo devagar; enquantose afastava do cemitrio, descobriu que no teriadificuldade em tirar a imagem da mulher de suacabea e concentrar-se 
na tarefa que deveria 
executar. Ele avanou pela estrada para verificarse havia outras  cobertas com cascalho ou asfalto 
 que a cruzassem, e ficou atento para ver 
se localizava algum moinho ou qualquerconstruo com teto de zinco, mas sem sucesso. 
Tambm no encontrou sequer uma simples casade fazenda. 
Fazendo a volta com o carro, ele comeou a 
retornar pelo caminho que tinha seguido,  
procura de uma estrada que o levasse at o altode Riker's Hill, mas acabou desistindo e sentindo-
se frustrado. Enquanto se aproximava do cemitrio 
novamente, ele se perguntava quem seria o 
proprietrio daquelas terras e se Riker's Hill seriapropriedade pblica ou privada. Ele certamente 
poderia obter essa informao na prefeitura. O 
jornalista atento que havia dentro dele no pdedeixar de observar que o carro da mulher haviadesaparecido, o que o fez sentir uma leve, embora 

#
inesperada, sensao de contrariedade, que 
passou to depressa quanto surgiu.
Ele olhou o relgio, passava das duas; calculou 
que a correria do almoo no Herbs provavelmentej estaria acabando. Poderia aproveitar para falarcom Dris. Talvez ela pudesse lanar alguma luzsobre o assunto. 
Ele sorriu para si mesmo, imaginando se a mulherque tinha visto no cemitrio teria achado graanessa observao. 


Captulo 

TRS 

Apenas algumas mesas na varanda ainda estavamocupadas quando Jeremy chegou ao Herbs. 
Enquanto subia as escadas na direo da porta dafrente, as conversas silenciaram e os olhares se viraram 
para ele. S a mastigao continuou, e 
Jeremy se lembrou da maneira curiosa com que asvacas olhavam quando algum se aproximava dacerca do pasto. Jeremy mexeu a cabea e acenou, 

#
fazendo o mesmo gesto que havia visto quandopassara pelas varandas.
Ele tirou os culos de sol e empurrou a porta. Asmesas pequenas, quadradas, estavam espalhadaspor dois grandes sales, separados no meio poruma escada. Um remate 
branco dava um certo 
equilbrio s paredes cor de pssego, deixando olugar com um aspecto caseiro, interiorano; na 
parte de trs da construo, ele viu a cozinha derelance. 
Mais uma vez, as mesmas expresses bovinas dosclientes enquanto ele passava. As conversas foraminterrompidas. Os olhares o acompanharam.
Quando ele mexeu a cabea e acenou, os olhos 
baixaram e o murmrio das conversas aumentou 
de novo. Essa coisa de acenar, ele pensou, erauma espcie de varinha mgica.
Jeremy ficou parado, rodando os culos com osdedos, esperando que Dris estivesse ali, quandouma das garonetes saiu da cozinha. Beirando ostrinta anos, era alta 
e extremamente magra, comum rosto corado e franco. 

 Pode pegar qualquer lugar, bem  ela disse, 
com a voz aguda.  Volto num instante.
Depois de se instalar confortavelmente perto de 
uma janela, ele ficou observando a garonete 
enquanto ela se aproximava. Seu crach dizia 
RACHEL. Jeremy pensou no fenmeno dos crachsna cidade. Ser que todos os trabalhadores tinhamum? Calculou que talvez fosse uma espcie de 
regra. Como mexer a cabea e acenar. 
 Posso lhe trazer algo para beber, querido? 
 Vocs tm capuccino?  ele arriscou. 
#
 No, sinto muito. Mas 
temos caf. Jeremy sorriu.  
Caf seria timo. 
 J vem. O cardpio est na mesa, se quiser 
comer alguma coisa. 
 Para falar a verdade, eu estava pensando se aDris McClellan estaria por aqui. 
 Ah, ela est l atrs  Rachel disse, e seu rosto 
se iluminou. Quer que a chame? 
 Se voc no se importar.
Ela sorriu.  No tem problema nenhum, querido.
Ele a viu caminhar na direo da cozinha e 
empurrar a porta vaivm. Pouco depois, uma 
mulher que ele imaginou ser Dris apareceu. Era ooposto de Rachel: baixa e robusta, ralos cabelosbrancos que um dia haviam sido louros, ela usava 
um avental, mas sem crach, sobre uma blusa 
florida. Parecia ter uns sessenta anos. Parando 
junto  mesa, ela colocou as mos nos quadrisantes de exibir um sorriso. 
 Bom  ela disse, dividindo a palavra em duasslabas , voc deve ser Jeremy Marsh.
Jeremy piscou.  Voc me conhece? 
  claro. Vi voc no Primetime Live na sexta. 
Deduzo que recebeu minha carta. 
 Recebi, obrigado. 
 E voc est aqui para escrever uma histria 
sobre os fantasmas? Ele levantou as mos.  
Parece que sim. 
 Bom,  isso.  Seu sotaque dava a impressode que ela terminara a palavra nos esses.  Por 
que no me avisou que estava vindo? 
#
 Eu gosto de surpreender as pessoas. s vezes 
mais fcil obter informaes exatas desse modo. 
 Isso  ela disse de novo. Depois que passou a
surpresa, ela puxou uma cadeira.  Se importa se
eu sentar? Acho que est aqui pra falar comigo. 
 Eu no quero lhe criar problemas com a chefia,
se estiver trabalhando. 
Ela olhou por cima do ombro e gritou.  Ei, 
Rachel, voc acha que a chefia vai se importar se
eu sentar? Esse homem aqui quer conversar comigo.
Rachel esticou a cabea por detrs da porta 
vaivm. Jeremy pde ver que estava segurando 
um bule. 
 No, eu no acho que a chefia vai se importar
 Rachel respondeu.  A chefia adora conversar. 
Principalmente com um cara to bonito.
Dris se virou.  Viu?  ela disse, e acenou com a 
cabea.  Sem problemas.
Jeremy sorriu.  Parece um bom lugar para 
trabalhar. 
 . 
 Pelo que vejo, voc  quem manda. 
 Culpada, pode apostar  Dris respondeu. Os 
olhos brilhando de satisfao. 
 H quanto tempo est neste ramo? 
 Quase trinta anos. Agora, aberto pro caf e proalmoo. Fazamos comida saudvel bem antes de 
virar moda, e temos as melhores omeletes neste 
lado de Raleigh.  Ela se inclinou para a frente. 
Est com fome? Devia experimentar um dos 
nossos sanduches de almoo.  tudo fresco  at 
o po ns fazemos todo dia. Voc est com cara 
#
de quem precisa fazer uma boquinha, e com a suaaparncia...  ela parou, fazendo uma avaliao. 

 Aposto que voc iria adorar o sanduche de 
pesto de frango. Vem com brotos, tomate, pepino,
e sou eu mesma quem faz a receita do pesto. 
 Eu realmente no estou com fome. 
Rachel se aproximou com duas xcaras de caf. 
 Bom, s pra voc saber... se vou contar uma 
histria, gosto de contar com uma boa refeio namesa. E costumo levar o tempo que for preciso.
Jeremy se rendeu.  O sanduche de pesto de 
frango parece uma boa idia.
Dris sorriu.  Voc pode trazer pra gente uns"Albermales", Rachel? 
 Claro  Rachel respondeu. Ela o examinou comum olhar inquiridor.  A propsito, quem  o seuamigo? Nunca vi por aqui antes. 
 Este  Jeremy Marsh  Dris respondeu.   
um jornalista famoso que veio at aqui praescrever uma histria sobre a nossa hospitaleiracidade. 
 Verdade?  Rachel perguntou com interesse. 
 Sim  respondeu Jeremy. 
 Graas a Deus  disse Rachel, com uma 
piscadela.  Por um momento, achei que voc 
tivesse acabado de vir de um enterro. 
Jeremy piscou os olhos, enquanto Rachel se 
afastava. 
Dris achou graa de sua expresso.  Tullypassou por aqui depois que voc parou para pedirinformaes  ela explicou.  Acho que ele 
deduziu que eu podia ter algo a ver com sua vinda, 
e queria ter certeza. De qualquer modo, ele 
#
relatou toda a conversa de vocs, e Rachel 
provavelmente no deve ter conseguido resistir.
Ningum deu a mnima para esse comentrio dele. 

 Sei  Jeremy disse.
Dris se inclinou para a frente de novo.  Aposto
que ele ficou buzinando um tempo na sua orelha. 
 Um pouco. 
 Ele sempre falou demais. Ele seria capaz de 
conversar com uma caixa de sapatos se no 
tivesse ningum por perto, e eu juro que no sei
como foi que a mulher dele, a Bonnie, conseguiu
agentar tanto tempo. Mas j tem uns doze anos
que ela ficou surda, e ele agora conversa com os
clientes.  tudo o que uma pessoa pode fazer para
sair de l em menos tempo do que um cubo de
gelo leva pra derreter no inverno. Eu tive de 
enxot-lo daqui hoje quando ele deu uma passada.
No se consegue trabalhar se ele estiver por perto.
Jeremy pegou seu caf.  A mulher dele ficou 
surda? 
 Acho que o Bom Deus percebeu que ela j tinha
sofrido muito. Abenoado seja seu corao.
Jeremy sorriu antes de tomar um gole do caf.  
Por que ele pensaria que foi voc quem fez o 
contato comigo? 
 Toda vez que acontece alguma coisa diferente,
eu sou sempre a culpada.  o preo que se paga,
eu acho, por ser a mdium da cidade.
Jeremy ficou apenas olhando para ela e Dris 
sorriu. 
 Pelo que sei, voc no acredita em mdiuns  
ela observou. 
 No, para ser sincero, no  Jeremy admitiu. 
#
Dris tirou o avental.  Bom, na maior parte 
deles, eu tambm no. A maioria  biruta. Mas 
algumas pessoas tm mesmo o dom. 

 Ento... voc consegue ler a minha mente? 
 No, no  nada disso  Dris falou, 
balanando a cabea.  Pelo menos na maior 
parte do tempo. Eu tenho uma intuio muito boa 
a respeito das pessoas, mas ler a mente dos 
outros  coisa que a minha me fazia. Ningumconseguia esconder nada dela. Ela sabia at o que 
eu estava planejando comprar para lhe dar de 
presente de aniversrio, o que fazia as coisas 
perder a graa. O meu dom  diferente. Sou umavidente. E tambm sei dizer qual  o sexo de umbeb antes mesmo de ele nascer. 
 Sei. 
Dris olhou-o com ateno.  Voc no acredita 
em mim. 
 Bem, vamos apenas dizer que voc  uma 
vidente. Isso quer dizer que voc sabe onde 
encontrar gua e me dizer onde  que eu deveria 
cavar o poo. 
  claro. 
 E se eu lhe pedisse para fazer um teste, 
cientificamente controlado, sob superviso 
estrita... 
 Voc at poderia ser o supervisor, e se tiver deme amarrar como uma rvore de Natal para tercerteza de que eu no vou trapacear, no teriaproblema algum. 
 Sei  disse Jeremy, pensando em Uri Geller. 
Geller tinha tanta confiana em seus poderestelecinticos que procurou a televiso britnica em 
#
1973, onde apareceu diante de cientistas e umaplatia no estdio. Quando balanou uma colher 
no dedo, ambos os lados comearam a se curvar 
para baixo diante de observadores estupefatos. Smais tarde  que se descobriu que ele tinha 
dobrado a colher vrias vezes antes do programa,
produzindo uma fadiga no metal.
Dris parecia saber exatamente o que ele estavapensando. 

 Vou lhe dizer uma coisa... pode me testar a 
qualquer hora, da maneira como quiser. Mas no por causa disso que veio. Voc quer que eu fale arespeito dos fantasmas, certo? 
 Claro  disse Jeremy, aliviado por irem direto 
ao assunto.  Importa-se se eu gravar nossa 
conversa? 
 De modo algum.
Jeremy enfiou a mo no bolso do blazer e tirou um 
pequeno gravador. Colocou-o entre eles e apertou 
o boto correto. Dris tomou um gole de caf 
antes de comear. 
 Bem, a histria remonta aos anos de 1890 ou 
por volta disso. Nessa poca, nesta cidade aindahavia a segregao racial, e a maioria dos negrosvivia nos arredores, num lugar chamado Watts 
Landing. No existe mais nada desse vilarejo 
atualmente, por causa do Hazel, mas naquela 
poca... 
 Desculpe... Hazel? 
 O furaco. Mil novecentos e cinqenta e quatro.
Atingiu a costa perto da divisa da Carolina do 
Norte. Deixou praticamente toda a cidade de 
#
Boone Creek debaixo d'gua, e o que tinha 
sobrado de Watts Landing desapareceu. 

 Est certo. Desculpe. Pode continuar. 
 De qualquer forma, como eu estava dizendo,
voc no vai encontrar mais o vilarejo, mas, perto
da virada do sculo, acho que moravam ali umas
trezentas pessoas. A maioria era descendente dos 
escravos que tinham vindo da Carolina do Sul 
durante a Guerra da Agresso Setentrional, ou o
que vocs ianques chamam de Guerra Civil.
Ela piscou e Jeremy sorriu. 
 Ento, a Union Pacific apareceu trazendo as 
estradas de ferro, o que, naturalmente, esperava-
se que transformasse este lugar em uma grande
rea cosmopolita. Ou pelo menos era isso o que
eles prometiam. E a estrada que eles propunham
construir passava bem no meio do cemitrio dos
negros. A lder da cidade na poca era uma mulher
chamada Hettie Doubilet. Ela era do Caribe  eu 
no sei dizer de que ilha , mas quando descobriu
que eles iriam ter de cavar e transferir todos os 
corpos para outro lugar, ficou transtornada e 
tentou fazer com que o condado tomasse alguma
atitude para mudar o traado. Mas os camaradas 
que administravam o condado nem tomaram 
conhecimento. No lhe deram nem uma 
oportunidade para apresentar sua causa.
Nesse instante, Rachel chegou com os sanduches.
Ela colocou os dois pratos sobre a mesa. 
 Experimente  Dris falou.  Seja como for, 
voc est que  s pele e osso.
Jeremy pegou seu sanduche e deu uma mordida.
Ele ergueu as sobrancelhas e Dris sorriu. 
#
 Melhor do que qualquer coisa que voc 
consegue achar em Nova Iorque, no ? 
 Sem dvida. Meus cumprimentos para a chef. 
Ela olhou para ele de um modo quase coquete. 
Voc  encantador, sr. Marsh  ela disse, e 
subitamente ocorreu a Jeremy a idia de que, najuventude, ela devia ter partido alguns coraes.
Ela continuou com a histria, como se nunca 
tivesse parado. 
 Naquela poca, havia muitos camaradas 
racistas. Pessoas assim ainda existem, mas agoraso minoria. Como voc  do Norte, provavelmente 
acha que eu estou mentindo, mas no estou. 
 Acredito em voc. 
 No, no acredita. Ningum do Norte acredita,
mas isso no tem importncia. Mas, continuandocom a histria, Hettie Doubilet ficou furiosa com os 
camaradas do condado, e diz a lenda que quandoeles se recusaram a deix-la entrar no escritrio 
do prefeito, ela lanou uma maldio sobre ns, oscamaradas brancos. Ela disse que se os tmulosde seus ancestrais fossem profanados, ento osdos nossos tambm seriam. 
Os ancestrais de seu 
povo iriam vagar por Cedar Creek em sua jornada,
e no final todo o cemitrio seria tragado inteiro. claro que ningum prestou ateno ao que ela 
disse naquele dia.
Dris deu uma mordida em seu sanduche.  E, 
bom, para encurtar a histria, os negros mudaram 
os corpos um por um para outro cemitrio, a 
estrada de ferro seguiu em frente e, depois disso,
exatamente como Hettie tinha dito, o Cemitrio de 
Cedar Creek comeou a ir mal. No comeo, coisas 
#
pequenas. Algumas lpides quebradas, coisas 
assim, como se vndalos fossem os responsveis.
Os camaradas do condado, achando que o povo deHettie era o responsvel, colocaram guardas. Masas coisas continuaram a acontecer, no importava 
quantos guardas fossem colocados l. E com o 
passar dos anos, foi ficando pior. Voc esteve l,
certo? 
Jeremy assentiu com a cabea. 

 Ento viu o que est acontecendo. Parece que olugar est afundando, certo? Exatamente como 
Hettie disse que afundaria. De qualquer forma, 
alguns anos depois as luzes comearam a 
aparecer. E, desde ento, as pessoas acreditamque so os espritos dos escravos vagando por a. 
 Ento eles no usam mais o cemitrio? 
 No, o lugar foi abandonado definitivamente nofinal dos anos setenta, mas mesmo antes dessa 
poca as pessoas j estavam preferindo ser enterradas 
em outros cemitrios ao redor da cidade, por 
causa do que estava acontecendo com Cedar 
Creek. Ele agora  propriedade do municpio, maseles no tomam conta, no tm dado a mnima h 
pelo menos vinte anos. 
 Algum j tentou verificar por que o cemitrioparece estar afundando? 
 Eu no tenho certeza absoluta, mas estou 
quase certa que sim. Muitas pessoas poderosastm ancestrais enterrados no cemitrio, e a ltima 
coisa que eles iriam querer ver seria o 
esfacelamento do tmulo do av. Tenho certeza 
de que eles tentaram encontrar uma explicao, eeu j ouvi umas histrias de gente de Raleigh que 
#
veio pra c tentar descobrir o que estava 
acontecendo. 

 Voc est falando dos estudantes da Duke? 
 Ah, no, eles no, querido. Eles eram apenas
um bando de garotos, e estiveram aqui no ano
passado. No, estou falando de muito tempo atrs.
Talvez da poca em que os estragos comearam. 
 Mas voc no sabe o que foi que descobriram. 
 No. Sinto muito.  Ela fez uma pausa, e seus
olhos adquiriram um brilho malicioso.  Mas acho
que tenho uma idia muito boa.
Jeremy ergueu as sobrancelhas.  E qual ? 
 gua  ela disse simplesmente. 
 gua? 
 Eu sou uma vidente, lembra? Eu sei onde tem 
gua. E vou lhe dizer uma coisa, francamente: 
aquela terra est afundando por causa da guaque corre por baixo. Tenho certeza disso. 
 Sei. 
Dris riu.  Voc  to gracinha, sr. Marsh. Sabiaque seu rosto fica muito srio quando algum lhe 
conta alguma coisa em que voc no quer 
acreditar? 
 No. Nunca ningum me disse isso. 
 Bom, fica. E acho que  uma graa. Minha meteria tido um dia e tanto com voc. Voc  to fcil 
de ler. 
 Ento, o que  que eu estou pensando?
Dris hesitou.  Bom, como eu disse, meus dons 
so diferentes dos de minha me. Ela poderia lervoc como se fosse um livro. Alm disso, eu no 
quero assust-lo. 
 V em frente. Veja se me assusta. 
#
 Tudo bem  ela disse, e o examinou 
longamente.  Pense em algo que eu no poderiasaber de jeito nenhum. E lembre-se de que meudom no  ler a mente das pessoas. Eu apenascapto... sinais, aqui e ali, 
e apenas se eles foremsentimentos realmente fortes. 
 Tudo bem  Jeremy falou, tentando cooperar. 
 Mas voc percebe que est apenas 
tergiversando. 
 Vamos l.  Dris pegou as mos dele.  
Deixe-me segur-las, o.k.! 
Jeremy assentiu com a cabea.  Claro. 
 Agora pense em algo pessoal que eu no teria
como saber. 
 Est certo. 
Ela apertou a mo dele.  Srio. At agora voc
est apenas brincando comigo. 
 Est bem. Vou pensar em algo.
Jeremy fechou os olhos. Ele pensou no porqu de
Maria t-lo deixado, e por um longo momento 
Dris no disse absolutamente nada. Ao contrrio, 
ela simplesmente olhou para ele, como se 
tentasse fazer com que ele falasse alguma coisa.
Ele j havia passado por isso antes. Inmeras 
vezes. Ele sabia o bastante para ficar calado, e
quando ela continuou em silncio, ele sabia que a
tinha na mo. Subitamente, ela estremeceu  no 
era de surpreender, Jeremy pensou, j que fazia
parte do show  e imediatamente soltou as mos 
dele. 
Jeremy abriu os olhos e olhou para ela. 
 E? 
#
Dris estava olhando para ele de maneira 
estranha.  Nada  ela disse. 

 Ah  Jeremy acrescentou:  Acho que no est
nas cartas hoje, certo? 
 Como eu lhe disse, sou vidente.  Ela sorriu, 
quase como se estivesse pedindo desculpas.  
Mas posso lhe dizer com certeza que voc no 
est grvido.
Ele riu.  E eu teria de lhe dizer que voc est
certa a respeito disso.
Ela sorriu para ele antes de lanar o olhar sobre a 
mesa. Ela ergueu os olhos de novo para ele.  
Desculpe. Eu no deveria ter feito o que fiz. Foi 
inadequado. 
 No tem problema  ele disse, com 
sinceridade. 
 No  ela insistiu. Seus olhos se encontraram e 
ela pegou a mo dele de novo. Ela a apertou 
levemente.  Eu sinto muito. 
Jeremy no teve muita certeza sobre como reagir
quando ela pegou na mo dele de novo, mas ficou
comovido com a expresso de compaixo em seu 
rosto. 
E Jeremy teve a preocupante sensao de que 
Dris havia adivinhado mais coisas sobre sua 
histria pessoal do que ela talvez soubesse. 
Mediunidade, premonio e intuio so 
simplesmente um produto da interao entre 
experincia, bom senso e conhecimento 
acumulado. A maioria das pessoas subestima a 
quantidade de informaes que adquire ao longoda vida, mas o crebro humano tem a capacidade 

#
de fazer a correlao imediata das informaes de 
um modo que nenhuma outra espcie  ou 
mquina   capaz de fazer.
O crebro, porm, aprende a descartar a grandemaioria das informaes que recebe porque, pormotivos bvios, no  essencial que ele se lembrede absolutamente tudo. 
 claro que algumaspessoas tm memria melhor do que outras, fatorevelado freqentemente em situaes de teste, e 
a capacidade de treinar a memria est muito 
bem documentada. Porm, at o pior dos 
estudantes se lembra de 99,99 por cento de tudo oque lhe acontece durante a vida. Assim,  esse 
0,01 por cento que na maioria das vezes distingueuma pessoa da outra. Para algumas pessoas, isso 
se manifesta na capacidade de memorizar 
trivialidades, ou para se destacar como mdicos, 
ou para interpretar com exatido dados 
financeiros e tornar-se um bilionrio de fundos de 
investimento. Para outras pessoas,  uma 
capacidade de ler seus semelhantes; e essas pessoas 
 com uma habilidade inata para despertarlembranas, com senso comum e experincia, etambm capacidade para codificar tudo isso de 
modo rpido e exato  manifestam uma 
habilidade que impressiona, como se fossem 
sobrenaturais. 
Mas o que Dris tinha feito estava... de algummodo acima disso, Jeremy pensou. Ela sabia. Ou,
pelo menos, essa era a primeira impresso de 
Jeremy, at que ele encontrasse a explicao 
lgica para o que tinha acontecido. 

#
E o fato  que no havia acontecido nada de 
verdade, ele lembrou a si mesmo. Dris no tinha 
dito nada; foi s o jeito como ela olhou para ele 
que o fez pensar que ela havia compreendido 
aquelas coisas indevassveis. E essa era uma 
sensao dele e no de Dris. 
A cincia tinha as verdadeiras respostas; mesmoassim, ela parecia uma boa pessoa. E se ela 
acreditasse em suas habilidades, qual o problema?
Para ela, provavelmente pareciam sobrenaturais.
Mais uma vez, parecia que ela havia lido sua 
mente. 

 Bom, acho que acabei de confirmar que sou 
maluca, certo? 
 No,  claro que no  Jeremy falou.
Ela pegou seu sanduche.  Bom, de qualquerforma, j que deveramos estar apreciando estatima refeio, talvez fosse melhor comer um 
pouco. Quer que eu lhe conte alguma coisa? 
 Quero que me fale a respeito da cidade de 
Boone Creek  ele disse. 
 Falar o qu? 
 Qualquer coisa. J que vou ficar aqui por algunsdias, seria bom saber alguma coisa a respeito dolugar.
Eles passaram a meia-hora seguinte 
conversando... bem, no que dizia respeito a 
Jeremy, no havia muito o que conversar. Dris 
parecia saber tudo o que se passava na cidade.
Muito mais do que Tully. E no por causa de suassupostas habilidades  ela admitia isso , mas 
porque as informaes atravessavam as pequenas 
#
cidades mais depressa do que o efeito do suco deameixa em um beb. 
Dris falou praticamente sem parar. Ele ficou 
sabendo sobre quem estava saindo com quem,
com quem era difcil trabalhar e por que, e o fatode o ministro da igreja pentecostal da cidade estartendo um caso com uma de suas paroquianas. Omais importante, 
pelo menos para Dris, era queele soubesse que, se por acaso acontecesse 
qualquer coisa com seu carro, ele jamais deveriachamar o Guincho do Trevor, porque o Trevor 
provavelmente estaria bbado, qualquer que fossea hora do dia. 
 O homem  uma ameaa para as estradas  
Dris afirmou.  Todo mundo sabe, mas como o 
pai dele  o xerife, ningum faz nada a respeitodisso. Mas acho que isso no o surpreende. O 
xerife Wanner tem seus prprios problemas, comoas dvidas de jogo. 

 Ah  Jeremy falou como resposta, como se 
estivesse  par de tudo o que estava acontecendona cidade.  Faz sentido. 
Por alguns instantes, nenhum dos dois falou 
qualquer coisa. No silncio, ele deu uma olhada norelgio. 
 Acho que voc precisa ir embora  Dris falou.
Ele alcanou o gravador e o desligou, antes decoloc-lo novamente no bolso do blazer.  
Certamente. Eu queria dar uma passada na 
biblioteca antes que feche, para ver o que ela tema oferecer. 
 Bom, o almoo foi por minha conta. No  
sempre que recebemos um visitante famoso. 
#
 Uma breve participao no Primetime no torna 
uma pessoa famosa. 
 Eu sei disso. Eu estava falando de sua coluna. 
 Voc a l? 
 Todos os meses. Meu marido, que Deus o 
tenha, fazia consertos na garagem e adorava arevista. Depois que ele morreu, eu simplesmenteno tive coragem de cancelar a assinatura. Eu 
praticamente continuei de onde ele havia parado.
Voc  um camarada muito inteligente. 
 Obrigado  ele disse.
Ela ficou em p e ps-se a acompanh-lo at asada do restaurante. Os clientes, apenas alguns aessa hora, erguiam os olhos para eles quando passavam. 
Foi sem dizer nada que eles ouviram cadapalavra, e assim que Jeremy e Dris puseram osps pra fora, comearam a sussurrar entre eles.
Isso, todo mundo decidiu imediatamente, era um 
assunto excitante. 
 Ela falou que ele apareceu na televiso?  
perguntou um. 
 Acho que eu vi ele em um daqueles programasde entrevistas. 
 Definitivamente, ele no  mdico  
acrescentou outro.  Ele falou de um artigo de 
revista. 
 Como ser que a Dris conhece ele? Voc ouviualguma coisa? 
 Bom, ele parece boa gente. 
 Eu acho que ele  simplesmente maravilhoso 
disse Rachel. 
#
Enquanto isso, parados na varanda, Dris e Jeremy
no tinham idia da agitao que tinham causado
l dentro. 
 Presumo que voc vai ficar no Greenleaf?  
Dris perguntou. Quando Jeremy fez que sim com
a cabea, ela prosseguiu.  Voc sabe onde fica? 
Eles esto numa rea mais afastada, um tipo de
zona rural. 


 Eu tenho um mapa  Jeremy respondeu, 
tentando parecer que havia se preparado para 
tudo.  Tenho certeza de que conseguirei achar. 
Mas que tal me indicar como chego at a 
biblioteca? 
 Claro  falou Dris.  Ela fica logo depois da 
curva.  Ela apontou para a estrada.  Est 
vendo aquele prdio de tijolinhos? Aquele com otoldo azul? 
Jeremy mostrou que sim com um sinal da cabea. 
 Vire  esquerda e v at o prximo semforo.
Na primeira rua depois do semforo, vire  direita.
A biblioteca fica na esquina seguindo esse 
caminho.  um prdio grande branco. Antigamenteera chamado de Casa Middleton, pois pertencia aHorace Middleton, antes de ser comprada pela 
prefeitura. 
 Eles no construram uma biblioteca nova? 
 A cidade  pequena, sr. Marsh, mas a biblioteca
 bastante grande. Voc vai ver.
Jeremy estendeu a mo.  Obrigado. Voc tem 
sido tima comigo. E o almoo estava delicioso. 
 Procuro fazer o melhor. 
#
 Voc se importa se eu voltar para fazer maisperguntas? Voc parece que sabe lidar muito bemcom todas as coisas. 
 Sempre que quiser conversar,  s aparecer.
Estou sempre s ordens. Mas vou lhe pedir parano escrever nada que nos faa parecer um bandode gente grosseira. H muitas pessoas  eu, 
inclusive  que adoram este lugar. 
 Tudo o que escrevo  verdade. 
 Eu sei  ela disse.   por isso que o procurei.
Voc tem uma cara confivel, e tenho certeza de 
que vai colocar a lenda de uma vez por todas 
exatamente onde deveria estar. 
Jeremy ergueu as sobrancelhas.  Voc no 
acredita que haja fantasmas em Cedar Creek? 
  cus, no. Eu sei que no h espritos por ali. 
Venho dizendo isso h anos, mas ningum me 
ouve. 
Jeremy olhou para ela com curiosidade.  Ento 
por que me pediu para vir aqui? 
 Porque as pessoas no sabem o que est 
acontecendo, e vo continuar acreditando at 
acharem uma explicao. Sabe, desde aquele 
artigo no jornal sobre as pessoas da Duke, o 
prefeito vem promovendo essa idia como louco, e 
vem gente estranha de todos os lugares na 
esperana de ver as luzes. Para ser honesta, isso
est criando uma srie de problemas  este lugar
j est desmoronando e o estrago est cada vez
pior.
Com essas palavras no ar, ela esperou um 
momento antes de continuar.   claro que o 
xerife no vai fazer nada com os estudantes que 
#
vivem por ali, ou com os estranhos que ficam 
vadiando por l sem qualquer idia na cabea. Ele 
e o prefeito esto tentando angariarsimpatizantes; alm disso, quase todo mundo poraqui  exceto eu  acha que esse negcio depromover os fantasmas  uma boa idia. 
Desde 
que a tecelagem e a mina fecharam, a cidade estacabando, e eu acho que eles acreditam que essaidia  uma espcie de salvao.
Jeremy olhou de relance para seu carro, depois devolta para Dris, pensando no que ela acabara dedizer. Fazia todo o sentido, mas... 

 Voc percebe que est mudando a histria queme contou na carta? 
 No  ela disse.  Eu no estou. Tudo o que 
eu disse foi que havia luzes misteriosas no 
cemitrio e que se acreditava que elas tinham relao 
com uma antiga lenda, que a maioria daspessoas acha que os fantasmas esto envolvidos, 
e que os garotos da Duke no conseguiramdescobrir o que so realmente essas luzes. Tudoisso  verdade. Pode ler a carta de novo se no 
acredita em mim. Eu no minto, sr. Marsh. Posso 
no ser perfeita, mas no minto. 
 Ento por que voc quer que eu faa a histriacair no descrdito? 
 Porque no est certo  ela disse calmamente,
como se a resposta fosse uma questo de bom 
senso.  Pessoas vadiando por l, turistas aparecendo 
para acampar  isso no  muito 
respeitoso com os que se foram, mesmo que ocemitrio esteja abandonado. As pessoas queesto enterradas ali merecem descansar em paz. E 
#
a combinao dessas coisas com o tal Passeio 
pelas Casas Histricas est simplesmente muito 
errado. Mas eu sou apenas uma voz no desertoatualmente. 
Jeremy pensou no que ela dissera ao colocar asmos nos bolsos.  Posso lhe falar com 
franqueza?  ele perguntou.
Ela acenou com a cabea, e Jeremy mudou o pesodo corpo de um p para outro.  Se voc acreditaque sua me era mdium, e que voc tem o poderde achar gua ou adivinhar 
o sexo dos bebs, 
parece...
Ao deixar essas palavras no ar, ela olhou para elefixamente. 

 Que eu seria a primeira a acreditar em 
fantasmas? Jeremy respondeu afirmativamente 
com um gesto da cabea. 
 Bom, e eu acredito. Eu s no acredito que elesestejam l no cemitrio. 
 Por que no? 
 Porque eu estive l e no senti a presena deespritos. 
 Ento voc tambm tem esse poder?
Ela sacudiu a cabea sem responder.  Posso ser 
franca agora? 
 Claro. 
 Um dia, voc vai aprender uma coisa que nopode ser explicada pela cincia. E quando isso 
acontecer, sua vida vai mudar de uma maneira 
que voc no pode sequer imaginar.
Ele sorriu.  Isso  uma promessa? 
 Sim  ela disse , . 
#
Ela fez uma pausa, olhando-o nos olhos.  E 
preciso lhe dizer que realmente gostei do nossoalmoo. No  sempre que eu tenho a companhiade um homem jovem to charmoso. Quase me fezsentir jovem novamente. 

 Eu tambm adorei. 
Ele se virou para sair. O vento havia trazido muitas 
nuvens durante o almoo. O cu, embora no 
fosse ameaador, parecia indicar que o inverno 
queria ficar, e Jeremy ergueu a gola do colarinhoenquanto caminhava na direo do carro. 
 Sr. Marsh?  Dris chamou s suas costas. 
Jeremy se virou.  Sim? 
 D um al para Lex por mim. 
 Lex? 
 Sim  ela respondeu.  Na mesa de consulta 
da biblioteca.  por ela que o senhor deve 
procurar.
Jeremy sorriu.  Eu darei. 
Captulo
QUATRO 


#
A biblioteca era uma estrutura gtica macia, 
completamente diferente de todos os outros 
edifcios da cidade. Para Jeremy, parecia que elahavia sido arrancada de uma colina na Romnia e 
jogada em Boone Creek num gesto de provocao.
O edifcio ocupava praticamente todo o quarteiro, 
e seus dois andares exibiam janelas altas e 
estreitas, um telhado com um ngulo muito fechado, 
e uma porta dianteira de madeira formando 
um arco, complementada por enormes argolaspara chamar. Edgar Allan Poe teria adorado aquelelugar, mas apesar da arquitetura de casa mal-
assombrada, os moradores da cidade tinham feito 

o possvel para torn-la mais convidativa. A 
fachada de tijolos  sem dvida vermelhos at 
uma determinada poca  tinha sido pintada debranco, haviam sido colocadas venezianas pretaspara emoldurar as janelas, e canteiros de amores-
perfeitos acompanhavam as laterais da passagemque levava at a entrada e contornavam o pontoem que estava colocada a bandeira. Uma placaamigvel, gravada com uma 
inscrio dourada emletra cursiva, dava a todos as boas-vindas  
BIBLIOTECA DE BOONE CREEK. Ainda assim, o 
aspecto geral era destoante. Era como visitar a 
casa elegante de um menino rico na cidade, 
pensou Jeremy, e dar de cara com um mordomoque recebe as pessoas na porta com bexigas euma espingarda d'gua.
No salo da entrada, pintado de amarelo-plido ebastante iluminado  pelo menos o edifcio eraconsistente com sua falta de consistncia , havia 
uma mesa em L, com a parte mais comprida se 
#
estendendo para os fundos do edifcio, onde 
Jeremy viu uma grande sala envidraada dedicadas crianas.  esquerda estavam os banheiros, e direita, atrs de outra parede de vidro, estava oque parecia ser 
o espao principal. Jeremy acenoucom a cabea e com a mo em direo  senhora 
idosa que estava atrs da mesa. Ela sorriu e 
acenou de volta, antes de retornar para o livro queestava lendo. Jeremy empurrou a pesada porta devidro e entrou no espao principal, orgulhoso por 
estar percebendo a maneira como as coisas 
funcionavam por ali.
No espao principal, entretanto, ele sentiu uma 
onda de desapontamento. Sob o brilho intenso dasluzes fluorescentes, havia apenas seis prateleirasde livros, relativamente prximas umas das 
outras, numa sala que no era muito maior do queseu apartamento. Nos cantos mais prximos haviadois computadores ultrapassados e, no lado 
direito, um espao para leitura que abrigava uma 
pequena coleo de peridicos. Quatro mesas 
pequenas estavam espalhadas pela sala, e ele viu 
apenas trs pessoas passando os olhos pelasestantes, inclusive um senhor com aparelho parasurdez que estava empilhando livros nas 
prateleiras. Olhando ao redor, Jeremy teve a tristeimpresso de que a quantidade de livros da 
biblioteca era menor do que o nmero de livrosque ele comprara ao longo da vida.
Ele caminhou at a mesa de consulta, mas, como 
era de se esperar, no havia ningum ali. Parou 
junto  mesa,  espera de Lex. Virando-se para seapoiar na mesa, ele imaginou que Lex deveria ser 

#
o senhor de cabelos brancos que estava colocandoos livros nas prateleiras, mas o homem no fezqualquer movimento em sua direo.
Ele olhou para o relgio. Dois minutos depois, 
olhou para o relgio novamente.
Outros dois minutos depois, aps Jeremy ter 
limpado a garganta, pigarreando sonoramente, ohomem finalmente percebeu sua presena. Jeremyfez um gesto com a cabea e acenou com a mo,
fazendo com que o homem percebesse que eleprecisava de ajuda, mas em vez de se aproximardele, o homem apenas acenou e balanou a 
cabea, e ento voltou para os livros empilhados.
Sem dvida, ele estava procurando manter-se 
afastado de qualquer movimentao. Era 
legendria a eficcia sulista, Jeremy observou. E 
aquele lugar era impressionante.
No pequeno e desorganizado escritrio do andarsuperior da biblioteca, ela olhava fixamente 
atravs da janela. J sabia que ele estaria vindo.
Dris havia telefonado no momento em que eledeixara o Herbs e lhe contara sobre o homem de 
preto da cidade de Nova Iorque, que estava alipara escrever sobre os fantasmas do cemitrio.
Ela balanou a cabea. Concluiu que ele deveria 
ter ouvido Dris. Quando ela colocava uma idia 
na cabea, costumava ser bastante persuasiva,
pouco se importando com a possvel repercussoque um artigo como esse poderia ter. Ela j havialido as matrias do sr. Marsh e sabia exatamente 
como ele trabalhava. No bastaria provar que nohavia fantasmas envolvidos  e ela no tinha 
dvidas quanto a isso , pois o sr. Marsh no iria 
#
parar por a. Ele iria entrevistar as pessoas com 
seu jeito charmoso, iria fazer com que elas se 
abrissem, e ento ele selecionaria e escolheria os 
depoimentos, antes de torcer a verdade da formaque lhe aprouvesse. Uma vez concludo o trabalhode difamao que passaria por um artigo, as 
pessoas do pas inteiro iriam achar que todos os 
que viviam ali eram ingnuos, bobos e 
supersticiosos.
Ah, no. Ela no gostava do fato de ele estar ali.
Fechou os olhos, enrolando distraidamente algunsfios de seu cabelo escuro com os dedos. A questo 
era que ela tambm no gostava de genterondando o cemitrio. Dris tinha razo: era uma 
falta de respeito, e desde que aqueles garotos daDuke tinham aparecido e o artigo tinha sido 
publicado no jornal, as coisas realmente estavamfugindo ao controle. Por que  que tudo no podia 
ter simplesmente continuado discretamente? 
Aquelas luzes apareciam por ali h dcadas, e 
apesar de todo mundo ter conhecimento delas,
ningum se importava de verdade.  claro que, de 
vez em quando, algumas pessoas decidiam 
bisbilhotar  a maioria porque tinha ficado 
bebendo no Lukilu, ou ento adolescentes , mas 
fazer camisetas? Canecas? Cartes-postais de 
pssima qualidade? Misturar tudo isso com um 
Passeio pelas Casas Histricas?
Ela no conseguia entender as motivaes por trsdaquele fenmeno. Por que seria to importanteincrementar o turismo por ali, afinal de contas? claro que o dinheiro 
era uma coisa atraente, masas pessoas no viviam em Boone Creek porque 

#
queriam ficar ricas. Bom, pelo menos a maioriadelas, de qualquer forma. Havia sempre algumas 
pessoas querendo ganhar dinheiro fcil, 
comeando em primeirssimo lugar, e antes de todas, 
pelo prefeito. Mas sempre acreditara que amaioria das pessoas vivia aqui pelo mesmo motivoque ela: por causa da admirao que sentia quando, 
ao pr-do-sol, o rio Pamlico se transformavanuma faixa de amarelo dourado; porque conheciae confiava em seus vizinhos; porque as pessoaspodiam deixar seus filhos 
andarem por ali  noitesem ter a preocupao de que algo ruim pudesselhes acontecer. Em um mundo que se tornava 
cada vez mais agitado, Boone Creek era uma 
cidade que no havia feito qualquer tentativa nosentido de acompanhar o mundo moderno, e eraisso o que a tornava especial.
Era por isso que estava aqui, afinal de contas. Elaadorava cada aspecto da cidade: o cheiro de pinhoe sal no comecinho das manhs de primavera, omormao das noites 
de vero, que fazia sua pelebrilhar, o avermelhado resplandecente das folhasno outono. Mas, acima de tudo, ela amava aquelas 
pessoas e no conseguia imaginar a vida em 
qualquer outro lugar. Confiava nelas, conversava 
com elas, gostava delas.  claro que muitos deseus amigos no sentiam a mesma coisa, e depoisde terem deixado a cidade rumo  faculdade, 
nunca tinham voltado; ela tambm havia se 
afastado durante algum tempo, mas mesmo nessapoca sempre soube que voltaria; o que acabou semostrando uma coisa boa, pois vinha se 
preocupando com a sade de Dris nos ltimos 

#
dois anos. E ela tambm sabia que seria a bibliotecria, 
como sua me havia sido, e tinha a 
esperana de fazer da biblioteca algo de que acidade sentisse orgulho.
No,  claro que no era um trabalho dos maisglamourosos, e tambm no pagava muito. A 
biblioteca era uma obra em andamento, mas a primeira 
impresso fora decepcionante. O andar debaixo abrigava apenas fico contempornea,
enquanto no andar de cima ficavam os livros deno-fico e fico clssica, ttulos adicionais de 
autores contemporneos e colees nicas. Ela 
duvidava que o sr. Marsh percebesse que a 
biblioteca estava espalhada pelos dois andares, 
uma vez que o acesso para as escadas ficava nosfundos do edifcio, perto da sala das crianas. Umdos inconvenientes de ter uma biblioteca instalada 
em uma residncia antiga era que a arquiteturano havia sido planejada para o trnsito do 
pblico. Mas o lugar a agradava.
Seu escritrio no andar de cima era quase sempretranqilo, e ficava perto de sua parte favorita dabiblioteca. Uma pequena sala prxima da sua 
abrigava os ttulos raros, livros que ela havia 
adquirido em vendas de esplios e de garagem,
doaes, em visitas a livrarias e comerciantes de 
todo o estado, projeto que sua me havia iniciado.
Ela tambm tinha uma coleo de mapas e 
manuscritos histricos em desenvolvimento, 
alguns dos quais datavam de antes da Guerra 
Revolucionria. Essa era sua paixo. Estava 
sempre em busca de algo especial, e era capaz de 
usar de charme, malcia ou at implorar para 

#
conseguir o que queria. Quando nada disso 
funcionava, ela apontava para as possibilidades dededuo no pagamento de impostos e  por tertrabalhado muito para desenvolver contatos entreadvogados da rea tributria 
e governamental emtodo o Sul do pas  freqentemente recebia 
coisas muito antes que as outras bibliotecas 
sequer soubessem de sua existncia. Apesar deno ter os recursos da Duke, da Wake Forest ou da 
Universidade da Carolina do Norte, sua biblioteca 
era considerada uma das melhores entre as 
bibliotecas pequenas do estado, seno do pas.
E era assim que ela a via agora. Sua biblioteca, 
como se essa fosse sua cidade. E neste instante 
um estranho estava esperando por ela, um estranho 
que queria escrever uma histria que talvezno fosse boa para seu povo.
Oh, ela bem que o vira chegar de carro. Vira-o sairdo carro e dar a volta pela frente. Sacudira a 
cabea, reconhecendo quase que imediatamente osujeito arrogante cheio de confiana da cidade. Eleera apenas mais um de uma longa lista de pessoasvindas de algum 
lugar mais extico, pessoas queacreditavam ter uma compreenso mais profundaa respeito do que era a vida real. Pessoas que 
diziam que a vida poderia ser muito mais 
emocionante, mais gratificante, se voc sasse 
dali. Alguns anos atrs, ela se apaixonara poralgum que acreditava nessas coisas, e recusava-
se a ser levada por essas idias novamente.
Um cardeal pousou no beiral da janela. Ela ficouvendo o passarinho, desanuviou a cabea, e entosuspirou. Est certo, ela concluiu, teria de ir falar 

#
com o sr. Marsh de Nova Iorque. Afinal, ele estavaesperando por ela.
Ele tinha vindo de longe, e a hospitalidade sulista

 assim como o seu trabalho  exigiam que ela oajudasse a encontrar o que precisava. O mais 
importante, entretanto, era que pudesse ficar deolho nele. Ela estaria em condies de filtrar as 
informaes de forma que ele entendesse os 
aspectos positivos da vida naquele lugar.
Ela sorriu. Sim, ela conseguiria lidar com o sr. 
Marsh. Alm disso, tinha de admitir, ele era muito 
bonito, apesar de no ser confivel. 
Jeremy Marsh parecia quase entediado.
Ele caminhava por um dos corredores, os braoscruzados, olhando superficialmente os ttulos 
contemporneos. De vez em quando franzia a testa, 
como se perguntasse por que no havia nadade Dickens, Chaucer ou Austen. Caso ele 
perguntasse a respeito, ela ficou imaginando qualseria a reao dele se respondesse apenas 
"Quem?". Pelo que conhecia dele  embora 
tivesse de admitir que no o conhecia em absoluto 
e estava apenas fazendo suposies , 
provavelmente ficaria olhando para ela de bocaaberta do mesmo modo como fizera antes, quandose encontraram no cemitrio. Homens, ela pensou.
Sempre previsveis.
Ela arrumou o suter, demorando-se um poucomais antes de caminhar em direo a ele. Sejaprofissional, ela ordenou a si mesma, voc estcumprindo uma obrigao. 

#
 Imagino que esteja procurando por mim  ela 
anunciou, forando um sorriso apertado.
Jeremy ergueu os olhos ao ouvir sua voz, e poralguns instantes pareceu ter congelado no lugar 
em que estava. Ento, sorriu imediatamente ao 
reconhec-la. Ele pareceu bastante amigvel  
tinha uma covinha linda , mas o sorriso era um 
pouco estudado e no foi suficiente para ofuscar aconfiana que havia em seus olhos. 
 Voc  Lex?  ele perguntou. 
  a forma curta de Lexie. Lexie Darnell.  como 
Dris me chama. 
 Voc  a bibliotecria? 
 Quando no estou passeando por cemitrios e
evitando homens que ficam encarando, tento ser. 
 Bom,  isso  ele disse, tentando pronunciar as
palavras da maneira como haviam sido ditas por
Dris. 
Ela sorriu e passou por ele para arrumar alguns
livros na prateleira que Jeremy havia examinado. 
 Seu sotaque no engana, sr. Marsh  ela disse. 
 Parece que est tentando encontrar palavras
para um jogo de palavras cruzadas.
Ele sorriu francamente, sem se deixar perturbar
pelo comentrio.  Voc acha?  ele perguntou.
Definitivamente um sedutor, ela pensou. 
 Eu sei  ela continuou arrumando os livros.  
Agora, no que posso ajud-lo, sr. Marsh? Imagino 
que esteja procurando informaes sobre o 
cemitrio? 
 Minha reputao me precede. 
 Dris telefonou para me avisar que estava acaminho, 
#
 Ah  ele observou.  Eu deveria saber. Ela  
uma mulher interessante. 
 Ela  minha av. 
Jeremy ergueu as sobrancelhas.  isso, ele pensou,
desta vez guardando as palavras para si mesmo.
Mas que coisa interessante!  Ela lhe contou a 
respeito do nosso delicioso almoo?  ele 
perguntou. 
 Para ser sincera, eu no perguntei.  Ela 
empurrou o cabelo para trs da orelha, e no pde
deixar de pensar que aquela covinha era do tipo
que fazia as crianas pequenas terem desejos de
enfiar o dedo para brincar. No que ela se 
importasse,  claro. Ela terminou de arrumar os 
livros e o olhou de frente, mantendo o tom de voz 
firme.  Acredite ou no, estou bastante ocupada 
neste momento  ela afirmou.  Estou 
sobrecarregada com trabalhos que preciso 
terminar de redigir ainda hoje. Que tipo de 
informao o senhor estava procurando?
Ele sacudiu os ombros.  Qualquer coisa que
pudesse me ajudar com a histria do cemitrio e
da cidade. Quando as luzes comearam. Qualquer
estudo que tenha sido feito no passado. Qualquer
histria que mencione a lenda. Mapas antigos. 
Informaes sobre Riker's Hill e a topografia. 
Registros histricos. Coisas assim.  Ele fez uma 
pausa, estudando os olhos violeta novamente. Eles
eram realmente bastante exticos. E ali estava ela 
bem perto dele, em vez de caminhando a 
distncia. Ele achou que isso tambm era 
interessante. 
#
 Devo confessar que  bastante surpreendente,
no ?  ele perguntou, encostando-se na 
prateleira ao lado dela.
Ela o encarou.  Desculpe? 
 Encontrar voc no cemitrio e agora aqui. A 
carta de sua av, que me trouxe at aqui.  uma
coincidncia e tanto, voc no acha? 
 No posso dizer que tenha pensado muito 
nisso. 
Jeremy no iria permitir que o desencorajassem.
Raramente conseguiam desencoraj-lo, 
especialmente quando as coisas estavam 
interessantes.  Bem, j que eu no sou daqui,
talvez voc pudesse me contar o que  que as
pessoas fazem para relaxar por aqui. Quer dizer,
existe algum lugar onde se possa tomar um caf?
Ou beliscar alguma coisa?  ele parou.  Talvez 
um pouco mais tarde, depois que voc sair?
Ela piscou os olhos, pensando se tinha ouvido 
direito.  Est me convidando para sair?  ela 
perguntou.
 Somente se no estiver ocupada. 
 Eu acho  ela disse, recompondo-se  que 
terei de recusar. Mas muito obrigada por ter 
convidado. 
Ela sustentou o olhar dele, at que Jeremy
finalmente ergueu as mos em sinal de rendio. 
 Est bem  ele disse, com a voz calma.  Mas 
voc no pode culpar um cara por tentar  ele 
sorriu, a covinha aparecendo de novo.  Ser que
agora podemos comear a fazer a pesquisa? Isto
, se no estiver muito ocupada com seu trabalho. 
#
Eu posso voltar amanh se achar que  mais 
conveniente. 

 H alguma coisa em especial por onde gostaria
de comear? 
 Eu esperava poder ler o artigo publicado no 
jornal local. Ainda no tive a oportunidade. Por 
acaso voc teria o artigo por aqui?
Ela fez que sim com a cabea.  Provavelmente 
em um microfilme. Temos trabalhado com o jornal
nos ltimos anos, por isso acho que no teremos
problema algum para encontr-lo. 
 timo  ele disse.  E as informaes a 
respeito da cidade em geral? 
 Esto no mesmo lugar.
Ele olhou rapidamente ao redor, imaginando para
onde poderia ir. Ela comeou a andar em direo
ao salo. 
 Por aqui, sr. Marsh. Vai encontrar o que precisa
no andar de cima. 
 H um andar de cima! 
Ela voltou a cabea, falando sobre os ombros.  
Se me seguir, prometo que lhe mostro.
Jeremy teve de acelerar o passo para acompanhla. 
 Importa-se se eu lhe fizer uma pergunta?
Ela abriu a porta principal e parou.  Em absoluto
 ela respondeu, com a expresso inalterada. 
 Por que estava no cemitrio hoje?
Em vez de responder, ela simplesmente o encarou,
mantendo a mesma expresso. 
 Quer dizer, eu estava apenas pensando  
Jeremy continuou.  Fiquei com a impresso de
que poucas pessoas vo at l atualmente. 
#
Ela continuou sem dizer nada, e com o silncio, 
Jeremy foi ficando mais curioso, at finalmente 
sentir-se desconfortvel. 

 Voc no vai dizer nada?  ele perguntou.
Ela sorriu e, para sua surpresa, piscou o olho antesde atravessar a porta aberta.  Eu disse quepoderia fazer a pergunta, sr. Marsh. Eu no disseque iria responder.
Enquanto ela caminhava  sua frente, tudo o queJeremy conseguiu fazer foi olhar para ela com osolhos fixos. Nossa, ela era realmente uma coisa, 
no era? Confiante e bonita e charmosa ao mesmo 
tempo, e tudo isso depois de ter descartado a 
idia de aceitar um convite para sair.
Talvez Alvin estivesse certo, ele pensou. Talvez 
existisse alguma coisa nas belezas sulistas capazde levar um homem  loucura. 
Eles atravessaram o salo, passaram pela sala deleitura das crianas, e Lexie conduziu-o escadas 
acima. Fazendo uma parada no topo, Jeremy olhouao redor. 
 isso, ele pensou de novo.
Havia mais coisas naquele lugar alm de algumasprateleiras raquticas cheias de livros novos. Muitomais. E tambm muito de um sentimento gtico,
devido ao cheiro de poeira e  atmosfera de 
biblioteca particular. Com paredes cobertas porpainis de carvalho, piso de mogno e cortinas corde vinho, a sala cavernosa era completamentediferente do espao no 
andar de baixo. Cadeirasexageradamente estofadas e imitaes de luminrias 
Tiffany ocupavam os cantos. Na longa 

#
parede do lado oposto havia uma lareira, com umquadro pendurado em cima dela, e as janelas, 
estreitas como eram, permitiam que entrasse 
apenas luz suficiente para dar ao lugar uma 
sensao de ambiente confortvel. 

 Agora eu entendo  Jeremy observou.  O 
andar de baixo  apenas um aperitivo. Aqui emcima  que as coisas realmente acontecem.
Ela assentiu com a cabea.  A maioria dos 
nossos visitantes vem  procura dos ttulos maisrecentes de autores que eles conhecem, por issomontei aquela rea no andar de baixo, para queficasse mais acessvel. 
A sala  pequena porque ausvamos como escritrio antes da transformao. 
 E onde fica o escritrio agora? 
 Bem ali  ela disse, apontando para os fundos,
atrs da ltima estante.  Ao lado da sala dos 
livros raros. 
 Uau! Estou impressionado.
Ela sorriu.  Vamos, vou lhe mostrar o que temosaqui e lhe falar deste lugar.
No minuto seguinte, eles j estavam conversandoenquanto passeavam por entre as prateleiras. A 
casa, ele ficou sabendo, havia sido construda em 
1874 por Horace Middleton, capito que tinha feitosua fortuna transportando madeira e tabaco emseu navio. Ele construra a casa para sua mulher e 
sete filhos, mas, infelizmente, nunca chegou a 
morar ali. Pouco antes de terminar a construo, 
sua mulher faleceu, e ele decidiu mudar-se com a 
famlia para Wilmington. A casa ficou vazia 
durante anos, depois foi ocupada por outra famliaat os anos cinqenta, quando foi finalmente 
#
vendida para a Sociedade Histrica, que mais 
tarde a vendeu para a prefeitura, a fim de ser 
usada como biblioteca. 
Jeremy ouvia atentamente enquanto ela falava. 
Eles caminhavam lentamente, com Lexie 
interrompendo sua prpria histria para apontaralguns de seus livros favoritos. Ela era, como eleficou sabendo rapidamente, muito mais instruda 
que ele, especialmente nos clssicos, mas fazia 
sentido, agora que ele havia pensado sobre isso.
Por que outra razo ela se tornaria bibliotecria, seno amasse os livros? Como se soubesse o que ele 
estava pensando, ela parou e foi at uma 
prateleira cuja placa apontou com o dedo. 

 Esta seo provavelmente est mais de acordocom sua rea de atuao, sr. Marsh. 
Ele olhou para a placa e leu as palavras 
SOBRENATURAL/BRUXARIA. Ele diminuiu o passo 
mas no parou, dando apenas uma olhada em 
alguns dos ttulos, incluindo um a respeito das 
profecias de Michel de Nostredame. Nostradamus,
como  mais conhecido, divulgou uma centena deprevises extremamente vagas em 1555, em umlivro chamado Centrias, o primeiro de dez queescreveu ao longo da vida. 
Das mil profecias de 
Nostradamus que chegaram a ser publicadas, 
somente umas cinqenta ainda so citadas 
atualmente, o que d meros 5% de ndice de 
sucesso. 
Jeremy enfiou as mos nos bolsos.  Eu talvez 
possa lhe dar algumas boas indicaes, se quiser. 
 Com certeza. Eu no sou to orgulhosa que nopossa admitir que preciso de ajuda. 
#
 Voc j leu estas coisas? 
 No. Francamente, eu no acho o assunto to 
interessante. Quer dizer, eu folheio esses livros 
quando chegam, olho as figuras, dou uma passadade olhos pelas concluses para ver se so 
apropriadas, mas  s isso. 
 A idia  boa  ele disse.  Talvez seja o 
melhor a fazer. 
 Mas  interessante. Algumas pessoas da cidadeno gostam que eu mantenha qualquer livro a 
respeito desse assunto. Especialmente os quefalam de bruxaria. Elas acham que  m influnciapara os jovens. 
 E so.  tudo mentira. 
Ela sorriu.  Pode ser que sim, mas no  essa a 
questo. Eles querem sumir com esses livros 
porque acreditam que  realmente possvelconjurar o demnio, e acreditam que as crianas 
que lem esse assunto podem acidentalmente 
inspirar Satans a investir furiosamente sobre 
nossa cidade. 
Jeremy assentiu com a cabea.  A Juventude 
Impressionvel do Cinturo da Bblia. Faz sentido. 
 Mas no v contar a ningum que eu lhe disseisso. Voc sabe que o que estamos falando aqui extra-oficial, certo? 
Ele levantou a mo.  Palavra de escoteiro. 
Por alguns instantes, eles caminharam em silncio.
O sol de inverno mal conseguia atravessar as 
nuvens cinzentas, e Lexie parou diante de algumasluminrias para acender as luzes. Um brilho 
amarelado se espalhou pela sala. Nesse momento, 
#
ele conseguiu sentir o leve aroma de flores do 
perfume que ela estava usando.
Jeremy caminhou distraidamente em direo ao 
retrato que estava sobre a lareira.  Quem ?
Lexie parou, acompanhando seu olhar.   minhame  ela respondeu.
Jeremy olhou para ela com uma interrogao no 
rosto, e Lexie respirou profundamente antes de 
responder. 

 Depois que a biblioteca original foi totalmentedestruda pelo fogo em 1964, minha me assumiucomo dever pessoal a tarefa de encontrar um novolugar e comear tudo 
de novo, j que todos nacidade consideravam essa idia impossvel. Ela 
tinha apenas vinte e dois anos, e passou muitos 
anos ainda fazendo lobby junto a pessoas da 
prefeitura e do estado para arrecadar fundos, 
organizando bazares, indo de porta em porta na 
casa dos homens de negcios da cidade, 
implorando ajuda, at eles cederem e lhe 
entregarem um cheque. Demorou anos, mas ela 
finalmente conseguiu.
Enquanto ela falava, os olhos de Jeremy iam deLexie para o quadro, e depois voltavam para Lexie.
Havia uma semelhana, ele pensou, algo que eledeveria ter notado imediatamente. Especialmente 
os olhos. Apesar de ter sido arrebatado 
instantaneamente pelo tom violeta, agora que 
estava mais prximo percebia que os olhos de 
Lexie tinham um toque de azul-claro ao redor dacor violeta, um azul que de certa forma lembrava a 
cor da bondade. Apesar do retrato ter tentado 
#
capturar a cor incomum, no conseguira chegarperto da verdadeira.
Quando Lexie terminou de contar sua histria, 
prendeu uma mecha solta de cabelo atrs da 
orelha. Parecia que ela repetia esse gesto com 
freqncia, Jeremy reparou. Provavelmente um 
tique nervoso. O que, com certeza, significava queele a deixava nervosa. Para ele, isso era um bom 
sinal. 
Jeremy limpou a garganta.  Ela parece ter sidouma mulher fascinante  ele disse.  Eu adoraria 
conhec-la. 
O sorriso de Lexie oscilou ligeiramente, como sehouvesse mais coisas a contar, mas, em vez disso, 
ela sacudiu a cabea.  Sinto muito  ela disse. 

 Acho que j falei demais. Voc est aqui paratrabalhar e eu o estou prendendo aqui.  Ela 
acenou em direo  sala de livros raros.  Talvez 
seja melhor eu lhe mostrar o lugar em que vocvai ficar engaiolado pelos prximos dias. 
 Voc acha que vai demorar tanto tempo? 
 Voc queria referncias histricas e o artigo, 
certo? Eu adoraria lhe dizer que todas as 
informaes foram catalogadas, mas no foram.
Voc vai ter pela frente um bocado de pesquisabastante cansativa. 
 H tantos livros assim para examinar? 
 No so apenas livros, apesar de termos umaquantidade razovel de livros que voc talvez achetil. Mas eu acho que voc vai encontrar boa partedas informaes 
que est procurando nos dirios.
Eu decidi que iria reunir o mximo que pudesseentre as pessoas que vivem na regio, e temos 
#
uma coleo e tanto atualmente. Tenho alguns, 
inclusive, que datam do sculo XVII. 

 Voc por acaso no tem o de Hettie Doubilet,
tem? 
 No. Mas tenho alguns que pertenciam s 
pessoas que viviam em Watts Landing, e tenho at 
o de algum que se considerava historiador 
amador da regio. Mas voc no pode examinaresse material fora do espao da biblioteca. E vailevar algum tempo para ver tudo. Alguns so 
quase ilegveis. 
 Mal posso esperar  ele disse.  Eu vivo para apesquisa cansativa. Ela sorriu.  Eu seria capaz deapostar que voc  muito bom nisso. Ele arqueouas sobrancelhas. 
 Sou mesmo. Sou bom em uma 
poro de coisas. 
 Eu no tenho dvida, sr. Marsh. 
 Jeremy  ele disse.  Me chame de Jeremy.
Ela ergueu uma das sobrancelhas.  Eu no tenho
certeza de que essa seja uma boa idia. 
  claro que  uma boa idia  ele disse.  
Confie em mim. 
Ela riu com desdm. Sempre  espreita da caa,
esse a.   uma oferta tentadora  ela disse.  
Realmente. E fico lisonjeada. Mesmo assim, eu no
o conheo bem o bastante para confiar em voc,
sr. Marsh. 
Jeremy ficou olhando-a divertido enquanto ela se
virava, pensando que j havia encontrado esse 
tipo antes. Mulheres que usavam a inteligncia
para manter os homens a distncia, normalmente
os tratavam com uma certa rispidez, mas com ela,
isso de certa forma parecia quase... bem, 
#
charmoso e bem-intencionado. Talvez fosse o 
sotaque. O modo como parecia cantar as palavras,
era bem provvel que ela conseguisse convencerum gato a nadar no rio.
No, ele se corrigiu, no era apenas o sotaque. Oua inteligncia, o que ele apreciava. Ou seus olhosdeslumbrantes e sua aparncia usando jeans. Est 
certo, tudo isso fazia parte, mas havia mais 
alguma coisa. Era... o qu? Ele no a conhecia, nosabia nada a respeito dela. Pensando bem, ela notinha dito muita coisa a respeito dela mesma. 
Tinha falado muito a respeito dos livros e de suame, mas ele no sabia absolutamente nada a 
respeito dela.
Ele estava aqui para escrever um artigo, mas, comuma sbita sensao de desnimo, percebeu quepreferiria passar as prximas horas com Lexie. 
Gostaria de passear com ela pela cidade de BooneCreek ou, melhor ainda, jantar com ela em um 
restaurante romntico, longe dali, onde os dois 
pudessem ficar sozinhos e se conhecer. Ela era 
misteriosa, e ele gostava de mistrios. Mistrios 
sempre levavam a surpresas, e enquanto a seguiaem direo  sala de livros raros, no pde deixarde pensar que sua viagem para o Sul do pas tinhacomeado a ficar 
muito mais interessante. 

A sala de livros raros era pequena, provavelmenteum antigo dormitrio, e ainda era dividida por umaparede baixa, de madeira, que ia de um lado aoutro da sala. As 
paredes tinham sido pintadas debege tom de areia, com acabamento em branco, e 

o piso de madeira estava gasto, mas no 
#
deformado. Atrs da parede havia prateleiras altascom livros; em um canto havia uma caixa com 
tampo de vidro que parecia uma arca do tesouro,
com uma televiso e um aparelho de videocassetedo lado, sem dvida para a exibio de fitas 
referentes  histria da Carolina do Norte. Do lado 
oposto ao da porta, uma janela, e debaixo dela 
uma escrivaninha antiga com tampo corredio. 
Uma pequena mesa com um aparelho para leiturade microfichas estava bem  direita de Jeremy, eLexie apontou para ele. Andando at a 
escrivaninha, ela abriu a ltima gaveta e depoisvoltou trazendo uma pequena caixa com cartes.
Colocando a caixa na mesa, ela procurou pelos 
cartes transparentes e tirou um. Inclinando-se 
para o lado dele, ligou o aparelho e colocou a 
transparncia, mexendo-a at que o artigoestivesse na frente e no centro. Mais uma vez ele 
captou um leve trao de seu perfume, e no 
instante seguinte estava diante do artigo. 
 Voc pode comear com isso  ela disse.  
Vou levar alguns minutos procurando mais algumacoisa que lhe possa ser til. 

 Este aqui foi rpido  ele falou. 
 Esse no foi muito difcil. Eu me lembrava da 
data do artigo. 
 Impressionante. 
 Na verdade, no. Ele foi publicado no dia do 
meu aniversrio. 
 Vinte e seis? 
 Por volta disso. Agora, deixe-me ver o que mais 
posso encontrar. Ela se virou e caminhou em 
direo s portas vaivm de novo. 
#
 Vinte e cinco?  ele falou em voz alta. 
 Boa tentativa, sr. Marsh. Mas eu no estou 
brincando. 
Ele riu. Definitivamente, essa seria uma semana 
interessante. Jeremy voltou sua ateno para o 
artigo e comeou a ler. Estava escrito exatamenteda forma que ele esperava  com muito exagero esensacionalismo, com arrogncia suficiente parasugerir que todos 
os habitantes de Boone Creeksabiam desde sempre que o lugar era mais do queespecial.
Ele descobriu poucas novidades. O artigo falava dalenda original, descrevendo-a praticamente da 
mesma maneira como Dris havia feito, com 
variaes mnimas no conjunto. No artigo, Hettievisitava os vereadores da cidade, e no o prefeito, 
e ela era da Luisiana, no do Caribe. O interessante 
 que ela aparentemente lanara a 
maldio diante das portas do tribunal da cidade,
causando um grande tumulto, e ento foi levadapara a priso. Quando os guardas foram solt-la namanh seguinte, descobriram que ela havia 
desaparecido, como se tivesse evaporado. Depoisdisso, o xerife recusou-se a tentar prend-la denovo, porque tinha medo de que ela lanasse umamaldio sobre sua 
famlia tambm. Mas todas as 
lendas eram semelhantes: as histrias foram se 
espalhando e sendo ligeiramente alteradas para 
ficar mais atraentes. E, ele tinha de admitir, a 
parte do desaparecimento era interessante. Ele 
teria de descobrir se ela havia sido realmente 
presa e se tinha realmente escapado. 
#
Jeremy olhou por cima do ombro. Nenhum sinal deLexie ainda. 
Olhando de volta para a tela, ele calculou que 
talvez pudesse acrescentar algo ao que Dris 
havia lhe contado a respeito de Boone Creek, e 
mexeu o aparelho para ver outras coisas na 
microficha transparente. Outros artigos 
apareceram diante de seus olhos. Num total de 
quatro pginas, estavam todas as notcias da 
semana  o jornal era publicado toda tera-feira 

 e ele descobriu rapidamente o que a cidade 
tinha a oferecer. Era uma leitura brilhante, a 
menos que voc quisesse a cobertura de qualquer 
outra coisa que estivesse acontecendo em 
qualquer outro lugar do mundo, ou qualquer coisaque pudesse ao menos manter seus olhos abertos.
Ele leu a respeito de um jovem que fez todo ojardim do prdio dos veteranos de guerra para ter
o direito de ser um comandante dos Escoteiros, 
sobre uma nova lavanderia com lavagem a secoque abrira na Main Street, e um resumo de umaassemblia realizada na cidade, onde o ponto altoda pauta era decidir se 
deveriam colocar ou no 
um semforo na Leary Point Road. A primeirapgina era dedicada  cobertura realizada durantedois dias sobre um acidente de automvel, em quedois homens da regio 
haviam sofrido pequenosferimentos. Ele se recostou na cadeira. 
Ento a cidade era exatamente o que ele 
esperava. Sonolenta e tranqila, e especial 
daquela forma que todas as comunidades 
pequenas proclamam ser, mas nada alm disso.
Era o tipo de cidade que continuava a existir mais 
#
por causa do hbito do que em razo de algumaqualidade nica, e acabaria desaparecendo nas 
dcadas seguintes  medida que a populao 
envelhecesse. Ali no havia futuro, pelo menos,
no a longo prazo. 

 Lendo a respeito desta nossa cidade to 
excitante?  ela perguntou. Ele deu um pulo, 
surpreso por no ter percebido que ela se 
aproximara
por trs, e sentindo-se estranhamente triste com o
estado das coisas por ali.  Sim. E  excitante, 
tenho de admitir. Aquele comandante dos Escoteiros 
foi demais. Puxa. 
 Jimmie Telson  ela disse.  Ele  realmente 
um grande garoto. S tira nota A e  um timo 
jogador de basquete. Seu pai morreu no ano passado, 
mas ele ainda faz trabalhos voluntrios pela
cidade, apesar de agora trabalhar meio perodo na
Pete's Pizza. Temos orgulho dele. 
 Estou impressionado com esse garoto.
Ela sorriu, pensando " claro que est".  Aqui 
ela disse, colocando uma pilha de livros ao lado
dele.  Estes devem ser suficientes para voc 
comear. 
Ele passou os olhos pelos ttulos.  Pensei que
voc tinha dito que seria melhor eu comear pelos
dirios. Isso aqui  histria geral. 
 Eu sei. Mas voc no quer entender primeiro o
perodo em que viviam?
Ele vacilou.  Acho que sim  ele admitiu. 
 Bom  ela disse. Distraidamente, ela puxou a
manga do suter.  E eu descobri um livro com 
histrias de fantasmas que talvez possa interess
#
lo. Tem um captulo no livro que fala de CedarCreek. 

 Que timo. 
 Bom, vou deixar voc comear seu trabalho. 
Daqui a pouco eu volto para ver se est 
precisando de mais alguma coisa. 
 Voc no vai ficar? 
 No. Como lhe disse antes, tenho muito 
trabalho para fazer. Agora, voc pode ficar aqui, 
ou pode sentar em uma das mesas do salo 
principal. Mas agradeceria se no tirasse os livrosdeste lugar. Nenhum desses livros, especialmente,
pode sair daqui. 
 Eu no me atreveria  ele disse. 
 Agora, se me der licena, sr. Marsh, eu 
realmente preciso ir. E lembre-se de que, apesarde a biblioteca ficar aberta at s sete, a sala dos 
livros raros fecha s cinco. 
 At para os amigos? 
 A, no. Eu os deixo ficar o tempo que 
quiserem. 
 Ento eu a vejo s sete? 
 No, sr. Marsh. Eu o vejo s cinco.
Ele riu.  Talvez amanh voc me deixe ficar at 
mais tarde. Ela ergueu as sobrancelhas sem 
responder, depois caminhou alguns passos at a 
porta. 
 Lexie? 
Ela se virou.  Sim? 
 Voc ajudou muito at agora. Obrigado.
Ela exibiu um sorriso adorvel, genuno.  No 
tem de qu. 
#
Jeremy passou as horas seguintes examinando 
informaes sobre a cidade. Ele folheou os livros 
um por um, demorando-se nas fotografias e lendoas partes que achava apropriadas.
A maior parte das informaes referia-se s 
histrias dos primrdios da cidade, e ele anotou oque considerou serem observaes relevantes nobloco de papel que tinha a seu lado. E claro queele no tinha muita 
certeza sobre o que seria 
relevante quela altura, ainda era cedo para dizer; 
e, assim, suas anotaes encheram algumas 
pginas.
Ele tinha aprendido com a prpria experincia quea melhor maneira de abordar uma histria como 
aquela era comeando pelo que ele sabia. Assim... 

o que ele sabia com certeza? Que o cemitrio 
tinha sido usado por aproximadamente um sculo,
sem que se tivesse visto qualquer luz misteriosa.
Que as luzes apareceram pela primeira vez h 
cerca de um sculo e que apareciamregularmente, mas apenas quando o tempo estavanebuloso. Que muitas pessoas haviam visto, o quesignificava que era pouco provvel 
que as luzesfossem mero fruto da imaginao. E,  claro, que ocemitrio estava afundando. 
Assim, mesmo depois de algumas horas, ele nosabia muito mais do que quando comeara. Como 
a maioria dos mistrios, era um quebra-cabea 
com muitas peas discrepantes. A lenda, tivesse 
Hettie amaldioado ou no a cidade, era 
essencialmente uma tentativa de unir algumas 
peas de maneira compreensvel. Mas como a 
lenda tinha em sua base uma coisa falsa, 
#
significava que algumas peas  quaisquer que 
fossem  ou estavam sendo superestimadas ou 
ignoradas. E isso significava,  claro, que Lexie 
estava certa. Ele tinha de ler tudo para no deixarpassar nada.
Sem problemas. Na verdade, essa era a parte 
agradvel. A busca da verdade era sempre mais 
divertida do que ficar escrevendo a verdadeira 
concluso, e ele se viu mergulhado no assunto.
Descobriu que Boone Creek havia sido fundada em1729, o que a tornava uma das cidades mais 
velhas do estado, e durante muito tempo no foranada alm de um pequeno vilarejo s margens dorio Pamlico e do crrego Boone. Mais tarde, aindano mesmo sculo, tornou-se 
um pequeno porto dosistema hidrovirio do interior do estado; o 
crescimento da cidade foi acelerado pelo uso debarcos a vapor em meados dos anos 1800. Pertodo final do sculo XIX, o boom ferrovirio atingiu a 
Carolina do Norte; as florestas foram arrasadas 
enquanto os animais de caa sumiram. A cidade 
foi mais uma vez afetada, devido  sua localizao 
como porta de sada para as ilhotas do Outer 
Banks. Depois disso, a tendncia da cidade foi 
acompanhar os picos de desenvolvimento da 
economia no resto do estado, apesar de a populao 
ter se mantido estvel at 
aproximadamente 1930. De acordo com o censomais recente, a populao da cidade tinha, na 
verdade, sofrido uma queda, o que no o 
surpreendia nem um pouco.
Ele tambm leu a respeito do cemitrio no livro dehistrias de fantasmas. Nessa verso, Hettie tinha 

#
amaldioado a cidade, no porque os corpos docemitrio haviam sido removidos, mas porque elahavia se recusado a sair do caminho e seguir pelaestrada, quando a mulher 
de um dos polticos seaproximou dela, vindo em sentido contrrio. 
Contudo, por ser considerada quase uma figura 
espiritual em Watts Landing, ela acabou 
escapando da priso; ento, alguns dos maioresracistas da cidade decidiram resolver esse assunto 
com as prprias mos e causaram enormes estragos 
ao cemitrio dos negros. Num acesso de 
clera, Hettie amaldioou o Cemitrio de Cedar 
Creek e jurou que seus ancestrais iriam vagar pelarea do cemitrio, at que ele fosse 
completamente engolido pela terra.
Jeremy recostou-se na cadeira, pensando. Trs 
verses completamente diferentes de uma lendaessencialmente idntica. Ficou imaginando o quesignificaria aquilo.
O interessante era que o autor do livro  A. J. 
Morrisson  havia acrescentado um psfacio, emitlico, afirmando que o cemitrio de Cedar Creektinha realmente comeado a afundar. De acordo 
com pesquisas, as bases do cemitrio haviam 
afundado cerca de meio metro; o autor no dava 
qualquer explicao.
Jeremy verificou a data da publicao. O livro tinhasido escrito em 1954, e pelo estado do cemitrioatualmente, ele deduzia que afundara pelo menosmais um metro 
desde ento. Ele fez uma anotao 
para lembrar de verificar se havia pesquisas 
relativas quele perodo, assim como qualquer 
outra, feita mais recentemente. 

#
Todavia, enquanto absorvia as informaes, ele 
no conseguia deixar de olhar por cima do ombro 
vez por outra, contando com a possibilidade 
remota de Lexie ter voltado. 

No outro lado da cidade, na passagem para o 
dcimo quarto buraco e com o celular colado naorelha, o prefeito procurava entender, atravs dobarulho dos sinais provocados pela esttica, o que 
estavam falando do outro lado da linha. A 
recepo era ruim nesse lado da cidade, e o 
prefeito ficou imaginando se levantar seu taco demdia distncia acima da cabea poderia ajudar aentender melhor o que estava sendo dito. 

 Ele esteve no Herbs? Hoje no almoo? Voc 
falou Primetime Live! 
Ele assentiu com a cabea, fingindo que no tinhapercebido que seu companheiro de golfe, que porsua vez estava fingindo que procurava a bolinhade sua ltima tacada, 
tinha acabado de tirar a bola 
de trs de uma rvore para deix-la numa posiomelhor. 
 Encontrei!  gritou o amigo, comeando a sepreparar para a tacada seguinte.
O amigo do prefeito fazia coisas iguais quela otempo todo, o que francamente no incomodavaem nada o prefeito, j que ele tambm fazia coisasassim. Seria impossvel 
manter sua desvantagemde trs pontos de outra forma.
Entrementes, enquanto a pessoa que havia feito achamada conclua a conversa, seu amigo 
arremessou a bola na direo das rvores 
novamente. 
#
 Maldio!  ele gritou. O prefeito o ignorou. 
 Bom, isso  realmente interessante  disse o 
prefeito, sua mente fervilhando com as 
possibilidades  e fico muito feliz por voc ter 
ligado. Agora, tome cuidado. Tchau.
Ele fechou o celular no instante em que seu amigose aproximava. 
 Espero que voc invente uma boa mentira 
agora. 
 Eu no ficaria to preocupado  disse o 
prefeito, avaliando os repentinos acontecimentos 
na cidade.  Tenho certeza de que vai acabar 
exatamente onde voc quer. 
 E quem era no telefone? 
 O destino  ele anunciou.  E se jogarmos 
direito, pode ser nossa salvao. 
Duas horas depois, quando o sol se punha atrsdas copas das rvores e as sombras comeavam ase estender pelas janelas, Lexie enfiou a cabeana entrada da sala de 
livros raros. 

 Como est indo? 
Olhando por cima do ombro, Jeremy sorriu. 
Afastando-se da mesa, ele passou a mo pelo 
cabelo.  Bem  ele disse.  Descobri muitas 
coisas. 
 Voc j tem a resposta mgica? 
 No, mas estou chegando perto. D pra sentir.
Ela entrou na sala.  Que bom. Mas, como eu jlhe disse, normalmente fecho este lugar s cinco,
para poder me dedicar s pessoas que passam poraqui depois do trabalho. 
#
Ele ficou em p ao lado da mesa.  Sem 
problemas. Estou ficando um pouco cansado, dequalquer forma. Foi um longo dia. 

 Voc vai voltar amanh de manh, certo? 
  o que eu estava planejando. Por qu? 
-Bem, normalmente eu coloco tudo de volta nas 
prateleiras diariamente. 
 Ser que pode deixar a pilha de livros 
exatamente do jeito que est, por enquanto?
Tenho certeza de que vou precisar rever a maioria
deles. 
Ela pensou um pouco.  Acho que no tem 
problema. Mas tenho de avis-lo de que se no
aparecer logo cedinho, vou achar que me enganei
com voc. 
Ele assentiu com a cabea, parecendo solene.  
Eu prometo que no vou deixar voc esperando.
Eu no sou esse tipo de cara.
Ela girou os olhos, pensando "Meu Deus!". Como 
ele era persistente. Isso ela tinha de admitir.  
Tenho certeza de que diz isso para todas as garotas, 
sr. Marsh. 
 No  ele disse, apoiando-se na mesa.  Para
falar a verdade, eu sou muito tmido. Quase um 
eremita... Srio. Eu quase no saio.
Eia deu de ombros.  Apenas mostra o que eu j 
sei. Considerando que voc  um jornalista da 
cidade grande, eu j o tinha imaginado como um
sedutor. 
 E isso a incomoda? 
 No. 
 timo. Porque, como voc sabe, a primeira 
impresso pode enganar. 
#
 Ah, eu percebi isso imediatamente. 
  mesmo? 
 Claro  ela disse.  Quando o encontrei pelaprimeira vez no cemitrio, achei que estivesse lpor causa de algum funeral. 
Captulo 

CINCO 

Quinze minutos mais tarde, depois de andar poruma estrada de asfalto que levava a outra estradade cascalho  eles certamente adoravam cascalho 
por ali , Jeremy estacionou o carro no meio deum pntano, exatamente na frente de uma placapintada  mo que dizia Greenleaf Cottages. O que 

o lembrou de que nunca deveria confiar nas 
promessas da Cmara de Comrcio local.
Moderno, definitivamente no era. No deveria ter 
sido moderno nem trinta anos atrs. Ao todo, 
havia seis pequenos chals dispostos ao longo dorio. Com a pintura descascando, as paredes feitasde tbuas de madeira e teto de zinco, o acesso a 
#
eles se dava atravs de pequenas trilhas cheias desujeira que saam de um chal localizado no 
centro, e que ele imaginou ser o escritrio central.
Era pitoresco, ele tinha de admitir, mas o aspectorstico certamente devia ser creditado aos 
mosquitos e jacars, nenhum dos quais 
despertava nele muito entusiasmo para permanecer 
ali. 
Enquanto estava pensando se devia sequer se darao trabalho de registrar-se  ele havia passado 
por alguns hotis de redes hoteleiras de Washington, 
h cerca de quarenta e cinco minutos dedistncia de Boone Creek , ele ouviu o barulho 
de um motor vindo pela estrada e viu quando umCadillac marrom veio em sua direo, 
chacoalhando violentamente nos buracos. Para 
sua surpresa, o carro parou diretamente ao ladodo seu, levantando pedras na freada.
Um homem gordo e careca abriu a porta do carrocom violncia, parecendo agitado. Vestindo calade polister verde e um suter de gola alta azul, ohomem parecia ter 
escolhido as roupas no escuro. 

 Sr. Marsh? 
Jeremy foi pego de surpresa:  Sim?
Com uma corridinha, o homem deu a volta em 
torno do carro. Tudo nele parecia mover-se 
rapidamente. 
 Bom, que bom que eu o alcancei antes de se
registrar no hotel! Queria ter a chance de 
conversar com o senhor! Nem sei como lhe dizer o 
quanto estamos entusiasmados com a sua visita!
Ele parecia sem flego ao estender a mo e 
sacudir a de Jeremy vigorosamente. 
#
 Eu o conheo?  Jeremy perguntou. 
 No, no,  claro que no.  O homem riu.  
Sou o prefeito Tom Gherkin. Pode me chamar deTom  ele riu de novo.  Eu s queria passar poraqui para lhe dar as boas-vindas  nossa pacatacidade. Desculpe por 
aparecer assim. Eu o teria 
recebido no escritrio l na cidade, mas vim direto 
do campo de golfe, assim que soube que estavaaqui.
Jeremy examinou-o novamente, ainda em estadode choque. Pelo menos isso explicava a roupa. 
 O senhor  o prefeito? 
 Tenho sido desde 1994.  uma espcie de 
tradio na famlia. Meu pai, Owen Gherkin, foi oprefeito daqui durante vinte e quatro anos. Interessava-
se muito pela cidade, o meu pai. Sabiatudo o que era preciso saber a respeito deste 
lugar.  claro que ser prefeito  apenas um 
trabalho de meio perodo por aqui.  mais uma 
posio honorria. Eu sou mais uma espcie dehomem de negcios, se quer saber a verdade. Sou
o dono da loja de departamentos e da estao derdio da cidade. Velha-guarda. O senhor gosta davelha-guarda? 
 Claro  disse Jeremy. 
 Bom, bom. Percebi isso assim que pus os olhosno senhor. Disse para mim mesmo "A est um 
homem que aprecia a boa msica". Eu no 
agento a maior parte desse negcio novo quetodo mundo chama de msica atualmente. Me d 
dor de cabea. A msica deveria confortar a alma. 
Entende o que eu quero dizer? 
 Claro  Jeremy repetiu, tentando acompanhar. 
#
Ele riu.  Eu sabia que sim. Bom, como eu disse, 
nem sei como lhe dizer como estamos 
emocionados por estar aqui para escrever uma 
histria sobre a nossa tranqila cidade.  
exatamente o que esta cidade precisa. Quer dizer, 
quem no gosta de uma boa histria de 
fantasmas, certo? Deixa o pessoal bem animadopor aqui, isso  certo. Primeiro os camaradas daDuke, depois o jornal da regio. E agora um 
jornalista da cidade grande. A notcia est se 
espalhando, e isso  bom. Puxa, na semana 
passada ligou um grupo do Alabama para dizer 
que estavam pensando em vir passar uns dias 
aqui e neste fim de semana fazer o Passeio pelasCasas Histricas. 
Jeremy sacudiu a cabea, tentando desacelerar oritmo.  Como ficou sabendo que eu estava aqui?
O prefeito Gherkin colocou uma mo amigvel em 
seu ombro, e antes mesmo que Jeremypercebesse, eles estavam caminhando em direoao chal do escritrio.  As notcias correm, sr. 
Marsh. Passam como um rojo. Foi sempre assim,
e sempre ser.  parte do encanto deste lugar. 
Isso, e a beleza natural. Sabe que ns temos 
algumas das melhores pescarias e tambm a 
melhor caa ao pato do estado? Vem gente detoda parte, at gente famosa, e a maioria fica bemaqui, em Greenleaf. Isso aqui  um pequenopedao do paraso, se quiser 
saber o que eu acho.
Seu prprio chal sossegado, bem aqui no meio danatureza. Puxa, voc vai poder ouvir passarinhos egrilos a noite inteira. Aposto que vai fazer voc 

#
enxergar aqueles hotis de Nova Iorque de um 
modo inteiramente novo. 

 Vai mesmo  Jeremy admitiu. O homem era 
definitivamente um poltico. 
 E no precisa se preocupar nem um pouco comas cobras. Jeremy arregalou os olhos.  Cobras? 
 Tenho certeza de que j ouviu falar, mas 
acredite que toda aquela confuso do ano passadofoi apenas um mal-entendido. Alguns camaradassimplesmente no tm um pingo de bom senso.
Mas como eu lhe disse, no se preocupe com elas.
Normalmente, as cobras no saem at o vero, de 
qualquer forma.  claro, no v sair por a 
cutucando os arbustos ou algo parecido, 
procurando por elas. Essas serpentes podem ser 
desagradveis. 
 Ah  Jeremy falou, tentando elaborar uma 
resposta em meio  imagem que havia se formadoem sua mente. Ele odiava cobras. Mais ainda quemosquitos e jacars.  Para falar a verdade, eu 
estava pensando...
O prefeito Gherkin suspirou profunda e to 
sonoramente que interrompeu a resposta de 
Jeremy, ento olhou em volta, como para se certificar 
de que Jeremy estava percebendo o quanto eleapreciava a paisagem ao redor.  Ento, Jeremy,
me diga... voc no se importa que eu o chame deJeremy? 
 No. 
  muita gentileza sua. Muita gentileza. Ento, 
Jeremy, eu estava pensando se voc acha que umdesses programas de televiso poderia 
complementar a sua histria por aqui. 
#
 Eu no fao idia  ele disse. 
 Bom, porque se puderem, ns estenderamos otapete vermelho para eles. Mostraramos como  averdadeira hospitalidade do Sul. Puxa, ns os 
colocaramos bem aqui em Greenleaf, sem cobrarnada. E,  claro, eles teriam uma histria 
fantstica para mostrar. Muito melhor do que 
aquilo que voc fez no Primetime Live. O que ns 
temos aqui  de verdade. 
 Ser que o senhor entende que, antes de maisnada, eu escrevo para uma coluna? Normalmente,
eu no tenho nada a ver com a televiso... 
 No, claro que no  o prefeito Gherkin piscouo olho, deixando claro que no acreditava.  Faa
o que tem de fazer, e vamos ver o que acontece. 
 Estou falando srio  Jeremy 
disse. Ele piscou de novo.   
claro que est.
Jeremy no tinha muita certeza sobre o que 
poderia dizer para dissuadi-lo  principalmente 
porque o homem poderia estar certo  e no instante 
seguinte o prefeito Gherkin j estava abrindoa porta do escritrio. Se  que se poderia chamarassim. 
Parecia que aquele lugar no era reformado hsculos, e as paredes de madeira lembraram-nodo que poderia encontrar numa cabana da floresta. 
Um pouco alm da mesa instvel havia um 
peixe serrandeo de boca enorme, pendurado naparede; em cada canto, ao longo das paredes, e 
em cima do arquivo e da mesa havia bichos 
empalhados: castores, coelhos, esquilos, gambs,
doninhas e um texugo. Ao contrrio da maioria das 
#
montagens desse tipo que ele j vira, entretanto,
todos os bichos tinham sido colocados como se 
estivessem encurralados e tentando se defender. 
As bocas estavam como que rosnando, os corposarqueados, os dentes e patas expostos. Jeremyainda estava absorvendo as imagens quando deucom um urso no canto e pulou 
assustado. Assimcomo os outros animais, as patas do urso estavamestendidas como se ele fosse atacar. O lugarparecia o Museu de Histria Natural, transformadoem um 
filme de terror e trancado num armrio. 
Atrs da mesa, um homem enorme e barbudo 
estava sentado com os ps para cima, uma 
televiso na frente dele. A imagem tinha chuviscose umas linhas verticais atravessavam a tela a cada 
segundo, fazendo com que fosse quase impossvelver o que estava passando.
O homem ficou em p atrs da mesa e continuou alevantar-se, agigantando-se diante de Jeremy. Eledevia ter mais de dois metros, e seus ombros 
eram mais largos que os do urso empalhado no 
canto. Vestido com um macaco e uma camisa 
xadrez, ele pegou uma prancheta e a colocou 
sobre a mesa. 
Ele apontou para Jeremy e para a prancheta. Nosorriu; para todos os efeitos, parecia que ele noqueria outra coisa seno arrancar os braos do 
corpo de Jeremy, a fim de us-los para bater nele,
antes de o empalhar e colocar na parede.
Gherkin, como era de se prever, riu. O homem riabastante, Jeremy percebeu. 

 No precisa ficar nem um pouco preocupadocom ele, Jeremy  o prefeito falou correndo.  O 
#
Jed no  de falar muito com estranhos.  s 
preencher a ficha, e poder seguir seu caminhopara o seu prprio quartinho no paraso.
Jeremy mantinha os olhos arregalados presos emJed, pensando que o homem era a pessoa maisassustadora que j havia visto na vida. 

 Alm de ser o proprietrio do Greenleaf e de
trabalhar na assemblia da cidade, ele  o 
taxidermista da regio  continuou Gherkin.  O 
trabalho dele no  incrvel? 
 Incrvel  Jeremy disse, forando um sorriso. 
 Se matar qualquer coisa por aqui, procure o 
Jed. Ele vai fazer um timo servio. 
 Vou tentar me lembrar disso. 
O prefeito ficou subitamente animado.  Voc 
caa, no? 
 No muito, para ser honesto. 
 Bom, talvez a gente mude isso enquanto est
por aqui. Eu j falei que a caa ao pato por aqui 
espetacular, no falei?
Enquanto Gherkin falava, Jed bateu com seu dedo
enorme na prancheta de novo. 
 Escuta, no tente intimidar nosso camarada  
interferiu o prefeito Gherkin.  Ele  de Nova 
Iorque.  um jornalista da cidade grande, por isso
trate ele direito. 
O prefeito Gherkin voltou sua ateno para Jeremy 
novamente.  E, Jeremy, s pra voc saber, a 
cidade ter prazer em pagar por suas acomodaes 
por aqui. 
 Isso no  necessrio... 
 Nem mais uma palavra  ele disse, ignorando
a ofensa.  A deciso j foi tomada pelos manda
#
chuvas  ele piscou.  Que sou eu, por acaso. 
Mas  o mnimo que podemos fazer por um 
convidado to ilustre. 

 Bem, obrigado.
Jeremy pegou a caneta. Comeou a preencher aficha de registro, sentindo os olhos de Jed em cimadele e com medo do que poderia acontecer se 
mudasse de idia sobre ficar ali. Gherkin inclinou-
se sobre seu ombro. 
 Eu j lhe disse o quanto estamos emocionadospor t-lo em nossa cidade? 
Do outro lado da cidade, em uma casinha branca 
com persianas azuis, em uma rua tranqila, Drisestava refogando bacon, cebola e alho, enquantouma panela com macarro fervia em outra bocado fogo. Lexie estava 
picando tomates e 
cenouras sobre a pia, lavando-as enquanto executava 
a tarefa. Depois de ter sado da biblioteca,
ela passara na casa de Dris, como fazia 
normalmente algumas vezes por semana. Apesarde ter sua prpria casa ali perto, freqentementejantava na casa de sua av. Velhos hbitos no 
mudam, e coisas assim. 
No beiral da janela, o rdio tocava jazz, e alm da 
conversa rotineira, tpica dos membros de uma 
famlia, nenhuma das duas tinha dito muita coisa. 
Para Dris, o assunto era o longo dia no trabalho.
Desde que sofrera um ataque do corao dois 
anos atrs, ela se cansava com mais facilidade, 
mesmo que no quisesse admitir isso. Para Lexie, 

o assunto era Jeremy Marsh, apesar de estar 
calejada para saber que no devia comentar nada 
#
com Dris, pois ela sempre se interessara demaispor sua vida pessoal, e Lexie tinha aprendido queera melhor evitar o assunto sempre que possvel.
Lexie sabia que sua av no fazia por mal. Drissimplesmente no entendia porque uma pessoa detrinta anos ainda no tinha se assentado, e ela 
havia chegado num ponto em que estava sempre 
se perguntando porque  que Lexie ainda no 
estava casada. Apesar de muito astuta, Dris eraantiquada; ela havia casado aos vinte e passara os 
quarenta anos seguintes com um homem que 
adorava, at ele morrer, trs anos atrs. Lexie 
tinha sido criada pelos avs, no final das contas, epodia muito bem condensar toda a lengalenga deDris em apenas alguns poucos pensamentos: j 
estava na hora de encontrar um bom rapaz,
assentar o juzo, mudar para uma casa com cercade madeira branca e ter bebs. 
O desejo de Dris no era assim to estranho, 
Lexie sabia. Por ali, pelo menos, era isso o que seesperava das mulheres. E quando se permitia serfranca consigo mesma, Lexie s vezes tambm 
desejava ter uma vida assim. Pelo menos na 
teoria. Mas ela queria primeiro encontrar o homemcerto, algum que a inspirasse, o tipo de homemque ela teria orgulho de chamar de seu homem.
Era nisso que ela e Dris divergiam. Dris pareciaachar que um homem de bem, decente, e com umbom emprego era tudo o que uma mulher sensatapoderia desejar. E, talvez 
no passado, essas fossem 
as qualidades que se poderia esperar. Mas 
Lexie no queria ficar com algum apenas por eleser bom e decente e ter um bom emprego. Quem 

#
sabe  talvez ela tivesse expectativas irreais , 
mas Lexie tambm queria se sentir apaixonadapor ele. No importava a bondade ou o senso deresponsabilidade, se ela no se sentisse 
apaixonada por esse homem, no conseguiria 
evitar a sensao de que estaria se acomodando a 
algum, e ela no queria se acomodar. Isso no 
seria justo com ela e no seria justo com ele. Elaqueria um homem que fosse sensvel e bom, mas 
que conseguisse arrebat-la completamente.
Queria algum que lhe oferecesse uma massagemnos ps depois de um longo dia na biblioteca, mas 
que tambm a desafiasse intelectualmente. Um 
homem romntico,  claro, algum capaz de lhecomprar flores, sem que houvesse qualquer razopara isso.
No era pedir muito, era?
De acordo com a Glamour, a Ladies home Journal e 
a Good housekeeping  a biblioteca recebia essas 
revistas  era. Nessas revistas, parecia que cadaartigo declarava que cabia inteiramente  mulherfazer com que a relao fosse sempre estimulante.
Mas uma relao no deveria ser exatamente 
isso? Uma relao? Com ambos os parceirosfazendo tudo o que estivesse  seu alcance paramanter o outro satisfeito? 
Veja, esse era o problema enfrentado por muitoscasais que ela conhecia. Em qualquer casamento,
era preciso equilibrar delicadamente o que vocgostaria de fazer e o que o seu companheiro 
gostaria de fazer, e enquanto o marido ou a 
mulher estivessem fazendo o que o outro queria, 
nunca havia problema. Os problemas surgiam 

#
quando as pessoas comeavam a fazer o quequeriam sem se importar com o outro. Um maridoque decidia de uma hora para outra que precisavade mais sexo e saa procurando 
fora do 
casamento; uma mulher que decidia que precisavade mais afeto, o que acabava levando-a a fazerexatamente a mesma coisa. Um bom casamento, 
como qualquer sociedade, significava a 
subordinao de suas prprias necessidades s daoutra pessoa, na expectativa de que o outro fosseagir da mesma maneira. E enquanto ambos os 
parceiros mantivessem sua parte no acordo, tudoestaria bem no mundo. 
Mas se voc no sentisse nenhuma paixo por seumarido, ser que poderia esperar uma coisa 
dessas? Ela no tinha certeza. Dris,  claro, tinha 
uma resposta pronta. "Acredite em mim, querida,
isso passa depois dos primeiros anos", ela diria,
apesar do fato de que, na cabea de Lexie, dequalquer forma, seus avs haviam tido o tipo derelacionamento que qualquer um invejaria. Seu 
av era um daqueles homens naturalmente 
romnticos. At o final, ele abria a porta do carro 
para Dris e segurava sua mo quando 
caminhavam pela cidade. Ele fora totalmente 
dedicado e fiel a ela. Era bvio que ele a adorava eestava sempre comentando como tivera a sorte deencontrar uma mulher como ela. Depois de sua 
morte, uma parte de Dris tambm comeou a 
morrer. Primeiro, o ataque cardaco; agora, a piorada artrite. Era como se eles tivessem sido feitos 
um para o outro. Qual seria o significado disso,
quando ligado ao conselho de Dris? Significaria 

#
que Dris simplesmente tivera sorte por encontrarum homem como ele? Ou ela teria visto algumacoisa em seu marido, algo que depois confirmariaque ele era o homem 
certo para ela?
Agora, o que teria levado Dris a sequer pensarem casamento novamente? 
Provavelmente, o fato de estar ali na casa de 
Dris, a casa onde tinha sido criada depois da 
morte de seus pais. Cozinhando ao lado dela, Lexiesentia uma familiaridade reconfortante, e se 
lembrava de ter crescido pensando que um dia 
viveria numa casa como aquela. Tbuas de 
madeira gastas; teto de zinco que amplificava obarulho da chuva, como se toda a chuva do mundo 
estivesse caindo ali; janelas antiquadas, com 
caixilhos que haviam sido pintados tantas vezesque era quase impossvel abri-las. E ela realmentemorava numa casa como aquela. Bom, mais ou 
menos, de qualquer forma.  primeira vista, 
poderia parecer que a casa de Dris e a sua eramparecidas  elas haviam sido construdas na 
mesma poca , mas ela jamais havia conseguidoreproduzir os aromas. Os cozidos das tardes de 
domingo, o cheiro dos lenis secados ao sol, oodor levemente abafado da velha cadeira de 
balano onde seu av havia descansado durante 
anos. Odores como esses refletiam um estilo de 
viver sereno, com muita tranqilidade ao longodos anos; e toda vez que abria as portas daquelacasa, ela era invadida pelas lembranas vvidas dainfncia. 
Naturalmente, sempre havia imaginado quequela altura teria sua prpria famlia, talvez at 

#
filhos, mas no tinha dado certo. Dois de seus 
relacionamentos haviam chegado bem perto: 
houve o longo relacionamento com Avery, quetinha comeado na faculdade, e, depois desse, umoutro envolvendo um jovem de Chicago, que vieravisitar um primo em Boone 
Creek no vero. Ele era

o clssico homem da Renascena: falava quatrolnguas, havia passado um ano estudando na 
School of Economics de Londres, e pagara todos osseus estudos com uma bolsa que conseguira porser bom jogador de baseball. O sr. Renascena era 
charmoso e extico, e ela se apaixonara por elerapidamente. Ela acreditou que ele ficaria ali, 
achou que ele tivesse aprendido a amar a cidadetanto quanto ela, mas, ao acordar num sbado demanh, ficou sabendo que ele estava voltando 
para Chicago. Ele jamais se preocupou em se 
despedir pelo menos.
E depois disso? Nada demais, para dizer a 
verdade. Houve dois namoricos que duraram maisou menos seis meses, e sobre os quais ela nunca 
pensou muito a respeito, depois que acabaram. 
Um deles tinha sido com um mdico da cidade, o 
outro com um advogado; os dois a haviam pedidoem casamento, porm, novamente, ela no sentiraa magia ou a emoo, ou o que quer que fosse que 
se devia sentir, para saber que no seria mais 
necessrio continuar procurando. Nos ltimos 
anos, ela havia tido muito menos encontros e 
muito mais espaados, a menos que se levasse emconsiderao Rodney Hopper, assistente do xerife 
na cidade. Eles haviam sado uma dezena de 
vezes, mais ou menos uma vez por ms, sempre 
#
que havia um evento beneficente do qual ela seanimava a participar. Como ela, Rodney tambmhavia nascido e crescido ali, e quando eram 
crianas costumavam brincar na gangorra queficava atrs da igreja episcopal. Ele passara a vidatentando conquist-la e freqentemente a 
convidava para beber alguma coisa no Lukilu. s 
vezes, ela se perguntava se no seria melhor 
simplesmente ceder e aceitar seu pedido para sair 
com ele mais vezes, mas Rodney... bem, ele 
gostava um pouco demais de pescar e caar e 
levantar peso, e no demonstrava um interesseminimamente razovel por livros e pelo que 
acontecia no resto do mundo. Mas ele era um 
sujeito bacana, e ela achava que ele daria um 
timo marido. Mas no para ela. Sendo assim, 
aonde  que ela iria parar?
Ali na casa de Dris, trs vezes por semana, elapensou,  espera das inevitveis perguntas sobresua vida amorosa. 

 Ento, o que achou dele?  Dris perguntou,
nesse exato momento. Lexie no conseguiu evitar
o sorriso.  Quem?  ela perguntou, fazendo-se 
de inocente. 
 Jeremy Marsh. De quem voc acha que eu 
estava falando? 
 Eu no fao a menor idia. Foi por isso que fiz a 
pergunta. 
 No tente evitar o assunto. Eu soube que elepassou algumas horas na biblioteca.
Lexie deu de ombros.  Ele pareceu uma pessoa 
agradvel. Eu o ajudei a encontrar alguns livrospara comear sua pesquisa, e isso foi tudo. 
#
 Voc no conversou com ele? 
  claro que conversamos. Como voc disse, ele
ficou l durante algum tempo.
Dris ficou esperando que Lexie dissesse mais 
alguma coisa, mas como isso no aconteceu, 
soltou um suspiro profundo.  Bom, eu gostei dele 
 Dris falou.  Ele me pareceu um perfeito 
cavalheiro. 
 Ah, isso foi  Lexie concordou.  
Simplesmente perfeito. 
 Voc no me parece muito convincente. 
 O que mais voc quer que eu diga? 
 Bem, ele ficou encantado com sua 
personalidade fascinante? 
 Por que cargas d'gua isso teria alguma
importncia? Ele s vai ficar na cidade por alguns
dias. 
 Alguma vez eu lhe falei a respeito do dia em
que conheci seu av? 
 Vrias vezes  Lexie respondeu, lembrando-se 
perfeitamente da histria. Eles haviam se 
conhecido em um trem que ia para Baltimore; ele 
era de Grifton e estava a caminho de uma 
entrevista para um emprego, um emprego que ele
jamais assumiria, preferindo ficar com ela. 
 Ento voc sabe que  muito provvel que voc
conhea algum quando menos espera. 
 Voc sempre diz isso.
Dris piscou.  S porque eu acho que voc 
precisa estar sempre ouvindo isso.
Lexie colocou a travessa com a salada na mesa.  
Voc no precisa se preocupar comigo. Eu sou 
feliz. Adoro o meu trabalho, tenho timos amigos, 
#
tenho tempo para ler e para me exercitar e fazeras coisas de que gosto. 

 E no se esquea tambm da bno que 
voc me ter ao seu lado. 
  claro  Lexie concordou.  Como que 
poderia esquecer isso?
Dris deu um risinho de satisfao e voltou para o
fogo. Por alguns momentos, a cozinha ficou em
silncio, e Lexie soltou um suspiro de alvio. Pelo 
menos aquele assunto estava encerrado, e 
felizmente Dris no havia insistido muito. Agora,
ela pensou, poderiam ter um jantar agradvel. 
 Eu acho que ele  muito bem-apessoado  
Dris falou. 
Lexie ficou quieta; em vez de falar qualquer coisa,
pegou dois pratos e talheres antes de voltar para a 
mesa. Talvez fosse melhor simplesmente fingir 
que no tinha ouvido. 
 E s para voc saber, ele  mais interessante
do que aparenta ser  Dris continuou.  Ele no
 o que voc est pensando.
Foi o jeito como ela falou isso o que fez Lexie 
vacilar. Ela j havia ouvido aquele tom muitas 
vezes no passado  quando estava no colegial e 
quis fazer um passeio com os amigos, e Dris 
conseguiu convenc-la a desistir de ir; quando ela
quis fazer uma viagem para Miami alguns anos
atrs, e Dris fez com que mudasse de idia. No
primeiro caso, os amigos com quem queria sair
acabaram se envolvendo em um acidente de 
carro; no segundo, uma srie de tumultos tomou
conta da cidade, envolvendo o hotel em que ela
pretendia ficar hospedada. 
#
Dris s vezes tinha pressentimentos, ela sabia 
disso. No com a intensidade de sua prpria me.
Mas apesar de Dris nunca dar muitas explicaes,
Lexie estava perfeitamente consciente de queseus pressentimentos eram sempre verdadeiros. 

Completamente alheio ao burburinho das pessoas 
que comentavam sua presena na cidade, 
congestionando as linhas telefnicas, Jeremy 
estava deitado na cama sob as cobertas, 
assistindo o noticirio local enquanto esperava asnotcias sobre a previso do tempo, desejando terseguido seu impulso inicial de procurar outro hotelpara ficar. 
Ele no tinha dvida de que se tivessefeito isso, no estaria cercado pelas obras de Jed,
que lhe causavam calafrios.
O cara certamente tinha muito tempo disponvelpara manter as mos ocupadas.
E muitas balas. Ou chumbo. Ou a dianteira de uma 
pick-up. Ou o que quer que ele usasse para matartodos aqueles animais. Em seu quarto, havia dozecriaturas; havia representantes de todas as 
espcies de animais da Carolina do Norte para lhefazer companhia, menos um segundo urso 
empalhado. Mas ele no tinha dvida de que Jedteria colocado outro urso ali, se dispusesse de 
mais um. 
Fora isso, o quarto no era to ruim, desde queno se esperasse uma conexo rpida de internet,
ou o aquecimento do quarto sem necessidade deacender a lareira, ou mesmo chamar o servio de 
quarto, assistir TV a cabo, ou ainda fazer uma 
ligao num telefone de teclas. Ele no via um 

#
telefone com disco h quanto tempo? Dez anos?
At sua me havia sucumbido ao mundo moderno 
nesse aspecto.
Mas no o Jed. No, senhor. O bom e velho Jed 
certamente tinha suas prprias idias a respeitodo que era importante no que dizia respeito sacomodaes de seus hspedes.
Se havia uma coisa decente em relao quelequarto, entretanto, era a bela varanda coberta nosfundos, que dava para o rio. Tinha at uma cadeirade balano, e Jeremy 
chegou a pensar em ficarsentado l fora, at se lembrar das cobras. O que olevou a pensar sobre que espcie de mal-
entendido Gherkin estivera falando. Ele no 
gostava daquilo. Ele realmente deveria ter feito 
mais perguntas, assim como deveria ter 
descoberto onde  que poderia encontrar madeira 
para a lareira por ali. Aquele lugar era 
absolutamente congelante, mas ele tinha a 
divertida suspeita de queJed no atenderia o telefone, se ele tentasse falar 
com o escritrio para fazer algum pedido. Alm domais, Jed o aterrorizava. 
Nesse momento, entrou a previso do tempo nonoticirio. Revestindo-se de coragem, Jeremy saiuda cama para aumentar o volume. Movimentando-
se com a maior rapidez possvel, ele tremia ao 
mexer no boto, voltando rapidamente para 
debaixo das cobertas. 
O moo da meteorologia foi substitudo 
rapidamente pelos comerciais. Palpites...
Ele estivera pensando se deveria ir at o 
cemitrio, mas queria descobrir qual era a 

#
probabilidade de haver neblina. Se no houvesse,
ele pretendia descansar. Tinha sido um longo dia;
havia comeado no mundo moderno, retrocedera 
cinqenta anos no tempo e agora estava dormindono meio do frio e da morte. Certamente, isso no 
era algo que lhe acontecia todos os dias.
E,  claro, havia Lexie. Lexie qualquer-que-fosseseu-
sobrenome. Lexie, a misteriosa. Lexie, que 
flertava e recuava e flertava de novo. 
Ela tinha flertado, no tinha? O modo como insistia 
em cham-lo de sr. Marsh? O fato de ter fingidoque o havia analisado quase que imediatamente?
A observao sobre o funeral? Definitivamente, 
isso era flerte. 
No era? 
O moo da previso do tempo apareceu 
novamente na tela, com cara de quem tinha 
acabado de sair da faculdade. O rapaz no deviater mais do que vinte e trs ou vinte e quatro 
anos, e no havia dvida de que esse era seu 
primeiro emprego. Ele tinha aquela aparnciaespantada de um animal pego de surpresa, masainda assim cheio de entusiasmo. Pelo menos o 
cara parecia ser competente. Ele no tropeava 
nas palavras, e Jeremy percebeu quase 
imediatamente que no iria sair do quarto. A 
previso era de que o cu ficaria limpo durantetoda a noite, e o homem tambm no dissera nada 
sobre a possibilidade de haver neblina no dia 
seguinte.
Estimativas, ele pensou. 

#
Captulo
SEIS 


Na manh seguinte, depois de um banho com 
pingos de gua morna, Jeremy enfiou-se numa 
cala jeans, num suter e numa jaqueta de couromarrom e dirigiu-se ao Herbs, que parecia ter ocaf-da-manh mais popular da cidade. Do balco,
ele viu o prefeito Gherkin conversando com algunshomens de terno, e Rachel ocupada em servir asmesas. Jed estava sentado no outro lado do salo, 
parecendo o lado escuro de uma montanha. Tullyestava sentado em uma das mesas do centro com 
trs outros homens e, como se poderia esperar, falava 
praticamente sozinho. As pessoas haviam 
mexido a cabea e acenado quando Jeremy 
passara pelas mesas, e o prefeito erguera sua 
xcara para saud-lo. 

 Bom dia, sr. Marsh  disse o prefeito Gherkin. 
 Pensando em coisas positivas para escrever arespeito de nossa cidade, eu espero. 
  claro que est  disse Rachel, intrometendo-
se. 
#
 Espero que tenha encontrado o cemitrio  
acrescentou Tully. Ele se inclinou na direo dos 
outros que estavam na mesa.  Aquele l  odoutor de quem eu estava falando para vocs.
Jeremy acenou e inclinou a cabea como resposta,
tentando evitar que o pegassem para uma 
conversa. Ele nunca fora exatamente uma pessoamatinal e, alm disso, no tinha dormido muito 
bem. Frio e morte, somados a pesadelos com 
cobras poderiam fazer isso com uma pessoa. Eledecidiu sentar-se em uma mesa no canto, e Rachel 
aproximou-se rapidamente, levando com ela umbule de caf. 
 Nenhum funeral hoje?  ela provocou. 
 No. Eu decidi adotar um visual mais comum  
ele explicou. 
 Caf, querido? 
 Por favor. 
Depois de virar a xcara, ela a encheu at a borda. 
 Que tal experimentar nosso especial hoje? As
pessoas daqui adoram. 
 O que  o especial? 
 Omelete Carolina. 
 Claro  ele respondeu, sem ter idia do que 
pudesse vir na omelete Carolina, mas com o 
estmago roncando, qualquer coisa parecia boa. 
 Com cereais e biscoito? 
 Por que no?  ele perguntou. 
 Estarei de volta em cinco minutos, querido.
Ele comeou a tomar seu caf lentamente, 
enquanto passava os olhos pelo jornal do dia 
anterior. Por todas as suas quatro pginas, 
inclusive a grande matria da primeira pgina 
#
sobre a sra. Judy Roberts, que acabara de celebrarseu centsimo aniversrio, marco que era agoraalcanado por 1,1 por cento da populao. Junto 
com o artigo havia uma foto da equipe quetrabalhava no abrigo para idosos segurando umbolinho com uma nica vela acesa, enquanto a 
sra. Roberts aparecia deitada na cama atrs deles,
como se estivesse em estado de coma. 
Ele ergueu os olhos para ver pela janela,
imaginando porque haveria de se preocupar com ojornal local. Havia uma mquina automtica do 
lado de fora exibindo exemplares do USA Today, e 
ele estava remexendo nos bolsos  procura de 
algum trocado quando um policial uniformizado 
ocupou um lugar na mesa exatamente na frentedele. 
O homem parecia extremamente mal-humorado; 
seus bceps mantinham a camisa esticada e 
foravam a costura, e ele usava culos de sol 
espelhados que estavam fora de moda h algum 
tempo... quer dizer, h uns vinte anos, Jeremycalculou, desde que o seriado CHPs deixara de serapresentado. A mo dele descansava sobre o 
coldre, bem em cima de uma arma. Na boca, tinha 
um palito de dentes, que ele mexia de um lado 
para outro. Ele no disse absolutamente nada, 
ficou ali parado apenas encarando, dando a 
Jeremy tempo bastante para que estudasse seuprprio reflexo.
Aquilo era, Jeremy tinha de admitir, algo 
intimidador. 

 Posso ajud-lo?  Jeremy perguntou. 
#
O palito de dentes se mexeu de um lado para 
outro novamente. Jeremy fechou o jornal, 
imaginando que diabos estaria acontecendo. 

 Jeremy Marsh?  o policial perguntou. 
 Sim? 
 Foi o que pensei  ele disse.
Acima do bolso do peito do policial, Jeremy notou
que havia uma plaquinha brilhante com um nome
gravado. Mais um crach. 
 E voc deve ser o xerife Hopper? 
 Assistente do xerife  ele corrigiu. 
 Desculpe  Jeremy falou.  Eu fiz alguma coisaerrada, policial? 
 Eu no sei  Hopper respondeu.  Fez? 
 No que eu saiba.
O assistente de xerife Hopper mexeu o palito de
dentes de novo.  Est pensando em ficar por 
aqui algum tempo? 
 Apenas uma semana. Eu vim para escrever um
artigo... 
 Eu sei por que est aqui  Hopper interrompeu. 
 Eu s pensei em verificar pessoalmente. Eu 
gosto de fazer uma visita a estranhos que estejam
planejando ficar por aqui durante algum tempo.
Ele colocou a nfase na palavra "estranhos", 
fazendo com que Jeremy sentisse que isso era 
uma espcie de crime. Ele no tinha muita certeza
de que haveria alguma resposta capaz de dissipar 
a hostilidade, por isso recostou-se na cadeira e 
limitou-se ao bvio. 
 Sei  ele disse. 
 Ouvi dizer que pretende passar bastante tempona biblioteca. 
#
 Bem... talvez eu passe... 
 Hummm  o policial ruminou, cortando o que 
ia dizer. 
Jeremy pegou sua xcara de caf e tomou um gole, 
para ganhar algum tempo.  Desculpe, policial
Hopper, mas eu no tenho muita certeza sobre o
que est acontecendo aqui. 
 Hummm  Hopper ruminou novamente. 
 Voc no est incomodando nosso convidado, 
est, Rodney?  o prefeito falou do outro lado dosalo.  Ele  um visitante especial, est aqui 
para despertar o interesse pelo folclore local.
O policial Hopper no piscou ou tirou seus olhos decima de Jeremy. Qualquer que fosse a razo, eleparecia absolutamente zangado.  Apenas 
batendo um papo, prefeito. 
 Bem, deixe o homem tomar o seu caf-damanh 
 disse Gherkin, repreendendo-o enquantocaminhava na direo da mesa. Ele acenou com a 
mo.  Venha at aqui, Jeremy. H algumaspessoas que eu gostaria que voc conhecesse.
O policial Hopper franziu a testa, contrariado, 
quando Jeremy se levantou e deixou a mesa, 
caminhando em direo ao prefeito Gherkin.
Quando estava perto, o prefeito o apresentou aduas pessoas; uma delas era o cadavrico 
advogado da prefeitura, e a outra era um mdicotroncudo que trabalhava no ambulatrio da 
cidade. Ele teve a impresso de que ambos o 
estavam examinando da mesma maneira que opolicial Hopper. Fazendo uma avaliao, como elesdiziam. Enquanto isso, o prefeito continuou a falarsobre como era excitante 
a visita de Jeremy para a 
#
cidade. Inclinando-se para os outros dois, ele fez 
um gesto com a cabea, como um sinal de 
conspirao. 

 Isso pode at acabar no Primetime Live  ele 
sussurrou. 
 Verdade?  perguntou o advogado. Jeremy
avaliou que o cara poderia fingir tranqilamente
que era um esqueleto.
Jeremy mexeu-se no lugar, transferindo o peso de 
uma perna para a outra.  Bem, como eu estava 
tentando explicar para o prefeito ontem... O 
prefeito Gherkin deu-lhe um tapa nas costas, 
interrompendo-o. 
 Muito excitante  acrescentou o prefeito 
Gherkin.  Grande cobertura da televiso. 
Os outros acenaram com a cabea, com uma 
expresso de solenidade nos rostos. 
 E falando na cidade  acrescentou 
subitamente o prefeito , eu gostaria de convidlo 
para um pequeno jantar de boas-vindas hoje 
noite, com alguns poucos amigos mais prximos.
Nada exagerado,  claro, mas j que vai ficar aqui
por alguns dias, gostaria de lhe dar a oportunidade
de conhecer algumas das pessoas daqui.
Jeremy ergueu as mos.  Isso no  realmente 
necessrio... 
 Besteira  disse o prefeito Gherkin.   o 
mnimo que podemos fazer. E, no se esquea, 
algumas dessas pessoas que estou convidando 
viram os fantasmas, e voc ter a oportunidade de
entrevistar todos de uma s vez. As histrias deles 
podem at fazer com que tenha pesadelos. 
#
Ele ergueu as sobrancelhas; o advogado e o 
mdico aguardavam, cheios de expectativa.
Diante da hesitao de Jeremy, o prefeito no tevedvidas em dar o assunto por encerrado. 

 Que tal s sete horas?  ele disse. 
 Certo... est bem. Acho que est bem  Jeremy
concordou.  Onde ser o jantar? 
 Mais tarde eu lhe digo. Imagino que estar na
biblioteca, certo? 
 Provavelmente. 
O prefeito ergueu as sobrancelhas.  Pelo que sei,
j conheceu nossa tima bibliotecria, a srta. 
Lexie? 
 Sim, j. 
 Ela  uma mulher e tanto, no ? 
Havia, na sua entonao, uma leve sugesto de 
que o comentrio poderia ser interpretado de 
vrias formas, algo parecido com conversa de 
vestirio masculino. 
 Ela tem sido de grande ajuda  disse Jeremy.
O advogado e o mdico sorriram, mas antes que a
conversa fosse adiante, Rachel surgiu deslizando
ao seu lado, perto demais na verdade. Segurando
um prato na mo, ela puxou Jeremy. 
 Vamos l, querido. Aqui est o seu caf-damanh. 
Jeremy olhou para o prefeito. 
 Fique  vontade  disse o prefeito Gherkin, 
gesticulando.
Jeremy seguiu-a de volta at sua mesa. 
Felizmente, o policial Hopper j havia partido, e
Jeremy ocupou novamente seu lugar. Rachel 
colocou o prato diante dele. 
#
 E voc, aproveite. Eu falei para eles 
capricharem, pois voc  um visitante da cidade
de Nova Iorque. Eu simplesmente adoro aquele 
lugar! 
 Ah, voc j esteve l? 
 Bom, no. Mas eu sempre quis ir. Parece uma
cidade to... glamourosa e excitante. 
 Voc deveria conhecer. No h nenhum lugar
no mundo que se parea com ela.
Ela sorriu, parecendo envergonhada.  Nossa, sr. 
Marsh... isso  um convite? 
Jeremy ficou de queixo cado.  O qu?
Rachel, em contrapartida, parecia no ter 
reparado na expresso do rosto dele.  Bem, 
talvez eu queira lhe fazer algumas perguntas a 
respeito disso  ela suspirou, com a voz trmula. 
 E ficaria feliz em mostrar-lhe o cemitrio, 
qualquer noite dessas. Normalmente, eu saio 
daqui s trs horas da tarde.
 Eu no vou esquecer  Jeremy resmungou.
Durante os vinte minutos seguintes, enquanto 
Jeremy comia, Rachel passou pela mesa uma 
dezena de vezes, completando a xcara de caf em
todas elas, com um sorriso colado no rosto. 
Jeremy dirigiu-se para seu carro, recuperando-se
do que deveria ter sido um caf-da-manh 
tranqilo.
O policial Hopper. O prefeito Gherkin. Tully. 
Rachel. Jed. 
Uma cidadezinha americana era demais para 
encarar antes do caf-da-manh. 


#
No dia seguinte, tomaria apenas uma xcara decaf em algum outro lugar. Ele no tinha certezade que a comida do Herbs compensasse, mesmosendo realmente boa. E, ele 
tinha de admitir, era 
ainda melhor do que ele pensara que fosse. Comohavia dito Dris no dia anterior, o sabor era de 
alimentos frescos, como se os ingredientestivessem sido colhidos na fazenda naquela manh.
Mesmo assim, amanh o caf seria em qualqueroutro lugar. E certamente no seria no posto de 
Tully, presumindo que ali tivesse caf. Ele no 
queria que o prendessem numa conversa quandotinha tantas coisas para fazer.
Ele parou no meio do caminho, achando graa. 
Meu Deus, refletiu, eu j estou pensando como 
algum da cidade.
Balanou a cabea e procurou as chaves no bolso,
enquanto andava na direo do carro. Pelo menos 

o caf-da-manh tinha terminado. Olhando o 
relgio, viu que j eram quase nove horas da 
manh. timo. 
Lexie estava olhando pela janela de seu escritriono exato momento em que Jeremy Marsh entrouno estacionamento da biblioteca. 
Jeremy Marsh. Que continuava a atormentar seus 
pensamentos, apesar de fazer fora paraconcentrar-se no trabalho. E olhe para ele agora.
Tentando usar roupas mais comuns para se 
misturar com as pessoas da cidade, ela deduziu. Ede algum modo ele quase tinha conseguido.
Mas aquilo j havia durado muito. Havia muito 
trabalho a fazer. Seu escritrio estava cheio de 

#
estantes abarrotadas de livros de alto a baixo: livros 
empilhados de todas as maneiras, na verticale na horizontal. Um arquivo de ao cinza ocupava 
um dos cantos, e sua mesa e cadeira eram 
absolutamente funcionais. Havia pouca coisa no 
escritrio com funo decorativa, simplesmente 
por falta de espao, e havia formulrios para 
preencher por toda a sala: nos cantos, sob a 
janela, e na outra cadeira encostada em um dos 
cantos. Sobre a sua mesa tambm havia pilhasenormes, com o que ela considerava ser o mais 
urgente.
O oramento precisava ser fechado no final do 
ms, e havia uma pilha de catlogos de editoraspara revisar, antes de fazer o pedido semanal. Aisso precisava ser acrescentada a necessidade deencontrar algum para 
falar no almoo dos Amigosda Biblioteca em abril, e preparar tudo para o 
Passeio pelas Casas Histricas  do qual faziaparte a biblioteca, j que, sob certos aspectos, erauma casa histrica  e mal tivera tempo para respirar. 
Ela contava com duas funcionrias que 
trabalhavam em perodo integral, mas tinha 
aprendido que as coisas funcionavam melhor 
quando no delegava. As funcionrias eram timaspara recomendar os lanamentos mais recentes e 
para ajudar os estudantes a encontrar o que 
estivessem procurando, mas da ltima vez que 
deixara uma delas decidir o que deveria ser 
comprado, acabara recebendo seis ttulos 
diferentes a respeito de orqudeas, pois essa era aflor favorita da funcionria. Um pouco antes, 
depois de sentar-se diante do computador, havia 

#
tentado elaborar um plano para organizar sua 
agenda, mas no havia chegado a lugar algum.
No importava o quanto tivesse tentado esvaziar 
sua cabea, seus pensamentos continuavam 
voltando para Jeremy Marsh. Ela no queria pensarnele, mas Dris havia falado exatamente o 
suficiente para atiar sua curiosidade. 

Ele no  o que voc est pensando.

O que ser que aquilo queria dizer? Ontem  noite,
quando tentou pressionar Dris, ela ficou muda, 
como se no tivesse dito uma palavra. Ela no 
voltou a falar da vida amorosa de Lexie, tampoucode Jeremy Marsh. Em vez disso, ficaram desviandodo assunto: o que havia acontecido no trabalho, o 
que estava acontecendo com as pessoas que 
conheciam, como seria o Passeio pelas Casas 
Histricas no fim de semana. Dris era a 
presidente da Sociedade Histrica, e o passeio eraum dos grandes eventos do ano. No que exigissemuito planejamento. A maior parte dele era 
constituda pela mesma dezena de casas 
escolhidas todos os anos, alm das quatro igrejas 
e da biblioteca. Enquanto sua av tagarelava,
Lexie continuava pensando naquela frase. Ele no 
 o que voc est pensando.

E o que poderia ser? Um tipo de cidade grande?
Um galanteador? Algum  procura de uma 
aventura inconseqente? Algum que iria rir da 
cidade assim que partisse? Algum  procura deuma histria e disposto a encontrar uma da forma 
que pudesse, mesmo que acabasse ferindo 
algum no caminho? 

#
E por que cargas d'gua isso a preocuparia? Eleficaria ali por alguns dias e depois iria embora, etudo voltaria ao normal novamente. Graas a 
Deus. 
Ah, ela j estava sabendo das fofocas daquela 
manh. Na padaria, ao parar para comprar um 
muffin, tinha ouvido algumas mulheres falando arespeito dele. Como ele iria tornar a cidade 
famosa, como as coisas poderiam melhorar para 
os negcios da cidade. No momento em que a 
viram, elas a encheram de perguntas sobre ele eexprimiram suas prprias opinies quanto s 
chances de ele encontrar a causa das luzes 
misteriosas. 
Afinal de contas, algumas pessoas dali realmenteacreditavam que elas fossem criadas por 
fantasmas. Outros certamente no. O prefeito 
Gher-kin, por exemplo. No, ele via as coisas de 
um ngulo diferente, considerando a investigaode Jeremy como uma espcie de jogo. Se JeremyMarsh no conseguisse encontrar a causa, seriabom para a economia da 
cidade, e era nisso que oprefeito estava apostando. Afinal, o prefeitoGherkin sabia de alguma coisa que apenas poucaspessoas sabiam.
O mistrio vinha sendo estudado fazia anos. E no 
apenas pelos estudantes da Universidade Duke. 
Alm do historiador local  que parecia ter 
encontrado uma explicao plausvel, na opiniode Lexie  pelo menos outros dois grupos ou 
indivduos que no eram dali haviam investigado aquesto no passado, porm sem sucesso. O 
prefeito Gherkin havia efetivamente convidado os 

#
estudantes de Duke a visitarem o cemitrio, na 
esperana de que eles desvendassem o mistrio.
E, com certeza, depois disso o movimento de 
turistas aumentara bastante. 
Ela ficou pensando se deveria ter dito isso para o 
sr. Marsh no dia anterior. Mas j que ele no 
perguntou, ela no viu por que falar. Estava 
ocupada demais tentando driblar suas investidas edeixar claro que no estava interessada nele. Ah,
ele bem que havia tentado ser charmoso... tudo 
bem, aquele jeito dele tinha mesmo um certo 
charme, mas isso no mudava o fato de que elano tinha inteno alguma de deixar suas 
emoes levarem a melhor. Sentira at um certo 
alvio depois que ele saiu no dia anterior.
E a Dris veio com aquele ridculo comentrio, 
que l no fundo dava a entender que ela achavaque Lexie deveria conhec-lo melhor. Mas o querealmente mexia com ela era o fato de saber queDris no teria dito nada 
a menos que tivesse 
certeza. Qualquer que fosse a razo, Dris via algoespecial em Jeremy.
s vezes ela odiava aquelas premonies da av.
 claro que ela no tinha de dar ouvidos ao queDris dizia. Afinal, ela j havia passado pela 
experincia de "conhecer um estranho", e no 
estava disposta a trilhar esse caminho novamente.
Apesar de sua determinao, porm, tinha de 
admitir que toda aquela situao fazia com que sesentisse meio sem equilbrio. Enquanto fazia essaavaliao, ouviu a porta do escritrio abrir com umrangido. 

#
 Bom dia  disse Jeremy, colocando a cabeapelo vo da porta.  Achei que tinha visto a luz 
acesa. 
Girando a cadeira, ela reparou que ele tinha 
jogado a jaqueta sobre os ombros. 

 Ol  ela respondeu educadamente.  Eu 
estava justamente tentando me concentrar no 
trabalho. 
Ele segurou a jaqueta na mo.  Voc tem um 
lugar onde eu possa deixar isto? No h muito 
espao na mesa da sala de livros raros. 
 Aqui, pode deixar comigo. H um cabide atrsda porta.
Entrando no escritrio, ele deu sua jaqueta paraLexie. Ela a pendurou perto de seu casaco, no 
cabide atrs da porta. Jeremy passou os olhos peloescritrio. 
 Ento, esta aqui  a cabine de controle, certo?
O lugar onde tudo acontece? 
 Exatamente  ela confirmou.  No  muito 
amplo, mas tem espao suficiente para a 
execuo do trabalho. 
 Gosto do seu sistema de arquivo  ele disse, 
fazendo um gesto em direo s pilhas de 
formulrios em cima da mesa.  Tambm tenho 
um parecido l em casa.
Um sorriso escapou de seus lbios, enquanto eledava alguns passos em direo  sua mesa paraespiar pela janela. 
 Bela vista tambm. Voc pode ver todo o 
quintal at a casa do lado. E o estacionamento 
tambm. 
#
 Bem, voc parece estar muito bem-humorado
esta manh. 
-E por que no estaria? Dormi num quarto
congelante, cheio de animais mortos. Ou melhor,
no dormi nada. Fiquei ouvindo todos aqueles sons
estranhos que vinham do mato. 
 Fiquei imaginando o que acharia de Greenleaf.
Ouvi dizer que  um lugar rstico. 
 A palavra "rstico" no  exatamente o termo 
mais apropriado para definir aquele lugar. E 
depois, logo cedo, metade da cidade estava 
tomando caf. 
 Imagino que tenha ido ao Herbs  ela 
observou. 
 Fui  ele disse.  E percebi que voc no foi. 
 No. Tem muita gente. Eu gosto de um pouco
de calma no comeo do dia. 
 Voc deveria ter me avisado. 
Ela sorriu.  Voc deveria ter perguntado.
Ele riu, e Lexie apontou com a mo na direo da 
porta.
Caminhando at a sala de livros raros com ele, ela 
sentiu que ele estava de bom humor, apesar do
cansao, mas isso ainda no era suficiente para
fazer com que confiasse nele. 
 Por acaso voc conhece um policial chamado
Hopper?  ele perguntou.
Ela ergueu os olhos, surpresa.  Rodney? 
 Acho que era esse o nome dele. Qual  a dele,
afinal? Ele me pareceu meio perturbado com a 
minha presena na cidade. 
 Ah, ele  inofensivo. 
 Ele no me pareceu inofensivo. 
#
Ela deu de ombros.  Ele provavelmente ficou 
sabendo que voc passaria algum tempo na 
biblioteca. Ele  meio protetor em relao a essascoisas, e sempre foi muito doce comigo esses anostodos. 

 Voc poderia falar bem de mim para ele, por
favor? 
 Acho que posso fazer isso.
Como estava esperando outro comentrio mordaz,
ele ergueu as sobrancelhas com ar 
agradavelmente surpreso. 
 Obrigado  ele falou. 
 No h de qu. Mas no faa nada que me 
obrigue a mudar de idia.
Eles seguiram em silncio at a sala de livros 
raros. Ela entrou primeiro, acendendo a luz. 
 Fiquei pensando no seu projeto, e h uma coisa
que talvez deva saber. 
 O que ?
Ela lhe contou a respeito das duas investigaes
anteriores em torno do cemitrio, antes de 
acrescentar:  Se me der cinco minutos, posso encontr-
las para voc. 
 Eu ficaria muito grato  ele disse.  Mas por 
que no falou disso ontem?
Ela sorriu sem responder. 
 Deixe-me adivinhar  ele disse.  Por que eu 
no perguntei? 
 Eu sou apenas uma bibliotecria, no leio 
pensamentos. 
 Como a sua av? Ah, espere, ela  uma vidente,
certo? 
#
 Para falar a verdade, ela . E ela tambm 
consegue dizer qual  o sexo do beb antes de ele 
nascer. 
 Foi o que me disseram  Jeremy falou.
Ela o fuzilou com o olhar.   verdade, Jeremy.
Acredite ou no, ela consegue fazer essas coisas.
Ele sorriu com malcia.  Voc me chamou de 
Jeremy? 
 Sim. Mas no precisa dar tanta importncia aesse fato. Voc me pediu que fizesse isso, est 
lembrado? 
 Claro que sim, Lexie. 
 V com calma  ela disse, mas, enquanto 
falava, Jeremy reparou que ela sustentara seu 
olhar por mais tempo que o de hbito, e ele gostoudisso. 
Ele gostou muito disso. 
#
Captulo 
SETE 


Jeremy passou o resto da manh debruado sobreuma pilha de livros e os dois artigos que Lexiehavia encontrado. O primeiro, escrito em 1958 por 
um professor de folclore da Universidade da 
Carolina do Norte e publicado no Journal of the 
South, parecia ter o propsito de ser uma resposta interpretao que A. J. Morrison fazia da lenda. Oartigo apresentava algumas citaes do trabalhode Morrison, 
resumia a lenda e narrava em 
detalhes o perodo de uma semana que o 
professor havia passado no cemitrio. Em quatrodessas noites ele havia testemunhado as luzes. 
Parecia que ele fizera pelo menos uma tentativapreliminar para encontrar a causa: ele contara onmero de casas das reas vizinhas (havia dezoitono permetro de quase 
dois quilmetros em tornodo cemitrio e, surpreendentemente, nenhuma emRiker's Hill), e tambm anotara o nmero de carrosque passaram no espao de dois minutos em 
queas luzes apareceram. Em duas dessas ocasies, olapso de tempo foi inferior a um minuto. Nas 
outras duas, entretanto, no houve qualquer 
registro de carro, o que parecia eliminar a 
possibilidade de terem sido os faris a fonte dos"fantasmas". 
O segundo artigo era apenas um pouco mais 
informativo. Publicado em uma edio de 1969 da 
Coastal Carolina, uma pequena revista que fora falncia em 1980, o artigo comentava o fato de 

#
que o cemitrio estava afundando e o estrago queisso havia causado. O autor tambm fazia 
referncia  lenda e  proximidade de Riker's Hill,
e embora ele no tivesse visto as luzes (ele haviaestado l nos meses de vero), descrevia em detalhes 
os relatos das testemunhas, antes de partir 
para especulaes a respeito de inmeras 
possibilidades, sobre as quais Jeremy j estava a 
par.
A primeira era a decomposio da vegetao ques vezes irrompe em chamas, liberando vaporesconhecidos como gs natural. Numa rea costeiracomo essa, Jeremy sabia 
que a idia no podia sertotalmente descartada, embora considerasse 
improvvel, j que as luzes apareciam em noitesfrias e cobertas de nvoa. Elas tambm poderiam 
ser "luzes de terremoto", que so descargaseltricas que ocorrem na atmosfera, provocadaspela movimentao e frico das rochas nas 
camadas mais profundas da Terra. A teoria relativa 
aos faris dos carros foi aventada novamente, 
assim como a idia de refrao de luzes de 
estrelas e fogo-ftuo, brilho fosforescente que 
emana de certos fungos presentes na madeira 
apodrecida. Algas, de acordo com as anotaes, 
tambm poderiam emanar um brilho 
fosforescente. O autor mencionava ainda a 
possibilidade de estar ocorrendo o efeito Nova 
Zembla, no qual a direo de feixes luminosos determinada por camadas de ar adjacentes, mascom temperaturas diferentes, causando o efeito debrilho. E, oferecendo 
uma ltima possibilidade, oautor conclua que poderia ser o fogo-de-santelmo, 

#
criado por descargas eltricas que surgem na 
ponta de objetos pontiagudos durante as 
tempestades.
Em outras palavras, o autor havia dito que poderiaser qualquer coisa.
Apesar de inconclusos, os artigos ajudaram Jeremya tornar mais claros seus prprios pensamentos.
Em sua opinio, as luzes tinham tudo a ver com ageografia. A colina que ficava atrs do cemitrioparecia ser o ponto mais alto, qualquer que fosse adireo, e o 
afundamento do cemitrio fazia com 
que a neblina fosse particularmente mais densanessa rea. Tudo isso queria dizer luz refrativa ourefletida. 
Ele tinha apenas de identificar a fonte com 
preciso, e para isso precisava descobrir quandoas luzes haviam sido vistas pela primeira vez. Nopoderia ser algo genrico, mas uma data exata, deforma que ele 
pudesse determinar o que estavaacontecendo na cidade naquela poca. Se a cidadeestivesse passando por alguma mudana 
significativa  um novo projeto de construo, 
uma nova fbrica ou alguma coisa parecida  
talvez ele encontrasse a causa. Ou se ele 
realmente visse as luzes  e ele no estava 
contando com isso  seu trabalho seria ainda 
mais simples. Se elas aparecessem  meia-noite, 
por exemplo, e ele no visse qualquer carro 
passando, poderia ento inspecionar a rea, 
anotando a localizao das casas ocupadas comlmpadas brilhando na janela, a proximidade daestrada, ou talvez at o trfego no rio. Barcos, ele 

#
suspeitava, eram uma possibilidade, se fossem 
bastante grandes.
Repassando a pilha de livros pela segunda vez, ele 
anotou outras observaes em relao s 
mudanas ocorridas na cidade no decorrer dos 
anos, com nfase especial nas mudanas ocorridasna virada do sculo. 
Com o passar das horas, a lista foi aumentando.
No incio do sculo XX, houve um crescimento 
imobilirio acelerado que durou de 1907 a 1914,
durante o qual ocorreu um desenvolvimento no 
lado norte da cidade. O pequeno porto foi 
ampliado em 1910, depois em 1916, e mais umavez em 1922; combinada com as pedreiras e asminas de fsforo, a escavao foi extensiva. A 
construo da ferrovia foi iniciada em 1898, e a 
abertura de ramais em vrias reas do municpioprosseguiu at 1912. Uma ponte sobre o rio foiconcluda em 1904, e de 1908 a 1915 foram 
construdas trs grandes instalaes industriais: 
uma fbrica txtil, uma mina de fsforo e uma 
indstria de papel. Das trs, apenas a indstria depapel ainda estava em operao  a fbrica txtilhavia fechado quatro anos atrs, e a mina em 
1987 , de forma que isso parecia eliminar as 
outras duas como possibilidades.
Ele checou novamente os fatos, certificou-se de 
que estavam corretos, e voltou a empilhar os livros 
para que Lexie pudesse coloc-los de volta nas 
estantes. Ele se apoiou nas costas da cadeira, 
espreguiou-se para aliviar a tenso do corpo, eolhou para o relgio. De repente, j era quase 
meio-dia. Considerando tudo, ele concluiu que 

#
haviam sido algumas horas bem gastas, e entoolhou sobre o ombro para a porta aberta atrs 
dele. 
Lexie no havia retornado para ver se precisavade alguma coisa. Ele meio que gostava do fato deno conseguir adivinhar o que ela iria fazer, e porum momento desejou 
que ela vivesse em NovaIorque, ou pelo menos em algum lugar perto de l.
Teria sido interessante ver o rumo que as coisaspoderiam ter tomado entre eles. Um instante 
depois, ela empurrou a porta.

 E a?  Lexie o interrompeu  Como est indo?
Jeremy se virou.  Bem, obrigado.
Ela vestiu seu casaco.  Bem, eu estava pensando
em dar uma sada para almoar, e fiquei pensando 
se voc gostaria que eu lhe trouxesse alguma 
coisa tambm. 
 Voc est indo at o Herbs?  ele perguntou. 
 No. Se voc acha que estava lotado no cafda-
manh, deveria ver aquele lugar na hora doalmoo. Mas teria o maior prazer em pegar algumacoisa para viagem na volta.
Ele hesitou por um instante apenas. 
 Bem, se importaria se eu fosse com voc aondequer que esteja pensando em ir? Seria bom esticarminhas pernas. Fiquei sentado aqui a manh 
inteira, e adoraria ver um lugar novo. Talvez vocat pudesse me mostrar um pouco da vizinhana
 ele fez uma pausa.  Se voc no se importar,
 claro. 
Ela quase disse no, porm, mais uma vez, ouviuas palavras de Dris, e seus pensamentos ficaramconfusos. Devo ou no devo? Apesar de achar que 
#
estava cometendo um erro  muito obrigada por 
isso, Dris  ela disse:  Claro. Mas eu tenho de 
voltar dentro de uma hora, por isso no acho quev ser de grande ajuda.
Ele pareceu quase to surpreso quanto ela, e ficouparado; depois saiu pela porta atrs dela.  
Qualquer coisa j ser muito bom  ele disse.  
Pode me ajudar a preencher os espaos em 
branco, entende?  importante saber o que 
acontece num lugar como este. 

 Em nossa cidadezinha caipira, voc quer dizer? 
 Eu no disse que era uma cidade caipira. Essaspalavras so suas. 
 Sim, mas os pensamentos so seus, no meus.
Eu adoro este lugar. 
 Tenho certeza que sim  ele concordou.  Porque outro motivo voc viveria aqui? 
 Por que no  a cidade de Nova Iorque, porexemplo. 
 J esteve l? 
 Eu morei em Manhattan. Na sessenta e nove, 
oeste. 
Ele quase tropeou pisando em falso.  Isso fica a
apenas alguns quarteires de onde eu moro.
Ela sorriu.  Mundo pequeno, no  mesmo?
Caminhando apressadamente, Jeremy se 
esforava para acompanhar o passo de Lexie 
enquanto ela se aproximava da escada.  Voc 
est brincando, certo? 
 No  ela respondeu.  Morei com meu 
namorado ali por quase um ano. Ele trabalhava 
para o Morgan Stanley, enquanto eu fazia estgio
na biblioteca da Universidade de Nova Iorque. 
#
 Eu no consigo acreditar nisso... 
 No qu? Que eu morava em Nova Iorque e fuiembora? Ou que eu morava perto de voc? Ou queeu morava com meu namorado? 
 Em tudo  ele disse.  Ou em nada, no tenho 
certeza  ele estava tentando digerir a idia 
dessa bibliotecria de cidade pequena vivendo emsua vizinhana. Observando a expresso no rostodele, Lexie teve de rir.  Vocs so todos iguais, 
sabia? 
 Quem? 
 As pessoas que vivem nessa cidade. Voc vivesua vida pensando que no h lugar no mundo toespecial quanto Nova Iorque e que nenhum outrolugar tem qualquer coisa 
a oferecer. 
 Voc tem razo  Jeremy admitiu.  Mas isso 
acontece porque nem d para comparar com o 
resto do mundo. 
Fitando-o com olhar perscrutador, ela fez cara de 
quem perguntava: Voc no disse o que eu acho 
que acabou de dizer, no ?
Ele deu de ombros, fazendo-se de inocente.  
Quer dizer, qual ... Voc no acha que d para 
comparar o Greenleaf Cottages com o Four 
Seasons ou com o Plaza, acha? Quer dizer, at 
voc tem de admitir isso. 
Ela mostrou-se ofendida com sua postura 
presunosa e passou a caminhar ainda mais 
rapidamente. Naquele exato momento, ela decidiuque Dris no sabia do qu estava falando.
Jeremy, contudo, no estava disposto a encerrar o 
assunto.  Vamos l... admita. Voc sabe que 
tenho razo, no sabe? 

#
A essa altura, eles haviam chegado diante da 
porta da frente da biblioteca, e ele a abriu paraela. Atrs deles, a senhora de idade que 
trabalhava na recepo observava-os 
atentamente. Lexie controlou sua lngua at 
atravessarem a porta, e ento se virou para ele. 

 As pessoas no moram em hotis  ela 
retrucou.  Elas vivem em comunidades. E  isso 
o que ns temos aqui. Uma comunidade. Onde aspessoas se conhecem e se preocupam umas comas outras. Onde as crianas podem brincar  noitesem se preocupar com estranhos.
Ele ergueu as mos.  Ei  ele disse , no me 
entenda mal. Eu adoro comunidades. Eu cresci no 
meio de uma. Conhecia cada famlia da vizinhana 
pelo nome, porque viveram ali durante muitos 
anos. Algumas delas ainda vivem, por isso, 
acredite, sei exatamente o quanto  importanteconhecer seus vizinhos, e como  importante paraos pais saberem o que seus filhos esto fazendo ecom quem esto saindo. 
Foi assim que as coisas 
aconteceram comigo. Mesmo quando eu estava 
fora, os vizinhos estavam atentos. O que eu querodizer  que a cidade de Nova Iorque tambm temisso, dependendo de onde voc mora.  claro, sevoc mora na minha 
vizinhana, vai ver que elaest cheia de jovens profissionais batalhando pelosucesso na carreira. Mas faa uma visita a Park 
Slope, no Brooklyn, ou a Astoria, no Queens, e vai 
ver crianas brincando nos parques, jogandobasquete e futebol, e muita coisa parecida com oque as crianas fazem por aqui. 
#
 Como se alguma vez voc tivesse pensado emcoisas desse tipo. Ela se arrependeu do sarcasmono tom da voz, assim que desferiu o golpe contraJeremy. Ele, por sua 
vez, pareceu imperturbvel. 
 J pensei  ele disse.  E acredite, se eu 
tivesse filhos, eu no iria morar no mesmo lugar.
Tenho uma tonelada de sobrinhos e sobrinhas quemoram na cidade, e cada um deles mora em um 
lugar que tem muitas outras crianas e pessoasque cuidam delas. Sob muitos aspectos, muito parecidos 
com este lugar.
Ela no disse nada, pensando se ele estaria 
falando a verdade. 
 Olhe  ele falou , eu no estou querendo 
comprar uma briga. S acho que as crianas 
acabam crescendo sem problemas desde que ospais se envolvam, no importa onde morem. No possvel que as cidades pequenas tenham um 
monoplio sobre os valores. Quer dizer, eu tenho 
certeza de que se procurar um pouco, tambmvou encontrar muitas crianas com problemas poraqui. Crianas so crianas, no importa onde 
moram.  Ele sorriu, tentando mostrar-lhe queno havia levado o que ela tinha dito para o ladopessoal.  Alm disso, eu no tenho muita certezado motivo que nos 
levou a falar de crianas, dequalquer forma, a partir de agora, prometo nofalar mais disso. Tudo o que estava tentando dizer que fiquei surpreso por voc ter vivido 
em NovaIorque e h apenas alguns quarteires de onde eumoro  ele fez uma pausa.  Trgua?
Ela o encarou antes de soltar a respirao. Talvezele estivesse certo. No, ela sabia que ele estava 
#
certo. E, ela admitia, fora ela quem tinha provocado 
tudo aquilo. Pensamentos confusos podemfazer isso com uma pessoa. Por que cargas d'guaela estaria se envolvendo numa discusso dessas? 

 Trgua  ela concordou finalmente.  Com 
uma condio. 
 Qual ? 
 Voc vai ter de dirigir. Eu no vim de carro.
Ele pareceu aliviado.   s eu encontrar as 
chaves. 
Nenhum dos dois estava com muita fome, ento 
Lexie indicou a Jeremy o caminho at uma 
pequena mercearia, e em poucos minutos eles 
saram dali com um pacote de biscoitos, algumasfrutas frescas, vrios tipos de queijo e duas 
garrafinhas de suco.
No carro, Lexie colocou o pacote com a comidaperto dos ps.  H alguma coisa em especial quevoc queira ver?  ela perguntou. 

 Riker's Hill. Tem alguma estrada que v at otopo?
Ela acenou positivamente com a cabea.  No bem uma estrada. Costumava ser usada para a 
extrao de madeira, mas agora apenas os caadores 
de veados andam por l. Mas  muito 
acidentada  no sei se voc gostaria de levarseu carro at l. 
 No tem problema.  alugado. E, alm disso, 
estou me acostumando com estradas ruins por 
aqui. 
 Est bem  ela falou.  Mas no diga que noavisei. 
#
Nenhum dos dois falou muito enquanto deixavama cidade, passando pelo cemitrio de Cedar Creeke depois por uma pequena ponte. A estrada logocomeou a se tornar ladeada 
por bosques cadavez mais densos. O cu azul havia dado lugar auma grande mancha cor de cinza, fazendo comque Jeremy se lembrasse das tardes de invernomuito mais 
ao norte. Aqui e ali, bandos de 
estorninhos passavam voando diante do carro, 
mo-vendo-se em unssono, como se estivessem 
todos amarrados uns aos outros por algum cordo.
Lexie sentia-se pouco  vontade com aquele 
silncio, por isso comeou a descrever a 
paisagem: projetos imobilirios que jamais haviamsido aproveitados, nomes de rvores, Cedar Creekquando podia ser visto atravs da mata. Riker's 
Hill surgiu  esquerda, parecendo sombrio e 
ameaador em meio  pouca luminosidade do dia.
Jeremy j havia dirigido at aquele lugar depois deter sado do cemitrio na primeira vez que o vira, eachava que tinha feito a volta por ali. Devia ter 
sido um pouquinho antes, ele percebeu, porqueela lhe disse para virar no cruzamento seguinte,
que parecia fazer uma volta em torno da parte detrs de Riker's Hill. Inclinando-se para a frente nobanco, ela tentou ver atravs do pra-brisa. 
 A curva  logo ali na frente  ela disse.  
Talvez seja melhor voc diminuir a velocidade.
Foi o que Jeremy fez, e como ela continuasse aolhar fixamente para fora, ele a olhou de relance,
observando a pequena marca da testa franzida 
entre as sobrancelhas. 

 O.k... ali  ela disse, apontando para a frente. 
#
Ela estava certa: aquilo no era bem uma estrada.
Cheia de cascalho e esburacada, meio parecidacom a entrada do Greenleaf, mas pior. Saindo daestrada principal, o carro comeou a pular e a 
sacolejar. Jeremy diminuiu ainda mais. 

 Riker's Hill  propriedade do governo?
Ela fez que sim com a cabea.  O governo acomprou de uma grande companhia madeireira 
Weyerhaeuser ou Georgia-Pacific ou qualquer 
coisa desse gnero  quando eu era pequena.
Parte da nossa histria local, voc sabe como . 
Mas no  um parque ou algo assim. Acho que 
houve planos para transformar isso aqui numa 
rea para acampamento, mas o governo nunca 
divulgou nada a respeito disso.
Os pinheiros ficavam mais prximos  medida que 
a estrada se estreitava, mas a estrada em si 
parecia ficar melhor  medida que subiam, fazendo 
uma espcie de ziguezague em direo ao 
topo. Aqui e ali se podia ver uma trilha que, elepresumira, deveria ser usada pelos caadores.
Por fim, as rvores foram ficando mais esparsas e
o cu mais visvel; enquanto se aproximavam docume, a vegetao parecia mais gasta, e depoispraticamente arrasada. Dezenas de rvores 
estavam quebradas no meio; menos de um teroainda parecia estar de p. A subida foi ficando 
menos ngreme, e ento o terreno ficou mais planoquando se aproximaram do topo. Jeremy encostou
o carro de um lado. Lexie fez sinal para que eledesligasse o motor, e a saram do carro.
Lexie cruzou os braos quando comearam a 
andar. O ar parecia mais frio ali em cima, a brisa, 
#
fria e cortante. O cu parecia estar mais prximo;
as nuvens no eram mais uma forma indistinta, 
mas se moviam e se transformavam, adquirindocontornos especficos. L embaixo, podiam ver acidade, telhados agrupados e empoleirados  beirade estradas retilneas, 
uma das quais levava at oCemitrio de Cedar Creek. Pouco alm da cidade, 

o velho rio de gua salgada parecia um rastro deferro escorrendo. Ele conseguiu localizar a ponte 
da rodovia, assim como uma pitoresca pontesuspensa que se erguia ao fundo, enquanto umfalco de cauda vermelha voava em crculos sobre 
suas cabeas. Olhando mais atentamente, Jeremyconseguiu visualizar a minscula estrutura da 
biblioteca e at mesmo a localizao de Greenleaf, 
embora os chals estivessem perdidos no meio 
das matas ao redor. 
 A vista  incrvel  ele disse finalmente. 
Lexie apontou para a beira da cidade e ajudou-o afocalizar at o ponto que queria mostrar.  Est 
vendo aquela casinha? Meio que largada de lado,
perto do lago? E onde eu moro agora. E aquela 
mais adiante?  a casa de Dris. Foi onde eu 
cresci. Algumas vezes, quando eu era criana, 
ficava olhando aqui pra cima, imaginando queconseguia me ver olhando daqui de cima l parabaixo. 
Ele sorriu. A brisa agitava os cabelos de Lexie, quecontinuou a falar. 
 Quando ramos adolescentes, eu e minhas 
amigas s vezes vnhamos at aqui e ficvamosdurante horas. No vero, o calor fazia as luzes das 
casas brilhar como se fossem estrelas. E os vaga
#
lumes  bem, em junho eles so tantos que d aimpresso de que existe outra cidade no cu. 
Apesar de todo mundo saber da existncia destelugar, nunca havia muita gente por aqui. Semprefoi uma espcie de lugar secreto que eu e minhasamigas tnhamos em comum.
Ela fez uma pausa, percebendo que se sentia 
estranhamente nervosa. Embora a explicao paratal nervosismo estivesse alm de sua 
compreenso. 

 Eu me lembro de uma vez em que se esperava 
uma grande tempestade. Eu e minhas amigas 
conseguimos convencer um dos rapazes a nos 
trazer aqui em cima em seu caminho. Uma 
daquelas coisas com rodas enormes, capazes deatravessar o Grand Canyon se fosse necessrio,
sabe? Bom, ns viemos todas para c, para ver osrelmpagos, achando que iramos poder assistir 
um espetculo de luzes no cu. Em nenhum 
momento paramos para pensar no fato de queestvamos no ponto mais alto de toda a regio.
Quando os relmpagos comearam, foi lindo. Elesiluminavam o cu, s vezes com uma rajada deluz, outras vezes como uma luz intermitente, e ns 
ficvamos contando em voz alta o tempo que 
demorava at vir o trovo. Sabe, para ver a 
distncia em que estava o raio. Mas logo em 
seguida e tempestade caiu sobre ns, quer dizer, o 
vento estava batendo com tanta fora que o 
caminho comeou a sacudir de verdade, e com a 
chuva era impossvel enxergar qualquer coisa. 
Ento os raios comearam a atingir as rvores que 
estavam ao nosso redor. Descargas eltricas 
#
gigantescas caam to perto de ns que o chotremia e as pontas dos pinheiros simplesmente 
explodiam em pedaos.
Enquanto Lexie falava, Jeremy a estudava. Aquiloera o mximo que ela havia revelado a respeito desi mesma desde que tinham se conhecido, e eletentou imaginar como 
era sua vida naquele tempo.
Como teria sido ela no colgio? Uma das popularesanimadoras de torcida? Ou uma das garotasestudiosas, que passava as horas do recreio nabiblioteca? Com certeza, 
isso era coisa do passado 

 quer dizer, quem se importava com o colgio?
, mas mesmo agora, quando ela estava perdidaem suas lembranas, ele no conseguia dizer comcerteza que tipo de garota ela fora. 
 Aposto que vocs ficaram apavoradas  ele 
disse.  Voc sabe que as descargas eltricas 
podem chegar a cinqenta mil graus?  ele a 
olhou de relance.  Isso significa que  dez vezesmais quente que a superfcie do Sol.
Ela sorriu, divertida.  Eu no sabia disso. Mas 
voc est certo  acho que nunca fiquei to 
apavorada em toda a minha vida. 
 E depois, o que aconteceu? 
 A tempestade passou, como sempre. E depoisque nos refizemos do susto, voltamos para casa.
Mas eu me lembro de que Rachel estava apertando 
minha mo com tanta fora que deixou marcasde unhas em minha pele. 
 Rachel? No seria por acaso a garonete do 
Herbs, seria? 
#
 Sim, essa mesma.  Cruzando os braos, ela 
olhou para ele.  Por qu? Por acaso ela deu emcima de voc no caf-da-manh? 
Ele se mexeu sem sair do lugar, mudando o pesode uma perna para outra.  Bom, eu no diria 
isso. Ela apenas me pareceu um pouco... atrevida,
s isso. 
Lexie riu.  Isso no me surpreende. Ela ... bom,
Rachel  Rachel. Ns ramos as melhores amigasuma da outra na infncia, e ainda penso nela comouma espcie de irm. Acho que ser assim parasempre. Mas depois que 
eu fui para a faculdade edepois para Nova Iorque... bom, no foi mais a 
mesma coisa depois que voltei. Apenas ficou 
diferente, na falta de palavra melhor. No me 
entenda mal  ela  um doce e  muito divertida, 
e no tem um pingo de maldade, mas...
Ela deixou as palavras no ar. Jeremy olhou-a mais 
atentamente. 
 Voc v o mundo de outra maneira 
atualmente?  ele sugeriu. Ela suspirou.  , 
acho que  isso. 
 Acho que isso acontece com todo mundo 
quando cresce  Jeremy respondeu.  Voc 
descobre quem voc  e o que voc quer, e entopercebe que as pessoas que conheceu a vida 
inteira no vem as coisas da mesma maneira. E 
a voc preserva as lembranas maravilhosas, masse d conta de que precisa seguir em frente.  
perfeitamente normal. 
 Eu sei. Mas, numa cidade do tamanho desta,  
mais difcil assumir essa atitude. H to poucas 
pessoas na faixa dos trinta por aqui, e menos 
#
ainda solteiras. Este nosso mundinho  realmente 
muito pequeno.
Ele mexeu a cabea antes de abrir um sorriso.  
Faixa dos trinta? De repente ela se lembrou de que
ele havia tentado adivinhar sua idade no dia 
anterior. 
 Isso mesmo  ela disse, dando de ombros.  
Ficando velha, eu acho. 


 Ou permanecendo jovem  ele contraps.  Apropsito,  assim que me sinto quando penso emmim mesmo. Sempre que comeo a me preocuparcom a idade, comeo a usar 
a cala mais baixa, 
deixo aparecer a cintura da cueca, uso o bon 
virado para trs, e dou uma volta pelo shopping 
ouvindo rap. 
Ela no conseguiu conter o riso ao imaginar a 
cena. Apesar do ar frio, sentiu uma onda de calorao perceber, de modo inesperado, mas estranha-
mente inevitvel, que estava apreciando a 
companhia. Ela ainda no tinha certeza se gostavadele  na verdade, tinha quase certeza que no 
e, por alguns instantes, lutou para conciliar os doissentimentos. O que significava,  claro, que todoaquele assunto deveria ser evitado. Ela colocou 
um dedo no queixo.  Sim, eu consigo imaginar.
Voc realmente d muita importncia para o estilopessoal. 
 Sem dvida. Bem, ainda ontem, para ser mais 
exato, as pessoas ficaram bastante 
impressionadas com o jeito de eu me vestir, 
inclusive voc. 
#
Ela riu, e no silncio que se seguiu, ela olhou paraele.  Aposto que voc viaja muito por causa doseu trabalho, no viaja? 

 Talvez umas quatro ou cinco vezes por ano, 
durante algumas semanas em cada viagem. 
 Voc j esteve numa cidade como esta? 
 No  ele disse.  Para ser sincero, nunca. 
Cada lugar que conheo tem seu prprio charme, 
mas posso dizer, com toda a honestidade, que 
nunca estive num lugar como este. E voc? 
Conhece outros lugares? Quer dizer, alm de NovaIorque. 
 Eu freqentei a Universidade da Carolina do 
Norte, em Chapei Hill, e passei muito tempo emRaleigh. E tambm fui para Charlotte, quando 
estava no colegial. Nosso time de futebol 
conquistou o campeonato estadual quando eu 
estava no ltimo ano, por isso praticamente todosna cidade fizeram essa viagem. Nosso comboio seestendia por quilmetros na estrada. E tambm 
Washington, D.C., numa viagem com a escola 
quando eu era pequena. Mas nunca fiz uma 
viagem para o exterior ou algo do gnero.
J enquanto falava, ela sabia o quanto sua vidadeveria parecer insignificante para ele. Jeremy,
como se tivesse lido seus pensamentos, mostrouum leve sorriso. 
 Voc iria gostar da Europa. As catedrais, as 
maravilhosas paisagens do campo, os bistrs e aspraas nas grandes cidades. O estilo de vida tranqilo... 
voc iria se sentir em casa.
Lexie deixou os pensamentos voar. Era uma belaimagem, mas... 
#
E era isso o que importava. O mas. Havia sempre 
um mas. A vida tinha a desagradvel tendncia de 
oferecer pouqussimas oportunidades exticas. 
Isso simplesmente no fazia parte da realidade damaioria das pessoas comuns. Como ela. Ela no 
podia simplesmente sair com Dris ou afastar-sedurante muito tempo da biblioteca. E por quediabos ele estava lhe dizendo tudo aquilo, afinal?
Para lhe mostrar que era mais cosmopolita do queela? Bem, detesto ter de lhe dizer isso, ela pensou,
mas j sei disso h muito tempo.
Contudo, enquanto digeria esses pensamentos,
uma outra voz se intrometeu, dizendo-lhe que eleestava flertando com ela. Parecia que ele estavadizendo que sabia que ela era diferente, mais 
experiente do que esperava que fosse. Que ela 
ficaria bem em qualquer lugar. 

 Eu sempre quis viajar  ela admitiu, driblando 
as vozes conflitantes em sua cabea.  Deve ser 
bom ter essa possibilidade. 
  sim, s vezes. Mas, acredite ou no, o quemais gosto  de encontrar pessoas diferentes. E 
quando me lembro dos lugares em que estive, 
quase sempre vejo os rostos e no as coisas. 
 Agora voc est parecendo uma pessoaromntica  ela disse. Ah, era difcil resistir a ele, 
a esse sr. Jeremy Marsh. Primeiro, o galanteador, e 
agora o grande altrusta; muito viajado, mas 
conservando as razes; cosmopolita, mas ainda 
assim consciente em relao s coisas realmente 
importantes. No importava quem ele conhecesseou onde estivesse, ela no tinha dvida de que elepossua uma habilidade inata para fazer os outros 
#
 principalmente as mulheres  sentirem que 
tinha uma grande afinidade com todos. O que,
sem dvida alguma, reconduzia tudo  primeiraimpresso que tivera dele. 
 Talvez eu seja um romntico  ele disse, 
olhando-a de relance. 
 Sabe o que eu mais gostava em Nova Iorque?
 ela perguntou, mudando de assunto.
Ele a olhou de frente, na expectativa. 
 Eu gostava do fato de estar sempre 
acontecendo alguma coisa. Havia sempre gente 
correndo pelas caladas, e os txis passandoapressados, no importava a hora do dia. Havia 
sempre algum lugar para ir, alguma coisa para 
ver, um restaurante novo para conhecer. Era 
excitante, principalmente para algum que 
cresceu por aqui. Como ir para Marte, 
praticamente. 
 Por que voc no ficou? 
 Acho que poderia ter ficado. Mas no era lugarpara mim. Acho que podemos dizer que os motivos 
que me fizeram ir para l haviam mudado 
completamente. Eu tinha ido para ficar com 
algum. 
 Ento  disse Jeremy , voc foi at l atrs 
dele? 
Ela assentiu com a cabea.  Ns nos 
conhecemos na faculdade. Ele parecia to... eu 
no sei... perfeito, eu acho. Ele havia crescido emGreensboro, vinha de uma boa famlia, era 
inteligente. E muito bonito tambm. Bonito o 
bastante para fazer qualquer mulher ignorar seusmelhores instintos. Eu sei que ele olhou para mim 
#
e depois disso s lembro de ter ido para Nova 
Iorque atrs dele. No pude evitar.
Jeremy pareceu embaraado.  E foi isso?
Por dentro, ela estava sorrindo. Os homens no 
gostavam de ouvir as mulheres dizerem queoutros homens eram bonitos, principalmente quando 
havia existido um relacionamento srio. 

 Correu tudo muito bem durante um ano, mais 
ou menos. Ns at ficamos noivos.  Ela parecia 
ter se perdido em seus pensamentos quando 
soltou um suspiro profundo.  Eu tinha 
conseguido um estgio na biblioteca da 
Universidade de Nova Iorque. Avery tinha ido 
trabalhar em Wall Street, e ento, num belo dia, 
eu o peguei na cama com uma colega de trabalho.
Isso me fez compreender que ele simplesmenteno era o cara certo, por isso arrumei minhas 
coisas naquela mesma noite e voltei pra c. 
Depois disso, nunca mais o vi.
A brisa comeou a soprar com mais fora, fazendo 
um barulho parecido com o de um assobio ao 
passar por entre as rochas em declive, espalhandopelo ar um cheiro suave de terra. 
 Voc est com fome?  ela perguntou,
querendo mudar de assunto novamente.  Quer 
dizer, estou gostando de ter vindo aqui com voc,
mas se fico muito tempo sem comer vou ficandode mau humor. 
 Eu estou morto de fome  ele disse. 
Eles voltaram para o carro e fizeram a diviso doalmoo. Sentado no banco da frente, Jeremy abriu
o pacote de biscoitos cream-cracker. Ao perceberque a vista no era grande coisa naquele ponto, 
#
ligou o motor do carro, fez uma manobra ali 
mesmo no topo da colina e  colocando o carro nongulo perfeito  estacionou de novo tendo a 
vista da cidade  sua frente. 

 A voc voltou para c e comeou a trabalhar
na biblioteca, e... 
 S isso  ela disse.   isso o que venho 
fazendo nos ltimos sete anos. 
Ele fez as contas, e chegou  concluso de que ela
deveria ter trinta e um anos. 
 Algum namorado depois disso?
Com um pote de frutas preso entre as pernas, ela
cortou um pedao de queijo e o colocou sobre um
biscoito. Ficou pensando se deveria responder.
Decidiu que sim, ora que diabos, ele iria embora,
de qualquer forma. 
  claro. Alguns, aqui e ali.  Ela contou sobre o
advogado, o mdico e  por fim  Rodney 
Hopper. Ela no disse nada a respeito do sr. 
Renascena. 
 Bem... muito bem. Voc parece feliz  ele 
disse. 
 Eu sou  ela concordou rapidamente.  Voc 
no ? 
 A maior parte do tempo. s vezes acho que vou
enlouquecer, mas isso deve ser normal. 
 E  a que voc comea a usar as calas mais
baixas? 
 Exatamente  ele respondeu, com um sorriso. 
Ele pegou alguns biscoitos, colocou-os sobre as 
pernas e comeou a cortar um pouco de queijo.
Ergueu os olhos, parecendo srio.  Voc se 
importaria se eu fizesse uma pergunta muito 
#
pessoal? Voc no precisa responder,  claro. Novou critic-la, acredite. S estou curioso. 

 Voc quer dizer, mais pessoal do que falar detodos os meus ex-namorados? 
Ele encolheu os ombros, envergonhado, e de 
repente ela teve uma idia de como ele poderia 
ter sido quando menino: rosto fino, a pele lisa, 
cabelo curto com franja reta, camisa e jeans sujos 
das brincadeiras na rua. 
 Vamos l  ela disse.  Pode perguntar.
Ele fixou o olhar na borda do seu pote de fruta 
enquanto falava, fugindo subitamente a um 
encontro com os olhos dela.  Logo quechegamos aqui, voc mostrou onde ficava a casade sua av. E disse que havia crescido ali.
Ela confirmou com a cabea. J tinha imaginado 
quando  que ele iria fazer alguma pergunta a 
respeito. 
 Eu sei  ela falou. 
 Por qu?
Ela olhou para fora da janela; o hbito fez com que 
procurasse a estrada que levava para fora da 
cidade. Quando conseguiu encontr-la, falou 
lentamente. 
 Meus pais estavam voltando de Buxton, nas 
ilhas de Outer Banks. Foi l que eles se casaram, etinham uma pequena casa de praia naquela 
regio. No  fcil ir daqui pra l, mas a minhame jurava que era o lugar mais lindo do mundo,
ento meu pai comprou um pequeno bote paraque no precisassem pegar a balsa para ir at l.
Aquilo era o pequeno refgio deles, para onde elespodiam fugir, entende? Da varanda d pra ver um 
#
lindo farol, e de vez em quando eu tambm voupra l, como eles costumavam ir, s pra fugir umpouco disso tudo.
Os lbios dela esboaram um sorriso levssimo 
antes que ela prosseguisse.  Bom, ao voltar paracasa naquela noite, meus pais deviam estar cansados. 
Ainda demora algumas horas para chegarat l, mesmo sem a balsa, e tudo leva a crer que,
no caminho para casa, meu pai deve ter dormido 
ao volante e o carro caiu da ponte. Quando a 
polcia encontrou o carro na manh seguinte e otirou do fundo da gua, os dois estavam mortos.
Jeremy ficou em silncio por algum tempo.  Isso 
 terrvel  ele disse, por fim.  Quantos anos 
voc tinha? 

 Dois. Eu tinha ficado com Dris naquela noite, eno dia seguinte ela foi at o hospital com meu av.
Quando voltaram, ela me disse que eu iria vivercom eles a partir dali. E foi o que aconteceu. Mas estranho, quer dizer, eu sei o que aconteceu, mas como se no 
fosse de verdade, pra valer. 
Enquanto crescia, eu no me sentia como se 
tivesse perdido alguma coisa. Para mim, meus 
avs pareciam iguais aos pais de todo mundo, anica diferena  que eu os chamava pelo primeiro 
nome  ela sorriu.  A propsito, isso foi idia 
deles. Acho que no queriam que eu pensassemais neles como avs, j que estavam me criando,
mas eles tambm no eram meus pais.
Quando ela terminou, olhou para ele, observando 
o contorno de seus ombros sob o suter e 
admirando a covinha de novo. 
#
 Agora  minha vez de fazer perguntas  ela 
disse.  Eu falei demais, e sei que a minha vidadeve ser uma chatice comparada com a sua. Noestou me referindo  histria de meus pais; querdizer, mas ao fato de 
viver aqui,  claro. 
 No, no  chata de forma alguma.  
interessante.  como... quando lemos um livro 
novo e ao virar as pginas vivenciamos algo 
inesperado. 
 Bela metfora. 
 Achei que fosse gostar. 
 E quanto a voc? O que fez voc querer se 
tornar um jornalista? Nos minutos que se 
seguiram, ele falou sobre seus anos de faculdade,
seus planos para se tornar professor, e a srie deacontecimentos que o haviam levado at ali. 
 E voc disse que tem cinco irmos?
Ele confirmou com a cabea.  Cinco irmos mais 
velhos. Sou-o caula da famlia. 
 Eu no sei por que, mas no consigo ver voccom irmos. 
 Por qu? 
 Pra mim voc tem um jeito de filho nico.
Ele sacudiu a cabea.  E uma pena que voc notenha herdado as habilidades adivinhatrias do 
resto da famlia. 
Ela sorriu, antes de desviar o olhar para longe. Nadistncia, falces de rabo vermelho voavam em 
crculos sobre a cidade. Ela colocou a mo contra a 
janela do carro, sentindo o frio do vidro em suapele.  Duzentos e quarenta e sete  ela disse.
Ele virou os olhos em sua direo.  Desculpe? 
#
 Esse  o nmero de mulheres que j visitaramDris para saber o sexo de seus bebs. Enquantocrescia, eu as via quando apareciam na cozinhapara visitar minha av. 
E  engraado, at hoje euconsigo me lembrar de que ficava pensando quetodas elas tinham algumas coisas em comum: obrilho dos olhos, a pele brilhante, e uma emooverdadeira. 
Acho que  verdade essa histria de 
que as mulheres grvidas parecem ficar 
resplandecentes, e eu me lembro de ter pensado 
que gostaria de ficar exatamente daquele jeito 
quando eu crescesse. Primeiro, Dris conversava 
com elas durante algum tempo, para ter certezade que elas queriam saber, depois pegava as 
mos delas e de repente ficava completamente 
em silncio. Algumas delas sequer aparentavamestar grvidas, e alguns segundos depois ela faziaseu pronunciamento  Lexie deixou escapar um 
leve suspiro.  Ela acertou todas as vezes. 
Duzentas e quarenta e sete mulheres passarampor l, e ela acertou duzentas e quarenta e sete 
vezes. Dris anotou os nomes delas em um 
caderno e escreveu tudo o que tinha dito, inclusiveas datas em que foram feitas as visitas. Voc podeverificar se quiser. Ela ainda tem esse caderno nacozinha. 
Jeremy simplesmente a fitou, o olhar parado. 
Impossvel, ele pensou, uma coincidncia 
estatstica. Que pressionava os limites da 
credibilidade, mas ainda assim uma coincidncia. 
E o caderno, sem dvida alguma, mostraria 
apenas os palpites que ela havia acertado. 
#
 Eu sei o que est pensando  ela disse , masvoc tambm pode ir at o hospital para se 
certificar. Ou falar com as mulheres. E pode falarcom quem quiser, para ver se alguma vez ela se 
enganou. Mas isso nunca aconteceu. At os 
mdicos das redondezas vo lhe dizer sem rodeios 
que ela tem um dom. 
 Voc alguma vez pensou que ela poderiaconhecer algum que fizesse os exames de ultrasom? 
 Impossvel  ela insistiu. 
 Como  que voc pode ter tanta certeza? 
 Porque foi a que ela parou. Quando essa 
tecnologia finalmente chegou  cidade. No haviamais motivo para que as pessoas a procurassem,
j que elas mesmas poderiam ver a imagem dobeb. As visitas das mulheres comearam a 
diminuir depois disso, depois ficaram muito raras.
Agora aparecem uma ou duas pessoas por ano,
normalmente pessoas que vm de fora, da zonarural, que no tm plano de sade. Acho que sepode dizer que seus dons no tm tido muita 
procura ultimamente. 
 E as premonies? 
 A mesma coisa  ela disse.  Por aqui no hmuita procura por algum com as habilidades queela possui. Toda a parte leste do estado fica sobreum grande reservatrio. 
Voc pode cavar um poo 
em qualquer lugar por aqui e certamente vai 
encontrar gua. Mas na poca em que ela era 
criana, em Cobb County, na Gergia, os 
fazendeiros iam at a casa dela para pedir ajuda,
principalmente na estao da seca. E apesar de 
#
no ter mais que oito ou nove anos, ela sempreencontrava gua. 

 Interessante  observou Jeremy. 
 Parece que voc ainda no acredita.
Ele se mexeu no banco.  Existe uma explicaoem algum lugar. Tudo tem uma explicao. 
 Voc no acredita em magia de nenhum tipo? 
 No  ele falou. 
 Isso  triste  ela disse.  Porque s vezes elaexiste. 
Ele sorriu.  Bom, talvez eu encontre algumacoisa que me faa mudar de idia enquanto aindaestiver por aqui.
Ela tambm sorriu.  Voc j encontrou. S que teimoso demais para acreditar nisso. 
Depois que acabaram seu almoo improvisado,
Jeremy ligou o carro novamente e eles desceramRiker's Hill sacolejando, como se as rodas da 
frente estivessem entrando em todos os buracos 
do caminho. S se ouvia o barulho das batidas e 
das freadas do carro, e quando acabou a descida,
os punhos de Jeremy, ainda grudados no volante,
haviam perdido a cor.
Eles seguiram pelas mesmas estradas na volta. Ao 
passar pelo Cemitrio de Cedar Creek, Jeremy 
olhou para o topo de Riker's Hill; apesar da 
distncia, ele conseguiu visualizar o lugar em quehaviam estado. 

 Ser que teramos tempo para ver outros 
lugares? Eu adoraria dar uma volta pela marina,
ver a fbrica de papel e talvez dar uma olhada naponte suspensa da ferrovia. 
#
 Ns temos tempo  ela disse.  Desde que 
no fiquemos muito. Todos esses lugares ficam 
muito prximos uns dos outros.
Dez minutos depois, seguindo as instrues de 
Lexie, ele estacionou novamente. Eles se 
encontravam no limite do permetro do centro dacidade, h alguns quarteires do Herbs, perto deum passeio feito de tbuas ao longo da margemdo rio. O rio Pamlico 
tinha quase dois mil metrosde largura, a correnteza era forte e ia formandopequenas ondas sobre as guas que seguiam seufluxo intenso. Na outra margem do rio, perto 
daponte suspensa da rodovia, a fbrica de papel  
uma estrutura gigantesca  soltava nuvens de 
fumaa pelas chamins, dispostas frente a frenteem cima do telhado. 
Ao sair do carro, Jeremy esticou o corpo e Lexie 
cruzou os braos. Seu queixo comeou a ficar 
vermelho por causa do frio. 
 Est muito frio  ele admitiu.  Parece queest mais frio aqui do que l no alto, mas talvez 
porque tenhamos nos acostumado com o aquecimento 
dentro do carro. 
Jeremy fez um esforo para alcan-la, pois Lexiej estava a caminho do passeio de tbuas. Ela 
finalmente diminuiu o passo e parou, debruando-
se sobre o peitoril, enquanto Jeremy olhava para a 
ponte suspensa. Construda bem acima do rio, 
para permitir a passagem dos barcos maiores, sua 
estrutura se sustentava sobre vigas tranadas, 
parecendo uma ponte pnsil. 
 Eu no sabia a que distncia voc queriachegar  ela disse.  Se tivssemos mais tempo, 
#
eu o levaria at a fbrica do outro lado do rio, mas 
acho que daqui voc pode apreciar uma vista maisbonita.  Ela apontou para o outro lado da cidade. 

 A marina fica daquele lado, perto da estrada.
Voc consegue enxergar onde esto parados todos
os barcos? 
Jeremy acenou afirmativamente com a cabea. Por
algum motivo, ele esperava alguma coisa mais 
grandiosa. 
 Barcos grandes tambm podem parar l? 
 Acho que sim. De vez em quando alguns iatesgrandes de New Bern fazem uma parada de algunsdias. 
 E barcaas? 
 Acho que poderiam. A dragagem do rio  feita 
para permitir a circulao das barcaas que 
transportam a madeira, mas normalmente elas 
param do outro lado. Bem ali  ela apontou para oque parecia ser uma pequena enseada. - Agora 
d pra ver algumas delas, todas carregadas.
Ele acompanhou a direo de seu olhar, depoisolhou ao redor, fazendo uma avaliao. Olhando 
para Riker's Hill a distncia, a ponte e a fbricapareciam perfeitamente alinhadas. Coincidncia? 
Ou sem nenhuma importncia? Ele fixou os olhosna direo da fbrica de papel, tentando imaginarse os topos das chamins eram iluminados  noite.
Ele teria de checar isso. 
 Todo o transporte da madeira  feito por meiodas barcaas, ou voc sabe se eles tambm usam 
a ferrovia? 
 Eu nunca prestei ateno, para falar a verdade.
Mas acho que  fcil de descobrir. 
#
 Voc sabe quantos trens costumam atravessara ponte? 
 Tambm no tenho certeza quanto a isso. s 
vezes escuto um apito  noite, e j tive de pararalgumas vezes diante da linha do trem na cidade, 
para esperar o trem passar, mas eu no teria 
como lhe dar essa informao com segurana. Massei que eles fazem muitos carregamentos diretona fbrica.  l que o trem faz realmente uma 
parada.
Jeremy mexeu a cabea enquanto fitava a ponte.
Lexie exibiu um sorriso e continuou a falar.  Eu 
sei o que voc est pensando. Est pensando quetalvez o brilho da luz do trem quando ele 
atravessa a ponte esteja criando as luzes, certo? 
 Essa idia realmente me ocorreu. 
 No  isso  ela disse, mexendo a cabea. 
 Tem certeza? 
  noite, os trens ficam parados junto ao ptio 
da fbrica de papel para que possam ser 
carregados no dia seguinte. Assim, o brilho da luzda locomotiva fica virado no sentido oposto, 
contrrio  direo de Riker's Hill. 
Ele ficou avaliando essa informao enquanto sejuntava a ela, ao lado do peitoril. O vento 
balanava seu cabelo, deixando-o completamentedespenteado. Ela enfiou as mos nos bolsos do 
casaco. 
 D pra ver por que voc gosta de ter sido 
criada aqui  ele comentou.
Ela se virou, de forma que pde apoiar as costasno peitoril e ficar de frente para a cidade  as 
lojinhas arrumadas e enfeitadas com bandeiras 
#
americanas, a barbearia, o pequeno parquesituado na extremidade do passeio de tbuas. Pelacalada, as pessoas que entravam e saam das 
lojas, carregando sacolas. Apesar do frio, pareciaque ningum tinha pressa alguma. 

 Bem, tem muito a ver com Nova Iorque, isso eutenho de admitir. Ele riu.  No  isso o que euquis dizer. Eu quis dizer que os meus paisprovavelmente teriam adorado 
criar os filhos numlugar como este. Com grandes espaos cobertosde grama e florestas para brincar. E at um rio 
para nadar nos dias quentes. Deve ter sido... 
idlico. 
 Ainda . E  isso o que as pessoas dizem arespeito da vida por aqui. 
 Voc parece ter florescido aqui.
Por um momento, ela pareceu quase triste.  Sim,
mas eu fui embora para fazer faculdade. A maioriadas pessoas daqui nunca sai. O municpio  pobre, 
e o vilarejo teve de lutar muito desde que a 
tecelagem e a mina de fsforo fecharam, e muitospais no esto dispostos a gastar muito para 
proporcionar uma boa educao para os filhos. 
Isso  que  difcil s vezes  tentar convencer 
algumas crianas de que h mais coisas na vidaalm de trabalhar na fbrica de papel do outrolado do rio. Eu vivo aqui porque quero viver aqui.
Fiz essa escolha. Mas muitas dessas pessoas ficamsimplesmente porque para elas  impossvel sairdaqui. 
 Isso acontece em todos os lugares. Nenhum dos 
meus irmos freqentou uma universidade 
tambm. Eu era um tipo meio esquisito, de forma 
#
que o estudo caiu muito bem em mim. Meus paisso trabalhadores e moraram no Queens a vida 
inteira. Meu pai era motorista da companhia detransportes metropolitanos. Passou quarenta anossentado atrs de um volante, at o dia em que se 
aposentou.
Ela parecia achar engraado.  Que ironia. Ainda 
ontem, eu o considerava uma figura tpica do 
Upper East Side. Voc sabe, do tipo que os 
porteiros cumprimentam chamando pelo nome, 
colgio particular, jantares com cinco pratos, comum mordomo para anunciar os convidados.
Ele se encolheu, horrorizado.  Primeiro, filho 
nico, e agora isso? Estou comeando a achar quevoc me considera um garoto mimado. 

 No, mimado no... apenas... 
 No diga nada  ele falou, erguendo a mo. 
Prefiro no saber. Principalmente porque no  
verdade. 
 Como  que voc sabe o que eu ia dizer? 
 Porque at agora voc errou dois palpites, e
nenhum dos dois era muito lisonjeiro.
Os cantos de sua boca revelaram o esboo de um 
sorriso.  Sinto muito. No tive inteno. 
 Sim, voc teve  ele respondeu, com um 
sorriso irnico. Ento se virou e tambm encostou 
as costas no parapeito, sentindo a brisa tocando 
seu rosto.  Mas no se preocupe, no vou levar
isso para o lado pessoal. Quer dizer, j que eu no
sou um garoto rico mimado. 
 No. Voc  um jornalista bastante objetivo. 
 Exatamente. 
#
 Embora se recuse a ter a mente aberta para
qualquer coisa misteriosa. 
 Exatamente. 
Ela riu.  E o que me diz dos supostos mistrios
femininos? Voc no acredita neles? 
 Ah, eu sei que eles existem  ele respondeu, 
pensando especialmente nela.  Mas  algo
bastante diferente da crena na possibilidade da
fuso a frio. 
 Por qu? 
 Porque as mulheres so um mistrio subjetivo, 
e no objetivo. Voc no pode fazer qualquerclculo cientfico no que diz respeito a elas, embora, 
 claro, haja diferenas genticas entre os 
sexos. As mulheres s parecem misteriosas paraos homens porque eles no percebem que homense mulheres tm vises de mundo diferentes. 
 Eles tm, h? 
 Claro. Isso tem a ver com a evoluo e as 
melhores alternativas para a preservao da 
espcie. 
 E voc  um especialista nessa rea? 
 Eu tenho algum conhecimento nessa rea, sim. 
 E por isso voc tambm se considera um 
especialista em mulheres? 
 No,  claro que no. Eu sou tmido, est 
lembrada? 
 H-h, eu me lembro. Eu s no acredito. 
Ele cruzou os braos.  Deixe-me adivinhar... voc 
acha que eu tenho um problema com 
compromisso?
Ela o examinou com os olhos.  Acho que se pode
resumir assim. 
#
Ele riu.  O que posso dizer? O mundo do 
jornalismo investigativo  cheio de glamour, e h 
milhares de mulheres que esto loucas para fazerparte dele.
Ela revirou os olhos.  T bom, que mentira!  
ela disse.  Voc no  nenhum astro de cinema 
ou cantor de rock. Voc escreve para a Scientific 
American. 

 E...? 
 Bom, eu posso ter nascido no Sul, mas, assim 
mesmo, eu no consigo imaginar sua revista 
sendo invadida por fs.
Ele a encarou com olhar triunfal.  Acho que vocacabou de entrar em contradio. 
Ela ergueu uma sobrancelha.  Voc se acha 
muito esperto, sr. Marsh, no acha? 
 Ah, ento agora voc voltou para o sr. Marsh? 
 Talvez. Ainda no decidi.  Ela prendeu umamecha de cabelo atrs da orelha.  Mas voc est 
esquecendo o fato de que no  preciso ter umaporo de fs para... se sociabilizar. Tudo o que 
precisa fazer  freqentar os lugares certos e 
derramar o seu charme. 
 E voc acha que eu sou charmoso? 
 Eu diria que algumas mulheres devem 
consider-lo charmoso. 
 Mas voc, no. 
 Ns no estamos falando de mim. Estamos 
falando de voc, e neste instante voc est 
tentando mudar de assunto. O que provavelmentequer dizer que estou certa, mas que voc no queradmitir. 
#
Ele a olhou com admirao.  Voc  muito 
esperta, srta. Darnell. Ela concordou.  J me 
disseram. 

 E charmosa  ele fez questo de acrescentar.
Ela sorriu para ele, e depois desviou os olhos. Seuolhar se perdeu no passeio que descia 
acompanhando o rio, depois atravessou a rua nadireo da cidade, depois se fixou no cu, e porfim ela soltou um suspiro. No iria responder ao 
galanteio, ela decidiu. Apesar disso, sentiu que 
corava. 
Como se tivesse lido sua mente, Jeremy mudou de 
assunto.  Ento, no fim de semana  ele 
comeou , o que vai acontecer? 
 Voc no vai estar aqui?  ela perguntou. 
 Provavelmente. Pelo menos durante uma parte.
Mas eu s estava curioso para saber o que vocacha disso. 
 Alm de transformar a vida de algumas pessoas 
numa loucura total durante alguns dias?  ela 
perguntou.  Acho que...  necessrio nesta 
poca do ano. Temos a correria do Dia de Ao deGraas e, depois, a do Natal, e de repente no hnada na programao at a primavera. Enquantoisso, o tempo  frio, 
cinzento, chuvoso... por isso,
alguns anos atrs, a prefeitura decidiu criar o 
Passeio pelas Casas Histricas. E desde ento 
foram acrescentando cada vez mais festividades, 
na esperana de transform-lo num fim de semanaespecial. Este ano  o cemitrio, no ano passadofoi a parada, no ano anterior eles fizeram um bailede msica country 
na sexta-feira  noite. Agoraisso est se tornando parte da tradio da cidade, 
#
de modo que a maioria das pessoas da regio ficaesperando pela data.  Ela o olhou de relance. 
Mesmo que pequena e sem importncia, a cidade realmente divertida. 
Olhando-a de frente, Jeremy ergueu as 
sobrancelhas, lembrando das fotos do baile no 
folheto.  Eles organizam um baile?  ele 
perguntou, fingindo desconhecimento.
Ela fez que sim com um gesto de cabea.  Na 
sexta  noite. No celeiro de tabaco do Meyer, nacidade.  uma festa e tanto, com msica ao vivo etudo.  a nica noite do ano em que o Lukilu ficapraticamente vazio. 

 Bem, quem sabe voc dana comigo se eu 
resolver aparecer.
Ela sorriu, e finalmente olhou para ele com um
olhar quase sedutor.  Vamos combinar uma 
coisa. Se tiver resolvido o mistrio at l, eu dano 
com voc. 
 Promete? 
 Prometo  ela disse.  Mas o combinado  que
voc tem de resolver o mistrio primeiro. 
 Muito justo  ele falou.  Mal posso esperar. E
quando for a hora do swing ou dofox-trot...  ele 
sacudiu a cabea, soltando um longo suspiro.  
Bem, s o que posso dizer  que eu espero que
voc me acompanhe.
Ela riu.  Eu vou tentar. 
Cruzando os braos, Lexie observou o sol que
tentava, sem xito, brilhar atravs das nuvens.  
Esta noite  ela disse. Ele franziu a testa.  Esta 
noite? 
#
 Voc vai ver as luzes esta noite. Se for ao 
cemitrio. 
 Como voc sabe? 
 A neblina est se aproximando.
Ele seguiu seu olhar.  Como voc pode saber? Eu
no vejo diferena alguma. 
 Olhe para o outro lado do rio, atrs de mim  
ela falou.  O topo das chamins da fbrica de
papel j est encoberto pelas nuvens. 
 Sim, claro...  ele disse, sem completar a frase. 
 Vire-se e olhe. Voc vai ver. 
Ele olhou para trs, por cima do ombro, depois
olhou novamente, estudando os contornos da 
fbrica de papel.  Voc tem razo. 
  claro que tenho. 
 Acho que voc deu uma espiada sem que eupercebesse. 
 No  ela disse.  Eu sabia, s isso. 
 Claro. Mais um daqueles mistrios incmodos?
Ela se afastou do peitoril.  Se  assim que voc 
quer chamar  ela disse.  Mas, vamos l. Est 
ficando tarde e eu tenho de voltar para a biblioteca. 
Vou ter de ler para as crianas em quinzeminutos. 
Enquanto voltavam para o carro, Jeremy reparou 
que o topo de Riker's Hill tambm tinha ficado 
encoberto. Ele sorriu, pensando, "Foi por iss queela percebeu". Olhando l para cima, imaginouque tambm estivesse acontecendo do outro ladodo rio. Espertinha. 
 Diga-me uma coisa  ele falou, esforando-se 
para esconder o sorriso cnico , j que voc 
#
parece ter talentos ocultos. Como pode estar tosegura de que as luzes vo aparecer esta noite?
Ela demorou um pouco para responder. 

 Simplesmente estou. 
 Bem, ento acho que est combinado. Imagino
que o correto seria ir at l esta noite, certo?  
Assim que pronunciou estas palavras, ele se 
lembrou do jantar a que deveria comparecer e 
parou de repente. 
 O que foi?  ela perguntou, sem entender. 
 Lembrei que o prefeito est organizando um 
jantar com algumas pessoas que ele acha que eu
deveria conhecer  ele explicou.  Uma pequena
reunio ou algo do gnero. 
 Para voc? 
Ele sorriu.  O que foi? Ficou impressionada com 
isso? 
 No, apenas surpresa. 
 Por qu? 
 Porque no ouvi falar nada a respeito. 
 Eu mesmo s descobri hoje de manh. 
 Bem, ainda assim estou surpresa. Mas eu no
ficaria preocupada, mesmo comparecendo ao 
jantar com o prefeito. Normalmente, as luzes s 
aparecem bem tarde da noite, de qualquer forma.
Voc vai ter bastante tempo. 
 Tem certeza? 
 Foi quando eu as vi. Um pouco antes da meia-
noite. 
Ele parou de andar.  Espere a  voc viu as 
luzes? Porque no me falou nada?
Ela sorriu.  Voc no perguntou. 
  o que voc vive dizendo. 
#
 Bem, senhor jornalista, s porque voc vive 
esquecendo de perguntar. 
Captulo 

OITO 

Do outro lado da cidade, no Herbs, o policialRodney Hopper estava debruado sobre sua xcarade caf, imaginando por onde andaria Lexie e 
aquele... garoto da cidade.
Havia pensado em fazer uma surpresa a Lexie elev-la para almoar, para que o Garoto da 
Cidade soubesse exatamente em que p estavamas coisas. Talvez ela o deixasse acompanh-la at 

o carro, enquanto o Garoto da Cidade ficaria 
assistindo com inveja.
Ah, ele sabia exatamente o que o Garoto da 
Cidade tinha visto em Lexie. E ele tinha de ver. 
Diabos, era impossvel no ver, Rodney pensou.
Ela era a mulher mais bonita da regio, 
provavelmente do estado. Talvez at do mundo 
inteiro. 
#
Normalmente, ele no ficaria preocupado com umsujeito fazendo pesquisa na biblioteca, e ele noficou preocupado quando ouviu falar pela primeira 
vez. Mas a comeou a ouvir todo mundo 
cochichando a respeito do novo estranho na 
cidade, por isso quis conferir. E eles estavam certos: 
precisou apenas de uma olhada no Garoto daCidade para ver que ele tinha aquele jeito de 
cidade grande. As pessoas que pesquisavam na biblioteca 
eram mais velhas e pareciam professoresdesligados, usando culos de leitura, a posturano muito boa, parando de vez em quando paraum caf. Mas no esse sujeito; 
no, esse sujeitoparecia que tinha acabado de sair do salo de 
beleza da Della. Mas at isso no o teria 
preocupado tanto, se no fosse o fato de, nesseexato momento, estarem os dois desfilando pelacidade, apenas os dois sozinhos.
Rodney tinha uma expresso preocupada no rosto.
Onde estariam eles, afinal? 
No no Herbs. E tambm no no Pike's Diner. No, 
ele havia dado uma olhada no estacionamento 
desses lugares e no os encontrara. Ficou 
pensando que poderia ter entrado e perguntado,
mas a as pessoas poderiam falar, e ele no estavacerto de que essa teria sido uma boa idia. Todosos seus amigos faziam gozaes a respeito de suasituao com Leslie, 
principalmente quando ele 
contava que tinham marcado outro encontro. Eleslhe diziam para esquec-la, que ela s estava comele para ser legal, mas eles no sabiam de nada.
Todas as vezes que ele a convidara, ela tinha 
aceitado o convite, no tinha? Ele pensou a 

#
respeito. Bem, a maioria das vezes, de qualquer 
forma. Ela nunca o beijava no final do encontro,
mas a j era pedir demais. Ele era paciente e iachegar a hora. Todas as vezes que saam, 
abordavam cada vez mais profundamenteassuntos srios. Ele sabia disso. Podia sentir isso. 
Seus amigos, ele sabia, apenas estavam com 
inveja.
Tivera a esperana de que Doris pudesse lhe daralguma idia, mas por acaso ela tambm no 
estava por ali. Tinha ido falar com o contador, foi o 
que lhe disseram, mas voltaria logo. O que,
obviamente, no ajudara muito, pois sua hora dealmoo j estava quase no fim e no poderiasimplesmente ficar esperando por ela. Alm disso,
ela provavelmente iria negar que estava sabendode alguma coisa. Ele tinha ouvido falar que ela atgostava do Garoto da Cidade, e bem... isso noera especial? 

 Desculpe, querido?  Rachel falou.  Voc 
est bem? 
Rodney ergueu o olhar e a viu parada ao lado da
mesa com o bule de caf na mo. 
 No  nada, Rachel -ele disse.  Apenas 
mais um daqueles dias. 
 Os caras maus esto incomodando voc de 
novo? 
Rodney fez que sim com a cabea.  Acho que d
pra dizer que sim. Ela sorriu, e ficou bonita com o
sorriso no rosto, mas Rodney no pareceu
perceber. H muito tempo ele a via apenas como
uma espcie de irm. 
#
 Bem, as coisas vo melhorar  ela disse para 
anim-lo. Ele concordou com a cabea.  Voc 
deve ter razo. 
Ela apertou os lbios. s vezes ficava preocupadacom Rodney. 

 Tem certeza de que no pode entrar e comeralguma coisa rapidinho? Sei que est com pressa eposso pedir para que preparem alguma coisa bemrpida. 
 No. No estou com tanta fome. E tenho 
protena em p no carro para mais tarde. No sepreocupe comigo.  Ele estendeu a mo que segurava 
a xcara.  Mas um pouco mais de caf 
seria bom. 
 Aqui est  ela disse, enchendo a xcara. 
 Ei, por acaso voc reparou se Lexie passou por
aqui? Talvez para pedir alguma coisa pra viagem?
Ela sacudiu a cabea.  Eu no a vi o dia inteiro. 
Voc j viu na biblioteca? Posso dar uma ligada
pra l se for importante. 
 No, no  to importante.
Ela continuou perto da mesa, como se estivesse
pensando no que dizer em seguida.  Eu vi voc 
falando com Jeremy Marsh hoje de manh. 
 Quem?  Rodney perguntou, tentando parecer 
inocente. 
 O jornalista de Nova Iorque. Voc no lembra? 
 Ah, sim. Eu s achei que devia me apresentarpra ele. 
 Ele  um cara bonito, no ? 
 Eu no costumo reparar se os outros homensso bonitos  ele resmungou. 
#
 Bom, ele . Eu poderia ficar olhando pra ele o
dia todo. Quer dizer, aquele cabelo. Me d uma 
vontade de passar os dedos naquela cabea. Est
todo mundo falando dele. 
 Que timo  Rodney resmungou de novo, 
sentindo-se pior. 
 Ele me convidou para ir a Nova Iorque  ela 
falou. 
Ao ouvir isso, Rodney parou, imaginando se tinha
ouvido direito.  Ele convidou? 
 Bom, foi uma espcie de convite. Ele falou que
eu deveria fazer uma visita, e apesar de no ter
dito com todas essas palavras, acho que ele meio
que disse que eu podia visit-lo. 
 Verdade? Isso  timo, Rachel. 
 O que voc acha dele?
Rodney se mexeu na cadeira.  A gente no 
conversou muito. 
 Ah, mas voc deveria conversar. Ele  muito 
interessante e muito inteligente. E aquele cabelo.
Eu j falei do cabelo? 
 Sim  Rodney disse. Ele tomou outro gole de
caf, procurando acalmar-se para ver se entendia 
o que estava acontecendo. Ento, ele tinha 
convidado Rachel para ir a Nova Iorque? Ou Rachel
 que havia se convidado? Ele no tinha muita 
certeza. Ele no conseguia entender porque o 
Garoto da Cidade poderia achar que ela era 
atraente, mas ele definitivamente fazia o tipo que
avanava sobre as mulheres, mas... mas... Rachel 
tinha a mania de exagerar, e Lexie e o Garoto da
Cidade tinham sumido e estavam em algum lugar, 
#
sabe-se l onde. Tinha alguma coisa aqui que no
batia, no tinha? 
Ele comeou a se mexer para ir embora.  Bom, 
escuta, se voc encontrar com Lexie, diga a ela
que estive aqui, certo? 


 Claro. Quer que eu coloque seu caf num copodescartvel para viagem? 
 No, obrigado. J estou sentindo o estmagome incomodar um pouco. 
 Ah, coitadinho. Acho que temos algunscomprimidos pra dor de estmago l atrs. Querque eu lhe traga um? 
 Pra falar a verdade, Rach  ele respondeu, 
estufando o peito e tentando parecer oficial de 
novo , eu no acho que isso possa ajudar. 
Em outro lugar da cidade, do lado de fora do 
escritrio do contador, o prefeito Gherkin corria 
para alcanar Dris. 

 Aqui est a mulher que eu queria ver  ele 
gritou.
Dris se virou e viu quando ele se aproximava,
com seu palet vermelho e sua cala xadrez  elano conseguiu deixar de pensar que o homem 
devia ser daltnico. Poucas vezes ele exibia uma 
aparncia que no fosse simplesmente ridcula. 
 Em que posso ajud-lo, Tom? 
 Bem, no sei se voc ouviu falar ou no, mas 
estamos organizando uma noite especial para onosso convidado, Jeremy Marsh  ele disse.  Eleest escrevendo uma grande histria, sabe, e...
Dris completou a frase mentalmente, e 
pronunciou as palavras junto com ele. 
#
 ...voc sabe como isso pode ser importante 
para a cidade. 
 J ouvi falar  ela disse.  E isso  bom, 
principalmente para seus negcios. 
 Estou pensando na comunidade como um todo 
 ele disse, ignorando o comentrio.  Passei 
toda a manh tentando organizar as coisas paraque corra tudo bem. Mas eu esperava que voc sedispusesse a nos ajudar com a comida. 
 Voc quer que eu fornea a comida? 
 No de graa, veja bem. A cidade ter o maior 
prazer em reembolsar suas despesas. Estamos 
planejando realizar tudo na velha Fazenda Lawson,
nos arredores da cidade. J falei com o pessoal del, e eles disseram que ficariam muito satisfeitosem nos deixar usar as instalaes. Imagino quepoderamos fazer 
uma pequena reunio, e depoisus-la como ponto de partida para o Passeio pelasCasas Histricas. J falei com o jornal, e eles estopensando em mandar um reprter... 
 Quando  que voc est pensando em fazer 
essa pequena reunio?  ela perguntou, cortando
o que ele dizia.
Ele pareceu momentaneamente perplexo com a 
interrupo.  Bem, hoje  noite,  claro... mas,
como eu estava dizendo... 
 Hoje  noite?  ela o interrompeu novamente. 
 Voc quer que eu prepare as coisas para umade suas pequenas reunies esta noite. 
  por uma boa causa, Dris. Eu sei que  muitafalta de considerao da minha parte largar umabomba dessas na sua mo, mas podemos estar 
prestes a presenciar grandes acontecimentos, e 
#
precisamos correr para aproveitar ao mximo. Nsdois sabemos que voc  a nica pessoa com 
condies de dar conta de uma coisa dessas. Eu 
estava pensando que voc poderia fazer o seu 
pesto de frango especial, mas sem os 
sanduches... 

 Jeremy Marsh est sabendo disso? 
  claro que ele sabe. Nossa, falei com ele hojede manh, e ele me pareceu bastante animadocom a idia. 
 Verdade?  ela perguntou, inclinando-se para 
trs, duvidando. 
 E eu espero que Lexie possa vir tambm. Vocsabe como ela  importante para o pessoal destacidade. 
 Duvido que ela v. Ela detesta esse tipo de 
coisa, a menos que seja absolutamente 
necessrio. E este no me parece que seja 
absolutamente necessrio. 
 Talvez voc tenha razo. Mas, de qualquerforma, como eu estava dizendo, gostaria de fazercom que esta noite nos ajudasse a dar o pontapinicial para o fim de semana. 
 Voc no est esquecendo que sou contra aidia de usar o cemitrio como atrao turstica? 
  claro que no  ele disse.  Lembro 
exatamente de tudo o que voc me disse. Mas 
voc quer que a sua opinio seja ouvida ou no?
Se voc no aparecer, no vai haver ningum alipara representar o seu lado nessa questo.
Dris encarou o prefeito Gherkin demoradamente.
O homem com certeza sabia que boto deveria 
apertar. Alm disso, ele estava absolutamente 
#
certo. Se ela no fosse, j podia imaginar o queJeremy acabaria escrevendo, se tivesse como 
nica fonte o prefeito e os membros da assembliada cidade. Tom estava certo: ela era a nica quepoderia cuidar de uma coisa dessas em to curtoespao de tempo. 
Os dois sabiam que ela estiverase preparando para o passeio do fim de semana ej havia enchido a geladeira com muita comida. 

 Est certo  ela capitulou.  Vou cuidar de 
tudo. Mas no pense nem por um segundo que 
vou servir todo mundo. Ser tipo buf, e vou 
sentar em uma mesa como todos vocs. 
O prefeito Gherkin sorriu.  Eu no aceitaria se 
no fosse desse jeito, Dris. 
O policial Rodney Hopper estava sentado em seucarro em frente  biblioteca no outro lado da rua, 
pensando se devia ou no entrar e falar com Lexie.
Dali ele conseguia ver o carro do Garoto da 
Cidade parado no estacionamento, o que 
significava que eles j tinham voltado de onde 
quer que tivessem ido, e ele tambm conseguiaver luzes brilhando atravs da janela, no escritriode Lexie. 
Conseguia imaginar Lexie em seu escritrio, lendo,
sentada em cima das pernas, os joelhos dobrados,
enrolando as mechas de cabelo enquanto viravaas pginas de um livro. Queria conversar com ela,
mas o problema era que ele sabia que no tinhaum bom motivo para procur-la. Ele nunca ia at abiblioteca s para conversar porque, francamente,
ele no tinha muita certeza de que ela gostaria 
que fizesse isso. Ela nunca tinha sugerido que 

#
poderia dar uma passada por ali s para v-la, esempre que ele tentava desviar a conversa nessadireo, ela mudava de assunto. De certa forma, 
fazia sentido, j que ela precisava trabalhar, mas, 
ao mesmo tempo, ele sabia que, se ela o 
encorajasse a visit-la, significaria mais um pequeno 
passo na evoluo do relacionamento deles.
Ele viu uma figura passar pela janela, e ficou 
pensando se o Garoto da Cidade estaria no 
escritrio com ela. 
Ele franziu a testa. Isso, sim, era de surpreender,
no era? Primeiro, um almoo  algo que ele eLexie nunca tinham feito , e agora uma visitaamigvel no trabalho. Ele continuou com a testafranzida, pensando a respeito 
do assunto. Em 
menos de um dia, o Garoto da Cidade j estavabotando as manguinhas de fora, no  mesmo?
Bem, talvez ele tivesse de procur-lo para outraconversinha a respeito daquela situao. Explicaras coisas para ele, de forma que o Garoto daCidade entendesse direitinho 
em que p estavamas coisas. 
Naturalmente, isso significaria que a situao dele 
com Lexie estava em algum ponto, e nesse 
momento ele no tinha muita certeza de qual era 
exatamente esse ponto. At ontem, ele estava 
satisfeito com o relacionamento deles. Bem, est 
certo, talvez no estivesse completamente 
satisfeito. Ele preferiria que as coisas andassem 
um pouco mais rpido, mas essa no era a 
questo. A questo  que at ontem ele sabia queno havia concorrncia, mas hoje os dois estavamsentados l dentro, provavelmente rindo e fazendo 

#
piadas, divertindo-se pra valer. E ali estava ele, 
sentado num carro parado, olhando para eles dolado de fora. 
Mas talvez Lexie e o Garoto da Cidade no 
estivessem juntos no escritrio. Talvez Lexie 
estivesse fazendo... bem, seu trabalho de 
bibliotecria, enquanto o Garoto da Cidade 
estava enfiado num canto, lendo algum livro 
mofado. Talvez Lexie estivesse apenas sendo 
educada, j que o sujeito estava visitando a 
cidade. Ele pensou um pouco a respeito, antes dedecidir que fazia sentido. Bom, todo mundo estavafazendo o que podia para que o sujeito se sentisse vontade, certo? 
E o prefeito estava comandando

o cumprimento dessa obrigao. Naquela manh,
quando ele estava diante do Garoto da Cidade,
exatamente quando pretendia enquadrar o sujeito,
o prefeito (o prefeito!) tinha ajudado o sujeito a 
escapar em segurana. E a tinha dado nisso. O 
Garoto da Cidade e Lexie estavam colhendo 
flores e vendo o arco-ris juntinhos.
Mas talvez no fosse nada disso. 
Ele detestava o fato de no saber o que estavaacontecendo, e bem quando ele estava se 
preparando para ir at l, seus pensamentos 
foram interrompidos por uma batida no vidro. 
Levou um minuto para que o rosto ficasse visvel.
O prefeito. O sr. Interrupo no Momento Errado.
Duas vezes j.
Rodney abaixou o vidro da janela do carro e sentiu 
o frio bater no rosto. O prefeito Gherkin se 
inclinou, usando as mos para se apoiar. 
#
 Aqui est o homem que eu estava procurando
 disse o prefeito Gherkin.  Eu estava passando
de carro quando vi voc, e a me lembrei de que 
vamos precisar de um representante do setor 
responsvel pelo cumprimento da lei esta noite. 
 Para qu? 
 A pequena reunio,  claro. Para Jeremy Marsh,
nosso ilustre visitante. Hoje  noite na Fazenda 
Lawson. 
Rodney piscou.  Voc est brincando, no est? 
 No,  claro que no. Na verdade, a essa hora o
Gary j deve estar fazendo uma chave da cidade
para ele, que eu encomendei. 
 Uma chave da cidade  Rodney repetiu. 
  claro, no conte a ningum sobre isso. 
Dever ser uma surpresa. Mas j que isso est se
tornando mais oficial, eu realmente gostaria de 
contar com a sua presena esta noite. A noite vai
parecer mais... cerimoniosa. Eu gostaria que voc
estivesse do meu lado quando eu a entregasse a
ele. 
Rodney estufou o peito, lisonjeado. Mesmo assim,
no havia a menor chance de ele sequer pensar
em fazer uma coisa daquelas.  Eu acho que esse
papel est mais para o meu chefe, voc no acha? 
 Bem, est certo. Mas ns sabemos que neste 
momento ele est nas montanhas, caando. E 
como voc  o responsvel quando ele est fora, 
essa  mais uma das obrigaes que acabam 
sobrando pra voc. 
 Eu no sei, Tom. Eu teria de convocar algum
para me cobrir.  uma pena, mas eu realmente
acho que no vou poder. 
#
  uma pena. Mas eu entendo. O dever sagrado. Rodney soltou um suspiro dealvio.  Obrigado. 
 Mas eu tenho certeza de que Lexie iria adorarencontrar com voc. 
 Lexie? 
  claro. Ela dirige a biblioteca, e isso faz delaum dos dignitrios que devero comparecer. Oraessa, eu estava justamente passando para falarcom ela sobre isso. 
Mas eu tenho certeza de queela vai gostar de conversar com o nosso 
convidado, mesmo que voc no esteja l.  O 
prefeito se endireitou.  Mas tudo bem, como eu 
j disse, eu entendo. 
 Espere!  Rodney falou, a mente trabalhando
acelerada, tentando recapitular.  Voc disse que
 hoje  noite, certo?
O prefeito acenou afirmativamente com a cabea. 
 Eu no sei onde  que eu estava com a cabea, 
mas acho que o Bruce j est escalado paratrabalhar, por isso eu acho que posso dar um jeito.
O prefeito sorriu.  Fico feliz em ouvir isso  ele 
disse.  Agora deixa eu entrar para falar com asrta. Darnell. Voc no estava pensando em entrarl para falar com ela, estava? Quer dizer, eu nome importo em esperar. 
 No  Rodney falou.  S diga a ela que a 
verei mais tarde. 
 Pode deixar, policial. 
Depois de fornecer a Jeremy algumas informaesadicionais e de passar rapidamente por seu 
escritrio, Lexie se viu cercada por vinte crianas, 

#
algumas delas sentadas no colo de suas mes. Ela 
estava sentada no cho, lendo o terceiro livro. 
Havia um grande barulho na sala, como sempre.
Em uma mesinha baixa, na lateral, foram 
colocados biscoitos e suco; no canto oposto da 
sala, algumas crianas menos interessadas na 
leitura estavam entretidas com os brinquedos queela deixava nas prateleiras. Outras ainda, 
brincavam de pintar com as mos em uma mesaimprovisada que ela mesma havia criado. A sala 
era decorada com cores alegres  as prateleiraspareciam lpis de cor, sem nenhum tema especial,
alm do colorido. Apesar das reclamaes de 
alguns dos voluntrios e empregados mais velhos 

 que queriam que as crianas sentassem em 
silncio para ouvir as histrias, como acontecia 
antes , Lexie queria que as crianas se divertissem 
na biblioteca. Ela queria que elas ficassemanimadas com a idia de ir at l, mesmo quepara isso fossem necessrios brinquedos, jogos euma sala que era tudo, menos 
silenciosa. Ao longodos anos, ela pde ver dezenas de crianas quepassavam um ou dois anos brincando, antes dedescobrirem o prazer da leitura, mas para ela issono 
era problema. Desde que continuassem a vir.
Mas hoje, enquanto estava lendo, ela sentia quesua cabea teimava em voltar para o almoo quehavia compartilhado com Jeremy. Embora no 
pudesse ser descrito como um encontro, essa 
sensao pairava no ar, o que o tornava algodesconcertante. Relembrando os acontecimentos, 
ela percebeu que havia revelado muito mais coisas respeito de si mesma do que pretendia, e ficava 
#
tentando se lembrar de como isso acontecera. E 
no  que ele tivesse sido intrometido. Ao 
contrrio, simplesmente tinha acontecido. Mas por 
que cargas d'gua ela ainda estava remoendo 
essas coisas? 
Ela no gostava de imaginar a si mesma como 
uma neurtica, mas essa anlise interminvel era 
muito estranha. Alm disso, disse a si mesma, tinha 
sido mais um passeio turstico em que ela 
servira de guia do que propriamente um encontro.
Mas no importava o quanto se esforasse paraparar de pensar, a imagem de Jeremy continuava 
a surgir inesperadamente: o sorriso levemente 
evasivo, seu ar de divertimento com as coisas queela dizia. Ela no conseguia evitar de se perguntarno que ele pensaria a respeito de sua vida ali, parano falar 
do que ele pensaria a respeito dela. Elaat havia corado quando ele disse que a achavacharmosa. O que significaria tudo isso? Talvez, ela 
pensou, por ter falado abertamente sobre meu 
passado, eu esteja me sentindo vulnervel.
Ela fez uma observao mental para que isso nose repetisse. Mesmo assim...
No fora to ruim, tinha de admitir. Apenas umaconversa com uma pessoa nova, algum que noconhecia todo mundo e nem sabia de tudo o queestava acontecendo na cidade, 
e isso era bom. Ela 
at havia esquecido como isso podia ser especial.
E ele a tinha surpreendido. Dris tinha razo, pelomenos em parte. Ele no era o que ela pensavaque fosse. Era mais inteligente do que imaginara, 
e mesmo tendo uma postura fechada para 
qualquer possibilidade de mistrio, ele 

#
compensara tudo, encarando com bom humor 
suas diferenas no modo de pensar e de levar avida. Ele tambm era capaz de fazer ironia consigomesmo, o que era muito charmoso.
Enquanto prosseguia com a leitura para as 
crianas  felizmente, o livro no era complicado, sua mente se recusava a parar de divagar.
Certo, ento ela gostava dele. Tinha de admitir. E 
para falar a verdade, gostaria de passar mais 
tempo com ele. Mas, apesar de reconhecer essefato, continuava a ouvir aquela vozinha em suacabea que a alertava para no se machucar. Elateria de tomar muito cuidado 
 apesar de que 
pareciam estar se dando bem , pois Jeremy 
Marsh poderia realmente machuc-la, se ela 
permitisse que isso acontecesse. 

Jeremy estava debruado sobre uma srie de 
mapas das ruas de Boone Creek, pertencentes aosanos de 1850. Quanto mais antigos, mais detalhesescritos pareciam ter, e enquanto observava como 
a cidade tinha mudado a cada dcada, mais 
anotaes ele fazia. De vilarejo pacato incrustadojunto a uma dezena de estradas, a cidade havia seexpandido continuamente.
O cemitrio, como ele j sabia, estava situado 
entre o rio e Riker's Hill; o mais importante era queele havia percebido que se fosse traada uma linha 
entre Riker's Hill e a fbrica de papel, ela 
passaria diretamente atravs do cemitrio. A 
distncia total era um pouco menor que cinco 
quilmetros, e ele sabia que a refrao da luz erapossvel nessa distncia, mesmo em noites 

#
nubladas. Ficou pensando se a fbrica teria umterceiro turno, o que exigiria a manuteno dasluzes acesas durante a noite. Com o volume certo 
de neblina e iluminao suficiente, tudo poderiaser explicado numa tacada s.
Depois de refletir, ele percebeu que deveria ternotado a relao em linha reta entre a fbrica de 
papel e Riker's Hill quando estivera l em cima.
Em vez disso, ficara apreciando a vista, olhando acidade e passando o tempo com Lexie.
Ele ainda estava tentando entender a mudana 
repentina em seu comportamento. Ainda ontem, 
ela no queria nada com ele, e hoje... bem, hojetinha sido um novo dia, no  mesmo? O diabo  
que ele no conseguia parar de pensar nela, e nos da maneira mais comum, daquele jeito de 
pensar na pessoa que pendura a roupa do lado dasua. Ele no conseguia lembrar de quando  queisso tinha acontecido pela ltima vez. Com Maria,
certamente, mas isso tinha sido h muito tempo.
Numa outra vida, quando ele era inteiramente 
outra pessoa. Mas hoje a conversa tinha sido tonatural, ele havia ficado to  vontade, que,
apesar do fato de saber que tinha de terminar deestudar os mapas, tudo o que realmente queriafazer era conhec-la um pouco melhor.
Estranho, ele pensou, e antes que percebesse oque estava acontecendo, deixou a mesa em queestava trabalhando e comeou a andar na direo 
das escadas. Ele sabia que ela estava lendo paraas crianas, e no tinha inteno de perturb-la,
mas de repente ficara com vontade de v-la. 

#
Ele desceu os degraus, fez a volta e foi at umadas paredes de vidro. Levou poucos minutos paralocalizar Lexie sentada no cho, cercada pelas 
crianas. 
Ela fazia a leitura com muita animao, e ele 
sorriu ao ver as expresses de seu rosto: os olhosarregalados, o "o" que fez com a boca, o modocomo se curvava para enfatizar alguma coisa queestava acontecendo 
na histria. As mes estavam 
sentadas, com um sorriso no rosto. Algumas dascrianas estavam completamente paradas; outras,
pareciam ter tomado algum estimulante. 

 Ela  realmente uma coisa, no ? 
Surpreso, Jeremy virou-se para o lado.  Prefeito 
Gherkin. O que est fazendo aqui? 
 Ora, Vim para v-lo,  claro. E a srta. Lexie 
tambm. Pra falar do jantar de hoje  noite. 
Conseguimos organizar tudo. Acho que vai ficar 
bastante impressionado. 
 Tenho certeza que sim  Jeremy falou. 
 Mas como eu estava dizendo, ela  mesmo uma 
coisa, no ? Jeremy ficou calado, e o prefeito deu
uma piscada antes de continuar. 
 Eu vi o jeito como estava olhando pra ela. O 
homem  sempre trado pelo olhar. Os olhos 
sempre dizem a verdade. 
 O que quer dizer isso?
O prefeito exibiu um sorrisinho irnico.  Bem , eu
no sei. Por que no me conta? 
 No h nada para contar. 
  claro que no  disse o prefeito.
Jeremy mexeu a cabea.  Escute, sr. prefeito... 
Tom... 
#
 Ora, no se preocupe. Eu estava s brincando.
Mas deixe eu lhe contar umas coisas sobre nossa 
reunio desta noite. 
O prefeito Gherkin contou a Jeremy qual havia sido 
o local escolhido, e ento lhe passou algumas
indicaes em relao ao caminho. Como era de 
se esperar, todas baseadas no conhecimento da
regio. Sem dvida, Tully devia ter lhe ensinado
tudo o que sabia, Jeremy pensou. 
 Voc acha que vai conseguir encontrar?  o 
prefeito perguntou quando terminou a explicao. 
 Eu tenho um mapa  Jeremy falou. 
 Isso pode ajudar, mas no se esquea de que
aquelas estradas secundrias podem ficar 
bastante escuras.  fcil se perder se no tomar
cuidado. Talvez seja melhor voc vir com algum
que conhea a regio.
Quando Jeremy olhou para ele com ar de 
interrogao, o prefeito Gherkin olhou de relance
para a janela. 
 Voc acha que eu deveria falar com Lexie?  
Jeremy perguntou.
Os olhos do prefeito piscaram.  Isso  com voc.
Se acha que ela pode concordar. Muitos homens a
consideram uma espcie de trofu neste condado. 
 Acho que ela diria sim  Jeremy falou, 
sentindo-se mais esperanoso que confiante.
O prefeito exibiu uma expresso de dvida.  
Acho que est superestimando suas habilidades.
Mas se tem tanta certeza, ento acho que minha
misso por aqui est encerrada. Veja, eu vim para
convid-la pessoalmente, mas j que voc acha 
#
que pode se encarregar disso, nos vemos mais noite. 
O prefeito virou-se para sair, e poucos minutos 
depois Jeremy viu que Lexie havia terminado. Elafechou o livro, e enquanto os pais ficavam de p,
ele sentiu a adrenalina correndo em suas veias. 
Achou divertida aquela sensao de nervosismo.
Quando fora a ltima vez que uma coisa dessastinha acontecido? 
Algumas mes chamaram as crianas que no 
tinham ficado escutando, e pouco depois Lexie 
estava acompanhando o grupo para fora da salainfantil. Quando viu Jeremy, caminhou em sua 
direo. 

 Presumo que esteja pronto para comear a 
examinar os dirios  ela arriscou. 
 Se voc tiver disponibilidade para peg-los  
ele disse.  Ainda tenho de examinar algumas 
coisas nos mapas. Mas, na verdade, tambm 
tenho outra coisa para lhe dizer. 
 O que ?  ela perguntou, erguendo a cabea, 
surpresa. Enquanto falava, ele sentiu seu 
estmago se contorcendo. Coisa estranha. 
 O prefeito apareceu para falar do jantar de hoje
 noite na Fazenda Lawson, e ele acha que eu no
vou conseguir encontrar o lugar sozinho, por isso
ele sugeriu que eu levasse algum que conhea o
local. E, bem, como voc  praticamente a nica
pessoa que conheo na cidade, estava pensando
se voc aceitaria ir comigo.
Por um longo minuto, Lexie no disse nada.
 Previsvel  ela disse finalmente. 
A resposta pegou Jeremy desprevenido. 
#
 Desculpe? 
 Ah, no voc.  o prefeito e o jeito que ele tem 
de fazer as coisas. Ele sabe que tento evitar 
eventos como esse sempre que possvel, a menosque tenha algo a ver com a biblioteca. Ele calculouque eu diria no se ele me convidasse, por issodeu um jeito de fazer 
voc me convidar. E a estvoc. E aqui estou eu.
Jeremy piscou os olhos diante dessa idia, 
tentando se lembrar de como tinha ocorrido 
exatamente, mas s lhe vinham  cabea pedaosda conversa. Quem havia sugerido que ele fossecom Lexie? Ele ou o prefeito? 
 Por que  que de repente estou me sentindo nomeio de uma novela? 
 Porque est. Isso se chama viver numa 
pequena cidade do Sul do pas.
Jeremy parou, parecendo indeciso.  Voc 
realmente acha que o prefeito j havia planejadofazer isso? 
 Eu sei que ele j havia planejado tudo. Pode 
parecer que ele no  mais esperto do que umsaco de grama, mas ele tem uma forma engraadade fazer com que as pessoas faam exatamente o 
que ele quer, e ainda por cima ele as deixa 
pensando que foi tudo idia delas. Por que diabosvoc acha que ainda est hospedado em 
Greenleaf? 
Jeremy enfiou as mos nos bolsos, considerando o 
assunto.  Bem, j que  assim, voc sabe muitobem que no precisa vir comigo. Tenho certeza deque conseguirei encontrar o lugar sozinho. 
#
Ela colocou as mos nos quadris e olhou para ele.

 Voc est me dispensando?
Jeremy estacou, sem saber o que responder.  
Bom, eu s pensei que se o prefeito... 
 Voc quer que eu v com voc ou no?  ela 
perguntou. 
 Claro, mas se voc no... 
 Ento, faa o convite de novo. 
 Desculpe? 
 Me convide para ir com voc hoje  noite. Porsua prpria conta, e no use a desculpa de queprecisa de algum para lhe ensinar o caminho. 
Diga algo como "Eu realmente gostaria de lev-laao jantar esta noite. Posso peg-la mais tarde?".
Ele olhou para ela, tentando descobrir se ela 
estava falando srio.  Quer que eu repita essas 
palavras? 
 Se no repetir, a idia vai continuar a ser doprefeito e eu no vou. Mas se me convidar, tem deser sincero, por isso use o tom de voz apropriado.
Jeremy parecia nervoso como um colegial.  Eu 
realmente gostaria de lev-la ao jantar esta noite.
Posso pegar voc mais tarde? Ela sorriu e colocoua mo em seu brao. 
 Ora, sr. Marsh  ela disse, arrastando as 
palavras.  Eu ficaria encantada. 
Minutos depois, Jeremy observava enquanto Lexietirava os dirios de uma caixa fechada na sala de 
livros raros, a cabea ainda girando. As mulheresde Nova Iorque simplesmente no falavam do jeitoque Lexie falava com ele. Ele no tinha certeza seela havia tomado 
uma atitude sensata ou 

#
insensata ou estava no meio. Convide-me 
novamente e use o tom de voz apropriado. Que 
tipo de mulher fazia uma coisa dessas? E por quecargas d'gua ele tinha sentido aquela obrigao?
Ele no tinha muita certeza; e, subitamente, tanto 
a matria quanto a oportunidade que poderia terna televiso, passaram a ser meros detalhes. Emvez disso, enquanto olhava para Lexie, tudo o queele conseguia pensar 
era no calor que havia 
sentido quando ela colocara a mo suavementeem seu brao. 


Captulo 

NOVE 

J estava quase anoitecendo, a neblina ficara 
espessa a ponto de comprometer a visibilidade, eRodney Hopper chegara  concluso de que a 
Fazenda Lawson parecia que estava prestes a 
acolher um show de Barry Manilow. 

#
Durante os ltimos vinte minutos, ele havia ficado 
orientando o trfego para as vagas de 
estacionamento, observando com olhar incrdulo a 
procisso de pessoas agitadas que caminhavampara a porta de entrada. At agora ele tinha visto

o dr. Benton e o dr. Tricket, Albert, o dentista, todos 
os oito membros da assemblia da cidade, 
incluindo Tully e Jed, o prefeito e o pessoal daCmara de Comrcio, toda a diretoria da escola, 
todos os nove comissrios do condado, o 
voluntariado da Sociedade Histrica, trs 
contadores, toda a equipe do Herbs, o barman do 
Lukilu, o barbeiro e at mesmo Toby, que ganhavaa vida limpando fossas spticas, mas que pareciamuito bem-arrumado, apesar disso. A Fazenda 
Lawson no ficava lotada desse jeito nem na 
poca do Natal, quando o local era superbemdecorado e aberto ao pblico na primeira sexta-
feira de dezembro. 
Esta noite no era a mesma coisa. Essa no seria 
uma celebrao na qual amigos e conhecidos sereuniriam para apreciar a companhia uns dos 
outros, antes da correria das festas de fim de ano. 
Essa festa fora feita para homenagear algum queno tinha nada a ver com a cidade e no dava a 
mnima para este lugar. E o que era pior, emboraestivesse ali em carter oficial, Rodneysubitamente se deu conta de que no deveria nemter se preocupado em passar 
a camisa e engraxaros sapatos, pois duvidava de que Lexie iria lhe darqualquer ateno.
Ele j estava sabendo de tudo. Depois de Dris tervoltado para o Herbs, a fim de providenciar o envio 
#
da comida, o prefeito tinha dado uma passada ecomentado a terrvel novidade sobre Jeremy e 
Lexie, e Rachel o havia chamado imediatamente. 
Rachel, para ele, era uma pessoa doce a ponto defazer essas coisas, e sempre tinha sido. Ela sabiade seus sentimentos por Lexie e no gozava dele 
como uma poro de gente fazia. De qualquer 
forma, ele ficara com a impresso de que ela 
tambm no tinha ficado muito entusiasmada com 
a idia de os dois aparecerem juntos. Mas Rachelsabia esconder os prprios sentimentos melhor doque ele, e nessa hora a vontade que ele sentia eraa de estar em qualquer 
outro lugar. Tudo o que 
dissesse respeito quela noite causava-lhe mal-
estar. 
Principalmente o modo como a cidade inteira 
estava agindo. Pelo que se lembrava, esse pessoalno ficava to agitado em relao s perspectivas 
para a cidade desde que o Raleigh News & 
Observer havia mandado um reprter para 
escrever uma histria sobre Jumpy Walton, que 
estava tentando construir uma rplica do avio 
dos irmos Wright, com o qual ele pretendia voar 
em comemorao ao centsimo aniversrio da 
aviao em Kitty Hawk. Jumpy, que sempre tiveraalguns parafusos soltos, havia muito tempo dizia 
que estava com a rplica quase pronta, mas 
quando abriu as portas do celeiro para mostrarorgulhosamente tudo o que havia feito, o reprterpercebeu que Jumpy no tinha a menor idia do 
que fizera at ento. No celeiro, a tal rplica 
parecia uma verso torta e gigantesca de uma 
galinha de arame farpado e madeira compensada. 

#
E agora a cidade estava apostando todas as suasfichas na existncia de fantasmas no cemitrio, e 
acreditando que o Garoto da Cidade traria o 
mundo inteiro para a soleira de suas portas porcausa disso. Rodney duvidava seriamente de tudoisso. Alm do mais, honestamente, ele no dava a 
mnima para o fato de o mundo todo vir ou no,
desde que Lexie continuasse a fazer parte do seu 
mundo. 
Em outro lugar da cidade, nesse mesmo instante,
Lexie saa para a varanda de sua casa, enquantoJeremy se aproximava trazendo um pequenobuqu de flores do campo na mo. Belo gesto, elapensou, e de repente se deu 
conta de que estavarezando para que ele no percebesse todo o nervosismo 
que sentira at alguns minutos atrs.
s vezes era difcil ser mulher, e esta noite tinha 
sido mais difcil que de costume. Primeiro,  claro,
havia a dvida em relao ao fato de este ser um 
encontro de verdade. Certamente, estava mais 
prximo de um encontro do que os 
acontecimentos da hora do almoo, mas no seria 
exatamente um jantar romntico para dois, e elano tinha certeza sequer de que aceitaria um 
convite desse tipo. Depois, havia toda a questoda imagem, e de como gostaria de ser vista, no 
apenas por Jeremy, mas por todas aquelaspessoas que os veriam juntos. Acrescente-se a isso

o fato de que ela se sentia muito mais confortvelquando estava usando uma cala jeans e no tinha 
qualquer inteno de exibir o colo, e tudo ficarato embolado em sua cabea que ela finalmente 
entregou os pontos. Decidiu que iria apresentar 
#
um ar profissional: terno marrom e blusa em tom 
creme. 
Mas a vinha ele, caminhando tranqilamente comseu ar de cantor country, fingindo no ter ficadominimamente preocupado com aquela noite. 

 Voc achou minha casa!  Lexie observou. 
 No foi muito difcil  disse Jeremy.  Voc me 
mostrou onde ficava quando estvamos l em 
Riker's Hill, lembra?  Ele lhe entregou as flores. 
 So pra voc.
Ela sorriu ao pegar o buqu, absolutamente 
adorvel. E sexy tambm,  claro. Mas "adorvel" 
parecia mais apropriado. 
 Obrigada  ela disse.  Como foi a pesquisa 
com os dirios? 
 Tranqila  ele respondeu.  No havia nada 
de muito espetacular naqueles que examinei at 
agora. 
 Tenha um pouco de pacincia  ela disse com 
um sorriso.  Quem sabe o que voc poder
encontrar?  Ela aproximou o buqu do nariz.  A
propsito, so lindas. Eu vou coloc-las em um 
vaso e pegar um casaco. A poderemos ir.
Ele abriu os braos.  Estarei esperando aqui
mesmo. Poucos minutos depois, j no carro, eles 
atravessaram a cidade na direo oposta  do 
cemitrio. Enquanto a neblina ficava cada vez 
mais espessa, Lexie orientava Jeremy pelas 
estradas, at chegarem a um caminho longo e 
sinuoso, com carvalhos em ambos os lados, to 
antigos que pareciam ter sido plantados ali havia
sculos. Embora no conseguisse ver a casa, ele
diminuiu a marcha ao se aproximar de uma cerca
#
viva, imaginando que ela acompanhava algum 
caminho alm da curva. Ele se inclinou sobre o 
volante, pensando para onde deveria virar. 
 Talvez seja melhor voc estacionar por aqui  
Lexie sugeriu.  Duvido que voc encontre algumlugar mais perto e, alm disso, acho que vai serbom ter a possibilidade de sair daqui facilmentemais tarde. 

 Tem certeza? Ns ainda nem conseguimos ver 
a casa. 
 Confie em mim  ela disse.  Por que voc 
acha que eu trouxe este casaco?
Ele ficou pensando por alguns instantes, antes de 
se decidir. Por que no? Logo em seguida eles 
estavam seguindo pelo caminho a p, Lexie fazendo 
o melhor que podia para manter o casacosobre os ombros. Seguiram pela curva, 
acompanhando a cerca-viva que ladeava o 
caminho e, subitamente, a velha manso 
georgiana surgiu gloriosa diante de seus olhos.
A casa, entretanto, no foi a primeira coisa queJeremy notou. O que ele viu primeiro foram os 
carros. Muitos carros, estacionados aleatoriamente, 
com a frente virada para todas as direes, 
como se estivessem preparados para uma fugarpida. Muitos outros ainda estavam circulando, asluzes dos freios acendendo de vez em quando, ouento tentando ocupar 
espaos 
inacreditavelmente estreitos. 
Jeremy estacou, observando a cena. 
 Eu achava que esta seria uma pequena reunioentre amigos. 
#
Lexie acenou com a cabea.  Esta  a verso do 
prefeito para uma pequena reunio. No se 
esquea de que ele conhece praticamente todo 
mundo neste condado. 

 E voc sabia que isto iria acontecer? 
  claro. 
 E por que no me contou que seria uma coisaassim? 
 Como eu vivo dizendo, voc sempre esquece deperguntar. Alm disso, pensei que voc soubesse. 
 Como eu poderia saber que ele estava 
planejando uma coisa desta?
Ela sorriu, olhando na direo da casa.  E 
bastante impressionante, no ? No que eu acheque voc merea.
Ele resmungou com ar divertido.  Sabe de uma 
coisa, eu realmente comeo a gostar desse seucharme sulista. 
 Obrigada. E no se preocupe com esta noite.
No vai ser to estres-sante quanto voc pensa.
Todos so muito simpticos e, em caso de dvida,
lembre-se apenas de que voc  o convidado dehonra. 
Dris devia ser a banqueteira mais organizada eeficiente do mundo, pensou Rachel, j que tudohavia sido organizado sem maiores problemas eat com alguma tranqilidade. 
Em vez de ter de 
passar a noite lavando pratos, Rachel estava 
saracoteando entre as pessoas, em sua primorosacpia de vestido Chanel para festas, quando viuRodney caminhando em direo  varanda. 

#
Com seu uniforme impecvel e bem passado, elaachava que ele ficava parecido com um oficial, 
como um fuzileiro naval naqueles cartazes da IIGuerra Mundial pendurados no edifcio dos 
Veteranos de Guerra, na Main Street. Muitos dos 
outros policiais revelavam os sinais dos salgadinhos 
e das cervejas na silhueta, mas Rodney, nassuas horas de folga, fazia musculao na garagemde sua casa. Ele deixava a porta da garagem aberta 
e, s vezes, quando voltava do trabalho, elaparava para conversar um pouco com ele, comovelhos amigos que eram. Quando pequenos,
tinham sido vizinhos, e sua me guardava fotosdeles brincando juntos na banheira. Poucos amigostinham esse tipo de lembrana.
Ela tirou o batom da bolsa e retocou os lbios, 
consciente de sua fraqueza em relao a ele. 
Haviam seguido rumos diferentes na vida,  claro,
mas nos ltimos anos as coisas estavam mudando. 
H dois anos, no vero, acabaram sentando pertoum do outro no Lukilu, e ela percebera a expresso 
de seus olhos enquanto ele assistia ao 
noticirio sobre um jovem que havia morrido emum trgico incndio em Raleigh. A viso de seusolhos marejados por causa da perda de um 
estranho tinha-a afetado de uma maneira que elano esperava. Ela percebeu isso numa outra 
ocasio, na ltima Pscoa, quando o 
Departamento de Polcia patrocinou a caa ao ovona Casa Manica e ele a chamou de lado para lhe 
contar os lugares mais ardilosos que haviam 
encontrado para esconder as guloseimas. Ele 
parecia mais excitado do que as crianas, o que 

#
provocava um contraste divertido com seus bcepsavantajados, e ela se lembrou de ter pensado queele seria o tipo de pai que deixaria qualquer 
mulher orgulhosa.
Pensando bem, ela achava que tinha sido naquele 
momento que seus sentimentos em relao a 
Rodney haviam mudado. No que tivesse se 
apaixonado por ele de repente, mas naquele 
momento ela percebeu que tinha parado de 
acreditar na possibilidade de que no havia nada.
No que tivesse passado a acreditar que tinha 
alguma chance. Rodney seria capaz de tentar 
alcanar a lua por causa de Lexie. Fora sempreassim, e sempre seria, e Rachel h muito tempochegara  concluso de que nada mudaria o queele sentia por ela. s vezes 
no era nada fcil, ehavia ocasies em que ela no se preocupava comisso. Mas, ultimamente, s vezes em que ela nose preocupava estavam se tornando cada vez maisraras, 
tinha de admitir. 
Caminhando pelo meio das pessoas, ela se deuconta de que devia ter ficado calada, em vez deter tocado no assunto Jeremy Marsh na hora doalmoo. Ela sabia muito bem 
o que estava 
incomodando Rodney naquela hora. E parecia que,
agora, a cidade inteira estava falando de Lexie eJeremy, a comear pela dona da mercearia ondetinham comprado seu almoo, e os comentriosestavam se espalhando como 
fogo depois que oprefeito fez seu anncio. Bem que ela gostaria deir para Nova Iorque, mas ao rever mentalmente aconversa que tivera com Jeremy, foi percebendo, 
aos poucos, que ele podia estar simplesmente 

#
jogando conversa fora e no fazendo um convitepropriamente dito. s vezes ela avanava o sinalem situaes como essa. 
Mas Jeremy Marsh era simplesmente to... 
perfeito.
Culto, inteligente, charmoso, famoso e, o melhorde tudo, no era dali. No havia como Rodneycompetir com isso, e a desagradvel sensao deque Rodney tambm sabia 
disso pulsava dentrodela. Mas Rodney, por sua vez, estava aqui e nopretendia ir embora, o que era um tipo diferentede vantagem, se algum se decidisse a ver as 
coisas dessa forma. E, ela admitia, ele tambm era 
responsvel e bonito,  sua maneira. 

 Ei, Rodney!  ela disse, sorrindo.
Rodney olhou por cima do ombro.  Ei, Rach. 
Como vai? 
 Bem, obrigada. Que festa, hein? 
 Maravilha!  ele disse, sem esconder o 
sarcasmo no tom de voz.  Como est l dentro? 
 Muito boa. Eles acabaram de esticar a faixa. 
 Faixa? 
 Claro. Dando a ele as boas-vindas em nome da 
cidade. Escreveram o nome dele em grandes 
letras azuis e tudo. 
Rodney soltou um suspiro, deixando o trax umpouco murcho.  Maravilha  ele disse de novo. 
 Voc devia ver as coisas que o prefeitopreparou para ele. No s a faixa e a comida, masele tambm mandou fazer uma chave da cidade. 
 Eu soube  Rodney falou. 
 E os Mahi-Mahis tambm esto aqui  
continuou ela, referindo-se a um quarteto vocal 
#
que cantava a capella. Nascidos na regio, elescantavam juntos h quarenta e trs anos, e apesarde dois deles usarem andadores e outro ter um 
tique nervoso que o obrigava a cantar com os 
olhos fechados, formavam o grupo mais famosonum raio que quilmetros. 

 Formidvel!  disse Rodney.
Seu tom de voz deu a ela condies para mudar a 
conversa.  Acho que voc no quer saber de 
nada disso, certo? 
 Pra falar a verdade, no. 
 Ento, por que veio? 
 Tom me convenceu a vir. Um dia vou aprendera descobrir o que  que ele est querendo dizerantes que ele abra a boca. 
 Acho que no vai ser to ruim  ela disse.  
Quer dizer, voc j viu como as pessoas esto estanoite. Est todo mundo querendo falar com ele. 
Acho que nem ele nem Lexie vo poder se 
esconder em algum canto. Aposto com voc queeles no vo conseguir trocar dez palavras a noiteinteira. E, s pra voc saber, j guardei um pratode comida pra voc, 
caso no consiga encontrarum tempo pra comer alguma coisa.
Rodney hesitou por alguns instantes antes de 
sorrir. Rachel estava sempre cuidando dele. 
 Obrigado, Rach.  Pela primeira vez ele 
percebeu o que ela estava vestindo, e seus olhos 
pousaram nas pequenas argolas de ouro 
penduradas em suas orelhas.  Voc est muito 
bonita  ele acrescentou. 
 Obrigada. 
#
 Quer me fazer um pouco de 
companhia? Ela sorriu.  Eu 
adoraria. 
Jeremy e Lexie atravessaram o mar de carros 
estacionados diante da casa, expelindo o ar empequenas golfadas  medida que se aproximavamda manso. Nos degraus  frente, Jeremy viu que 
os casais faziam uma parada diante da porta, 
antes de entrar. Levou poucos minutos para ver 
Rod-ney Hopper parado bem na entrada. Na 
mesma hora Rodney tambm o viu, e seu sorrisotransformou-se imediatamente numa carranca. 
Mesmo  distncia, ele parecia grande, ciumento 
e, o mais importante, armado, impresses que 
causaram em Jeremy uma sensao de 
desconforto. 
Lexie seguiu seu olhar.  Ora, no se preocupecom Rodney  ela disse.  Voc est comigo. 
  por isso que estou preocupado  ele disse. 
Eu tenho a impresso de que ele no est muitofeliz por termos vindo juntos.
Ela sabia que Jeremy estava certo, mas felizmenteRachel estava ao lado do policial. Rachel sempredava um jeito de acalmar Rodney, e h muito 
tempo Lexie vinha pensando que ela seria perfeitapara ele. Porm, ainda no tinha encontrado umamaneira de dizer isso a ele sem ferir seus 
sentimentos. No era o tipo de assunto a respeitodo qual ela poderia conversar enquanto danavamno Baile Beneficente do Shriners, certo? 
 Se isso puder faz-lo se sentir melhor, deixe aconversa comigo  ela disse. 
 Era o que eu estava planejando fazer. 
#
Rachel parecia iluminada ao ver que eles subiamos degraus. 

 Ei, vocs dois!  ela falou. Quando eles 
estavam prximos, esticou o brao para alcanar ocasaco de Lexie.  Adorei a sua roupa, Lex. 
 Obrigada, Rachel  Lexie respondeu.  E vocest o mximo tambm. 
Jeremy no fez qualquer comentrio, preferindoexaminar as unhas dos dedos enquanto procuravaevitar o olhar invejoso de Rodney em sua direo.
O silncio sbito fez com que Rachel e Lexie seentreolhassem, e Rachel logo entendeu a dica deLexie para dizer alguma coisa. 
 E olha s pra voc sr. Jornalista Famoso  ela 
disse em voz alta.  Olha s, assim que puserem 
os olhos em voc, o corao da mulherada vai 
bater disparado a noite inteira.  Ela exibiu um 
sorriso largo.  Eu odeio ter de lhe pedir isso,
Lexie, mas voc se importa se eu o acompanharat l dentro? Eu sei que o prefeito est esperandopor ele. 
 Absolutamente  Lexie falou, consciente de 
que precisava de um minuto sozinha com Rodney.
Ela acenou com a cabea para Jeremy.  V em 
frente, eu o alcano em um minuto. 
Rachel enganchou no brao de Jeremy, e antes 
que ele percebesse, estava sendo levado.  Agoradiga, voc j havia estado em uma fazenda sulistato maravilhosa quanto esta?  Rachel perguntou. 
 Acho que no  Jeremy respondeu, em dvidase no estaria sendo atirado aos lobos. 
#
Ao entrarem, Lexie fez um gesto de 
agradecimento para Rachel, que respondeu com
uma piscadela.
Lexie ento se virou para Rodney. 


 No  o que voc est pensando  ela 
comeou, e Rodney ergueu a mo para impedirque ela continuasse. 
 Olhe  ele disse , voc no tem de explicar.
J vi isso antes, lembra? 
Ela sabia que ele estava falando do sr. 
Renascena, e instintivamente quase lhe disse queele estava enganado. Queria lhe dizer que no iase deixar levar pelos sentimentos desta vez, massabia que j havia 
prometido isso antes. Fora isso 
o que havia dito a Rodney, afinal, quando ele 
tentou gentilmente avis-la de que o sr. 
Renascena no tinha inteno de ficar. 
 Eu gostaria de saber o que dizer  ela falou, 
odiando o toque de culpa no seu tom de voz.
-Voc no precisa dizer nada.
Ela sabia que no precisava. Eles no eram um 
casal e jamais haviam sido, mas ela guardava aestranha sensao de ser uma espcie de ex-mulher 
depois de um divrcio recente, com as feridasainda abertas. Mais uma vez, ela queria apenasque ele seguisse seu caminho, mas uma vozinha alembrou de que tinha certa 
responsabilidade pelofato de a chama continuar acesa nos ltimos anos, 
apesar de ter mais a ver com um sentimento de 
segurana e conforto do que com qualquer 
romantismo de sua parte. 
#
 Bem, s pra voc saber, eu realmente espero
que as coisas voltem ao normal por aqui  ela 
disse. 
 Eu tambm. 
Por uns instantes, nenhum dos dois disse qualquer
coisa. No silncio, Lexie ficou olhando para o lado,
desejando que Rodney no expusesse seus 
sentimentos dessa maneira. 
 A Rachel est realmente bonita, no est?  
ela comentou. 
O queixo de Rodney caiu at o peito antes de ele
olhar de novo para Lexie. Pela primeira vez ela via
um pequeno sorriso. 
 Est  ele disse.  Est mesmo. 
 Ela ainda est saindo com o Jim?  Lexie 
perguntou, referindo-se ao homem da empresa dededetizao, a Terminix. Ela havia visto os dois na 
caminhonete verde, com um inseto gigante na 
carroceria, quando estava indo para um jantar emGreenville durante o feriado. 
 No, essa histria acabou  ele respondeu.  
Eles saram apenas uma vez. Ela disse que o carrodele tinha cheiro de desinfetante, e que ficou 
espirrando feito louca a noite inteira.
Apesar da tenso, Lexie sorriu.  Isso  uma 
daquelas coisas que s poderiam acontecer com aRachel. 
 Ela j esqueceu. E no  uma coisa que a tenhadeixado com medo de levar outro tombo ou coisa 
parecida. Ela continua tentando montar o cavalo,
entende? 
#
 s vezes eu acho que ela s precisa escolhermelhor os cavalos. Ou, pelo menos, um que notenha um inseto gigante na carroceria.
Ele riu, dando a entender que pensava a mesmacoisa. Seus olhos se encontraram por um instante,
e ento Lexie olhou para longe, enquanto colocavaalguns fios de cabelo atrs da orelha. 
 Bem, acho que  melhor eu entrar  ela disse. 
 Eu sei  ele respondeu. 
 Voc tambm vem? 
 Eu acho que no. Eu no tinha inteno de ficar
muito tempo. Alm disso, estou de planto. O 
condado  bem grande para uma s pessoa, e 
Bruce est sozinho na rua. 
Ela acenou com a cabea.  Bom, se eu no o vir 
mais esta noite, tome cuidado, o.k.? 
 Pode deixar. At mais tarde. 
Ela comeou a andar para entrar na casa. 
 Ei, Lexie? 
Ela se virou.  Sim? 
Ele engoliu em seco.  S queria dizer que voc
tambm est bonita. A tristeza com que ele disse
isso quase partiu seu corao, e ela sentiu as 
lgrimas umedecerem seus olhos.  Obrigada  
ela disse. 
Rachel e Jeremy entraram discretamente, 
movimentando-se pelas laterais do salo, 
enquanto Rachel ia mostrando os quadros que
retratavam os vrios membros da famlia Lawson, 
que exibiam entre eles uma surpreendente
semelhana, no apenas de gerao para gerao,
mas, o que era mais estranho, tambm entre os
sexos. Os homens tinham traos afeminados e as 
#
mulheres tendiam a ser masculinizadas, de forma 
que a impresso que se tinha era a de que todos 
os artistas haviam usado um mesmo modelo 
andrgino.
Mas ele estava gostando do fato de Rachel o 
manter ocupado e fora de qualquer perigo,
embora se recusasse a largar o seu brao. Ouviaas pessoas falarem a respeito dele, mas ainda no 
estava preparado para se misturar, mesmo 
reconhecendo que tudo aquilo fazia com que ele 
se sentisse um pouquinho lisonjeado. Nate no 
havia conseguido reunir um dcimo daquelaquantidade de pessoas para assistir sua ida a umprograma de televiso, e ainda tivera de oferecerbebida grtis como um estmulo 
para que 
comparecessem.
Mas essas coisas no aconteciam por aqui. No naAmrica das cidades pequenas, onde as pessoasjogavam bingo, freqentavam o boliche e 
assistiam reprises do seriado Matlock na TNT. Ele 
no via tanto cabelo azulado e polister desde...
bom, desde sempre; e enquanto estava avaliandotoda a situao, Rachel apertou seu brao parachamar sua ateno. 

 Prepare-se, querido.  hora do show. 
 Desculpe?
Ela olhou por cima do ombro, para a agitao que
aumentava atrs deles. 
 Bem, prefeito Tom, como vai?  Rachel 
perguntou, disparando aquele sorriso 
hollywoodiano mais uma vez.
O prefeito Gherkin parecia ser a nica pessoa no
salo que estava transpirando. Sua careca brilhava 
#
com a luz, e se pareceu surpreso pelo fato de 
Jeremy estar com Rachel, no demonstrou. 

 Rachel! Voc est adorvel como sempre, e, 
pelo que pude perceber, estava compartilhando oilustre passado desta bela casa com o nosso convidado. 
 Fazendo o melhor que posso  ela disse. 
 timo, timo. Fico feliz em ouvir isso.  Eles 
continuaram a tagarelar um pouco mais, antes deGherkin ir ao ponto. 
 E odeio ter de lhe pedir isso, j que voc foimuito gentil contando a ele a histria deste belolugar, mas voc se importa?  ele disse, gesticulando 
para Jeremy.  Est todo mundo ansioso, 
esperando para darmos incio a este evento 
notvel. 
 Absolutamente  ela respondeu, e no mesmoinstante a mo do prefeito substituiu a de Rachel 
em seu brao, conduzindo Jeremy atravs da 
multido. 
 medida que eles iam passando, as pessoasficavam em silncio e davam passagem, como omar Vermelho se abrindo para Moiss. Outros arregalavam 
os olhos ou erguiam o pescoo para vermelhor. Todos soltavam exclamaes, 
cochichando alto sobre ele. 
 Eu nem sei como lhe dizer como estamos 
felizes por voc ter conseguido chegar finalmente 
 disse o prefeito Gherkin, falando pelo canto daboca, enquanto mantinha o sorriso para a 
multido.  Eu j estava comeando a ficar 
preocupado. 
#
 Talvez devssemos esperar por Lexie  Jeremyrespondeu, procurando evitar que seu rosto 
ficasse ruborizado. Aquilo tudo, principalmente ofato de estar sendo conduzido pelo prefeito comose fosse a rainha do baile, era um pouco demaisat para uma pequena 
cidade da Amrica, parano falar que era um pouco demais at para o ladomais estranho dessa Amrica. 
 J falei com ela, e ela vai nos encontrar l. 
 Onde, exatamente? 
 Ora, voc vai conhecer o resto da assemblia 
da cidade,  claro. Voc j conheceu Jed e o Tully e
os camaradas que apresentei hoje de manh, mas
ainda tm outros. E tambm o pessoal da 
administrao da cidade. Como eu, eles esto 
muito sensibilizados com a sua visita. Muito 
sensibilizados. E no se preocupe  eles j
prepararam todas as histrias de fantasmas. Voc
trouxe o gravador, no trouxe? 
 Est no meu bolso. 
 timo, timo. Fico feliz em ouvir isso. E...  
pela primeira vez o prefeito desviou o olhar da
multido para encarar Jeremy  imagino que
esteja pensando em ir at o cemitrio esta noite... 
 Estou, e por falar nisso, eu queria ter certeza...
O prefeito continuou andando como se no tivesse
ouvido, enquanto gesticulava e acenava para a 
multido.  Bem, como prefeito, sinto que tenho a
obrigao de lhe dizer que no precisa se 
preocupar com aqueles fantasmas. Eles so uma
viso e tanto,  claro. Suficiente para fazer um 
elefante desmaiar. Mas, at agora, ningum se 
machucou, exceto Bobby Lee Howard, mas a 
#
batida contra a placa da estrada teve menos a vercom o que ele tinha visto, do que com o fato deele ter virado um pacote de doze garrafas de 
cerveja Pabst antes de pegar o volante.

 Entendo  Jeremy disse, comeando a imitar oprefeito com gestos e acenos.  Vou tentar me 
lembrar disso. 
Lexie estava esperando por ele quando encontrouos membros da assemblia. Ele respirou aliviado 
quando ela ficou do seu lado, enquanto era 
apresentado  elite do poder na cidade. A maioriafoi bastante simptica  embora Jed tenha ficado 
de braos cruzados com a testa franzida , mas 
ele no conseguiu deixar de observar Lexie com ocanto dos olhos. Ela parecia absorta, e ele ficoupensando no que poderia ter acontecido entre elae Rodney.
Jeremy no teve chance de descobrir, nem de 
relaxar, pelas trs horas seguintes, pois o resto danoite foi muito semelhante a uma conveno poltica. 
Depois de seu encontro com os membros daassemblia  cada um deles, com exceo de Jed, 
parecendo ter sido preparado pelo prefeito,
prometia que aquela "poderia ser a maior histriade todos os tempos" e ficava lembrando que "o 
turismo  importante para a cidade"  Jeremy foi 
levado a um palco que havia sido enfeitado e 
exibia uma faixa com os dizeres BEM-VINDO 
JEREMY MARSH! 
Tecnicamente, no era um palco, mas uma grandemesa de madeira coberta com uma toalha de cor 
prpura brilhante. Jeremy teve de usar uma 

#
cadeira para subir, assim como Gherkin, paraento se ver diante de um mar de rostos estranhos 
olhando para cima, em sua direo. Quando a 
multido se acalmou, o prefeito fez um longodiscurso elogiando Jeremy por seu profissionalismoe honestidade, como se eles se conhecessem h 
anos. Alm disso, Gherkin no apenas mencionousua ida ao Primetime Live  o que fez ressurgir osj familiares sorrisos e acenos, bem como algumasoutras interjeies 
, como falou tambm de umasrie de matrias de sucesso que ele havia escrito,
inclusive uma reportagem que ele fizera para a 
Atlantic Monthly sobre pesquisas realizadas em 
Fort Detrick a respeito de armas biolgicas. 
Embora s vezes parecesse apenas um caipira 
simplrio,
Jeremy pensou, o homem realmente fizera a liode casa e no havia dvida de que conhecia 
profundamente a arte da bajulao. Ao final do 
discurso, Jeremy recebeu a chave da cidade e osMahi-Mahis  que estavam em cima de outra 
mesa, encostada em uma parede adjacente  
entraram em cena e cantaram trs msicas: 
Carolina in my mind, New York, New York e, talvez 
a mais apropriada, o tema do filme Os caa-
fantasmas. 

Surpreendentemente, os Mahi-Mahis no eram toruins, apesar de ele no ter idia de como  queeles tinham conseguido subir na mesa. A multidoadorou e, por alguns 
instantes, o prprio Jeremy sepegou sorrindo e apreciando a apresentao. Eleainda estava em cima do palco e Lexie piscou paraele, o que tornava tudo aquilo ainda 
mais surreal. 

#
Dali, o prefeito o levou para um canto, onde ele sesentou em uma confortvel cadeira antiga, diantede uma mesa tambm antiga. Com a fita do 
gravador rodando, Jeremy passou o resto da noiteouvindo uma histria atrs da outra a respeito de 
encontros com fantasmas. O prefeito havia 
organizado as pessoas em uma fila, e elas 
conversavam animadamente enquanto esperavam 
sua vez de encontrar com ele, como se ele 
estivesse distribuindo autgrafos.
Infelizmente, a maioria das histrias comeou a se 
confundir. Todas as pessoas da fila alegavam tervisto as luzes, mas cada uma delas fazia uma 
descrio diferente. Algumas juravam que elas separeciam com pessoas, outros diziam quepareciam luzes estroboscpicas. Um homem disse 
que eram extremamente parecidas com uma 
fantasia de Halloween, da cabea aos ps. A maisoriginal foi contada por um homem chamado Joe,
que disse ter visto as luzes mais de meia dzia de 
vezes, e ele falou com ar circunspecto quando 
disse que elas eram exatamente iguais  placaluminosa do Piggly Wiggly, na estrada 54, perto deVanceboro. 
Nesse meio tempo, Lexie ficara por perto, 
conversando com vrias pessoas, e de vez em 
quando seus olhares se encontravam, apesar deestarem ambos envolvidos em conversas. Como se 
estivessem dividindo uma piada que s eles 
conheciam, ela sorria erguendo as sobrancelhas, aexpresso no rosto que parecia estar perguntando"Voc est vendo no que  que foi se meter?" 

#
Lexie, Jeremy refletiu, no se parecia com 
nenhuma das mulheres com quem ele tinha sadonos ltimos tempos. Ela no escondia o que estavapensando, no tentara impression-lo, e tambmno se havia deixado 
abalar por nada do que elehavia conquistado no passado. Em vez disso, elaparecia que apenas levava em considerao o queele era hoje, agora, sem se apegar ao passado 
ouao futuro para usar contra ele.
Essa tinha sido, agora ele percebia, uma das 
razes que o haviam levado a se casar com Maria.
No tinha sido apenas a exploso de emoes arrebatadoras 
que sentira quando fizeram amor pelaprimeira vez o que o havia enfeitiado  ao 
contrrio, foram as coisas simples que o convenceram 
de que tinha de ser ela. A ausncia de 
qualquer sinal de arrogncia quando estava no 
meio de outras pessoas, a atitude firme com que oenfrentava quando ele fazia alguma coisa errada, 
a pacincia com que o ouvia enquanto ele 
caminhava pela casa, s voltas com algum 
problema exasperante. E apesar de ele e Lexie 
jamais terem dividido qualquer probleminha do 
dia-a-dia, ele no conseguia afastar a idia de queela saberia lidar com isso, desde que fosse o queela estivesse com vontade de fazer. 
Jeremy compreendeu que ela sentia uma afeiogenuna por aquelas pessoas, e parecia realmenteinteressada no que quer que eles estivessem 
falando. Seu comportamento dava a entender queno via motivos para apressar ou interromper aconversa de uma pessoa, e no tinha vergonha derir alto quando algo a 
divertia. De vez em quando, 

#
ela se inclinava para abraar algum, e depois 
pegava a mo da pessoa enquanto murmurava 
algo do tipo "Estou to feliz por ver voc 
novamente". Ela no parecia achar que era 
diferente, nem mesmo reparar no fato de que osoutros achavam, e isso fazia Jeremy se lembrar deuma tia que era sempre a pessoa mais popular nasfestas da famlia, 
simplesmente porque conseguiaconcentrar sua ateno inteiramente nos outros. 
Pouco depois, ao levantar-se para esticar um 
pouco as pernas, Jeremy reparou que Lexie vinhaem sua direo, com um toque delicadamente sedutor 
no modo como movimentava suavemente os 
lbios. Ao observ-la, houve um momento, apenasum momento, em que a cena no parecia estaracontecendo naquela hora, mas em algum 
momento no futuro, em alguma outra pequena 
reunio de uma longa sucesso de pequenasreunies, numa pequena cidade sulista no meio donada. 


Captulo
DEZ 


#
Quando a noite se aproximava do fim, Jeremy se 
postou com o prefeito Gherkin na varanda, 
enquanto Lexie e Dris ficavam um pouco de lado. 

 Eu realmente espero que esta noite tenha 
merecido sua aprovao  disse o prefeito 
Gherkin  e que tenha conseguido ver por si 
mesmo que oportunidade maravilhosa voc pode
ter em relao a essa histria. 
 Eu vi, obrigado. Mas no precisava ter tido todo
este trabalho  Jeremy objetou. 
 Bobagem  Gherkin retrucou.  Ora,  o 
mnimo que poderamos fazer. Alm disso, eu 
queria que visse do qu esta cidade  capaz
quando se prope a fazer alguma coisa. J d pra
imaginar o que poderamos fazer para os 
camaradas da televiso.  claro que voc vai 
poder sentir um pouco mais do sabor da cidade 
neste fim de semana tambm. A atmosfera de 
cidade pequena, a sensao de estar voltando no 
tempo ao passear pelas casas. E diferente de 
qualquer coisa que possa ter imaginado. 
 No tenho a menor dvida quanto a isso  
disse Jeremy.
Gherkin sorriu.  Bem, escute aqui, preciso cuidar
de algumas coisas l dentro. As obrigaes do 
prefeito no acabam nunca, voc sabe. 
 Eu entendo  ele disse.  E, a propsito, muito
obrigado por isto  Jeremy disse, erguendo a 
chave da cidade. 
 Ah, no tem o que agradecer. Voc merece.  
Ele estendeu a mo para cumprimentar Jeremy. 
Mas nem pense em fazer gracinhas. No pense 
#
que vai conseguir abrir o cofre do banco com ela.
 mais um gesto simblico.
Jeremy sorriu enquanto Gherkin sacudia sua mo.
Depois que o prefeito desapareceu no interior da
casa, Dris e Lexie se aproximaram de Jeremy, as
duas exibindo um sorriso irnico nos lbios. Apesar
disso, Jeremy no pde deixar de notar a 
aparncia exausta de Dris. 


 Vige  Dris falou. 
 O qu?  Jeremy perguntou. 
 Voc e esse seu jeito maroto de cidade grande. 
 Desculpe? 
  que voc devia ter ouvido o modo como 
algumas pessoas estavam falando de voc  Dris 
provocou.  Eu me sinto feliz por ter conhecidovoc antes disso tudo. 
Jeremy sorriu, parecendo envergonhado.  Foi 
uma loucura, no foi? 
 Eu que o diga  Dris respondeu.  Meu grupode estudos da Bblia falou a noite toda sobre como 
voc  bonito. Algumas delas queriam levar vocpra casa, mas, felizmente, eu consegui fazer comque mudassem de idia. Alm disso, no acho queos maridos delas teriam 
gostado dessa idia. 
 Nem sei como lhe agradecer. 
 Voc conseguiu comer alguma coisa? Acho que 
posso conseguir alguma coisa se estiver com 
fome. 
 No  preciso, obrigado. 
 Tem certeza? Sua noite est na verdade apenascomeando, certo? 
 Estarei bem  ele a tranqilizou. No silncio 
que se seguiu, ele olhou ao redor e reparou que a 
#
neblina havia se tornado ainda mais espessa.  
Por falar nisso, acho que eu deveria ir agora.
Detestaria perder minha grande chance de sentiruma manifestao do sobrenatural. 

 No se preocupe. Voc no vai perder as luzes 
 Dris falou.  Elas s aparecem bem tarde danoite, por isso voc ainda tem algumas horas.  
Surpreendendo Jeremy, ela se aproximou e deu-
lhe um abrao cansado.  Eu s queria lhe 
agradecer por ter dado um jeito de falar com todomundo. Nem todo estranho  to bom ouvinte 
quanto voc. 
 Sem problemas. Eu gostei.
Depois que Dris o soltou, Jeremy voltou sua 
ateno para Lexie, pensando que a criao queela recebera de Dris devia ter sido muito parecida 
com a que ele mesmo havia recebido de sua 
prpria me. 
 Est pronta pra ir?
Lexie fez que sim com a cabea, mas continuousem dizer uma palavra para ele. Em vez disso, 
beijou Dris no rosto, disse que a veria no dia seguinte, 
e logo em seguida estava caminhando aolado de Jeremy na direo do carro, o cascalhofazendo o barulho caracterstico enquantoandavam. Ela parecia estar com o olhar 
perdido nadistncia, sem enxergar coisa alguma. Depois dealguns passos em silncio, Jeremy cutucou-a 
levemente com seu ombro. 
 Voc est bem? Por que est to calada?
Ela sacudiu a cabea, virando-se para ele.  S 
estava pensando em Dris. Esta noite ela 
realmente ficou cansada, e apesar de eu talvez 
#
no ter razo para me preocupar, a verdade  queme preocupo com ela. 

 Ela me pareceu bem. 
 , ela consegue manter as aparncias. Mas 
precisa aprender a ir mais devagar. Ela sofreu umataque do corao alguns anos atrs, mas gostade fingir que isso nunca aconteceu. E, depois disto,
ela tambm vai ter um fim de semana puxado.
Jeremy no sabia muito bem o que dizer; a idiade que Dris no tivesse uma sade perfeita 
jamais havia lhe ocorrido.
Lexie percebeu o desconforto e sorriu.  Mas ela 
realmente se divertiu, disso no h dvida. Ns 
duas tivemos a oportunidade de conversar com 
uma poro de gente que no vamos h muito 
tempo. 
 Eu pensei que todos por aqui estivessem se 
encontrando o tempo todo. 
 E encontramos. Mas as pessoas normalmenteesto ocupadas, e no  sempre que voc temmais do que alguns minutos para conversar  toa.
Mas esta noite foi muito agradvel.  Ela o olhou 
de relance.  E Dris falou a verdade. As pessoas 
adoraram voc. 
Ela pareceu quase chocada por admitir isso, e 
Jeremy enfiou as mos nos bolsos. 
 Bem, voc no deveria estar to surpresa. Eusou muito adorvel, sabia? 
Ela revirou os olhos, parecendo mais divertida doque incomodada. Atrs deles, a casa desapareciaao longe enquanto eles contornavam o caminho.
 Ei, eu sei que no  da minha conta, mas comoforam as coisas com Rodney? 
#
Ela hesitou antes de finalmente sacudir os ombros. 

 Voc tem razo. No  da sua conta. 
Ele procurou um sorriso, mas no o encontrou.  
Bem, eu s perguntei porque estava pensando sevoc acha que seria uma boa idia eu aproveitar aescurido para sumir da cidade, antes que ele 
tenha a chance de esmagar minha cabea com asprprias mos.
Isso fez aparecer um sorriso.  Voc vai ficar bem,
no se preocupe. Alm disso, estaria partindo ocorao do prefeito se fosse embora. No  todovisitante que ganha uma festa como esta ou umachave da cidade. 

  a primeira vez na vida que ganho uma. 
Normalmente, recebo apenas cartas cheias de 
raiva. 
Ela riu num tom meldico. Ao luar, seus traos 
eram indecifrveis, e ele se lembrou de como ela 
parecia cheia de animao quando estava cercadapelas pessoas da cidade.
Quando chegaram no carro, ele abriu a porta paraela. Ao entrar, ela esbarrou nele levemente, o que
o fez pensar se ela teria feito isso em resposta aomodo como ele a cutucara com o ombro, ou se 
fizera isso sem perceber. Ele deu a volta e sentouatrs do volante, colocando as chaves na ignio,
mas parou antes de ligar o motor do carro. 
 O que foi?  ela perguntou. 
 S estava pensando...  ele respondeu,
deixando as palavras no ar. As palavras pareciamter ficado penduradas no carro, e ela mexeu a cabea. 
 Bem que eu pensei ter ouvido algumacoisa ranger. 
#
 Engraadinha. O que eu estava tentando dizer que sei que est ficando tarde, mas voc nogostaria de vir comigo at o cemitrio? 
 Para o caso de voc ficar assustado? 
 Mais ou menos. 
Ela olhou para o relgio, pensando... Caramba! Elano devia ir. No devia mesmo. J havia aberto a 
guarda vindo esta noite, e ficar sozinha com elemais algumas horas iria abrir ainda mais essa 
guarda. Ela sabia que da no iria sair coisa boa, eno havia um nico motivo para dizer sim. Mas 
antes que pudesse impedir a si mesma, as 
palavras saram de sua boca. 
 Eu teria de passar primeiro em casa para 
colocar uma roupa mais confortvel. 
 Tudo bem  ele disse.  Estou inteiramente de 
acordo com que voc vista alguma coisa mais 
confortvel. 
 Aposto que sim  ela respondeu com ironia. 
 Escute, no v ficando confiada  ele disse, 
fazendo-se de ofendido.  Eu no acho que nsnos conhecemos bem o bastante para isso. 
 Essa fala  minha  ela disse. 
 Achei que tinha ouvido em algum lugar. 
 Bom, use seu prprio texto da prxima vez. E
s para voc saber, no me venha com idias 
engraadinhas para esta noite. 
 Eu no tenho idias engraadinhas. Sou 
completamente destitudo de senso de humor. 
 Voc sabe o que eu quis dizer. 
 No  ele disse, tentando parecer inocente.  
O que voc quis dizer? 
#
 Apenas dirija, est bem? Ou posso mudar deidia. 
 Est bem, est bem  ele respondeu,
acionando o motor.  Nossa, voc s vezes  bem 
atrevida. 
 Obrigada. J me disseram que  uma das 
minhas melhores qualidades. 
 Quem lhe disse isso? 
 Voc quer mesmo saber? 
O Taurus percorreu as ruas tomadas pela neblina,
e as luzes amareladas dos postes de luz tornavama noite ainda mais tenebrosa. Assim que chegaramna entrada de carros de sua casa, ela abriu a portado automvel. 

 Espere aqui  ela disse, colocando uma mecha
de cabelos atrs da orelha.  No vou demorar 
mais do que alguns minutos.
Ele sorriu, apreciando o fato de ela estar nervosa. 
 Voc precisa da minha chave da cidade para
abrir a porta? Teria imenso prazer em emprest-la. 
 Ora, no comece a achar que  especial, sr.
Marsh. A minha me tambm recebeu uma chave 
da cidade. 
 Estamos de volta ao "sr. Marsh" novamente? E 
eu aqui pensando que estvamos nos dando to
bem. 
 E eu estou comeando a achar que a noite lhe
subiu  cabea. 
Ela saiu do carro e bateu a porta atrs dela, numa
tentativa de faz-lo entender que havia dito a 
ltima palavra. Jeremy riu, achando que ela era
muito parecida com ele. Incapaz de resistir, ele 
#
apertou o boto de sua porta para abaixar o vidrodo outro lado do carro. Ele se curvou por cima dobanco do passageiro. 

 Ei, Lexie? 
Ela se virou.  O que ? 
 J que provavelmente vai estar frio, que tal 
trazer uma garrafa de vinho?
Ela colocou as mos nos quadris.  Por qu? Para
voc me assediar por causa da bebida?
Ele sorriu.  S se voc concordar. 
Ela franziu a testa, apertando os olhos. Mas, como
da outra vez, parecia mais divertida que ofendida.
 Eu no costumo ter garrafas de vinho em casa,
sr. Marsh, mas eu diria no de qualquer forma. 
 Voc no bebe? 
 No muito  ela disse.  Agora, espere a 
mesmo  ela avisou, apontando pra onde ele 
estava.  Vou s colocar uma cala jeans. 
 Prometo que no vou nem tentar dar uma 
espiada pela janela. 
 Boa idia. Eu certamente teria de contar a 
Rodney se fizesse uma coisa estpida como essa. 
 Isso no me parece nada bom. 
 Pode ter certeza  ela disse, tentando manter 
um olhar severo  de que no seria mesmo.
Jeremy observou-a enquanto caminhava at a 
porta, certo de que nunca tinha encontrado 
ningum como ela. 
Quinze minutos depois, eles estavam parando o 
carro em uma vaga em frente ao Cemitrio de 
Cedar Creek. Ele estacionou num ngulo que fazia 
as luzes dos faris do carro iluminarem o 

#
cemitrio, e seu primeiro pensamento foi o de queat a neblina parecia diferente por ali. Era densa eimpenetrvel em alguns lugares e fina em outros,
e a brisa muito leve fazia as plantas se mexeremdiscretamente, como se estivessem vivas. Os 
galhos pendentes das rvores de magnliaspareciam apenas sombras escuras, e as tumbasesfaceladas apenas aumentavam o efeito lgubre.
Estava to escuro que Jeremy era incapaz de 
enxergar ao menos um pequeno pedao da lua nocu. 
Saindo do carro lentamente, ele abriu o porta-
malas. Lexie veio dar uma espiada e ficou de olhosarregalados. 

 Parece que voc tem todo o material necessriopara fazer uma bomba a. 
 Nada disso  ele falou.  S algumas coisas 
legais. Os homens adoram seus brinquedinhos, 
sabia? 
 Pensei que voc tivesse apenas uma fumadoraou algo parecido. 
 Eu tenho. Tenho quatro fumadoras. 
 E por que precisa de quatro? 
 Para filmar de vrios ngulos,  claro. E se osfantasmas estiverem andando na direo errada, 
por exemplo? Eu no conseguiria pegar os rostos.
Ela ignorou o comentrio.  E o que  esta coisa? 
 ela perguntou, apontando para uma caixa 
eletrnica. 
  um detector de radiao de microondas. E 
aquilo ali  ele disse, apontando para outra pea 
 meio que faz parte.  capaz de detectar atividade 
eletromagntica. 
#
 Voc est brincando. 
 No  ele faiou.  Est no manual oficial dos 
caa-fantasmas. Voc sempre vai encontrar um 
aumento de atividade espiritual em reas onde 
houver alta concentrao de energia, e isso ajuda
a detectar um campo de energia acima do normal. 
 Voc j registrou algum campo de energia 
acima do normal? 
 Para falar a verdade, j. Numa casa 
supostamente assombrada. Infelizmente, no 
tinha nada a ver com fantasmas. O microondas do 
dono da casa no estava funcionando direito. 
 Sei. 
Ele olhou para ela.  Agora  voc quem est 
roubando minhas falas. 
 Desculpe. Mas isso foi tudo o que me veio  
cabea. 
 Tudo bem. Eu posso entender. 
 Por que  que voc tem todas essas coisas? 
 Porque  ele explicou , para derrubar a 
possibilidade de haver fantasmas, preciso usar 
tudo o que  usado pelos investigadores de para-
normais. No quero ser acusado de ter deixadoescapar alguma coisa, e essas pessoas tm suas 
regras. Alm disso, parece causar mais impacto 
quando as pessoas lem que voc usou um 
detector de ondas eletromagnticas. Elas acham 
que voc sabe o que est fazendo. 
 E voc sabe? 
 Claro. Eu j lhe disse, tenho o manual oficial.
Ela riu.  Ento, como  que eu poderei ajudar?
Voc precisa que eu ajude a carregar alguma 
dessas coisas? 
#
 Ns vamos usar tudo isso. Mas se voc acha 
que isso  trabalho pra homem, eu posso lidar com
tudo enquanto voc cuida das unhas ou qualquer
coisa do gnero.
Ela pegou uma das fumadoras, colocou-a em um
dos ombros, e pegou mais uma com a outra mo. 
 Est certo, sr. Macho, para onde? 
 Depende. Onde voc acha que deveramos 
mont-la? Como voc j viu as luzes, talvez tenha
alguma idia.
Ela apontou na direo da rvore de magnlias,
para onde estava caminhando na primeira vez em
que ele a tinha visto no cemitrio. 
 Bem ali.  ali que voc vai ver as luzes.
Aquele ponto ficava exatamente na frente de 
Riker's Hill, embora a colina estivesse escondida 
no meio da neblina. 
 Elas aparecem sempre no mesmo lugar? 
 Eu no fao a menor idia. Mas era l que 
estavam quando eu as vi. 
No decorrer da hora seguinte, enquanto Lexie ofilmava com uma das filmadoras, Jeremy preparoutudo. Ele colocou as outras trs fumadoras numa 
disposio triangular, montando-as sobre trips, 
colocando lentes com filtros especiais em duas 
delas e ajustando o zoom at que toda a rea 
estivesse coberta. Ele testou os controles do laser, 
e ento comeou a montar o equipamento de 
udio. Foram colocados quatro microfones em 
rvores prximas, e um quinto foi colocado pertodo centro, onde ele iria colocar os detectores de 

#
radiao e ondas eletromagnticas, assim como ogravador central.
Enquanto ele fazia os testes para verificar se 
estava tudo em ordem, ouviu Lexie chamar porele. 

 Ei, que tal?
Virou-se e a viu com os culos para viso noturna,
parecendo um inseto gigante. 
 Muito sexy  ele disse.  Acho que finalmente
voc descobriu seu estilo. 
 Essas coisas so muito bem-feitas. D pra ver
tudo daqui. 
 Alguma coisa com que eu deva me preocupar? 
 Tirando alguns ursos e pumas famintos, pareceque voc est sozinho. 
 Bom, estou quase terminando isto aqui. Mas 
ainda tenho de espalhar um pouco de farinha esoltar a linha. 
 Farinha? Tipo farinha de cozinha? 
 Pra ter certeza de que ningum vai mexer noequipamento. Com a farinha posso verificar se hpegadas, e a linha vai permitir que eu saiba sealgum mais se aproximar. 
 Muito esperto. Mas voc sabe que estamos 
sozinhos aqui, no sabe? 
 No d para ter certeza nunca  ele falou. 
 Ah, eu tenho certeza. Mas faa o que tem defazer, e eu vou manter a cmera virada para adireo certa. A propsito, voc est indo muito 
bem. 
Ele deu uma risada ao abrir o pacote de farinha,
que comeou a espalhar em crculos ao redor dascmeras, formando uma fina camada branca. Fez 
#
a mesma coisa ao redor dos microfones e do resto 
do equipamento, depois amarrou a linha em umgalho e formou um grande quadrado em volta detoda a rea, como se estivesse cercando a cena de 
um crime. Passou uma segunda linha cerca de 
meio metro mais abaixo e depois pendurou 
pequenos sinos na linha. Quando ele finalmente 
terminou, voltou para o lugar onde estava Lexie. 

 Eu no imaginava que fosse preciso fazer tantacoisa  ela disse. 
 Acho que voc est percebendo que mereo 
muito mais respeito agora, no  mesmo? 
 Sinceramente, no. Eu s estava tentando 
bater papo.
Ele sorriu, e ento apontou na direo do carro. 
Eu vou desligar as luzes do carro. Espero no terfeito tudo isso  toa. 
Quando ele desligou o motor do carro, o cemitrioficou completamente escuro e ele teve de esperar 
um pouco para que seus olhos se adaptassem. 
Infelizmente, isso no aconteceu, porque o 
cemitrio parecia mais escuro que uma caverna.
Ele fez o caminho de volta at o porto tateando 
como um cego, tropeou numa raiz bem na 
entrada e quase caiu. 
 Voc pode me passar os culos para viso 
noturna? 
 No  foi a resposta.  Como eu lhe disse, 
essas coisas so muito boas. Alm disso, voc est 
indo muito bem. 
 Mas eu no estou enxergando nada. 
 Voc pode dar mais alguns passos sem o menorproblema.  s ir em frente. 
#
Lentamente, ele caminhou para a frente com osbraos estendidos e ento parou. 

 E agora, o que  isso? 
 Voc est diante de uma cripta, desvie para aesquerda.  Ela parecia estar se divertindo muitocom aquilo, Jeremy pensou. 
 Voc esqueceu de dizer "Faa tudo o que o 
chefe mandar". 
 Quer minha ajuda ou no? 
 Eu queria os meus culos  ele quase suplicou. 
 Vai ter de vir aqui e pegar. 
 Voc  que poderia vir at aqui me buscar. 
 Poderia, mas no vou.  muito mais divertido 
ver voc vagando feito um zumbi. Agora v para aesquerda. Eu aviso quando for pra parar.
O jogo continuou desse jeito at que ele 
finalmente conseguiu chegar perto dela. Quando 
ele se sentou, ela tirou os culos e os deu a ele 
com um sorriso irnico. 
 Aqui est  ela falou. 
 Puxa, muito obrigado. 
 No h de qu. Estou feliz por ter ajudado. 
Durante aproximadamente meia hora, Lexie e 
Jeremy conversaram sobre coisas que haviam 
acontecido na festa. Estava muito escuro para Jeremy 
ver o rosto de Lexie, mas ele estava 
gostando da proximidade que sentia no meio daescurido. 
Mudando o tema da conversa, ele disse:  Conte o 
que aconteceu quando voc viu as luzes. Ouvi ahistria de todas as outras pessoas esta noite. 

#
Embora seus traos no fossem nada alm de 
sombras, Jeremy teve a impresso de que ela 
estava voltando no tempo para algo que no tinhacerteza se queria lembrar. 

 Eu tinha oito anos de idade  ela disse, a voz 
suave.  Eu no sei por que comeara a ter 
pesadelos com meus pais. Dris mantinha a fotodo casamento deles na parede, e era desse jeito 
que eles sempre apareciam nos meus sonhos: 
mame com seu vestido de noiva e papai de 
smoking. S que, daquela vez, eles estavam 
presos dentro do carro depois de terem cado norio. Era como se eu estivesse olhando para eles dolado de fora do carro, e eu conseguia ver o pnico 
e o medo no rosto deles enquanto a gua ia 
subindo. E a minha me ia ficando com o rosto 
cada vez mais triste, como se soubesse queaquele era mesmo o fim, e de repente o carro comeava 
a afundar muito depressa, e eu ficava 
olhando de cima. 
A voz de Lexie parecia estranhamente desprovidade emoo, e ela suspirou. 
 Eu acordava gritando. No sei quantas vezes 
isso aconteceu  agora parecem apenas borresmisturados em uma nica lembrana , mas deve 
ter se estendido durante algum tempo, at Drisperceber que no se tratava apenas de uma fase.
Imagino que se tivesse sido criada por outras 
pessoas, elas teriam me levado a um psiclogo,
mas Dris... bem, ela s me acordou uma noite, jera bem tarde, e disse para eu me vestir, paracolocar um casaco bem quente. E s lembro que 
#
depois disso, ela me trouxe para c. Ela me disseque ia me mostrar uma coisa maravilhosa...
"Lembro que era uma noite como esta, e Drissegurou minha mo para que eu no ficasse commedo. Ns caminhamos entre os tmulos e depoisficamos sentadas algum tempo 
at as luzes 
surgirem. Elas pareciam ter vida  tudo ficou 
muito iluminado... at as luzes simplesmente desaparecerem. 
Depois voltamos pra casa."
Ele quase conseguiu ouvir o tremor de seus 
ombros.  Apesar de eu ser muito nova, sabia oque tinha acontecido, e quando voltei pra casa,
no conseguia dormir, porque tinha acabado dever os fantasmas de meus pais. Era como se elestivessem vindo me visitar. Depois disso, parei deter os pesadelos.
Jeremy ficou em silncio.
Ela se inclinou em sua direo.  Voc acredita 
em mim? 

 Sim  ele disse.  Eu realmente acredito. Sua 
histria seria aquela que eu guardaria desta noite,
mesmo que no a conhecesse. 
 Bem, s pra que voc saiba, prefiro que minhaexperincia no acabe em seu artigo. 
 Tem certeza? Voc pode ficar famosa. 
 Eu dispenso. Estou testemunhando em primeiramo como um pouco de fama pode arruinar uma 
pessoa.
Ele riu.  J que seu depoimento no ser levado 
em considerao, posso lhe perguntar se essas 
lembranas fazem parte dos motivos que a fizeram 
vir at aqui esta noite? Ou foi porque vocqueria aproveitar minha fascinante companhia? 
#
 Bom, certamente no foi a segunda alternativa 
 ela disse, embora, ao pronunciar essas 
palavras, soubesse que tinha sido. E achou que eletambm tivesse percebido, mas na pequena pausaque se seguiu, sentiu que suas palavras haviamsido ofensivas. 
 Desculpe  ela disse. 
 Tudo bem  ele respondeu.  No se esqueade que eu tinha cinco irmos mais velhos. Insultoseram obrigatrios numa famlia como a nossa, porisso estou acostumado. 
Ela se endireitou.  Tudo bem, mas voltando  
sua pergunta... talvez eu realmente quisesse veras luzes de novo. Para mim, elas sempre foramuma fonte de consolo. 
Jeremy pegou um galho no cho e o jogou para olado. 
 Sua av mostrou que  uma mulher inteligente.
Quer dizer, fazendo o que fez. 
 Ela  uma mulher inteligente. 
 Aceito a retificao  ele disse, e nesse 
instante Lexie mudou de posio ao lado dele, 
como se fizesse um esforo para ver a distncia. 
 Acho que talvez voc devesse ligar seu 
equipamento  ela falou. 
 Por qu? 
 Porque elas esto vindo. Voc no percebe?
Ele estava prestes a soltar uma bravata sobre ofato de ser " prova de fantasmas", quando 
percebeu que estava conseguindo enxergar noapenas Lexie, mas tambm as cameras mais aolonge. E tambm, ele notou, o caminho at o 
#
carro. O lugar estava ficando bem iluminado, noestava? 

 Al  ela chamou.  Voc est perdendo sua 
grande oportunidade.
Ele apertou os olhos, tentando se certificar de queseus olhos no estavam lhe pregando uma pea,
depois procurou o controle remoto das trs 
cmeras. Na distncia, as luzes vermelhas se 
acenderam, indicando que estavam ligadas.
Mesmo assim, foi tudo o que ele conseguiu fazerpara registrar o fato de que alguma coisa pareciaestar mesmo acontecendo. 
Olhou ao redor, procurando carros que pudessem 
estar passando ou casas iluminadas, e quandoolhou de novo para as cmeras, concluiu que certamente 
no estava vendo coisas. No s as 
cmeras estavam visveis, como tambm 
conseguia ver o detector de ondas 
eletromagnticas no centro do tringulo que haviacriado. Ele procurou os culos de viso noturna.
 Voc no vai precisar disso  ela disse.
Ele os colocou, de qualquer forma, e o mundo 
adquiriu um brilho fosforescente esverdeado.  
medida que a luz aumentava em intensidade, aneblina parecia rodopiar e girar, adquirindo formasdiferentes. 
Olhou o relgio: eram onze horas, quarenta e 
quatro minutos e dez segundos, e ele tomou notapara no esquecer. Ficou imaginando se a lua teriaaparecido subitamente  duvidava, mas poderiachecar a fase depois, 
quando voltasse para seuquarto no Greenleaf. 
#
Mas esses pensamentos eram secundrios. A 
neblina, como Lexie havia previsto, continuava 
iluminada, e ele abaixou os culos por um instante, 
observando a diferena entre as imagens. L 
fora continuava a ficar cada vez mais brilhante, 
mas a mudana parecia mais significativa com osculos. Ele mal conseguia esperar para comparar 
as imagens gravadas lado a lado. Mas nesse 
momento tudo o que podia fazer era olhar bem frente, desta vez sem os culos. 
Segurando a respirao, ele viu a neblina diantedeles se tornar mais prateada, antes de mudar 
para um amarelado-claro, depois um branco-opaco 
e, finalmente, num brilho que cegava. Por um 
momento, s por um momento, a maior parte docemitrio ficou completamente visvel  como umcampo de futebol iluminado antes do grande jogo

 e partes da luz envolta na neblina comearam a 
se mexer em pequenos crculos, antes de se 
espalharem para todos os lados, como se fosseuma estrela explodindo. Por um instante, Jeremypensou ter visto a sombra de pessoas ou coisas, 
mas a a luz comeou a retroceder, como se 
estivesse sendo puxada por um cordo, de voltapara o centro, e antes que percebesse as luzeshaviam desaparecido, e o cemitrio ficara no 
escuro novamente. 
Ele piscou, como para se assegurar de que aquilorealmente havia acontecido, depois olhou seu 
relgio novamente. Tudo havia acontecido em 
apenas vinte e dois segundos, desde o incio at ofinal. Apesar de saber que devia levantar parachecar o equipamento, houve um breve instante 
#
em que tudo o que conseguiu fazer foi olhar 
fixamente para o ponto em que os fantasmas deCedar Creek tinham aparecido. 

Fraude, equvocos bem-intencionados e 
coincidncias eram as explicaes mais comuns 
para eventos ligados a acontecimentos 
sobrenaturais, e, at aquele dia, cada uma das 
investigaes de Jeremy em relao a eventos 
desse tipo havia cado em uma dessas trs 
categorias. A primeira costumava ser a explicaomais predominante nas situaes em que algumde alguma forma estava lucrando. William Newell,
por exemplo, que alegava ter encontrado os restospetrificados de um gigante em sua fazenda em 
Nova Iorque, em 1869, uma esttua conhecida 
como o Gigante de Cardiff, estava nessa categoria.
Timothy Clausen, o guia espiritual, era outro 
exemplo.
Mas a fraude tambm abrangia aqueles quedesejavam apenas ver quantas pessoas poderiamenganar, no por dinheiro, mas s para saber se 
era possvel. Doug Bower e Dave Chorley, os 
fazendeiros ingleses que haviam criado o 
fenmeno conhecido como crculos da plantao,
eram exemplos desse tipo; o cirurgio que haviafotografado o monstro do lago Ness em 1933 eraoutro. Em ambos os casos, o embuste havia sido 
perpetrado originalmente como uma piada, mas ointeresse pblico atingira tais propores que 
dificultara qualquer confisso.
Equvocos bem-intencionados, por outro lado, 
eram apenas isso. Um balo meteorolgico 

#
confundido com um objeto voador, um urso 
confundido com o P Grande, uma descoberta 
arqueolgica levada para outro lugar centenas oumilhares de anos depois de ter se sedimentado nolocal original. Em casos como esses, a pessoa 
realmente v alguma coisa, mas sua mente 
extrapola o que  visto e transforma em algo 
totalmente diferente. 
As coincidncias respondiam por quase todo o 
resto e eram apenas uma questo de 
probabilidades matemticas. Por mais improvvelque possa parecer um acontecimento, desde queseja teoricamente vivel,  mais do que provvelque possa acontecer alguma 
vez, em algum lugar,
com algum. Pegue o romance de Robert Morgan,
por exemplo, chamado Futility, publicado em 1898

 quatorze anos antes da partida do Titanic 
 que contava a histria do maior e mais 
grandioso navio de passageiros existente at 
ento, que zarpou de Southampton em sua viageminaugural para ser dividido ao meio por um 
iceberg, e cujos passageiros, ricos e famosos, 
acabaram morrendo em sua grande maioria no 
gelado Atlntico Norte, devido  falta de botes 
salva-vidas. O nome do navio, ironicamente, era 
Titan. 

Mas o que tinha acontecido ali no se encaixavadireito em nenhuma dessas categorias. Para 
Jeremy, as luzes no pareciam ser uma fraude ou 
uma coincidncia, e tambm no eram um 
equvoco bem-intencionado. Havia alguma 
explicao em algum lugar, mas ao sentar no 

#
cemitrio, na inquietao do momento, ele no 
tinha idia de qual poderia ser.
Durante todo o tempo, Lexie havia permanecido
sentada e no dissera uma palavra.  Muito bem?


 ela perguntou finalmente.  O que achou? 
 Eu ainda no sei  Jeremy admitiu.  Eu vi 
alguma coisa, disso tenho certeza. 
 Voc j tinha visto alguma coisa parecida? 
 No  ele reconheceu.  Esta foi realmente a 
primeira vez. Nunca tinha visto nada que me 
parecesse sequer remotamente misteriosa. 
  incrvel, no ?  ela disse, a voz suave.  
Eu quase tinha esquecido de como podia ser 
bonito. J ouvi falar da aurora boreal, e fico sempre 
imaginando se seria algo parecido com isto.
Jeremy no respondeu. Com os olhos de sua 
mente, ele recriou as luzes, pensando que a 
maneira como elas haviam aumentado de 
intensidade lembrava as luzes dos faris dos 
carros quando fazem uma curva. Simplesmentetinham de estar sendo provocadas por algum tipode veculo em movimento, ele pensou. Ele olhouna direo da estrada, esperando 
por algum carro,
mas no ficou de modo algum surpreso por nover nenhum. 
Lexie deixou que ele ficasse ali sentado em 
silncio por alguns minutos, e quase conseguia ver 
seus pensamentos se mexendo. Por fim, ela se 
inclinou e tocou seu brao para que prestasse 
ateno a ela. 
 E ento?  ela perguntou.  O que vamos 
fazer agora? Jeremy sacudiu a cabea, voltando aperceber sua presena. 
#
 H alguma estrada aqui perto? Ou pelo menosuma rodovia importante? 
 S aquela que voc pegou pra vir at aqui eque passa pela cidade. 
 H!  foi sua resposta, com a testa franzida. 
 O qu? Nenhum "sei" desta vez? 
 Ainda no. Mas vou chegar l  ele falou. 
Apesar da escurido retinta, ele achou que podiav-la sorrir.  Por que ser que estou com a impresso 
de que voc j sabe de onde elas vm? 
 Eu no sei  ela respondeu, de maneira 
evasiva.  Por que ser? 
  s uma impresso. Se tem uma coisa que seifazer muito bem  decifrar as pessoas. Um sujeitochamado Clausen me ensinou seus segredos.
Ela riu.  Bem, ento voc j sabe o que eu 
penso.
Ela deu a ele um segundo para pensar a respeito, 
e depois se inclinou para a frente. Seus olhos 
escuros eram sedutores, e embora sua mente talvez 
estivesse em algum outro lugar, mais uma vezele vislumbrou a imagem dela na festa e lembroude como ela estava bonita. 
 Voc no se lembra da minha histria?  ela 
sussurrou.  Eram os meus pais. Eles 
provavelmente queriam conhecer voc.
Talvez fosse a voz de rf que ela havia usado 
para dizer isso  ao mesmo tempo triste e 
esperanosa  o que mexera com ele, mas aosentir um n na garganta, teve de se controlarpara no tom-la nos braos naquele instante, na 
esperana de poder segur-la junto de si para 
sempre. 
#
Meia hora depois, aps ter carregado o 
equipamento, eles estavam de volta diante da 
casa de Lexie. 
Nenhum dos dois dissera muita coisa no caminho 
de volta, e quando chegaram diante da porta, 
Jeremy percebeu que tinha passado muito mais 
tempo pensando em Lexie do que nas luzes 
durante todo o trajeto da volta. Ele no queria quea noite acabasse, ainda no. 
Lexie parou em frente  porta e levou uma dasmos  boca para abafar um bocejo, antes de 
irromper num sorriso envergonhado. 

 Desculpe  ela disse.  No costumo ficar 
acordada at to tarde. 
 Tudo bem  ele respondeu, encarando seu 
olhar.  Eu me diverti muito esta noite. 
 Eu tambm  ela disse, com sinceridade. 
Ele deu um pequeno passo  frente, e quando ela
percebeu que ele estava pensando em beij-la, 
fingiu que procurava alguma coisa no bolso do 
casaco. 
 Acho que poderamos dizer que foi uma noite e 
tanto  ela falou, esperando que ele tivesse 
entendido o recado. 
 Tem certeza? Poderamos entrar e assistir as 
fitas, se voc quiser. Talvez voc pudesse me 
ajudar a descobrir o que so realmente essas 
luzes. 
Ela desviou o olhar, com uma expresso pensativa. 
 Por favor, no estrague tudo isso, est bem? 
ela sussurrou. 
 Estragar o qu? 
#
 Isso... tudo...  ela fechou os olhos, tentando 
conciliar seus pensamentos.  Tanto voc quantoeu sabemos por que voc quer entrar, mas mesmoque eu quisesse, eu no permitiria. Por isso, porfavor, no insista. 
 Eu fiz alguma coisa errada? 
 No. Voc no teve a inteno de fazer nada 
errado. O dia foi timo, na verdade acho que foimaravilhoso. H muito tempo eu no tinha um diato bom como o de hoje. 
 Ento, o que foi? 
 Voc est me cortejando desde que chegouaqui, e ns sabemos o que aconteceria se eu odeixasse passar por essa porta. Mas voc vai embora. 
E quando for, eu  que vou sair machucadadessa histria. Ento, por que comear algo quevoc no tem a menor inteno de terminar? 
Se fosse outra pessoa, com qualquer outra pessoa,
ele teria feito algum comentrio irreverente ou 
mudado de assunto at descobrir outra forma de 
atravessar aquela porta. Mas ao olhar para ela navaranda, ele no conseguiu encontrar as palavras.
E, estranhamente, tambm no queria. 
 Voc est certa  ele admitiu, e forou um 
sorriso.  Vamos dizer que foi uma bela noite. Eu 
certamente vou descobrir de onde esto vindo 
aquelas luzes, de qualquer forma.
Por um segundo, ela no teve certeza se tinha 
escutado direito, mas quando ele deu um passopara trs, ela encontrou seu olhar. 
 Obrigada. 
 Boa noite, Lexie. 
#
Ela acenou com a cabea e depois de fazer umapausa estranha, virou-se para abrir a porta. Jeremyencarou aquilo como um sinal para ir embora edesceu os degraus da 
varanda, enquanto Lexie 
pegava as chaves para abrir a porta. J estava 
com um p do lado de dentro quando o ouviu 
chamar. 

 Ei, Lexie?  ele gritou.
Em meio  neblina, ele era apenas um borro. 
 Sim? 
 Eu sei que voc pode no acreditar, mas a 
ltima coisa que eu gostaria de fazer seria magola, 
ou fazer qualquer coisa para deixar voc arrependida 
de ter me conhecido.
Embora no pudesse evitar um leve sorriso com 
esse comentrio, ela entrou sem dizer uma 
palavra. A falta de resposta dizia tudo, e pela primeira 
vez em sua vida, Jeremy no apenas estavadesapontado consigo mesmo, mas de repentesentiu vontade de ser uma pessoa completamentediferente. 
Captulo 


#
ONZE 


A neblina tinha comeado a se desfazer, os 
pssaros cantavam e um guaxinim passavacorrendo pela varanda do chal quando o celularde Jeremy tocou. A luz forte do incio da manh 
atravessava as cortinas rasgadas, atingindo-o noolho como o soco de um lutador de boxe. 
Uma olhada rpida para o relgio mostrou queeram oito horas da manh, muito cedo ainda parafalar com algum, principalmente depois de ter 
passado a noite em claro. Ele estava ficando velhodemais para noites desse tipo, e piscou muitas 
vezes os olhos antes de pegar o telefone. 

  bom que seja importante  ele resmungou. 
 Jeremy?  voc? Por onde  que voc tem 
andado? Por que  que voc no telefonou? Estoutentando falar com voc! 
Nate, Jeremy pensou, fechando os olhos 
novamente. Pelo amor de Deus, Nate. 
Enquanto isso, Nate continuava a falar. Ele devia 
ser algum parente perdido do prefeito, Jeremy 
concluiu. Se algum tivesse a idia de colocar 
esses dois numa sala e os ligasse a um gerador 
enquanto falavam, iriam gerar energia para 
iluminar o Brooklyn durante um ms. 
 Voc disse que iria manter contato!
Jeremy forou-se a sentar direito na beirada da 
cama, apesar de seu corpo estar dolorido. 
 Desculpe, Nate  ele disse.  Eu fiqueitotalmente ocupado, e a recepo no foi muitoboa por aqui. 
#
 Voc precisa me manter informado! Passei odia inteiro tentando ligar para voc ontem, mascaa direto na caixa postal. Voc nem vai acreditarno que est acontecendo. 
Estou sendo cercado porprodutores de todas as partes, cheios de idiassobre coisas que voc poderia querer discutir. E ascoisas esto realmente caminhando. Um deles 
sugeriu que voc faa uma matria sobre essasdietas  base de protenas. Voc sabe, aquelasque dizem que voc pode comer todo o bacon ecarne que quiser e mesmo assim 
perder peso.
Jeremy sacudiu a cabea, tentando acompanhar. 
 Espere a! Do que  que voc est falando? 
Quem  que quer que eu fale o qu sobre quedieta? 
O Good Morning America. De quem voc achaque eu estava falando?  claro que eu disse a elesque daria a resposta depois, mas acho que temtudo a ver com voc. 
Esse cara s vezes o deixava com dor de cabea, e 
Jeremy passou a mo pela testa. 
 No estou interessado em falar de uma nova 
dieta, Nate. Eu sou um jornalista cientfico, nosou a Oprah Winfrey. 
 Ento voc pode fazer as coisas do seu jeito.
No  isso o que voc costuma fazer? E as dietastm algo a ver com qumica e cincia. Estou certoou estou certo? Diabo, voc sabe que eu estoucerto, e voc me conhece 
 quando estou certo, 
estou certo. Alm disso, s estou falando de 
algumas idias... 
 Eu vi as luzes  Jeremy falou, interrompendo oque ele dizia. 
#
 Quer dizer, se voc tiver alguma idia melhor,
podemos conversar. Mas estou voando s cegaspor aqui, e essa coisa de dieta pode ser uma formade voc colocar o p... 
 Eu vi as luzes  Jeremy falou novamente, 
erguendo a voz.
Desta vez Nate o ouviu.  Voc est falando das 
luzes no cemitrio?  ele perguntou.
Jeremy continuou a esfregar as tmporas.  Sim, 
essas luzes. 
 Quando? Por que voc no telefonou pra mim?
Isso sim  material para trabalhar. Por favor, digaque voc filmou tudo. 
 Filmei, mas ainda no vi as fitas, por isso nosei como ficaram as imagens. 
 Ento as luzes existem? 
 Sim. Mas eu acho que descobri de onde estovindo. 
 Ento no existem... 
 Escute, Nate. Eu estou cansado, por isso presteateno por um minuto, est bem? Eu fui at ocemitrio ontem  noite e vi as luzes. E, honestamente, 
entendo porque algumas pessoas 
acham que so fantasmas, por causa do modo 
como aparecem. H uma lenda muito interessanteligada a elas, e a cidade at programou um 
passeio no fim de semana para capitalizar em 
cima disso. Mas, depois que deixei o cemitrio, sai procura da fonte e tenho quase certeza de queencontrei. Tudo o que tenho a fazer  descobrir 
como e porque acontece, mas tambm tenho 
algumas idias a respeito disso, e acredito que 
talvez consiga descobrir ainda hoje. 
#
Nate, numa atitude rara, ficou em silncio. Porm, 
como profissional treinado que era, recuperou-serapidamente. 

 Est bem, est bem, me d apenas um minutopara pensar na melhor maneira de mostrar essematerial. Estou pensando nesses caras da televiso... 
Em quem mais ele poderia pensar? Jeremy avaliou. 
 Est bem, que tal isto?  e Nate continuou.  
Abrimos com a lenda propriamente dita, meio quecriando o clima. Cemitrio com neblina, close-upem alguns dos tmulos, talvez uma tomada rpidade um corvo bem agourento, 
sua voz como panode fundo... 
O homem realmente era um mestre nos clichs de 
Hollywood, e Jeremy olhou para o relgionovamente, concluindo que era muito cedo paraisso. 
 Estou cansado, Nate. Que tal isto? Voc pensaum pouco mais e depois me conta, certo? 
 Tudo bem, tudo bem, eu fao isso.  pra issoque estou aqui, certo? Pra facilitar sua vida. Ei, 
voc acha que eu deveria ligar para o Alvin? 
 Ainda no tenho certeza. Deixe-me ver as fitas 
primeiro, e depois eu falo com o Alvin e vejo o queele acha. 
 Est certo  disse Nate, a voz cheia de 
entusiasmo.  Bom plano, boa idia! E essa foiuma tima notcia! Uma verdadeira histria de fantasmas! 
Eles vo adorar! Eu falei pra voc que eles 
estavam animados com a idia, no falei? 
Acredite, eu disse a eles que voc ia trazer essahistria e que voc no teria interesse em falar 
#
sobre a ltima dieta da moda. Mas agora que ns 
temos material pra barganhar, eles vo ficar 
malucos. Eu mal consigo esperar para falar comeles, e escute aqui, eu vou ligar de volta para vocdaqui a algumas horas, por isso mantenha seu 
telefone ligado. As coisas podem andar muito 
depressa...  Tchau, Nate. Falo com voc mais 
tarde. 
Jeremy voltou para a cama e cobriu a cabea com 

o travesseiro. Descobriu que seria impossvelpegar no sono de novo, e soltou um rugido enquanto 
ia at o banheiro, fazendo o possvel paraignorar as criaturas empalhadas que pareciam 
atentas a todos os seus movimentos. Mas ele jestava se acostumando com elas, e, enquanto sedespia, pendurou a toalha nas patas estendidas deum texugo, imaginando 
que no havia problemaalgum em aproveitar a pose conveniente dos 
animais. 
Entrando no box do chuveiro, ele abriu a torneira 
no mximo e ficou embaixo do jato d'gua durantevinte minutos, at sua pele ficar enrugada. S 
ento ele comeou a se sentir vivo de novo. Tendo 
dormido menos de duas horas, qualquer pessoateria essa sensao. 
Depois de vestir sua cala jeans, ele pegou as fitase entrou no carro. A neblina cobria a estrada como 
fumaa de gelo seco no palco de um concerto de 
rock, e o cu ainda tinha os mesmos tons 
desagradveis do dia anterior, levando-o a 
suspeitar de que as luzes iriam aparecer de novonessa noite. Isso no apenas significava um bompressgio para os turistas deste fim de semana, 
#
mas tambm significava que ele deveria ligar paraAlvin. Mesmo que as fitas tivessem ficado boas,
Alvin fazia mgicas com uma cmera, e poderia 
captar imagens que sem dvida deixariam os 
dedos de Nate gastos de tanto fazer telefonemas.
O primeiro passo, entretanto, era ver o que 
haviam captado as cmeras, mesmo que fosse 
apenas para ver se tinham captado qualquer coisa.
Como era de se esperar, no havia aparelho devideocassete em Greenleaf, mas ele tinha visto um 
na sala de livros raros, e enquanto dirigia pela estrada 
tranqila que levava at a cidade, ficou 
pensando qual seria a atitude de Lexie em relaoa ele quando chegasse l. Ser que adotaria uma 
postura profissional e distante? Os bons 
sentimentos compartilhados durante o dia anterioririam prevalecer? Ou ela lembraria apenas os 
ltimos momentos na varanda, quando ele foraraum pouco as coisas? Ele no tinha idia do que iriaacontecer, embora tivesse passado boa parte danoite tentando adivinhar. 
Ele certamente havia descoberto a fonte da luz. 
Como muitos outros mistrios, no tinha sido to 
difcil de resolver; sabendo o que procurar, e 
depois de uma rpida olhada no website da NASA, 
eliminara qualquer outra possibilidade. A Lua, eledescobriu, no poderia ser responsvel pelasluzes. Estavam, na verdade, na lua nova, quando aLua fica encoberta 
pela sombra da Terra, e ele 
secretamente suspeitava de que as luzes 
misteriosas aconteciam nessa fase em particular.
Fazia sentido: sem a luz do luar, at os traos mais 
sutis de qualquer outra luz ficariam muito mais 

#
evidentes, especialmente quando se refletissem 
nas gotculas de gua da neblina.
Mas enquanto estava ali, parado no ar frio, com aresposta ao seu alcance, no conseguia parar depensar em Lexie. Parecia impossvel que ele s ativesse conhecido 
h dois dias. No fazia sentido. 
 claro que Einstein havia afirmado que o tempo 
era relativo, e ele imaginou que isso talvez 
pudesse ser uma explicao. Como era mesmo 
aquele ditado sobre a relatividade? Um minuto 
com uma bela mulher passaria num instante, masum minuto com a mo colocada em uma chapaqueimando iria parecer uma eternidade? Sim, elepensou, era isso. Ou quase, 
de qualquer forma.
Ele se arrependeu novamente de sua atitude navaranda, desejando pela centsima vez ter se 
conformado com a dica para ir embora, em vez deter cogitado beij-la. Ela havia deixado claro o que 
estava sentindo e ele simplesmente ignorara.
Normalmente, o velho Jeremy j teria esquecidoisso, descartando a histria toda como um 
acontecimento sem importncia. Mas, por algummotivo, desta vez no estava sendo to fcil. 
Ele certamente tivera muitos encontros, e no 
poderia ser chamado exatamente de eremita 
depois que Maria o havia deixado, mas poucas vezes 
tinha feito algo como passar-o-dia-inteiroconversando-
com-algum. Em geral, um jantar oualguns drinques e uma conversa recheada com palavras 
sedutoras bastavam para soltar a inibioantes da parte boa. Uma parte dele sabia que jestava na hora de adotar uma postura mais madura 
no que dizia respeito a seus encontros, talvez 

#
at tentar sossegar e levar uma vida como a deseus irmos. Com o que eles concordavam inteiramente, 
bem como,  claro, suas esposas. Todos 
eram unnimes na opinio de que ele deveria 
conhecer as mulheres antes de tentar dormir com 
elas, e chegaram at a arranjar um encontro com 
uma vizinha divorciada que tambm pensava 
assim. E  claro que ela no aceitara o convitepara um segundo encontro, em parte por causa de 
seus avanos no primeiro. Nos ltimos anos, 
simplesmente parecia mais fcil se no 
conhecesse as mulheres muito bem, poderiamant-las no reino das perptuas estranhas, quando 
elas ainda podiam projetar nele esperana epotencial.
E a  que estava o problema. No havia 
esperana ou potencial. Pelo menos, no em 
relao ao tipo de vida em que seus irmos e 
cunhadas acreditavam, nem mesmo, era o quesuspeitava, em relao ao tipo de vida que Lexiequeria. Seu divrcio de Maria havia provado. Lexieera uma garota de cidade 
pequena com sonhos decidade pequena, e no seria suficiente ser fiel eresponsvel e ter coisas em comum. A maioria dasmulheres queria algo mais, um tipo de vida 
queele no poderia proporcionar. No porque no 
quisesse, nem porque estivesse apaixonado pelavida de solteiro, mas simplesmente porque era 
impossvel. A cincia podia responder a uma sriede perguntas, a cincia podia resolver uma sriede problemas, mas no podia mudar sua 
realidade. E a realidade era que Maria o havia 

#
deixado por que ele no era, e jamais poderia ser,

o tipo de marido que ela queria.
 claro que ele jamais admitiria essa dolorosa 
verdade para algum. Nem para seus irmos, nem
para seus pais, nem para Lexie. E, normalmente,
mesmo nos momentos mais solitrios, nem para si 
mesmo. 
Apesar de a biblioteca estar aberta, Lexie aindano havia chegado, e ele sentiu uma dolorosa 
sensao de desapontamento ao abrir a porta doescritrio e ver a sala vazia. Mas ela j haviapassado por ali mais cedo: a sala de livros rarosestava destrancada, 
e quando ele acendeu a luz,
viu um bilhete sobre a mesa, junto com os mapasde topografia que havia mencionado. O bilhete 
tinha apenas duas linhas: 

Estou cuidando de alguns assuntos pessoais. 
Fique  vontade para usar o videocassete. 
Lexie 

Nenhuma meno ao dia anterior ou  noite, 
nenhuma meno quanto a querer v-lo 
novamente. Nem mesmo algum tipo de 
cumprimento acima da assinatura. No era um 
bilhete absolutamente frio como os bilhetes 
costumam ser, mas tambm no transmitia 
qualquer mensagem calorosa.
Mas, quem sabe, ele estivesse exagerando. Ela 
podia estar com pressa logo de manh, ou talveztivesse escrito pouco porque pretendia voltar logo.
Ela falou que era pessoal, e no que diz respeito s 

#
mulheres, isso podia significar qualquer coisa  
desde uma consulta mdica at comprar um 
presente de aniversrio para uma amiga. 
Simplesmente no havia o que dizer.
Alm disso, ele disse a si mesmo, tinha de 
trabalhar. Nate estava esperando e sua carreira 
estava em jogo. Jeremy obrigou-se a pensar 
apenas em encontrar o final da histria.
Os gravadores de udio no haviam captado 
qualquer som incomum, e nem o detector de 
ondas eletromagnticas ou de microondas haviamregistrado a menor variao de energia. As fitas devdeo, entretanto, haviam captado tudo o que elevira na noite anterior, 
e ele assistiu as imagens 
uma dzia de vezes de todos os ngulos. As 
cameras com capacidade especial para filtrar a luzmostravam a neblina brilhante mais vividamente. 
Embora as fitas pudessem fornecer imagens 
suficientemente boas para sua coluna, estavam 
muito abaixo da qualidade exigida pela televiso.
Quando vistas em tempo real, tinham um ar devdeo caseiro que o lembrava daquelas fitas 
grosseiras oferecidas como prova de acontecimentos 
sobrenaturais. Ele redigiu uma nota para selembrar de comprar uma camera de verdade, noimportava o quanto seu editor pudesse reclamarpor causa disso.
Mas, apesar de as fitas no terem a qualidade queele esperava, observando a maneira como as luzestinham mudado durante os vinte e dois segundosem que ficaram visveis, 
ele teve a certeza de quehavia realmente encontrado a resposta. Ele tirou 
as fitas do aparelho, analisou os mapas to


#
pogrficos e calculou a distncia entre Riker's Hille o rio. Comparou as fotografias que havia tiradodo cemitrio com fotos do cemitrio encontradas 
em livros a respeito da histria da cidade, e 
chegou  concluso do que seria uma estimativamais ou menos exata do grau de afundamento docemitrio. Embora no conseguisse encontrar maisnenhuma informao na 
lenda de Hettie Doubilet 
 os registros daquele perodo no revelavam 
muita coisa sobre o assunto , ele telefonou ao 
departamento estadual de saneamento para falardo reservatrio subterrneo naquela parte do estado, 
e tambm para o departamento de minas, quetinha informaes a respeito das pedreiras do 
incio do sculo. Depois disso, digitou algumas palavras 
numa ferramenta de busca da internet em 
busca das escalas de atividades de que ele 
precisava; e finalmente, depois de ficar esperandodurante dez minutos, conseguiu falar com um sr.
Larsen na fbrica de papel, que estava ansioso 
para colaborar da forma que pudesse.
E, com isso, todas as peas haviam se juntado demaneira que ele poderia definitivamente provar 
sua teoria. 
A verdade estivera diante de todos o tempo todo.
Como quase todos os mistrios, a soluo era 
simples, o que o fez pensar por que ningum haviapercebido antes. A menos,  claro, que algumtivesse percebido; o que abria a porta para umngulo completamente 
diferente da histria.
Nate, sem dvida, ficaria excitado, mas apesar do 
sucesso daquela manh, Jeremy no se sentia 
muito realizado. Ao contrrio, tudo o que con


#
seguia pensar era que Lexie no estava por ali 
para lhe dar os parabns ou para provoc-lo.
Honestamente, ele no se importava com a reaoque ela teria, desde que estivesse ali para reagir, eele se levantou da cadeira para olhar de novo seuescritrio. 
Parecia praticamente idntico ao dia anterior. 
Pilhas de documentos ainda estavam sobre sua 
mesa, livros espalhados ao acaso, e a proteo detela de seu computador exibia desenhos coloridos.
A secretria eletrnica, piscando por causa das 
mensagens, ficava perto de um vaso com uma 
pequena planta.
Ainda assim, ele no conseguia afastar a sensaode que, sem Lexie, a sala podia muito bem estarcompletamente vazia que no faria a menor 
diferena. 


Captulo 
DOZE 


#
Meu grande homem!  Alvin gritou do outro lado 
do aparelho.  A vida est tratando bem de voc 
a no Sul? 
Apesar da esttica no celular de Jeremy, Alvin 
parecia extremamente animado. 

 Estou bem. Estou ligando para saber se vocainda est com vontade de vir pra c, para me daruma ajuda. 
 J estou juntando meu equipamento  ele 
respondeu, parecendo um pouco sem flego.  
Nate me ligou faz uma hora e me contou tudo.
Encontro voc hoje  noite no Greenleaf  Nate jfez a reserva. Bom, de qualquer forma, meu vosai daqui a algumas horas. E acredite, mal possoesperar. Mais alguns 
dias por aqui e sou capaz deficar louco. 
 Do que  que voc est falando? 
 Voc no tem lido os jornais ou assistido 
televiso? 
 Claro. No perdi um nico nmero da Boone 
Creek Weekly. 
 O qu? 
 Esquea  Jeremy falou.  Nada importante. 
 Bom, de qualquer forma, tem sido uma nevascas desde que voc foi embora  Alvin informou. 
E estou falando de um cenrio parecido com o doPlo Norte. Manhattan est praticamente 
enterrada na neve. 
Voc saiu daqui na hora certa. Hoje  o primeirodia, desde que voc foi embora, que os vos estosaindo mais ou menos de acordo com a 
programao. E ainda tive de mexer uns 
#
pauzinhos para conseguir um lugar nesse vo. 
Como  que voc no est sabendo dessas coisas?
Enquanto Alvin falava, Jeremy teclou alguns 
comandos no computador e entrou num site de 
meteorologia na internet. No mapa que abrangiatodo o pas, o Nordeste era uma mancha branca.
Vige, ele pensou. Quem poderia imaginar uma 
coisa dessas? 

 Acho que tenho andado muito ocupado  ele 
disse. 
 Escondido, voc quer dizer  falou Alvin.  
Mas, espero que ela valha a pena. 
 Do que  que voc est falando? 
 Nem pense que pode me enganar. Somos 
amigos, lembra? Nate estava em pnico porque
no conseguia encontrar voc, voc no tem lido 
os jornais, e tambm no tem acompanhado o 
noticirio. Ns dois sabemos o que isso significa.
Voc sempre fica desse jeito quando conhece 
algum. 
 Escuta, Alvin... 
 Ela  bonita? Aposto que  linda, no ? Voc 
sempre consegue achar ouro. At me vira o 
estmago.
Jeremy hesitou antes de responder, e acabou 
desistindo. Se Alvin estava a caminho, logo iria 
descobrir tudo, de qualquer forma. 
 , ela  bonita. Mas no  nada do que voc
est pensando. Somos apenas amigos. 
 Claro  ele respondeu, gargalhando.  Mas h
uma pequena diferena entre o que voc chama
de amigo e o que eu considero um amigo. 
 No desta vez  Jeremy falou. 
#
 Ela tem alguma irm?  Alvin perguntou, 
ignorando o comentrio. 
 No. 
 Mas tem amigas, certo? E espero que voc selembre de que no estou interessado na feia.
Jeremy sentiu que a dor de cabea estava 
voltando, e sua voz adquiriu um tom mais 
impaciente.  Eu no estou muito a fim desse 
papo, est bem?
Alvin fez uma pausa do outro lado.  Ei, o que foique aconteceu? Eu estava apenas brincando. 
 Algumas das suas brincadeiras no so 
engraadas. 
 Voc est gostando dela, no est? Quer dizer,
est gostando muito. 
 Eu disse que ns somos apenas amigos. 
 Eu no acredito nisso. Voc est ficando 
apaixonado. 
 No  Jeremy respondeu. 
 Ei, cara, eu te conheo. Nem tente negar. E euacho isso incrvel. Estranho mas incrvel. Mas, 
infelizmente, tenho de cortar o papo, pois tenho depegar o avio. O trnsito est terrvel, como vocpode imaginar. Mas eu mal posso esperar para vera mulher que 
finalmente te dominou. 
 Ela no me dominou  Jeremy protestou.  Porque  que voc no ouve o que digo? 
 Estou ouvindo  Alvin falou.  S que estououvindo as coisas que voc no est dizendo. 
 T certo, tudo bem. Quando  que voc chega? 
 Acho que por volta das sete da noite. Vejo vocmais tarde. E, a propsito, d um al por mim, 
#
est bem? Diga a ela que estou morrendo de 
vontade de conhec-la e a amiga dela...
Jeremy encerrou a conversa antes que Alvin 
terminasse de falar e, como se quisesse esquecertotalmente o assunto, enfiou o telefone no bolso. 
No admira que o tivesse deixado desligado. Deviater sido uma deciso tomada pelo subconsciente,
baseada no fato de que seus amigos tinham umatendncia para irrit-lo s vezes. Primeiro, tinha 
sido o Nate, movido a pilha alcalina e sua 
inesgotvel busca pela fama. E agora isso.
Alvin no tinha a mnima idia do que estava 
falando. Eles podiam ser amigos, eles podiam terpassado muitas noites de sexta olhando para asmulheres por cima dos copos de cerveja, podiam 
ter conversado a respeito de coisas da vida 
durante horas, e, l no fundo, Alvin talvez 
acreditasse sinceramente que estava certo. Mas 
no estava, simplesmente porque no podia estar.
Os fatos, afinal de contas, falavam por si mesmos.
Em primeiro lugar, Jeremy no se apaixonava por 
uma mulher h anos, e apesar de fazer muito 
tempo, ainda conseguia se lembrar de como sesentira ento. Ele tinha certeza de que 
reconheceria esse sentimento novamente, e 
francamente, isso no tinha acontecido. E 
considerando o fato de que ele tinha acabado deconhecer aquela mulher, a idia toda parecia 
absurda. Nem mesmo sua me, com toda a sua 
profunda emotividade italiana, conseguiria acreditar 
que o verdadeiro amor pudesse surgir da 
noite para o dia. Como seus irmos e cunhadas,
tudo o que ela queria era que ele casasse e 

#
constitusse uma famlia, mas se ele aparecesseem sua casa e dissesse que dois dias atrs tinhaencontrado algum e sabia que era a pessoa de 
sua vida, sua me lhe daria uma surra com a 
vassoura, diria uma poro de palavres em 
italiano, e o mandaria para a igreja, acreditandosinceramente que ele tinha pecados graves paraconfessar. 
Sua me conhecia os homens. Tinha casado com 
um, criara seis meninos, e achava que j tinhavisto tudo. Sabia exatamente como os homens 
costumavam pensar quando se tratava de 
mulheres, e apesar de acreditar mais no bom 
senso do que na cincia, tinha uma opinioextremamente racional em relao ao amor, e no 
acreditava que fosse possvel acontecer em 
apenas alguns dias. O amor poderia ser colocado 
em movimento rapidamente, mas o verdadeiro 
amor precisava de tempo para se transformar emalgo forte e duradouro. O amor era, acima de tudo,
compromisso e dedicao, era acreditar que o 
passar dos anos com uma determinada pessoa iriacriar algo maior do que a soma daquilo que ambaspoderiam conquistar separadamente. Somente o 
tempo, contudo, poderia mostrar se a sua 
avaliao estava correta. 
O desejo, em contrapartida, poderia acontecer 
quase que instantaneamente, e era por isso quesua me lhe teria dado uma sova. Para ela, era 
fcil descrever o desejo: duas pessoas percebemque tm afinidades, a atrao aumenta e o instintoancestral para a preservao da espcie entra em 
cena. Tudo isso queria dizer que, apesar de o 

#
desejo ser uma possibilidade, ele no poderia 
estar sentindo amor por ela. 
Ento era isso. Caso encerrado. Alvin estava 
errado, Jeremy estava certo, e mais uma vez a 
verdade o libertara. 
Por um momento, ele sorriu satisfeito, mas sua 
testa logo comeou a ficar franzida.
E mesmo assim... 
Bom, o problema era que tambm no parecia serapenas uma questo de desejo. No esta manh,
de qualquer forma. Porque muito mais do que t-lanos braos ou beij-la, ele simplesmente ansiavapor v-la novamente. Para passar o tempo com 
ela. Para falar com ela. Queria ver novamente o 
jeito como ela revirava os olhos quando dizia 
alguma coisa ridcula, queria sentir sua mo emseu brao, como no dia anterior. Queria ver como 
ela colocava mechas de cabelo atrs da orelha 
quando estava nervosa, e ouvir as histrias queela contava a respeito de sua infncia. Queria lheperguntar a respeito de seus sonhos e esperanaspara o futuro, saber 
seus segredos.
Mas essa no era a parte mais estranha. O maisestranho era que ele no conseguia compreenderqual seria o motivo oculto para seus impulsos. claro que ele no se 
recusaria a dormir com ela, seela quisesse, mas mesmo que ela no quisesse, s

o fato de passar o tempo com ela seria suficiente 
por enquanto.
L no fundo, ele simplesmente sentia falta de ummotivo oculto. Ele j havia tomado a deciso denunca mais colocar Lexie na situao em que acolocara na noite anterior. 
Era preciso muita 
#
coragem, ele pensou, para dizer o que ela haviadito. Mais coragem do que a que ele possua.
Afinal, nos dois dias em que estiveram juntos, elesequer havia conseguido dizer a ela que j foracasado. 
Mas se aquilo no podia ser amor e no era 
desejo, o que seria? Gostar? Ele gostava dela? claro que gostava, mas essa palavra tambm noabarcava todos os seus sentimentos. Era muito... 
vaga e mal definida. As pessoas gostavam de 
sorvete. As pessoas gostavam de assistir  
televiso. No queria dizer nada, e nem chegava 
perto de uma explicao para o fato de, pelaprimeira vez, ele sentir a necessidade de contar aalgum a verdade a respeito de seu divrcio. Seusirmos no sabiam 
a verdade, nem seus pais. Mas,
qualquer que fosse o motivo, ele no conseguiaignorar a percepo de que queria que Lexie 
soubesse; e nesse momento ela no estava em um 
lugar onde pudesse ser encontrada. 

Dois minutos depois, tocou o telefone de Jeremy, eele reconheceu imediatamente o nmero que 
estava chamando. Apesar de no estar com 
vontade, sabia que devia atender, ou o sujeito 
provavelmente teria uma sncope. 

 E a?  disse Jeremy.  O que est 
acontecendo? 
 Jeremy!  Nate gritou. Por causa da esttica, 
Jeremy mal conseguia escut-lo. - Grandes 
novidades! Voc nem vai acreditar como estou 
ocupado. Uma loucura! Temos uma conference 
call com a ABC s duas da tarde! 
#
 timo. 
 Espere um pouco. No estou ouvindo. O sinal 
est muito ruim. 
 Desculpe... 
 Jeremy! Voc est a? No estou ouvindo sua
voz! 
 Sim, Nate, estou aqui. 
 Jeremy?  Nate gritou, alheio  sua resposta. 
Escute, se ainda puder me ouvir, voc precisa
procurar um telefone pblico e ligar para mim. s
duas horas! Sua carreira depende disso! Todo o
seu futuro depende disso! 
 Est bem, eu entendi. 
 Ora, isto  ridculo  Nate disse, como se 
estivesse falando para si mesmo.  No consigoouvir uma palavra do que est dizendo. Aperte umboto se escutou o que eu disse.
Jeremy apertou o 6. 
 timo! Fantstico! Duas horas! E seja voc 
mesmo! Quer dizer, deixando o sarcasmo de lado. 
Essas pessoas parecem muito rigorosas...
Jeremy desligou o telefone, imaginando quanto 
tempo levaria para Nate perceber que ele no 
estava mais na linha. 
Jeremy esperou. Depois esperou mais um pouco.
Ficou andando pela biblioteca, passando peloescritrio de Lexie, espiando pela janela em buscade sinais de seu carro, sentindo crescer dentro 
dele uma sensao de desconforto  medida queos minutos passavam. Era s um pressentimento,
mas havia alguma coisa errada com sua ausncianaquela manh. Entretanto, ele fez o que pdepara se convencer do contrrio. Disse a si mesmo 
#
que ela chegaria a qualquer momento, e depoisiria achar graa desses sentimentos ridculos. 
Mesmo assim, agora que terminara sua pesquisa

 alm de ter encontrado anedotas em alguns dosdirios, que ele ainda no havia terminado de 
examinar  no tinha muita certeza sobre o quefazer em seguida.
Greenleaf estava fora de cogitao  ele no 
queria passar mais tempo ali do que o 
absolutamente necessrio, embora estivesse 
comeando a gostar dos porta-toalhas. Alvin no 
chegaria at o anoitecer, e a ltima coisa que 
queria era vagar pela cidade, onde poderia ser 
encurralado pelo prefeito Gherkin. Tambm no 
queria ficar andando pela biblioteca o dia inteiro.
Ele realmente gostaria que Lexie tivesse sido maisespecfica em seu bilhete sobre a hora em queestaria de volta. Ou mesmo sobre o lugar para 
onde tinha ido. Ele no conseguia entender o 
bilhete, mesmo depois de ter lido pela terceira 
vez. Ser que a falta de detalhes teria sido 
distrao ou algo que havia feito de propsito? 
Nenhuma das possibilidades fazia com que se 
sentisse melhor. Ele tinha de sair dali; era difcil 
no pensar o pior.
Depois de juntar suas coisas, ele desceu as 
escadas e parou junto  mesa da recepo. A 
senhora que ali estava, trabalhando como voluntria, 
parecia completamente envolvida com a 
leitura de um livro. De p, diante dela, ele limpoua garganta. Quando ergueu os olhos, ela sorriu. 
Sr. Marsh!  ela disse.  Eu o vi entrar esta 
#
manh, mas parecia to preocupado, que achei 
melhor ficar calada. Em que posso ajud-lo?
Jeremy ajeitou os papis embaixo do brao, 
procurando parecer o mais natural possvel. 

 Por acaso sabe onde est a srta. Darnell? Ela 
me deixou um bilhete dizendo que ficaria fora, eeu estava pensando quando  que ela vai voltar. 
 Engraado  disse a mulher , ela estava aquiquando cheguei.  Ela verificou o calendrio que 
estava em cima da mesa.  No h nenhuma 
entrevista marcada e no estou vendo nenhum 
outro compromisso. Voc j deu uma olhada noescritrio? Talvez ela esteja trancada l dentro. Ela 
costuma fazer isso com freqncia quando o 
trabalho comea a acumular. 
 Eu olhei  ele disse.  Sabe se por acaso elatem um celular para que eu possa falar com ela? 
 Ela no tem  isso eu sei com certeza. Ela me 
disse que, quando estivesse fora, a ltima coisaque iria querer  que algum a encontrasse. 
 Bem... obrigado, de qualquer forma. 
 H alguma outra coisa que eu possa fazer paraajud-lo? 
 No, eu s precisava da ajuda dela para minhamatria. 
 Desculpe no poder fazer mais nada para 
ajudar. 
 Tudo bem. 
 J pensou em dar uma olhada no Herbs? Elapode estar ajudando Dris a preparar as coisas 
para o fim de semana. Ou talvez tenha ido para 
casa. Em se tratando da Lexie, nunca d pra 
#
prever o que ela vai fazer. Aprendi a no me 
surpreender com nada do que ela faz. 

 Obrigado, de qualquer maneira. Mas, se ela 
voltar, poderia dizer-lhe que eu estava procurando
por ela?
Sentindo-se mais perturbado do que nunca, 
Jeremy saiu da biblioteca. 
Antes de dirigir-se ao Herbs, Jeremy passou pelacasa de Lexie e viu que as cortinas das janelas 
estavam abaixadas e seu carro havia sumido. 
Embora no houvesse qualquer coisa 
extraordinria na cena, mais uma vez ele sentiu 
que havia alguma coisa errada, e percebeu que odesconforto s havia aumentado quando pegou denovo a estrada para voltar  cidade.
O movimento da manh no Herbs j havia 
diminudo a essa hora, e o restaurante estava 
naquele perodo intermedirio entre o caf-damanh 
e o almoo, quando as coisas usadas nacorreria anterior estavam sendo limpas e os 
preparativos para a prxima estava sendo feitos.
Havia quatro funcionrios para cada cliente, e elelevou apenas alguns segundos para ver que Lexietambm no estava por ali. Rachel estava 
limpando uma mesa e sacudiu uma toalha quando

o viu. 
 Bom dia, querido  ela disse, aproximando-se.
 J  um pouco tarde, mas tenho certeza de queconseguimos alguma coisa para voc tomar cafse estiver com fome. 
Jeremy colocou as chaves no bolso.  No, 
obrigado. No estou com fome  ele disse.  Mas 
#
por acaso voc sabe se Dris est por aqui? Gostaria 
muito de falar com ela, se no fosse 
incomodar. 

 Voltou por causa dela, no ?  ela sorriu e 
acenou com a cabea por cima do ombro.  Ela 
est l atrs. Vou dizer que voc est aqui. E, apropsito, foi uma festa e tanto ontem  noite. As 
pessoas falaram de voc a manh inteira, e o 
prefeito apareceu para ver se voc havia se 
recuperado. Acho que ele ficou desapontado porno o encontrar por aqui. 
 Eu gostei. 
 Quer um pouco de caf ou de ch enquantoespera? 
 No, obrigado  ele respondeu.
Ela desapareceu nos fundos, e poucos minutos 
depois Dris apareceu, limpando as mos no 
avental. Seu rosto estava salpicado de farinha. 
Mesmo de longe, ele conseguia ver suas olheiras, 
e lhe pareceu que ela estava andando mais 
devagar que de costume. 
 Desculpe por estar deste jeito  ela falou, 
apontando com as mos para si mesma.  Eu 
estava mexendo na massa de po. A festa de 
ontem  noite atrasou um pouco os preparativospara o fim de semana, e vou ter de correr umpouco para compensar o atraso, antes que todomundo comece a chegar amanh.
Lembrando-se do que Lexie havia lhe contado, ele 
perguntou:  Quantas pessoas vocs esto 
esperando neste fim de semana? 
 Quem sabe?  ela falou.  Normalmente, 
aparecem algumas centenas, s vezes um pouco 
#
mais, para o passeio. O prefeito estava esperandoque chegasse perto de mil este ano, s para opasseio, mas  sempre difcil imaginar quantaspessoas vo aparecer 
para o caf-da-manh e o almoo. 


 Se o prefeito estiver certo, ser um verdadeirosalto este ano. 
 Bem, avalie a estimativa dele como ela merece 
ser avaliada. Tom costuma ser exageradamenteotimista, mas ele consegue criar uma sensao deurgncia para que tudo fique pronto a tempo.
Alm disso, mesmo que as pessoas no faam opasseio, ainda h gente que gosta de ver a parada 
no sbado. Os Shriners  artistas de rua  
estaro por aqui se exibindo com seus carros 
divertidos, e as crianas adoram. E tambm vamos 
ter um pequeno zoolgico com animais de 
estimao este ano, e isso  novidade. 
 Parece timo. 
 Seria melhor se no fosse no meio do inverno. 
O Festival de Pamlico atrai muito mais gente, masacontece em junho, e sempre montamos uma loja 
num daqueles parques de diverses itinerantes 
nesses finais de semana. Alis, em fins de semana 
como esses  possvel erguer ou quebrar um 
negcio. Nem fale do estresse.  umas dez vezesmais intenso do que o que estou enfrentando 
agora.
Ele sorriu.  A vida daqui est sempre me 
surpreendendo. 
 No critique at experimentar. Sinto uma 
sensao engraada de que voc adoraria tudo 
isto. 
#
A voz de Dris saiu como se ela estivesse com a 
inteno de test-lo, e ele no soube o que 
responder. Atrs deles, Rachel estava limpandouma mesa enquanto tagarelava com o cozinheiro,
que estava no meio do salo. Os dois caram narisada por causa de algum comentrio que um dosdois fizera. 

 Bom, de qualquer forma, estou feliz por vocter vindo at aqui  ela disse, livrando'0 de uma 
situao embaraosa.  Lexie mencionou que lhefalou a respeito do meu caderno de anotaes. Ela 
me avisou que voc talvez no acreditasse em 
uma nica palavra do que est escrito ali, masfique  vontade para examin-lo, se quiser. Ele 
est no meu escritrio l atrs. 
 Eu gostaria muito  ele falou.  Ela me disse 
que voc fez um registro notvel. 
 Fiz o melhor que pude. Certamente deve estaraqum dos seus padres, mas eu jamais imaginei 
que outra pessoa, alm de mim, pudesse ter 
interesse em ler. 
 Tenho certeza de que vai me surpreender. Mas,
por falar em Lexie, ela  um dos motivos por quevim at aqui. Voc a viu por a? Ela no estava nabiblioteca hoje.
Ela fez que sim com um aceno de cabea.  Lexiepassou pela minha casa hoje de manh. Por issoeu sabia que devia trazer o caderno. Ela me disseque vocs viram as 
luzes ontem  noite. 
 Ns vimos. 
 E...? 
 Surpreendentes, mas, como voc mesma disse,
no eram fantasmas. Ela olhou para ele, satisfeita. 
#
 E eu devo presumir que voc j descobriu tudo,
ou ento no estaria aqui. 
 Acho que sim. 
 Que bom  ela disse. Ento fez um gesto com 
a cabea por cima do ombro.  Desculpe no 
poder conversar mais com voc agora, mas estoumeio ocupada. Vou pegar meu caderno l dentro.
Quem sabe, talvez voc queira escrever uma 
histria sobre meus poderes surpreendentes 
depois. 
 Nunca se sabe. Posso querer  ele respondeu.
Enquanto a via desaparecer dentro da cozinha, 
Jeremy ficou pensando a respeito da conversa quetiveram. Perfeitamente agradvel, mas curiosamente 
impessoal. E ele percebeu que Dris no 
havia respondido sua pergunta a respeito do 
paradeiro de Lexie. No tinha sequer aventado umpalpite, o que parecia sugerir que  qualquer quefosse o motivo  para ela, qualquer assunto 
relativo a Lexie estava fora de sua alada. E isso 
era um mau sinal. Ele ergueu os olhos quando elase aproximou novamente. Tinha o mesmo sorrisoagradvel de antes, mas desta vez fez com queele sentisse uma espcie 
de mal-estar. 
 Olhe, se tiver qualquer pergunta a respeito doque est escrito aqui  ela falou, entregando-lhe ocaderno ,  s telefonar. E pode fazer cpias, sequiser, mas 
me devolva antes de ir embora.  
muito especial para mim. 
 Farei isso  ele prometeu.
Ela permaneceu de p diante dele, em silncio, eJeremy teve a impresso de que essa era a 
maneira que ela tinha de dizer que a conversa 
#
tinha acabado. Ele, por outro lado, no estava 
disposto a desistir to facilmente. 

 Ah, mais uma coisa  ele falou. 
 O qu? 
 Algum problema se eu devolver o caderno para
Lexie? Se por acaso encontrar com ela hoje? 
 Pode ser  ela disse.  Mas, de qualquer 
forma, estarei por aqui tambm.
Percebendo o significado bvio do que ela estava
dizendo, o mal-estar aumentou. 
 Ela disse alguma coisa a meu respeito?  ele 
perguntou.  Quando vocs se viram hoje de 
manh? 
 No muito. Mas ela disse que voc certamente
passaria por aqui. 
 Ela estava bem? 
 Lexie...  Dris falou devagar, como se 
estivesse escolhendo as palavras cuidadosamente
 s vezes  difcil captar o que Lexie est sentindo, 
por isso no tenho certeza se posso responderessa pergunta. Mas tenho certeza de que ela vaificar bem, se  isso o que est perguntando. 
 Ela estava zangada comigo? 
 No, isso eu posso lhe garantir. Ela 
definitivamente no estava zangada.
Esperando por mais alguma coisa, Jeremy no 
disse nada. No silncio, Dris suspirou 
profundamente. Pela primeira vez, desde quehaviam se conhecido, ele percebeu a idade naslinhas ao redor de seus olhos. 
 Eu gosto de voc, Jeremy, voc sabe disso  
ela disse, a voz suave.  Mas voc est me 
deixando numa situao difcil. O que voc precisa 
#
entender  que eu devo lealdade a certas pessoas,
e Lexie  uma delas. 

 E o que isso quer dizer?  ele perguntou, 
sentindo a garganta seca. 
 Quer dizer que eu sei o que voc quer e o queest perguntando, mas no posso responder suas 
perguntas. O que posso dizer  que se Lexie 
quisesse que voc soubesse onde ela est, teria-
lhe dito. 
 Ser que vou v-la novamente? Antes de ir 
embora? 
 Eu no sei  ela respondeu.  Acho que cabe aela decidir. 
 Diante desse comentrio, sua mente comeou a 
absorver o fato de que ela realmente tinha ido 
embora. 
 Eu no entendo... Por que ela faria uma coisadessas? Dris mostrou um sorriso triste.  Sim, eu 
acho que voc sabe. 
Ela havia ido embora. 
Como um eco, as palavras continuavam se 
repetindo na sua cabea. Ao volante, no caminhopara Greenleaf, Jeremy tentou analisar os fatos,
repassando-os friamente. Estava tudo sob 
controle. Ele nunca perdia o controle. No 
importava o quanto se sentisse zangado, no 
importava o quanto desejasse pressionar Dris 
para lhe dar alguma informao a respeito do 
paradeiro de Lexie ou de seu estado de esprito,
simplesmente agradeceu a ela pela ajuda e dirigiu-
se para o carro, como se no tivesse esperado 
outra coisa. 

#
Alm disso, ele lembrou a si mesmo, no havia porque perder a cabea. Afinal, no havia acontecidonada de terrvel com ela. Ela simplesmente no 
queria v-lo novamente. Talvez ele devesse ter 
previsto que uma coisa dessas iria acontecer. 
Alimentara expectativas demais, mesmo quandoela deixara perfeitamente claro, logo no incio, queno estava interessada. 
Ele sacudiu a cabea, pensando que no era deestranhar que ela tivesse sumido. Apesar de 
moderna em algumas questes, era tradicional emoutras, e provavelmente estava cansada de ter delidar com suas manobras transparentes.
Certamente, era mais fcil para ela simplesmentesair da cidade do que ficar argumentando com 
uma pessoa como ele.
Ento, em que p ficariam as coisas? Ela poderiavoltar ou no. Se voltasse, no haveria problemaalgum. Mas se no... bem, era a que a realidade 
comeava a ficar complicada. Ele poderia ficar 
sentado e aceitar sua deciso, ou poderia tentarencontr-la. Se havia uma habilidade em que elese destacava, era sua capacidade para encontrar 
pessoas. Utilizando registros pblicos, conversas 
amigveis e os sites corretos na internet, ele sabia 
como seguir as migalhas de po at a casa dequalquer pessoa. Mas ele duvidava que fosse 
precisar de qualquer uma dessas coisas. Afinal, elaj lhe havia dado a resposta que ele precisava, eele tinha certeza de que sabia exatamente paraonde ela tinha 
ido. O que significava que ele 
poderia lidar com a situao da forma que 
quisesse. 

#
Seus pensamentos foram interrompidos 
novamente. 

O problema era que isso no ajudava muito emrelao ao que ele deveria fazer. Ele se lembrou 
de que teria uma conference call dentro de poucas 
horas, cujos desdobramentos seriam muito 
importantes para sua carreira, e se ele sasse  
procura de Lexie agora, dificilmente encontraria 
um telefone fixo quando fosse precisar de um. 
Alvin estaria chegando mais  noite  
provavelmente a ltima noite de neblina , e 
apesar de Alvin ter todas as condies pararealizar as filmagens daquela noite por sua prpria 
conta, eles teriam de trabalhar juntos no dia 
seguinte. Para no falar que ele precisava dormir 
um pouco  teria outra longa noite pela frente, eat os seus ossos estavam cansados. 
Porm, ele no queria que tudo acabasse daquelejeito. Queria ver Lexie, precisava v-la. Uma voz 
dentro dele avisou-o para no deixar que suas 
emoes ditassem suas aes, e, racionalmente, 
ele no conseguia ver nenhum resultado positivose sasse perambulando atrs dela. Mesmo que aencontrasse, ela provavelmente iria ignor-lo ou,
pior, ficaria enojada. E nesse meio tempo, Nateprovavelmente sofreria um ataque cardaco, Alvinficaria furioso e em situao difcil, e sua histria e 
sua carreira podiam simplesmente ir pelo ralo.
Ao final, a deciso era simples. Estacionando o 
carro na vaga diante de seu chal em Greenleaf,
ele acenou afirmativamente com a cabea para si 
mesmo. O fato de ter colocado as coisas nesses 
termos fizera com que ficassem mais claras. 

#
Afinal, ele no tinha passado os ltimos quinze 
anos utilizando lgica e cincia sem que isso 
tivesse lhe ensinado algo.
Agora, pensou, tudo o que tinha a fazer era 
arrumar a mala. 


Captulo 

TREZE 

Tudo bem, ela admitia, era uma covarde. 
No era a coisa mais fcil para ela admitir o fatode que havia fugido, mas no estava conseguindopensar com muita clareza naqueles ltimos dias, epodia muito bem 
se perdoar por no ser perfeita. Averdade  que, se ela tivesse continuado por 
perto, as coisas acabariam ficando muito mais 
complicadas. No importava que ela gostasse delee que ele gostasse dela; tinha acordado naquelamanh sabendo que precisava colocar um pontofinal naquela histria, 
antes que fosse longedemais, e ao ver a entrada de garagem coberta de 

#
areia ali na frente, sabia que ter vindo para ctinha sido a coisa certa a fazer. 
O lugar no estava muito bem conservado. O 
velho chal estava desbotado e tomado pela 
vegetao praiana que o cercava. As janelas 
pequenas e retangulares, com cortinas brancas, 
estavam cobertas com resduos da maresia, e as 
laterais tinham riscas cor de cinza, lembranas da 
fria de uma dezena de ruraces. De certa forma, 
sempre havia considerado o chal uma espcie decpsula do tempo; a maior parte da moblia tinhamais de vinte anos, os canos faziam barulho 
quando ela ligava o chuveiro e tinha de acender asbocas do fogo com fsforos. Mas as lembranasde perodos da sua juventude passados aquisempre a acalmavam, e depois 
de guardar suasmalas e os mantimentos que havia trazido para ofim de semana, abriu as janelas para arejar o 
lugar. Depois, pegando um cobertor, ela se 
acomodou na cadeira de balano que ficava navaranda de trs, desejando apenas observar o 
oceano. O barulho constante das ondas era relaxante, 
quase hipntico, e quando o Sol surgiuatravs das nuvens e os raios comearam a 
encostar na gua como dedos que se estendiam apartir do cu, prendeu a respirao.
Ela fazia isso todas as vezes que vinha pra c. Aprimeira vez em que viu a luz abrindo caminhodessa forma, atravs das nuvens, foi logo depoisde ter visitado o cemitrio 
com Dris, quandoainda era uma menina, e comeou a pensar queseus pais haviam encontrado outra forma de continuar 
presentes em sua vida. Como anjos enviados 

#
pelo cu, acreditava que eles estavam ali tomando 
conta dela, sempre presentes, mas nunca interferindo, 
como se sentissem que tomaria sempreas decises corretas. 
Durante muito tempo ela precisou acreditar nessascoisas, simplesmente porque sempre se sentia 
muito sozinha. Seus avs eram bons e maravilhosos, 
mas por mais que os amasse, por todo oamor e sacrifcio que lhe dedicavam, ela nunca seacostumara com a sensao de ser diferente das 
outras crianas. Os pais de suas amigas jogavam 
softball nos fins de semana e pareciam joviaismesmo sob a suave luz da manh que invadia aigreja, e essa observao a fazia pensar nas coisas 
que poderia estar perdendo, se  que estava 
perdendo alguma coisa.
Ela no poderia falar com Dris a respeito de 
coisas desse tipo. Tambm no podia falar com elasobre o sentimento de culpa que sentia por causadisso. Ela sabia que no importaria como dissesse,
iria ferir os sentimentos de Dris, e apesar de, 
naquela poca, ser muito menina, ela sabia disso.
Mas aquela sensao de ser diferente havia 
deixado uma marca. No apenas nela, mas em 
Dris tambm, como pde notar durante a adolescncia. 
Quando Lexie forava os limites, Dris 
freqentemente cedia para evitar uma discusso,
deixando que Lexie acreditasse que poderia 
estabelecer suas prprias regras. Ela acabou 
mostrando seu lado mais rebelde quando era 
jovem, cometeu erros e colecionou 
arrependimentos, mas de alguma forma se tornousria durante a faculdade. Em sua nova, mais ma


#
dura encarnao, abraou a idia de quematuridade significava calcular o risco muito antesde avaliar a recompensa, e que sucesso e 
felicidade na vida se conquistavam tanto evitandoos erros quanto deixando sua prpria marca nomundo. 
Na noite anterior, ela sabia, quase cometera um 
erro. Esperou que ele tentasse beij-la, e ficou 
orgulhosa de como se mostrou decidida quandoele quis entrar.
Sabia que tinha ferido seus sentimentos, e sentiamuito por isso. Mas o que ele certamente no 
percebeu  que s depois de ele ter ido emboraseu corao parou de bater descontroladamente,
porque uma parte dela queria deix-lo entrar, no 
importando o que acontecesse depois. Ela sabia 
que no devia, mas no conseguia evitar. O pior,
porm, foi compreender, enquanto rolava e se 
virava na cama a noite inteira, que poderia no terforas para agir corretamente de novo.
Honestamente, ela devia ter percebido que isso 
iria acontecer. Enquanto transcorria a noite, 
percebeu que estava comparando Jeremy com 
Avery e com o sr. Renascena; e para sua 
surpresa, Jeremy ganhava dos dois. Ele tinha a 
perspiccia e o senso de humor de Avery, e a 
inteligncia e o charme do sr. Renascena, mas 
Jeremy parecia mais confortvel consigo mesmodo que eles. Talvez devesse creditar essa 
avaliao ao dia maravilhoso que tivera, coisa queno acontecia h muito tempo. Quando tinha sido 
a ltima vez que desfrutara de um almoo 
despojado como aquele? Ou que se sentara no alto 

#
de Riker's Hill? Ou que visitara o cemitrio depoisde uma festa, quando normalmente teria ido direto 
para a cama? Sem dvida, a excitao e o 
inesperado haviam contribudo para lembr-la decomo havia sido feliz quando ainda acreditava queAvery ou que o sr. Renascena eram os homens deseus sonhos. 
Mas ela se enganara, da mesma forma que estavaenganada agora. Ela sabia que Jeremy resolveria omistrio naquele dia  tudo bem, talvez fosse 
apenas um feeling, mas tinha certeza disso, j quea resposta estava em um dos dirios e tudo o queele precisava fazer era descobrir  e no tinha 
dvida de que ele iria lhe pedir para celebrarem adescoberta juntos. Se ela tivesse ficado na cidade,
os dois iriam passar a maior parte do dia unidos, eela no queria que isso acontecesse. E de novo, l 
no fundo, viu que era exatamente isso o quequeria, fazendo com que se sentisse mais confusado que jamais estivera nos ltimos anos.
A intuio de Doris havia captado absolutamentetudo logo de manh, quando Lexie passou em sua 
casa, mas isso no era de surpreender. Lexie 
percebeu o cansao em volta de seus olhos e 
sabia que tambm estava parecendo um lixo aosurgir assim, do nada. Depois de jogar algumasroupas na mala, ela havia sado de casa sem ter 
ao menos tomado um banho; ela tambm no 
havia tentado explicar o que estava sentindo. 
Mesmo assim, Dris simplesmente concordou coma cabea quando Lexie lhe disse que precisava irembora. Dris, apesar de todo o seu cansao, 
parecia ter entendido que no havia previsto o que 

#
poderia acontecer em conseqncia de toda 
aquela srie de acontecimentos que ela mesmahavia comeado. Esse era o problema das 
premonies: apesar de poderem ser bastante 
exatas a curto prazo, era impossvel saber 
qualquer coisa alm disso.
Assim, ela tinha vindo para c porque era o quetinha de fazer, nem que fosse apenas para 
preservar sua sanidade, e retornaria a Boone 
Creek quando as coisas voltassem ao normal. Nolevaria muito tempo. Em alguns dias, as pessoasteriam parado de falar dos fantasmas e das casashistricas, e do estranho 
que estava na cidade, e avinda dos turistas no seria nada mais que umalembrana. O prefeito voltaria para seu curso degolfe, Rachel voltaria a sair com o tipo errado 
dehomens e Rodney certamente iria encontrar umaforma de trombar com Lexie acidentalmente, pertoda biblioteca, sem dvida aliviado por perceberque a relao deles 
poderia voltar a ser o que era.
Talvez no fosse uma vida muito excitante, mas 
era a sua vida, e ela no estava disposta a deixarque nada ou ningum interferisse nesse equilbrio.
Em outra poca ou lugar, talvez pudesse se sentirdiferente em relao a essas coisas, mas era intil 
pensar nisso agora. Enquanto seu olhar continuavaencarando fixamente a gua, ela fez fora parano pensar no que poderia ter acontecido.
Na varanda, Lexie puxou o cobertor para ficar bemapertado em torno dos ombros. Ela era uma 
garota crescida e conseguiria superar, da mesmaforma que havia conseguido superar seu 
envolvimento com os outros. Tinha certeza disso. 

#
Porm, mesmo se sentindo mais tranqila com 
essa constatao, o movimento das guas do marinsistia em lembr-la de seus sentimentos em 
relao a Jeremy, e precisou reunir todas as suasforas para controlar as lgrimas.
Parecia relativamente simples quando Jeremyresolveu o que iria fazer, e ele se movimentavaapressadamente em seu quarto no Greenleaf, enquanto 
planejava tudo. Pegar o mapa e sua 
carteira, para qualquer eventualidade. Deixar o 
computador, porque no iria precisar dele. A 
mesma coisa valia para suas anotaes. Colocar ocaderno de Dris na mochila de couro, para noesquec-lo. Escrever um bilhete para Alvin e 
deix-lo na recepo, apesar de saber que Jed noiria ficar muito satisfeito. Certificar-se de queestava levando o carregador do celular  e sair.
Ele havia entrado e sado em menos de dez 
minutos, e j estava a caminho de Swan Quarter,
onde a balsa o levaria at Ocracoke, um vilarejo 
na regio de Outer Banks. Dali, ele pegaria a 
rodovia 12 em direo ao norte, at Buxton. 
Calculou que essa deveria ser a rota que ela teriaseguido, e tudo o que tinha a fazer seria seguir omesmo caminho e chegaria ao lugar em apenasalgumas horas.
Porm, apesar da viagem at Swan Quarter tersido tranqila, atravs de estradas retas e vazias,
ele no conseguia parar de pensar em Lexie e pisava 
mais fundo no acelerador, tentando afastar o 
nervosismo. Mas, nervosismo era apenas outra 
palavra para pnico, e ele nunca entrava em 
pnico. Tinha orgulho disso. Entretanto, quando 

#
era obrigado a diminuir a velocidade  em lugares 
como Belhaven e Leechville , ele se via tamborilando 
o volante com os dedos e resmungandosob a respirao pesada.
Para ele, essa sensao era estranha, e ficava 
mais forte  medida que ele se aproximava de seudestino. Ele no saberia explicar, mas tambm noqueria fazer uma anlise. Aquele era um dos raros 
momentos de sua vida em que estava se 
movimentando no piloto automtico, fazendo exatamente 
o oposto do que dizia a lgica, pensandoapenas em como ela iria reagir quando o visse.
Quando achava que estava comeando a entender 
a razo para esse comportamento estranho, 
Jeremy percebeu que estava no local de partidadas balsas olhando para um homem magro,
uniformizado, que nem se dera ao trabalho de tiraros olhos da revista que estava lendo. A balsa paraOcracoke, ele descobriu, no tinha a mesma 
regularidade da que ia de Manhattan para StatenIsland, e ele havia perdido a ltima sada do dia, oque significava que poderia voltar no dia seguinteou simplesmente 
cancelar seus planos, coisas queele no estava disposto sequer a levar em 
considerao. 

 Tem certeza de que no h outra maneira dechegar at o farol de Hatteras?  ele perguntou, 
sentindo seu corao disparar.  Isto  importante. 
 Voc poderia ir de carro, eu acho. 
 E quanto tempo levaria isso? 
 Depende da velocidade com que voc dirigir. 
#
Aquilo era bvio, Jeremy pensou.  Vamos dizer 
que sou rpido.
O homem encolheu os ombros, como se todo 
aquele assunto o aborrecesse.  Cinco ou seis 
horas, talvez. Voc teria de ir para o norte at chegar 
em Plymouth, depois pegar a 64 para RoanokeIsland, e depois para Whalebone. Dali, teria de 
seguir para o sul at Buxton. O farol fica ali 
mesmo. 
Jeremy olhou para o relgio; j era quase uma 
hora; quando estivesse chegando l, Alvin 
certamente estaria chegando em Boone Creek. 
Isso no era bom. 

 H algum outro lugar onde se possa pegar abalsa? 
 Tem um em Cedar Island. 
 timo. Onde fica isso? 
 Cerca de trs horas na outra direo. Mas 
tambm vai ter de esperar at amanh de manh.
Por cima do ombro do homem, Jeremy viu um 
pster mostrando os vrios faris existentes na 
Carolina do Norte. Hatteras, o maior de todos, estava 
no centro. 
 E se eu lhe dissesse que isto  uma 
emergncia?  ele perguntou. Pela primeira vez, ohomem ergueu a cabea. 
  uma emergncia? 
 Vamos dizer que sim. 
 Ento eu chamaria a Guarda Costeira. Ou talvez 
o xerife. 
 Sei  Jeremy falou, tentando no perder a 
pacincia.  Mas o que voc est me dizendo  
#
que no h outra maneira de chegar at l, agora?
Daqui, eu quero dizer.
O homem colocou um dedo no queixo.  Acho que
voc poderia pegar um barco, se est com tanta 
pressa.
Agora estamos chegando em algum lugar, Jeremy
pensou.  E como eu conseguiria um barco? 


 Eu no sei. Ningum nunca perguntou. 
Jeremy voltou para o carro, admitindo finalmenteque estava comeando a entrar em pnico.
Talvez porque j tivesse ido to longe, ou talvezpor ter percebido que suas ltimas palavras paraLexie na noite anterior haviam revelado uma 
verdade mais profunda, o fato  que alguma coisahavia tomado conta dele, e no iria voltar atrs. 
Ele se recusava a voltar atrs, no depois de terchegado to perto.
Nate ficaria esperando seu telefonema, mas, 
subitamente, isso j no era to importante paraele. Tambm no se importava com o fato de Alvin 
estar chegando; se tudo corresse bem, eles 
poderiam filmar mais tarde naquela noite e na 
noite seguinte. Ele tinha dez horas at que as 
luzes aparecessem novamente; com um barco 
rpido, ele calculava que conseguiria chegar atHatteras em duas. Isso lhe dava tempo suficientepara chegar l, falar com Lexie e voltar, supondoque encontrasse 
algum para lev-lo at l.
 claro que tudo poderia dar errado. Ele podia noconseguir alugar um barco, por exemplo. Mas seisso acontecesse, iria dirigindo at Buxton se fosse 

#
preciso. Quando chegasse l, contudo, no poderiasequer ter certeza de que a encontraria.
Nada fazia sentido nessa seqncia imaginria deacontecimentos. Mas quem se importava? De vezem quando, todo mundo tinha o direito de ser umpouco excntrico, e agora 
era sua vez. Ele tinhadinheiro vivo na carteira e encontraria uma 
maneira de chegar at l. Estava determinado a 
arriscar e ver o que iria acontecer quando a 
encontrasse, mesmo que fosse apenas para provar 
a si mesmo que poderia deix-la e nunca mais 
pensar nela.
No fundo, ele sabia, era disso que se tratava. 
Quando Dris insinuara que ele talvez no a vissenunca mais, todas as lembranas a respeito delapassaram a mil por hora em sua cabea. Claro, eleiria embora dentro 
de alguns dias, mas isso nosignificava que tivesse de acabar. No ainda, pelo 
menos. Ele poderia vir visit-la, ela poderia ir aNova Iorque, e se tivesse de ser, ele iria dar umjeito. As pessoas viviam fazendo isso, certo? Masmesmo que no 
fosse possvel, mesmo que elaestivesse decidida em sua determinao de acabar 
com tudo de uma vez, queria ouvi-la dizer isso. Sassim ele poderia voltar para Nova Iorque sabendoque no tivera outra escolha.
E no entanto, ao parar na primeira marina queencontrara, compreendeu que no queria que eladissesse isso. Ele no estava indo at Buxton parase despedir ou para 
ouvi-la dizer que no queriav-lo nunca mais. Na verdade, ele percebeu, paraseu espanto, que estava indo at l para conferirse Alvin havia acertado. 

#
O final da tarde era a parte do dia favorita deLexie. A luz suave do sol no inverno, combinada 
com a austera beleza natural da paisagem, fazia omundo parecer uma coisa de sonho.
At o farol, que lembrava um doce por causa 
daquelas listras pintadas, parecia uma miragemvisto dali, e enquanto caminhava pela praia, ficoupensando o quanto teria sido difcil para 
marinheiros e pescadores navegar por aquelasparagens antes de sua construo. As guas maisdistantes da praia, muito rasas e tomadas porbancos de areia, eram chamadas 
de Cemitrio do 
Atlntico, e milhares de carcaas de navios 
afundados se espalhavam pelo fundo do mar. O 
Monitor, que participara da primeira batalha entrecouraados durante a Guerra Civil, havia se 
perdido ali. Assim como o Central America, 
carregado com ouro da Califrnia, cujo naufrgioajudou a causar o pnico de 1857. Diziam que onavio do Barba Negra, Queen Anne's Revenge,
havia sido encontrado no Beaufort Inlet, e meia 
dzia de submarinos alemes afundados durante a 
II Guerra Mundial eram visitados quase 
diariamente por mergulhadores.
Seu av era um aficionado por histria, e todas asvezes que passeavam pela praia de mos dadas,
contava-lhe histrias dos navios que haviam se 
perdido por ali ao longo dos sculos. Ela havia 
aprendido tudo sobre furaces, sobre a rebentaoperigosa e as falhas de navegao que faziam osbarcos encalhar, ficando presos no fundo, at 
serem partidos ao meio pela rebentao violenta. 

#
Embora no sentisse qualquer interesse especial es vezes at ficasse assustada com as imagensevocadas por essas histrias, a voz meldica e 
lenta de seu av, acentuando as vogais, era 
estranhamente relaxante, e ela jamais havia 
tentado mudar de assunto. Mesmo sendo muito 
jovem na poca, ela sabia que, para seu av, eramuito importante falar com ela sobre essas coisas.
Anos depois, ela viria  saber que seu navio tinhasido bombardeado na II Guerra Mundial e ele 
sobrevivera por pouco.
A lembrana daquelas caminhadas fez com quesentisse imensa saudade de seu av. Os passeioshaviam feito parte de sua rotina diria, uma coisas dos dois, e normalmente 
eles saam poucoantes do jantar, quando Dris estava cozinhando.
Quase sempre, ele estaria lendo na cadeira, comos culos na ponta do nariz; ele fecharia o livrocom um suspiro e o colocaria de lado. Ele entoficaria de p e lhe 
perguntaria se gostaria de fazeruma caminhada para ver os cavalos selvagens.
A idia de ver os cavalos sempre a deixava 
animada. Ela no sabia muito bem por qu; nuncahavia andado a cavalo, nem tinha qualquer interesse 
especial em andar, mas se lembrava dospulos que dava e de como corria para a porta,
assim que seu av dizia isso. Normalmente, os 
cavalos se mantinham distantes das pessoas e seespalhavam sempre que algum se aproximava, 
mas, ao anoitecer, eles gostavam de pastar, 
baixando suas defesas, mesmo que por alguns 
minutos apenas. Era possvel chegar perto o 
bastante para ver os seus traos marcantes e, com 

#
sorte, ouvi-los bufar e relinchar, como que 
avisando as pessoas para no se aproximar.
Os cavalos eram descendentes de mustanguesespanhis, e sua presena nas Outer Banks datavade 1523. Naquela poca, havia uma srie de 
normas legais para garantir sua sobrevivncia, eeles eram to caractersticos daquela paisagem 
quanto os veados na Pensilvnia, e o nico 
problema era a eventual superpopulao. Os 
moradores do lugar costumavam ignor-los, a 
menos que causassem algum incmodo, mas a 
maioria dos veranistas considerava os cavalos o 
ponto alto de sua estada. Lexie se considerava 
uma pessoa do lugar, mas cada vez que os viasentia-se criana novamente, com todas as 
alegrias e expectativas da vida pela frente.
Queria se sentir assim naquele momento, mesmoque fosse apenas para fugir da presso da vidaadulta. Dris havia telefonado para lhe contar queJeremy tinha aparecido 
 sua procura. Isso no asurpreendera. Apesar de ter calculado que ele iriase perguntar sobre o que tinha feito de errado oupor que ela tinha ido embora, sabia que 
ele iriasuperar tudo aquilo rapidamente. Jeremy era umadaquelas pessoas abenoadas, dotadas de uma 
grande confiana em tudo o que fazia, que ia 
sempre para a frente sem um arrependimento esem olhar para trs.
Avery tambm era assim, e ainda hoje se 
lembrava de como havia se sentido ferida por 
causa de seu sentimento de poder e pela 
indiferena  sua dor. Olhando em perspectiva, 
sabia que devia ter considerado os desvios de 

#
carter como desvios, mas naquela poca ela 
simplesmente no viu os sinais de aviso: o modocomo seu olhar se demorava um pouco demaisquando olhava para outras mulheres, ou o jeitoexagerado como apertava as 
mulheres ao abralas, 
mesmo jurando que eram apenas amigas. Nocomeo, ela queria acreditar nele quando disseraque tinha sido infiel apenas uma vez, mas pedaosde conversas esquecidas 
acabaram fazendo com 
que algumas lembranas viessem  tona: uma 
amiga da faculdade h muito tempo havia 
confessado que tinha ouvido boatos sobre Avery euma colega do grmio; uma de suas colegas detrabalho mencionara por acaso algumas de suasmuitas faltas ao trabalho. 
Ela odiava pensar em simesma como uma pessoa ingnua, mas tinha sido 
exatamente isso, e ainda mais do quedesapontada com ele, h muito tempo havia percebido 
que ficara desapontada consigo mesma. 
Dissera a si mesma que iria superar, que iria 
encontrar algum melhor... algum como o sr. 
Renascena, que provou de uma vez por todas queela no sabia julgar os homens. Como tambm nosabia, pelo visto, conservar um.
No era fcil admitir isso, e houve ocasies em 
que ficou pensando se teria feito alguma coisa 
para afastar aqueles homens. Est bem, talvez no

o sr. Renascena, j que no se poderia chamar derelacionamento seu breve romance, mas e quanto 
a Avery? Ela o amava e acreditava que ele a 
amava. Claro, seria fcil dizer que Avery era 
desonesto e que a culpa pelo fim de seu 
relacionamento era toda dele; mas o certo  que 
#
ele devia estar sentindo que havia alguma coisaerrada em seu relacionamento. Que havia algumacoisa errada com ela. Mas o qu? Teria sido muito 
exigente? Muito chata? Ser que ele estava 
insatisfeito na cama? Por que ele no tinha vindoatrs dela, pedindo perdo? Essas eram as 
perguntas que ela nunca tinha conseguido 
responder. Seus amigos,  claro, lhe garantiramque no sabia o que estava falando, e Dris tinhadito a mesma coisa. Mesmo assim, para ela no 
havia ficado totalmente claro o que tinha realmente 
acontecido. Afinal, em todas as histrias 
havia sempre dois lados, e ainda hoje, s vezes,
ela se pegava fantasiando um telefonema para 
perguntar a ele se havia alguma coisa que 
pudesse ter feito de outra maneira.
Como lhe tinha dito uma de suas amigas, era 
tpico das mulheres se preocuparem com essas 
coisas. Os homens pareciam imunes a esse tipo deinsegurana. Mesmo que no fossem, aprendiam adisfarar seus sentimentos ou ento conseguiamenterr-los to profundamente 
que no ficavam 
incomodados. Geralmente, ela tentava fazer a 
mesma coisa e, quase sempre, funcionava. 
Geralmente. 
 distncia, com o sol sumindo nas guas de 
Pamlico Sound, a cidade de Buxton, com suas 
casas branquinhas de teto chanfrado, parecia umcarto postal. Ela estava olhando fixamente para ofarol, e, atendendo a seus desejos, um pequenobando de cavalos veio 
pastar na vegetao que seespalhava naquele trecho. Devia haver uns doze 
marrons e castanhos, principalmente  e seu plo 

#
era encrespado e irregular, bem volumoso para 
enfrentar o inverno. Dois potros se juntaram nocentro, abanando os rabos em sinal de unio. 
Lexie se deteve para observ-los, enfiando as 
mos no bolso da jaqueta. Estava ficando frio 
agora que a noite se aproximava, e ela conseguiasentir o vento cortante no nariz e no rosto. Mas o 
ar era revigorante, e sentiu que gostaria de ficarmais apesar do cansao. Tinha sido um longo dia,
na verdade muito longo.
Contra sua vontade, ficou imaginando o que 
Jeremy estaria fazendo. Estaria se preparando 
para filmar novamente? Ou pensando onde iria 
jantar? Fazendo as malas? E por que seus 
pensamentos insistiam em se voltar para ele?
Ela suspirou, j sabendo a resposta. Por mais quequisesse ficar vendo os cavalos, eles a lembravamde que estava sozinha. Por mais que se 
considerasse independente, por mais que tentasseminimizar os comentrios constantes de Dris, no 
conseguia evitar o desejo de compartilhar, de 
dividir sua intimidade. Nem precisava ser 
casamento; s vezes, tudo o que queria era 
experimentar aquela ansiedade que antecedia achegada da noite de sexta ou do sbado. Sentiavontade de passar a manh deitada na cama comalgum de quem gostasse, 
e por mais improvvelque pudesse parecer a idia, era Jeremy quem elainsistia em imaginar a seu lado.
Lexie balanou a cabea, esforando-se paraafastar esse pensamento. Ao vir para c, tinha aesperana de conseguir encontrar algum descansopara sua mente, mas ao 
ficar ao lado do farol e ver 

#
os cavalos pastando, ela sentiu o mundo desabarsobre ela. Estava com trinta e um anos, sozinha e 
vivendo em um lugar sem perspectivas. Seu av eseus pais eram apenas lembranas, o estado desade de Dris era fonte de constante preocupao, 
e o nico homem que chegara a considerarinteressante nos ltimos anos, mesmo que 
remotamente, j teria ido embora para sempre 
quando voltasse para casa.
Foi a que ela comeou a chorar, e durante umbom tempo encontrou uma dificuldade enorme deparar. Mas quando estava finalmente comeando ase controlar, ela viu que 
algum se aproximava, etudo o que conseguiu fazer foi ficar com o olharparado ao perceber quem era. 

Captulo
QUATORZE 


Lexie piscou, para ter certeza de que o que estavavendo era real. No poderia ser ele, porque ele 
no poderia estar ali. A idia toda era to 
estranha, to inesperada, que ela se sentiu comose estivesse vendo a cena atravs dos olhos de 
outra pessoa.
Jeremy sorriu e tirou a mochila das costas.  Sabede uma coisa, voc realmente no devia ficar 
encarando desse jeito  ele disse.  Os homens 
gostam de mulheres que sabem ser sutis.
Lexie continuou a olhar para ele.  Voc!  ela 
respondeu. 

 Eu!  ele concordou com um aceno. 
#
 Voc... aqui. 
 Eu estou aqui  ele concordou novamente.
Ela apertou os olhos para ver melhor na pouca luz,
e ocorreu a Jeremy que ela era ainda mais bonitado que se lembrava. 
 O que  que voc...?  ela parou, tentando 
entender por que ele havia aparecido.  Quer 
dizer, como voc...? 
  uma longa histria  ele admitiu. Como ela 
no fizesse qualquer movimento em sua direo,
ele apontou para o farol.  E este  o farol onde 
seus pais se casaram? 
 Voc lembra dessa histria? 
 Eu me lembro de tudo  ele respondeu, 
batendo com o dedo na tmpora.  Pequenas 
clulas cinzas, essas coisas. Onde  que eles se 
casaram exatamente? 
Ele falava de maneira casual, como se fosse a 
conversa mais informal deste mundo, o que s 
fazia as coisas parecerem mais surrealistas paraela. 
 Ali  ela disse, apontando para o lugar.  No 
lado do oceano, prximo da linha da gua. 
 Deve ter sido lindo  ele disse, olhando 
naquela direo.  Todo este lugar  lindo. D praentender porque voc gosta tanto daqui.
Em vez de responder, Lexie suspirouprofundamente, tentando acalmar o turbilho deemoes.  O que est fazendo aqui, Jeremy?
Ele ficou em silncio por um minuto, antes de 
responder.  Eu no tinha certeza de que voc iriavoltar  ele falou.  E percebi que se quisesse v
#
la novamente, o melhor a fazer era vir at onde 
voc estava. 

 Mas, por qu?
Jeremy continuou olhando fixamente para o farol.
 Acho que eu no tinha outra alternativa. 
 No tenho certeza do que isso quer dizer  ela
disse. 
Jeremy ficou estudando seus ps, depois ergueu os
olhos e sorriu, como se estivesse pedindo 
desculpas.  Honestamente, tambm passei 
quase o dia inteiro tentando entender. 
Parados perto do farol, eles viram o sol se pr nohorizonte, tingindo o cu de um cinza ameaador.
A brisa, fria e mida, roava levemente a superfcie 
da areia, formando uma espuma na beirada gua.
Mais ao longe, uma figura vestida com um casacoescuro e pesado estava dando comida s gaivotas,
jogando cascas de po no ar. Enquanto o 
observava, Lexie sentia que, aos poucos, o choqueque sua chegada lhe causara se desfazia. Parte 
dela queria ficar zangada por ele ter ignorado seudesejo de ficar sozinha, mas outra parte, a maiorparte, tinha adorado que ele tivesse vindo atrsdela. Avery jamais 
havia se preocupado em ir 
atrs dela, nem o sr. Renascena. Nem mesmo 
Rodney jamais pensara em ir at ali; e, at algunsminutos atrs, ela teria cado na gargalhada se algum 
simplesmente sugerisse que Jeremy fariauma coisa dessas. Mas ela estava comeando a se 
dar conta de que Jeremy era diferente de todas as 
pessoas que j havia conhecido, e de que no 

#
deveria se surpreender com nada do que ele 
fizesse. 

 distncia, os cavalos comearam a se afastar, 
mordiscando aqui e ali enquanto desapareciam naduna. A cerrao marinha estava se aproximando,
fundindo o cu e o mar. Andorinhas-do-mar 
cobriram a areia na beira da gua, com suas 
pernas finas e compridas movimentando-se rapidamente, 
enquanto procuravam pequenos 
crustceos. 
No silncio, Jeremy juntou as mos, soprando paraaquec-las e aliviar a dor.  Est zangada por euter vindo?  ele perguntou finalmente. 

 No  ela admitiu.  Surpresa, mas no 
zangada.
Ele sorriu, e ela devolveu o sorriso de um jeito
muito pessoal. 
 Como foi que chegou aqui?  ela perguntou.
Por cima do ombro, ele fez um gesto em direo a
Buxton.  Consegui uma carona com alguns
pescadores que vinham pra c  ele disse.  Eles
me deixaram na marina. 
 Eles lhe deram uma carona sem mais nem 
menos. 
 Sem mais nem menos. 
 Voc teve sorte. A maioria dos pescadores  
bastante rude. 
 Voc pode ter razo, mas pessoas so sempre 
pessoas  ele disse.  Posso no ser expert em 
psicologia, mas acho que qualquer pessoa  at 
mesmo as estranhas  conseguem sentir a 
urgncia de um pedido, e geralmente a maioria 
#
das pessoas acaba fazendo o certo.  Ele se 
endireitou, limpando a garganta.  Mas quandoisso no funcionou, eu lhes ofereci dinheiro. 
Ela achou graa nessa confisso. 

 Deixe-me adivinhar  ela falou.  Eles te 
limparam, no  mesmo?
Ele encolheu os ombros, envergonhado.  Acho 
que isso depende da perspectiva. Realmente foi 
um bocado de dinheiro para uma carona de barco. 
 Com certeza.  uma viagem e tanto. S o 
combustvel j teria ficado bem caro. Alm disso,
tem o desgaste do barco... 
 Eles mencionaram isso. 
 E, naturalmente, o tempo deles e o fato de queamanh teriam de trabalhar cedo, antes do 
amanhecer. 
 Falaram disso tambm. 
Ao longe, os ltimos cavalos desapareceram nasdunas.  Mas voc veio assim mesmo. 
Ele acenou com a cabea, enquanto ela se 
divertia.  Mas eles me fizeram entender que erauma viagem s de ida. Disseram que no iam esperar, 
ento eu acho que fiquei preso aqui.
Ela ergueu uma sobrancelha.  Ah, verdade? E 
como pretende voltar?
Ele exibiu um sorriso malicioso.  Bem, acontece 
que eu conheo algum que veio pra c, e estavapensando em usar meu charme irresistvel paraconvenc-la a me dar uma carona para voltar pra 
casa. 
 E se eu no estiver pensando em voltar logo?
Ou se eu lhe dissesse que est por sua prpriaconta? 
#
 Ainda no tinha pensado nessa parte. 
 E onde pretendia ficar enquanto estivesse poraqui? 
 Tambm no tinha pensado nessa parte, ainda. 
 Pelo menos est sendo honesto  ela disse, 
sorrindo.  Mas me diga uma coisa, o que faria seeu no estivesse aqui? 
 Para onde mais voc poderia ter ido?
Ela olhou para longe, saboreando o fato de ele terse lembrado dessas coisas. Na distncia, viu as 
luzes de uma traineira que saa para a pesca decamares, e ela se movimentava to 
vagarosamente que parecia parada. 
 Est com fome?  ela perguntou. 
 Morrendo. No comi nada o dia inteiro. 
 Gostaria de jantar? 
 Voc conhece algum lugar bacana? 
 Estou pensando em um lugar bastante 
interessante. 
 Esse lugar aceita carto de crdito? Usei todo omeu dinheiro para chegar at aqui.
Tenho certeza  ela falou - de que vamos 
conseguir dar um jeito nisso.
Afastando-se do farol, fizeram o caminho de volta 
pela praia, andando pela areia compacta prximada gua. Havia entre eles um espao que nenhumdos dois parecia disposto a atravessar. Ao 
contrrio, com o nariz de ambos ficando vermelho 
por causa do frio, caminhavam firmemente, comose estivessem sendo puxados para o lugar em quedeveriam estar. 
No silncio, Jeremy refez mentalmente sua viagemat ali, engolindo um sentimento de culpa em 
#
relao a Nate e a Alvin. Ele tinha perdido a 
conference call  no tinha conseguido nenhumsinal no telefone enquanto atravessava o PamlicoSound  e calculou que talvez conseguisse 
telefonar assim que chegasse em terra firme, 
embora no estivesse muito ansioso por isso. 
Nate, ele imaginou, devia ter trabalhado em ritmoacelerado durante horas e devia ter ficado 
esperando pelo seu telefonema, por isso agora 
estaria alterado; Jeremy pensou em sugerir um 
encontro com os produtores na semana seguinte, 
com as imagens e as linhas gerais da matria, 
idia que ele imaginara ser a questo central dotelefonema, de qualquer forma. Se isso no fossesuficiente para acalm-lo, se o fato de ter perdidoum simples telefonema 
pudesse pr um fim emsua carreira, antes de ela ter comeado, ento ele 
no tinha muita certeza de que queria trabalhar nateleviso. 
E Alvin... bem, com ele seria mais fcil. No havia 
como voltar para Boone Creek e encontrar Alvinnaquela noite  Jeremy compreendeu isso na horaem que desceu do barco , mas Alvin tinha um 
celular, e ele poderia lhe explicar o que estavaacontecendo. Alvin no ficaria muito feliz por terde trabalhar sozinho a noite inteira, mas no dia 
seguinte, estaria recuperado. Alvin era uma 
daquelas pessoas raras que no deixavam que 
nada as incomodasse por mais de um dia.
Ainda assim, sendo honesto consigo mesmo, 
Jeremy admitiu que no se importava com nadadaquilo agora. Ao contrrio, tudo o que pareciaimportar era que estava caminhando ao lado de 

#
Lexie numa praia tranqila no meio do nada, eenquanto se arrastavam contra a brisa salgada,
ela havia enganchado tranqilamente seu brao 
no dele. 

Lexie subiu na frente os degraus de madeira 
empenada do velho chal e pendurou sua jaqueta 
no cabide que ficava ao lado da porta. Jeremy 
tambm pendurou a sua, junto com a mochila. 
Enquanto ela caminhava  sua frente pela sala,
Jeremy a observava, pensando de novo no quantoela era bonita. 

 Voc gosta de macarro?  ela perguntou, 
interrompendo seus pensamentos. 
 Est falando srio? Eu cresci comendo 
macarro. Acontece que minha me  italiana. 
 timo  ela disse.  Porque era isso que euestava pensando em fazer. 
 Vamos comer aqui? 
 Acho que seremos obrigados  ela falou, por 
cima do ombro.  Voc est sem dinheiro, 
lembra? 
A cozinha era pequena, num tom de amarelo 
desbotado, com o papel de parede florido soltandonos cantos, armrios gastos e um pequeno conjunto 
de mesa e cadeiras pintadas sob a janela.
Sobre o tampo de um armrio estavam as 
compras que ela havia trazido. Mexendo no 
primeiro pacote, Lexie tirou uma caixa de cerealmatinal e um po de frma. Do lugar em queestava, perto da pia, Jeremy reparou em sua pele,
quando ela ficou na ponta dos ps para colocar ascoisas no armrio. 
#
 Precisa de ajuda?  ele perguntou. 
 No, eu consegui, obrigada  ela respondeu, 
endireitando-se. Depois de ajeitar a saia, ela 
alcanou o outro pacote e colocou duas cebolas delado, junto com duas latas grandes de tomates 
San Marzano.  Mas enquanto estou fazendo isto,
voc quer beber alguma coisa? Tem um pacotecom seis garrafinhas de cerveja na geladeira, seestiver interessado. 
Ele arregalou os olhos, simulando um choque.  
Voc tem cerveja? Achei que voc no fosse debeber muito. 
 E no bebo. 
 Mas, para algum que no bebe, seis garrafas
fazem um belo estrago.  Ele sacudiu a cabea, 
antes de continuar.  Se eu no a conhecesse 
melhor, poderia achar que voc estava pensando
em cair na farra este fim de semana. 
Ela disparou um olhar fulminante em sua direo,
mas, como no dia anterior, tinha um ar divertido.
  mais do que suficiente para eu passar o ms,
muitssimo obrigada. Ento, quer tomar uma ou 
no? 
Ele sorriu, aliviado com essa disputa familiar.  Eu
adoraria, obrigado. 
 Importa-se em pegar voc mesmo? Preciso 
cuidar do molho. 
Jeremy caminhou at a geladeira e tirou duas 
garrafas de Coors Light do pacote. Tirou a tampa
de uma e depois da outra, que colocou diante 
dela. Quando ela deu uma olhada para a garrafa,
ele sacudiu os ombros.  Detesto beber sozinho  
ele explicou. 
#
Ele ergueu a garrafa para fazer um brinde e elatambm ergueu a sua. Eles bateram as garrafas 
sem dizer uma palavra. Inclinando-se sobre a 
bancada ao lado dela, ele cruzou uma perna sobre 
a outra.  Se quer saber, sou muito bom parapicar coisas, caso precise de ajuda. 

 Vou procurar me lembrar  ela falou.
Ele sorriu.  H quanto tempo sua famlia  donadeste lugar? 
 Meus avs o compraram logo depois da II 
Grande Guerra. Naquela poca, no havia sequeruma estrada na ilha. Voc tinha de vir dirigindopela areia at chegar aqui. Ali na sala h algumasfotos do lugar naquela 
poca. 
 Se importaria se eu desse uma olhada? 
 Fique  vontade. Ainda estou preparando as 
coisas. H um banheiro no corredor, se quiser selavar antes do jantar. No quarto de hspedes,  
direita. 
Jeremy foi para a sala e deu uma olhada nas fotos 
que mostravam a vida rstica na praia, ento 
reparou que a mala de Lexie estava perto do sof.
Depois de pensar por uns instantes, ele pegou amala e foi at o corredor.  esquerda, ele viu umquarto bem ventilado, com uma cama grande deps altos, coberta por 
uma colcha de retalhos commotivos de conchas. As paredes eram decoradascom mais fotos mostrando a paisagem de OuterBanks. Presumindo que este fosse seu quarto, elecolocou 
a mala no lado de dentro, junto  porta.
Depois, ele entrou no quarto que ficava no lado 
oposto do corredor. Decoradas com motivos 
nuticos, as cortinas proporcionavam um contraste 
#
agradvel com o guarda-roupa e criados-mudos demadeira. Ao tirar os sapatos e meias ao p dacama, ele ficou imaginando como seria dormir ali,
sabendo que Lexie estaria sozinha do outro ladodo corredor. 
Junto  pia do banheiro, deu uma olhada no 
espelho e, com as mos, fez uma tentativa paradar um jeito nos cabelos desalinhados. Sua pele 
estava coberta por uma fina camada de sal e, 
depois de lavar as mos, tambm jogou um poucode gua no rosto. Sentindo-se um pouco melhor,
ele voltou para a cozinha a tempo de ouvir as 
melanclicas notas de Yesterday, dos Beatles, quevinham de um pequeno rdio colocado no peitorilda janela. 

 Ainda est precisando de ajuda?  ele 
perguntou. Ao lado dela, ele viu uma saladeira 
mdia; dentro havia pequenos pedaos de tomatee azeitonas. 
Enquanto lavava a alface, Lexie apontou com acabea na direo das cebolas.  Estou quaseacabando a salada, mas voc se importa de descascar 
as cebolas? 
 Claro que no. Quer que eu corte tambm? 
 No  preciso, pode deixar.  s descascar. Afaca est naquela gaveta.
Jeremy pegou uma faca de cozinha e comeou adescascar as cebolas. Durante algum tempo elestrabalharam sem falar, apenas ouvindo msica. 
Quando terminou de lavar a alface e a colocou de 
lado, Lexie se movimentou, procurando ignorar ofato de que estavam muito prximos. Mas, com ocanto do olho, no conseguiu deixar de admirar o 
#
charme natural de Jeremy, o formato de seus 
quadris e pernas, os ombros largos, o formato do 
rosto. 
Jeremy ergueu uma cebola descascada, 
completamente alheio aos pensamentos dela.  
Assim? 


 Exatamente  ela respondeu. 
 Tem certeza de que no quer que eu corte? 
 Tenho. Se fizer isso, vai arruinar o molho e eu 
jamais poderei perdo-lo. 
 Todo mundo corta as cebolas. Minha me 
italiana corta as cebolas. 
 Eu no. 
 Ento voc pretende colocar estas cebolas 
grandes e redondas dentro do molho, inteiras? 
 No. Primeiro vou cort-las na metade. 
 Posso fazer isso, pelo menos? 
 No, obrigada. Eu detestaria ter de colocar voc
pra fora  ela sorriu.  Alm disso, sou eu quem
est cozinhando, lembra? Voc s tem de olhar e 
aprender. Neste momento, pense em voc mesmo
como se fosse um... aprendiz.
Ele olhou para ela. Desde que tinham entrado na 
casa, o tom meio avermelhado do rosto, 
provocado pelo frio, havia desaparecido, dando lugar 
ao brilho natural de sua pele. 
 Aprendiz?
Ela deu de ombros.  O que  que eu posso dizer?
Sua me pode ser italiana, mas eu fui criada por 
uma av que experimentou todas as receitas 
existentes neste mundo. 
 E isso faz de voc uma especialista? 
#
 No, mas Dris se tornou uma, e durante muito 
tempo eu fui a aprendiz. Eu aprendi por osmose, eagora  a sua vez.
Ele pegou a outra cebola.  Ento, me diga o queh de to especial na sua receita? Quer dizer, almde ter cebolas do tamanho de bolas de tnis. 
Ela pegou a cebola descascada e a cortou no meio.
 Bem, j que sua me era italiana, tenho certezade que j ouviu falar dos tomates San Marzano. 
  claro  ele disse.  So tomates. De San 
Marzano. 
 Ha, ha  ela gracejou.  Na verdade, so 
tomates mais doces e saborosos, especialmentepara molhos. Agora, observe e aprenda.
Ela tirou uma panela do armrio e a colocou delado, ento abriu o gs e acendeu a boca do fogo.
A chama azul ganhou vida, e ela colocou a panelavazia em cima. 
 Estou impressionado  ele falou, terminando asegunda cebola e colocando-a do lado. Ento, 
pegou sua cerveja e inclinou-se novamente sobre 
a bancada.  Voc devia ter um programa de 
culinria s seu na TV. 
Ignorando o comentrio, ela virou duas latas detomates na panela, depois acrescentou uma barrainteira de manteiga. Jeremy espiou por cima deseu ombro, vendo a manteiga 
derreter. 
 Parece saudvel  ele disse.  Meu mdico 
vive me dizendo que estou precisando de mais 
colesterol na minha dieta. 
 Voc sabia que tem uma tendncia a ser 
sarcstico? 
#
 J ouvi falar  ele disse, erguendo sua garrafa.
 Mas, obrigado por ter percebido. 
 Voc j terminou a outra cebola? 
 Sou o aprendiz, no sou?  ele falou, 
passando-lhe a cebola.
Ela tambm cortou essa outra, antes de 
acrescentar as quatro metades ao molho. 
Mexendo um pouco com uma longa colher de 
madeira, ela deixou que o molho comeasse a 
ferver e depois diminuiu o fogo. 
 Est bem, ento  ela falou, satisfeita, 
voltando para a pia , por enquanto  isso. Ficar
pronto em uma hora e meia.
Enquanto ela lavava as mos, Jeremy espiou a 
panela do molho, franzindo a testa.   isso? Sem
alho? Sem sal e pimenta? Ou lingia? Almndegas?
Ela sacudiu a cabea.  Apenas trs ingredientes.
Depois cobrimos o linguine com esse molho e por
cima colocamos queijo parmeso ralado na hora. 
 Isso no  muito italiano. 
 Para falar a verdade,  sim.  a maneira como 
fazem em San Marzano h sculos. A propsito,
isso fica na Itlia.  Ela fechou a torneira, sacudiu 
as mos sobre a pia e secou-as com um pano de 
prato.  Mas j que temos algum tempo, vou me
arrumar um pouco antes do jantar  ela disse.  
O que significa que vai ter de ficar sozinho durante
algum tempo. 
 No se preocupe comigo. Vou pensar em algo
pra fazer. 
 Se quiser, pode tomar um banho  ela disse. 
Posso lhe trazer uma toalha. 
#
Como ainda sentia o sal no pescoo e nos braos,
ele no precisou pensar muito para aceitar.  
Obrigado. Seria timo. 

 Espere s um minuto que eu arrumo tudo pravoc, est bem? 
Ela sorriu e pegou sua cerveja ao passar por ele,
sentindo os olhos dele em seus quadris. Ficou 
pensando se ele estaria se sentindo to 
constrangido quanto ela.
No fim do corredor, ela abriu a porta de um 
armrio, pegou algumas toalhas e colocou-as nacama dele. Embaixo da pia do banheiro, no quartode hspedes, havia vrios frascos de xampu e 
sabonete. Ela pegou um sabonete novo e deixoutudo arrumado. Enquanto fazia isso, vislumbrou 
sua imagem no espelho, ao mesmo tempo em queteve uma rpida viso de Jeremy enrolado numatoalha, saindo do chuveiro. Essa imagem causou-
lhe um certo tremor e ela respirou profundamente,
sentindo-se como se tivesse voltado  
adolescncia. 
 Al?  ela o ouviu chamar.  Onde  que vocest? 
 Estou no banheiro  ela respondeu, divertindo-
se com a calma que conseguira transmitir na voz.
 Apenas verificando se est tudo aqui.
Ele apareceu atrs dela.  Por acaso voc no 
tem uma gilete perdida em alguma dessas 
gavetas, tem? 
 No, sinto muito. Posso procurar no meu 
banheiro, tambm, mas... 
#
 No tem importncia  ele disse, passando a 
mo pela barba por fazer.  Vou usar um visual 
meio relaxado esta noite. 
Relaxado seria perfeito, ela pensou, sentindo seu 
rosto corar. Desviando dele para que no 
percebesse seu embarao, ela mostrou os frascosde xampu.  Use o que quiser  ela falou.  E 
no se esquea de que a gua quente demora umpouco para sair, por isso tenha pacincia.
 Pode deixar  ele respondeu.  Mas, vou ter delhe pedir para me deixar usar seu telefone. Precisofazer alguns telefonemas.
Ela assentiu com a cabea.  O telefone fica na 
cozinha. 
Passando por ele de novo, ela voltou a sentir seuolhar, embora no tivesse se voltado para conferir.
Ao contrrio, foi direto para seu quarto, fechou a 
porta, e ficou ali parada, encostada na porta,
envergonhada por estar se sentindo to boba. Nohavia acontecido nada, e no iria acontecer nada, 
ela disse a si mesma novamente. Trancou a porta, 
na esperana de que isso fosse suficiente paraimpedir que seus pensamentos escapassem dali. Efuncionou, pelo menos por alguns instantes, atperceber que ele havia 
trazido sua mala para o 
quarto.
Ao pensar que ele havia estado ali alguns minutosantes, sentiu crescer dentro dela uma expectativaproibida e, embora desejasse esvaziar completamente 
sua mente, percebeu ento queprecisava admitir que estivera mentindo para simesma todo aquele tempo. 
#
Quando Jeremy voltou para a cozinha, depois deter tomado banho, conseguiu sentir o aroma que apanela do molho exalava, borbulhando em cima dofogo. Ele terminou 
sua cerveja, encontrou a latade lixo embaixo da pia, para jogar fora a garrafavazia, e depois foi pegar outra na geladeira. Na 
prateleira de baixo, viu um pedao de queijoparmeso fresco e um vidro fechado de azeitonasAmfiso; ficou pensando em roubar uma, mas 
acabou desistindo. 
Encontrou o telefone e discou o nmero do 
escritrio de Nate, conseguindo completar a 
ligao imediatamente. Durante uns vinte 
segundos Jeremy precisou manter o aparelhoafastado da orelha para agentar as imprecaesdisparadas por Nate, mas quando ele se acalmou,
reagiu positivamente  sugesto de Jeremy, de 
fazer uma reunio na prxima semana. Jeremyencerrou o telefonema com a promessa de falarcom ele novamente na manh seguinte.
Alvin, por outro lado, ele no conseguiu localizar.
Depois de discar o nmero e ouvir a mensagem dacaixa postal, Jeremy esperou um minuto e tentoude novo, mas o resultado foi o mesmo. O relgioda cozinha mostrava 
que j eram quase seis horas,
e Jeremy calculou que Alvin devia estar em algum 
ponto da rodovia. Se tivesse sorte, conseguiria 
falar com ele antes que sasse  noite.
Sem ter mais o que fazer e Lexie ainda fora devista, Jeremy saiu pela porta de trs e foi para avaranda. A temperatura havia cado ainda mais. Ovento cada vez mais 
forte era frio e cortante, e 
apesar de no conseguir ver o oceano, as ondas 

#
batiam continuamente, o barulho ritmado embalando-
o at deix-lo num estado quase hipntico.
Antes que fosse tarde demais, ele voltou para asala escurecida. Espiando o corredor, viu uma 
fresta de luz sob a porta fechada do quarto deLexie. Sem saber o que fazer em seguida, ele 
acendeu um pequeno abajur perto da lareira. Comuma luz que mal dava para espalhar sombras pelasala, ele comeou a olhar os livros que estavamempilhados sobre a lareira 
at se lembrar de suamochila. Na pressa para chegar at ali, ainda notinha dado uma olhada no caderno de Dris, e 
depois de tir-lo da mochila, ele o levou consigopara a espreguiadeira. Ao ajeitar-se no assento,
sentiu a tenso de seus ombros diminuir pela 
primeira vez em muito tempo.
Isso, sim, ele pensou, era bom. No, melhor: eraassim que as coisas deviam ser sempre. 

Um pouco antes, ao ouvir Jeremy fechar a porta deseu quarto, Lexie tinha resolvido ir para perto dajanela e tomar um gole de cerveja, feliz por teralguma coisa para 
acalmar seus nervos.
Os dois haviam tido uma conversa superficial nacozinha, mantendo distncia enquanto as coisasse ajeitavam. Ela sabia que precisava sustentarsua determinao quando 
viera para c, mas aocolocar a cerveja de lado, compreendeu que noqueria conservar essa distncia. No mais.
Apesar de saber dos riscos, tudo o que dizia 
respeito a ele s a puxava para que ficasse maisperto  a surpresa por v-lo caminhando na praia 
em sua direo, seu sorriso fcil e seu cabelo 

#
desgrenhado, o olhar nervoso, de moleque , e,
naquele instante, ele era tanto o homem que elaconhecia quanto o que no conhecia. Embora notivesse admitido para si mesma ento, agoracompreendia que queria conhecer 
a parte que elehavia escondido, qualquer que fosse ela e para 
onde quer que pudesse levar.
Dois dias atrs, jamais teria imaginado que fossepossvel acontecer uma coisa dessas, 
especialmente com um homem que ela mal 
conhecia. Ela j havia se machucado antes, e 
agora percebia que havia reagido  dor 
recolhendo-se na segurana da solido. Mas umavida sem riscos no era uma vida pra valer, e se 
era preciso mudar, podia muito bem comear 
agora.
Depois de tomar banho, sentou-se na ponta da 
cama e abriu o zper do bolso de fora da mala paratirar um vidro de loo. Passou um pouco nas 
pernas e braos, espalhou-a pelo colo e pelabarriga, sentindo uma sensao de prazer na pelemacia. 
Ela no havia trazido nenhuma roupa especial quepudesse usar; na pressa para sair logo de manh, 
pegou as primeiras coisas que encontrou, e ao 
procurar na mala, acabou encontrando sua cala 
jeans favorita. Bastante gasta, estava rasgada nosjoelhos e a barra estava puda. Mas as inmeraslavagens haviam deixado o tecido fino e macio, eela sabia que isso 
acentuava suas formas. Sentiuum arrepio diante da certeza de que Jeremy iria 
notar. 

#
Vestiu uma camisa branca de manga comprida,
que ela no havia se preocupado em dobrar, eenrolou as mangas at os cotovelos. De p diantedo espelho, ela fechou os botes, parando um 
boto abaixo de onde pararia normalmente, 
revelando um leve vestgio do colo.
Secou o cabelo com o secador e penteou-o comuma escova. Quanto  maquilagem, fez o melhorque pde com o que tinha, aplicando um pouco de 
blush no rosto, delineador e batom. Sentiu falta de 
um perfume, mas no havia nada que pudesse 
fazer quanto a isso agora.
Quando ficou pronta, arrumou a camisa diante doespelho, para que ela parecesse passada, e gostouda imagem que viu. Sorrindo, tentou lembrar-se dequando fora a ltima 
vez em que se preocuparaem ter uma boa aparncia.
Jeremy estava sentado na cadeira, com os pspara o alto, quando ela entrou na sala. Ele ergueuos olhos para v-la, e por um instante pareceu-lhe 
que ele havia pensado em dizer algo, mas as 
palavras no saram. Em vez disso, ele 
simplesmente a encarou.
Incapaz de desviar os olhos de Lexie, ele 
subitamente entendeu por que havia sido to 
importante encontr-la novamente. Ele no tiveraescolha, pois j sabia que estava apaixonado porela. 

 Voc est... incrvel  ele sussurrou, 
finalmente. 
 Obrigada  ela disse, percebendo a emoogenuna em sua voz e regozijando-se pela maneira 
como a fez sentir-se. Os olhos dos dois se 
#
encontraram e sustentaram o olhar, e nesse 
instante ela compreendeu que a mensagem queele estava transmitindo era um reflexo da que estava 
enviando. 


Captulo
QUINZE 


Por um momento, nenhum dos dois pareceu capazde se mexer, at que Lexie suspirou 
profundamente e desviou o olhar. Embora a 
pulsao ainda estivesse alterada, ela ergueu 
ligeiramente a garrafa. 

 Acho que preciso tomar mais uma  ela falou, 
tentando mostrar um sorriso.  Voc tambm 
quer uma?
Jeremy limpou a garganta.  Eu j peguei. 
Obrigado. 
 Volto num minuto. Acho que tambm preciso
dar uma olhada no molho. 
Lexie caminhou na direo da cozinha com as 
pernas bambas e parou diante do fogo. A colher
de madeira deixou uma marca de molho de to
#
mate no balco, quando ela a pegou para mexer omolho, e por isso ela colocou-a de volta no mesmolugar quando terminou. Depois, ela abriu a 
geladeira, pegou outra cerveja e a colocou sobre abancada, junto com as azeitonas. Tentou abrir o 
vidro, porm, como suas mos estavam trmulas,
no conseguia ter a firmeza necessria. 

 Precisa de ajuda para fazer isso? Jeremy 
perguntou.
Ela ergueu os olhos, surpresa. Como no havia 
percebido sua aproximao, ficou pensando se 
seus sentimentos eram to bvios quanto 
imaginava. 
 Se voc no se importa  ela respondeu.
Jeremy tirou o vidro de azeitonas de sua mo. Elaficou observando os msculos vigorosos de seu 
brao enrijecerem quando ele forou a tampa paraabrir. Depois, olhando para a cerveja, ele pegou agarrafa, abriu-a e deu para ela.
Ele no a olhou nos olhos, tambm no parecia 
estar com vontade de dizer qualquer coisa. Na 
tranqilidade que pairava sobre o ambiente, ela oviu inclinar-se na bancada. A luz do teto estava 
acesa, mas sem a claridade que atravessava asjanelas no final da tarde, agora parecia mais suavedo que quando havia comeado a cozinhar.
Lexie tomou um grande gole de cerveja, 
saboreando o gosto, saboreando tudo daquelanoite: seu aspecto e suas sensaes, assim como omodo como ele a olhava fixamente. Estava perto obastante para alcan-lo 
e poderia at tocar emJeremy, e por um momento quase fez isso, masdecidiu se virar na direo do armrio da cozinha. 
#
Pegou uma lata de azeite e um vidro de acetobalsmico, e derramou um pouco de cada numapequena cumbuca, junto com sal e pimenta. 

 O cheiro est delicioso  ele disse. 
Depois que terminou o molho para a salada, ela 
pegou as azeitonas e colocou-as em outra 
cumbuca pequena.  Ainda temos uma hora antesdo jantar  ela disse. Quando falava, sentia-se 
mais segura.  Como eu no planejava ter 
companhia, isso vai ter de servir como aperitivo.
Se estivssemos no vero, eu diria paraesperarmos na varanda, l fora. Mas tentei ficar lesta tarde e est um gelo. E devo avis-lo de queas cadeiras da cozinha 
no so muito confortveis. 
 E isso quer dizer?... 
 Voc se importa de esperar sentado de novo na
sala? 
Ele foi na frente, parou perto da espreguiadeira
para pegar o caderno de Dris, e ficou olhando 
enquanto Lexie ocupava um lugar no sof. Ela 
colocou as azeitonas sobre a mesa de centro, e 
ento se mexeu no lugar para ficar confortvel.
Quando se sentou ao seu lado, ele sentiu o aroma 
doce e floral do xampu que ela havia usado. Da
cozinha, vinha o barulho muito baixo do rdio. 
 Estou vendo que voc est com o caderno de
Dris. 
Ele concordou com a cabea.  Ela me emprestou. 
 E...? 
 S agora h pouco consegui dar uma olhada 
nas primeiras pginas. Mas tem muito mais 
detalhes do que eu havia imaginado. 
#
 Agora voc acredita que ela adivinhou o sexode todos esses bebs? 
 No  ele respondeu.  Como eu disse, ela 
pode ter anotado apenas aqueles que acertou.
Lexie sorriu.  E a diferena na maneira como elafez todas as anotaes? s vezes usando caneta, 
s vezes um lpis, algumas vezes parece que elaestava com pressa, outras vezes parece ter feitocom muita calma. 
 Eu no estou dizendo que o caderno no parececonvincente. S estou dizendo que ela no pode 
adivinhar o sexo de bebs simplesmente segurando 
a mo de algum. 
 Por que voc acha que no pode. 
 No. Porque  impossvel. 
 Ser que voc no quer dizer estatisticamenteimprovvel? 
 No  ele falou.  Impossvel. 
 Tudo bem, sr. Ctico. Como est indo sua 
histria? 
Jeremy comeou a arranhar o rtulo de sua garrafa 
com o dedo.  Bem  ele disse.  Mas, se 
puder, ainda gostaria de dar uma olhada em 
alguns dos dirios que esto na biblioteca parafinalizar. Talvez encontre alguma coisa para tornara histria mais interessante. 
 Voc descobriu a causa? 
 Sim  ele disse.  Agora s tenho de provar.
Se tudo der certo, o tempo vai cooperar. 
 Vai sim. Deveremos ter neblina durante todo o 
fim de semana. Ouvi esta tarde no rdio. 
 timo. Mas a parte ruim  que a soluo podeno ser to engraada quanto a lenda. 
#
 Ento, voc acha que valeu a pena ter vindo
at aqui?
Ele assentiu com a cabea.  Sem dvida alguma 
 ele disse, com a voz tranqila.  Eu no teria 
perdido esta viagem por nada neste mundo.
Atenta ao tom da voz, ela sabia exatamente o que
ele estava querendo dizer, e virou-se para ele. 
Pousando o queixo sobre a mo, ela colocou uma 
perna no sof, apreciando aquela intimidade, o 
modo como ele a fazia sentir-se desejada. 
 Ento, o que est acontecendo?  ela 
perguntou, inclinando-se levemente para a frente.
 Voc pode me contar qual  a resposta?
A luminria que estava atrs dela lhe dava uma
aura de luz muito fraca, e seus olhos irradiavam 
um brilho violeta sob os clios pretos.
Eu prefiro lhe mostrar.
Ela sorriu.  Voc quer dizer, j que eu tenho de
levar voc de volta, de qualquer forma. Certo? 
 Certo. 
 E voc vai querer ir embora... 
 Amanh, se for possvel.  Ele sacudiu a cabea,
tentando recuperar o controle sobre seus 
sentimentos, pois no queria arruinar tudo, no 
queria forar nada, ao mesmo tempo em que nodesejava outra coisa seno tom-la em seus 
braos.  Preciso encontrar Alvin.  um amigo 
meu  um cameraman de Nova Iorque. Ele estvindo para fazer algumas imagens profissionais. 
 Ele est vindo para Boone Creek? 
 Pra falar a verdade,  provvel que ele estejachegando na cidade neste momento. 
 Agora? E voc no deveria estar l? 
#
 Com certeza  ele admitiu. 
Ela pensou a respeito do que ele havia dito, 
sensibilizada por todo o esforo que ele fizera paraestar ali ainda hoje. 

 Tudo bem  ela falou.  Podemos pegar a balsaque sai logo de manhzinha. Podemos estar de 
volta  cidade por volta das dez. 
 Obrigado. 
 E vocs pretendem filmar amanh  noite?
Ele fez que sim.  Deixei um bilhete para Alvin,
sugerindo que ele fosse at o cemitrio esta noite,
mas tambm precisamos filmar outros lugares. E
amanh vai ser um dia cheio, de qualquer forma.
Existem alguns fios soltos que preciso amarrar.
E quanto ao baile no celeiro? Pensei que 
tnhamos combinado que se voc resolvesse o 
mistrio eu iria danar com voc. 
Jeremy abaixou a cabea.  Se eu puder, vou 
resolver. Acredite. No h nada que eu queira 
mais. O silncio cobriu a sala. 
Quando  que voc vai voltar para Nova Iorque?
 ela perguntou finalmente.
Sbado  ele respondeu.  Tenho de estar em 
Nova Iorque para uma reunio na semana que 
vem. 
Seu corao encolheu diante daquelas palavras. 
Embora j soubesse que isso iria acontecer, 
aquelas palavras machucaram.  De volta  vida 
excitante, hein? 
Ele sacudiu a cabea.  A minha vida em Nova 
Iorque no  to glamourosa. Na maior parte, 
significa trabalho. Passo a maior parte do meu 
tempo pesquisando ou escrevendo, e essas 
#
atividades so solitrias. Pra falar a verdade, s 
vezes fico muito sozinho. 
Ela ergueu a sobrancelha.  No tente fazer com 
que eu sinta pena de voc, porque nessa eu nocaio. 
Ele a olhou de relance.  E se eu lhe falasse dos 
meus vizinhos horripilantes? Sentiria pena de 
mim? 
No. 
Ele riu.  Voc pode pensar o que quiser, mas euno moro em Nova Iorque porque  excitante. Vivoali porque minha famlia est l, porque  
confortvel. Porque, para mim,  meu lar. Assim 
como Boone Creek  o seu lar. 

 Pelo que vejo, voc e sua famlia so muito 
prximos. 
 Sim, ns somos  ele disse.  Ns nos reunimos 
quase todos os fins de semana na casa de mamee papai, no Queens, para esses jantares enormes.
Meu pai teve um ataque cardaco alguns anos 
atrs e ainda sente os efeitos, mas ele adora esses 
finais de semana. Parece um zoolgico de 
verdade: uma poro de crianas correndo paratodos os lados, mame cuidando da comida na 
cozinha, meus irmos com as esposas no quintalde trs.  claro que todos moram nas 
proximidades, por isso eles aparecem por l muitomais do que eu.
Ela bebeu mais um pouco, tentando imaginar acena.  Parece bacana. 
E . Mas, s vezes,  difcil. 
Ela olhou para ele.  Eu no entendo. 
#
Ele ficou em silncio, enquanto girava a garrafa namo.  s vezes, eu tambm no  ele disse. 
Talvez fosse o jeito dele falar, o fato  que noconseguiu fazer qualquer comentrio; no silncio,
ela o observou mais atentamente, esperando queele continuasse. 
Voc j teve algum sonho?  ele perguntou.  
Algo que voc quisesse demais e a, justamentequando achasse que estava prestes a alcanar e 
agarrar o que voc tanto queria, alguma coisa 
acontecesse e afastasse voc do seu sonho? 
Todo mundo tem sonhos que no se 
transformam em realidade  ela respondeu, a vozna defensiva. 
Os ombros dele desabaram.  . Acho que voc 
est certa. 

 Eu no sei se estou entendendo o que voc est
querendo dizer  ela falou. 
 H uma coisa que voc no sabe a meu respeito 
 ele disse, virando-se para olh-la de frente.  
Na verdade,  algo que jamais contei a qualquer 
pessoa.
Diante dessas palavras, ela sentiu uma tenso em 
seus ombros. Voc  casado  ela disse, 
endireitando as costas. Ele balanou a cabea.  
No. 
 Ento voc est saindo com algum em Nova
Iorque e  srio. 
 No, tambm no  isso. 
Como ele no falasse mais nada, ela pensou ter
visto uma sombra de dvida em seu rosto. 
Tudo bem  ela disse.  No  da minha conta, 
afinal. 
#
Ele balanou a cabea e forou um sorriso.  Voc 
chegou perto com o primeiro palpite  ele falou. 

 Eu fui casado. E me divorciei. 
Esperando coisa muito pior, ela quase caiu na 
risada de alvio, mas a expresso sombria de 
Jeremy a impediu.
Ela se chamava Maria. ramos como fogo e 
palha, mas ningum entendia o que ns vamosum no outro. Para alm da superfcie, entretanto,
compartilhvamos das mesmas crenas e valores 
a respeito de todas as coisas realmente 
importantes na vida. Inclusive a vontade de ter 
filhos. Ela queria quatro, e eu, cinco  ele parou, 
quando viu a expresso do rosto dela.  Eu sei 
que esse nmero de filhos  alto para os dias dehoje, mas era uma coisa que ns dois tnhamos em 
comum. Como eu, ela tambm viera de uma 
famlia grande  ele fez uma pausa.  Ns no 
soubemos de imediato que havia um problema. 
Mas depois de seis meses, ela ainda no tinha 
engravidado, e decidimos fazer alguns testes derotina. Os resultados revelaram que estava tudobem com ela, mas por algum motivo, comigo no.
No nos deram qualquer explicao, nenhuma 
resposta plausvel. Parecia ser apenas uma 
daquelas coisas que s vezes acontecem com as 
pessoas. Quando ela descobriu, decidiu que noqueria mais manter o casamento. E agora... querdizer, adoro minha famlia, gosto muito de ficarcom eles, mas, quando 
estou l, fico sempre melembrando da famlia que nunca poderei ter. Eu seique parece estranho, mas acho que voc teria de 
#
se colocar no meu lugar para entender o quantoeu queria ter filhos.
Quando ele terminou, Lexie apenas o olhou 
fixamente, esforando-se para entender o que eletinha acabado de lhe contar.  Sua mulher o 
deixou porque vocs descobriram que no 
poderiam ter filhos?  ela perguntou. 

 No imediatamente. Mas no final, sim. 
 E no havia nada que os mdicos pudessem 
fazer? 
No  ele parecia quase envergonhado.  Querdizer, eles no disseram que era absolutamenteimpossvel para mim ter um filho, mas deixaramclaro que era bastante provvel 
que isso jamais 
aconteceria. E isso foi suficiente para ela.
E quanto  adoo? Ou encontrar um doador?
Ou... 
Jeremy sacudiu a cabea.  Eu sei que  fcil 
pensar que ela foi insensvel, mas no foi bem 
assim  ele disse.  Voc teria de conhec-la 
para entender. Ela cresceu imaginando que um diaseria me. Afinal, suas irms estavam todas se 
tornando mes, e ela tambm teria sido me, se 
no fosse por mim  ele ergueu os olhos na 
direo do teto.  Durante muito tempo eu merecusei a acreditar nisso. Eu no queria pensar emmim como um homem defeituoso, mas essa era a 
verdade. E eu sei que pode parecer ridculo, mas,
depois disso, eu me senti um pouco menos 
homem. Como se eu no fosse suficientemente 
digno de ningum.
Ele deu de ombros, com sua voz ficando cada vez 
mais normal  medida que ele falava.  Sim, ns 
#
poderamos ter partido para a adoo; sim, 
poderamos ter encontrado um doador. Eu sugerique fizssemos tudo isso. Mas o corao dela noaceitava. Ela queria ficar grvida, queria vivenciar

o parto, e nem era preciso dizer que ela queriaviver tudo isso com seu marido. A partir da, ascoisas nunca mais foram as mesmas. Mas no era 
s ela. Eu tambm mudei. Eu me tornei uma 
pessoa melanclica... Passei a viajar ainda mais atrabalho... Eu no sei... talvez eu a tenha afastado. 
Lexie o observou durante algum tempo.  Por queest me contando tudo isso? 
Ele tomou um gole de sua cerveja e arranhou ortulo da garrafa de novo.  Talvez porque eu 
queira que voc saiba no que  que est se metendo 
ao se envolver com algum como eu.
Ao ouvir essas palavras, Lexie sentiu que corava.
Ela balanou a cabea e desviou o olhar. 
 No diga coisas se no sabe do que est falando. 
 O que a faz pensar que eu no sei do que estoufalando? 
L fora, o vento recomeou a soprar com fora, eela ouvia o som passando como um carrilho pertoda porta.
Porque no sabe. Porque no pode. Porque vocno  assim, e no tem nada a ver com o que vocacabou de me contar  ela disse.  Voc e eu... 
no somos parecidos, por mais que voc queira 
pensar que somos. Voc est l, eu estou aqui.
Voc tem uma grande famlia que costuma visitarcom freqncia, eu s tenho Dris, e ela precisade mim aqui, principalmente agora, por causa de 
sua sade. Voc gosta de cidades, eu prefiro 
#
pequenos vilarejos. Voc tem uma carreira queadora, e eu... bem, eu tenho a biblioteca e adoro 
aquilo tambm. Se um de ns dois for obrigado amudar, a abrir mo daquilo que escolhemos paranossas vidas...  ela fechou os olhos rapidamente.

 Sei que algumas pessoas conseguem fazer isso,
mas  um osso duro de roer quando se trata deconstruir um relacionamento. Voc mesmo disse 
que se apaixonou por Maria porque vocs tinhamos mesmos valores. Mas, no nosso caso, um dos 
dois teria de se sacrificar. E se eu no quero ter deme sacrificar, no acho que seja justo esperar quevoc se sacrifique tambm.
Ela baixou o olhar, e no silncio que se seguiu, erapossvel ouvir o tique-taque do relgio que ficavasobre a lareira. Seu rosto adorvel estava marcado 
pela tristeza, e Jeremy foi tomado subitamente 
pelo medo de perder qualquer chance de ficar comela. Estendendo o brao, ele virou o rosto dela 
com um dedo em sua direo. 
E se eu no achar que  um sacrifcio?  ele 
falou.  E se eu lhe disser que prefiro ficar comvoc a voltar para a vida que eu levava?
Fazendo um esforo para ignorar a eletricidade 
que sentiu quando ele a tocou, Lexie procurou 
manter sua voz firme. 
Ento eu lhe diria que foram maravilhosos os 
momentos que passamos nos ltimos dias. Que 
conhecer voc foi... bem, incrvel. E que, sim, eugostaria de acreditar que poderia dar certo. E queestou lisonjeada.
Mas voc no quer tentar fazer com que d 
certo. 
#
Lexie sacudiu a cabea.  Jeremy... eu ... 

 Tudo bem  ele disse.  Eu entendo. 
 No, voc no est entendendo  ela 
respondeu.  Porque voc ouviu o que eu disse,
mas no escutou direito. Eu quis dizer que  claro
que eu gostaria que as coisas entre ns dessem
certo. Voc  inteligente e gentil e charmoso...  
ela parou de falar, hesitante.  Tudo bem, talvez 
voc avance um pouco o sinal de vez em quando...
Apesar da tenso, ele no conseguiu evitar o 
sorriso. Ela continuou, escolhendo cuidadosamente 
as palavras. 
 O motivo porque estou falando tudo isso  que...
eu acho que esses dois dias foram incrveis, mas
h coisas que aconteceram no passado, e que 
deixaram feridas em mim tambm  ela disse. 
Brevemente, e com toda a calma, Lexie lhe contou 
sobre o sr. Renascena. Quando terminou, ela se 
sentia um pouco culpada.  Talvez por isso eu
esteja tentando ser prtica desta vez. No estou
dizendo que voc vai desaparecer como ele. Mas
voc afirmaria, com toda a honestidade, que ns
sentiramos a mesma coisa um em relao ao 
outro se tivssemos de ficar viajando para poder
passar um tempo juntos? 
 Sim  ele disse, a voz firme.  Afirmo. 
Ela pareceu quase triste com a resposta dele.  
Voc diz isso agora, mas e amanh? E daqui um
ms? 
L fora, o vento fazia um zumbido enquanto girava
ao redor do chal. A areia batia nas janelas, e as
cortinas balanavam com o ar que entrava pelas
velhas venezianas. 
#
Jeremy olhou fixamente para Lexie, percebendo 
mais uma vez o quanto a amava.
Lexie  ele disse, sentindo que sua boca estavaficando seca.  Eu... 
Sabendo o que ele ia dizer, ela ergueu a mo parainterromp-lo.  Por favor  ela disse.  No. 
Ainda no estou preparada para isso, o.k.! Por 
enquanto, vamos aproveitar o jantar. Podemos 
fazer isso?  Ela hesitou, antes de colocar 
delicadamente sua garrafa de cerveja sobre a 
mesa.   melhor eu dar uma olhada no molho e 
colocar o linguine para cozinhar.
Tomado por uma sensao de desalento, Jeremyviu-a levantar-se do sof. Fazendo uma parada naentrada da cozinha, ela se virou para olh-lo defrente. 
E s pra voc saber, eu acho que a atitude desua ex-mulher foi horrvel e ela no chega nem aosps da mulher que voc tentou fazer com que ela 
parecesse. Voc no deixa seu marido por umacoisa dessas, e o fato de voc ainda dizer coisas 
agradveis a respeito dela j mostra que ela  
quem agiu de maneira errada. Acredite  eu sei oque  preciso fazer para ser um bom pai. Ter filhossignifica tomar conta deles, cri-los, amar e darapoio, e nada 
disso tem qualquer coisa a ver com

o fato de terem sido concebidos numa noite num 
quarto ou com a experincia da gravidez.
Ela se virou de novo e entrou na cozinha, 
desaparecendo de vista. Ele ficou ouvindo Billie 
Holiday cantar Ill be seeing you no rdio. Sentindo 
um n na garganta, Jeremy se levantou para iratrs dela, sabendo que se ele no aproveitasse 
#
aquele momento, talvez nunca mais tivesse uma
chance. Lexie, ele compreendeu subitamente, 
havia sido o motivo por ele ter vindo para Boone
Creek; Lexie era a resposta que ele vinha 
procurando o tempo todo.
Ele se encostou no batente da porta da cozinha,
observando-a enquanto ela colocava outra panela
no fogo. 


 Quero agradecer por ter dito aquilo. 
 No tem de qu  ela respondeu, recusando-se 
a olh-lo nos olhos. Ele sabia que ela estava 
tentando se manter firme diante das mesmas 
emoes que ele estava sentindo, e admirou suapaixo e sua reserva. Ainda assim, deu um passoem sua direo, sabendo que precisava arriscar. 
 Voc me faria um favor?  ele perguntou.  J 
que talvez eu no possa amanh  noite  ele 
disse, estendendo o brao  voc se importaria dedanar comigo?
Aqui?  ela olhou em volta, atnita, o corao 
acelerado. Agora?
Sem dizer nem mais uma palavra, Jeremy se 
aproximou e pegou sua mo. Ele sorriu enquantolevava a mo de Lexie at sua boca, abaixando-a 
novamente depois de beijar seus dedos. Ento, 
com os olhos grudados nos olhos dela, ele a 
enlaou com o outro brao e puxou-a gentilmentecontra si. Acariciando suavemente a pele da mocom um dedo, ele sussurrou seu nome, e ela se 
abandonou para deixar que ele a guiasse.
A melodia suave conduzia seus passos em 
pequenos crculos pela cozinha, e apesar de se 
sentir um pouco desconcertada no comeo, ela 
#
finalmente se acalmou e se apoiou nele, deixando-
se envolver pelo calor de seu corpo. Ao sentir a 
respirao quente que aquecia seu pescoo e amo que roava suas costas, ela fechou os olhos ese aconchegou ainda mais, abandonando a cabeaem seu ombro, sentindo 
os ltimos laivos de determinao 
desaparecerem. Ento ela compreendeu 
que aquilo era tudo o que ela havia desejadodesde o incio, e na cozinha minscula eles acompanharam 
o ritmo da msica suave, cada um 
perdido no outro.
Alm das janelas, o movimento incessante das 
ondas que varriam a praia na direo das dunas. Ovento frio soprando sobre o chal, desaparecendona noite cada vez mais escura. O jantar fervendotranqilamente no 
fogo.
Quando ela finalmente ergueu a cabea paraencontrar seu olhar, ele a envolveu num abrao. 
Ele roou seus lbios nos dela uma vez, depois outra, 
antes de pression-los com fora. Apsafastar-se ligeiramente para se certificar de queela estava bem, ele a beijou novamente, e ela 
correspondeu ao beijo, deleitando-se em seus 
braos fortes. Ela sentiu a lngua dele na sua, aumidade intoxicante, e levou sua mo at o rosto 
dele, sentindo a barba por fazer. Ele respondeu a 
esse toque, beijando-a no rosto e no pescoo, 
roando a lngua quente em sua pele.
Ficaram ali na cozinha, beijando-se durante muitotempo, saboreando um ao outro sem pressa ouurgncia, at que Lexie finalmente se afastou. Eladesligou o fogo aceso 
no fogo e ento, pegando amo dele novamente, puxou-o at seu quarto. 

#
Fizeram amor lentamente. Enquanto se movia 
sobre ela, ele sussurrava o quanto a amava e 
soprava seu nome como se fizesse uma splica.
Suas mos no paravam um s segundo, como sequisesse provar para si mesmo que ela era real.
Eles ficaram na cama durante horas, fazendo amor 
e sorrindo calmamente, saboreando o toque um do 
outro. 
Horas depois, Lexie saiu da cama e se enfiou numroupo de banho. Jeremy vestiu sua cala jeans e 
foi encontr-la na cozinha. Eles terminaram de 
fazer o jantar e Lexie acendeu uma vela. Ele ficouolhando para ela atravs da pequena chama, 
maravilhado com o rubor de suas faces, enquantodevorava a refeio mais deliciosa que j haviaexperimentado. Por alguma razo, o ato de 
comerem juntos na cozinha, ele sem camisa e elacompletamente nua sob o roupo, parecia a coisamais ntima entre todas as coisas que haviam 
acontecido naquela noite.
Depois eles voltaram para a cama, e ele a puxou 
para bem perto, feliz por estar simplesmenteabraado a ela. Quando Lexie pegou no sono emseus braos, Jeremy observou-a enquanto dormia.
De vez em quanto ele tirava o cabelo de seus 
olhos, revivendo a noite, lembrando de todos os 
detalhes, e sabendo no fundo do corao que 
havia encontrado a mulher com quem queria 
passar o resto de sua vida. 

Pouco antes do amanhecer, Jeremy acordou e 
percebeu que Lexie no estava a seu lado. Sentou-
se na cama, apalpou as cobertas como que para 

#
se certificar, e ento pulou da cama e vestiu acala jeans. As roupas dela ainda estavam no 
cho, mas o roupo que ela usara durante o jantarhavia sumido. Ele fechou a cala e, tremendo um 
pouco de frio, atravessou o corredor com os braoscruzados. 
Ele a encontrou na espreguiadeira ao lado da 
lareira, uma xcara de leite na mesinha ao lado. 
Em seu colo, tinha o caderno de Dris, aberto 
quase no comeo, mas no estava olhando paraele. Em vez disso, seu olhar estava perdido na 
janela escura, olhando para o nada.
Ele deu um passo em sua direo, as tbuas docho rangendo sob seus ps, e ela despertou com

o barulho. Quando o viu, ela sorriu. 
Ol pra voc  ela falou.
Naquela luz plida, Jeremy sentiu que havia 
alguma coisa errada. Ele sentou no brao da 
cadeira, e passou o brao em torno dela. 
 Voc est bem?  ele murmurou. 
 Sim. Estou bem. 
 O que est fazendo? Ainda estamos no meio da
noite. 
Eu no conseguia mais dormir  ela disse.  
Alm disso, teremos de ficar prontos daqui a 
pouco para pegar a balsa.
Ele concordou com a cabea, apesar de no ter
ficado completamente satisfeito com a resposta. 
 Est zangada comigo? 
 No  ela respondeu. 
 Est arrependida pelo que aconteceu? 
#
 No, tambm no  isso  ela falou. Mas 
tambm no disse mais nada, e Jeremy a puxou
para perto, esforando-se para acreditar nela. 
 Esse caderno  muito interessante  ele disse, 
sem querer pression-la.  Espero poder passar
algum tempo com ele mais tarde.
Lexie sorriu.  J fazia algum tempo que eu no o
via. A presena dele aqui me traz algumas 
recordaes. 
Por exemplo?
Ela hesitou, ento apontou para a pgina que
estava aberta em seu colo.  Quando o leu, ontem 
 noite, voc reparou nesta anotao? 
 No  ele respondeu. 
 Leia  ela disse. 
Jeremy leu a anotao rapidamente; sob vrios 
aspectos, parecia idntica s outras. O primeiro
nome dos pais, a idade, em que fase da gravidez
estava a mulher. E o fato de que a mulher iria ter
uma menina. Quando terminou, olhou para ela. 
 Isto quer dizer alguma coisa para voc?  ela 
perguntou. 
 No  ele examinou o rosto dela.  Deveria? 
Lexie abaixou os olhos.  Essas informaes se 
referem aos meus pais  ela disse, a voz calma. 
Esta  a anotao que previu que eu seria uma
menina. 
Jeremy ergueu as sobrancelhas com curiosidade.
Era nisso que eu estava pensando  ela disse. 
 Ns pensamos que nos conhecemos, mas voc
nem sabia qual era o nome dos meus pais. E eu
no sei o nome dos seus. 
#
Jeremy sentiu que se formava um n em seu 
estmago.  E isso a preocupa? O fato de vocachar que ns no nos conhecemos muito bem?
No  ela falou.  O que me preocupa  queno sei se algum dia iremos nos conhecer.
Ento, com uma ternura que lhe causou uma dorno corao, ela passou os braos em volta dele.
Eles ficaram abraados um ao outro na cadeira 
durante muito tempo, desejando poder perpetuaraquele momento para sempre. 


CAPTULO 

DEZESSEIS 

-Ento, esse  o seu amigo, h?  Lexie 
perguntou.
Ela gesticulou discretamente para o interior da 
cela. Apesar de ter passado a vida inteira em 
Boone Creek, Lexie jamais havia tido o privilgiode visitar a cadeia municipal  at aquele dia.
Jeremy fez que sim com a cabea.  
Normalmente, ele  um pouco diferente  Jeremy 
sussurrou. 

#
Naquela manh, logo cedo, eles haviam arrumado 
suas malas e fechado o chal da praia, ambos 
relutando em sair. Mas quando chegaram em 
Swan Quarter, para pegar a balsa, o celular deJeremy recebeu sinal suficiente para que ele 
pegasse as mensagens. Nate havia deixado 
quatro, sobre a reunio que teriam. Alvin, poroutro lado, deixara apenas uma, bastante furiosa,
dizendo que havia sido preso.
Lexie havia levado Jeremy at o lugar em que eledeixara o carro, e depois ele a seguira at BooneCreek, preocupado com Alvin, mas preocupadocom Lexie tambm. O jeito 
amuado de Lexie, quehavia comeado antes do dia amanhecer, 
continuara inalterado nas horas seguintes. Apesarde no ter se afastado quando ele colocou o braoem volta dela na balsa, tinha permanecido calada,
olhando fixamente para as guas de Pamlico 
Sound. Quando sorriu, foi apenas um lampejo, e 
quando ele pegou sua mo, ela no apertou a 
dele. Tambm no disse nada a respeito do quehaviam conversado antes; estranhamente, ela se 
ps a falar dos navios naufragados na costa, e 
quando ele tentara desviar a conversa paraquestes mais srias, ela mudava de assunto ousimplesmente no respondia.
Enquanto isso, Alvin estava definhando na cadeiamunicipal, parecendo  aos olhos de Lexie, pelomenos  que pertencia quele lugar. Vestido comuma camiseta preta 
do Metallica, cala e jaquetade couro, e uma pulseira cheia de tachas, Alvin 
estava olhando para eles com um olhar 
enfurecido, o rosto afogueado.  Algum pode me 

#
dizer que diabo de cidade maluca  esta? Algumacoisa normal j aconteceu por aqui?  ele 
comeara com essa ladainha desde o momento 
em que Lexie e Jeremy haviam chegado, e seusdedos estavam brancos devido  fora com queele agarrava as barras das grades.  Vocs 
podem, por favor, me tirar daqui? 
Atrs deles, Rodney mantinha uma expressocarrancuda, os braos cruzados, ignorando o queAlvin dizia, da mesma forma como havia feito nas 
ltimas oito horas. O sujeito reclamava demais e,
alm disso, Rodney estava muito mais interessadoem Lexie e Jeremy. De acordo com Jed, Jeremy nohavia voltado para seu quarto na noite passada, eLexie tambm no 
havia passado a noite em casa.
Poderia ter sido coincidncia, mas ele duvidava 
muito, o que significava que era bem provvel queeles tivessem passado a noite juntos. O que noera nada bom. 

 Tenho certeza de que vamos dar um jeito  
Jeremy disse, sem querer irritar Rodney ainda 
mais. Ele parecia j bastante nervoso quando Jeremy 
e Lexie apareceram.  Conte o que foi que 
aconteceu. 
 O que aconteceu?  Alvin repetiu, o tom de vozsubindo. Seus olhos adquiriram um aspecto algoensandecido.  Voc quer saber o que aconteceu?
Eu lhe digo o que foi que aconteceu! Este lugarest cheio de malucos, isso  o que aconteceu!
Primeiro, eu me perdi tentando encontrar esta 
cidade idiota. Quer dizer, eu vinha dirigindo pelaestrada, passei dois postos de gasolina e 
continuei, certo? Dali pra frente no parece que 
#
deveria ter uma cidade? Pois o que aconteceu  
que eu fiquei perdido no meio de um pntano 
durante horas. No encontrei a cidade at umas 
nove horas da noite. E a voc poderia pensar quealgum me daria alguma indicao para chegarat o Greenleaf, certo? Quer dizer, qual seria adificuldade? Cidade 
pequena, nico lugar pra ficar?
Bom, eu me perdi de novo! E isso depois de 
agentar o cara do posto de gasolina buzinar naminha orelha por mais de meia hora... 

 Tully  Jeremy disse, acenando com a cabea. 
 O qu? 
 O cara de quem voc falou. 
 T, no importa... ento eu consegui chegar 
finalmente ao Greenleaf, certo? E o gigantescosujeito cabeludo daquele lugar no  exatamente 
uma pessoa amigvel e me olhou de um jeito 
pouco amistoso, me entregou seu bilhete e me 
colocou num quarto com todos aqueles animais 
mortos... 
 Todos os quartos so assim. 
 No importa!  Alvin grunhiu.  E,  claro, vocno estava nem perto... 
 Desculpe por isso. 
 Voc vai me deixar acabar de falar?!  Alvin 
gritou.  Ento, o.k., recebi seu recado e seguisuas instrues para ir at o cemitrio, certo? Echeguei l bem a tempo de ver as luzes, e  
fantstico, sabe? Pela primeira vez em muitas 
horas, eu no estava irritado, certo? Ento eu fui 
para esse lugar chamado Lukilu para tomar umltimo trago antes de dormir, j que parecia o 
nico lugar aberto na cidade naquela hora da 
#
noite. E havia apenas algumas pessoas no lugar,
ento eu comecei a conversar com essa garotachamada Rachel. E o papo estava timo. Ns 
estvamos realmente nos entendendo, ento 
apareceu esse sujeito, parecendo que tinha acabado 
de engolir um porco-espinho...  ele apontou 
com a cabea na direo de Rodney. Rodney 
sorriu sem mostrar os dentes. 

 Bom, de qualquer forma, um pouco depois eu sa 
para pegar meu carro, e logo em seguida esse 
cara apareceu batendo com a lanterna contra ajanela e me mandando sair do carro. Eu perguntei 
por que, e ele me mandou sair de novo. E a 
comeou a perguntar quanto eu tinha bebido e adizer que talvez eu no devesse dirigir. Eu disseque estava bem e que estava aqui para trabalharcom voc, e o que sei 
 que passei a noite trancado 
aqui! Agora, tire-me daqui!
Lexie olhou por cima do ombro.  Foi isso o que 
aconteceu, Rodney?
Rodney limpou a garganta.  At certo ponto. Masele se esqueceu da parte em que me chamou deBarney Fife Bobo e disse que iria me processarpor abuso de autoridade 
se eu no o deixasse irembora. Ele parecia estar agindo de maneira toirracional que eu pensei que ele pudesse ter 
consumido drogas ou que pudesse agir de maneiraviolenta, ento eu o trouxe para c, para sua 
prpria segurana. Ah, e ele tambm me chamoude monte de msculos idiota. 
 Voc estava me hostilizando! Eu no fiz nada! 
 Voc estava bebendo e dirigindo. 
#
Duas cervejas! Eu tinha tomado duas cervejas! 

 Alvin estava parecendo um manaco 
novamente.  Pergunte ao moo que me serviu!
Ele vai confirmar! 
Eu j fiz isso  Rodney falou , e ele me disse
que voc tomou sete.
Ele est mentindo!  Alvin gritou, os olhos se
revirando na direo de Jeremy. Ele encostou a 
cabea nas grades, o rosto em pnico entre suas
mos.  Eu bebi duas cervejas! Eu juro, Jeremy! 
Eu jamais sairia dirigindo se tivesse bebido 
demais. Juro pela Bblia da minha me!
Jeremy e Lexie olharam para Rodney. Ele deu de
ombros.  Eu s estava fazendo meu trabalho. 
Seu trabalho! Seu trabalho!  Alvin esbravejou. 
 Prendendo uma pessoa inocente! Estamos nos
Estados Unidos e voc no pode fazer uma coisa
dessas! E isso no vai ficar assim! Quando eu 
acabar com voc, voc no vai conseguir um 
emprego nem como segurana no Wal-Mart! Est
me ouvindo, Barney?! Wal-Mart!
Estava claro que os dois deviam ter passado a 
noite trocando insultos. 
 Eu vou conversar com Rodney  Lexie 
sussurrou, finalmente. Quando ela saiu com o 
policial, Alvin ficou em silncio. 
 Ns vamos tirar voc daqui  Jeremy garantiu a
ele. 
 Pra comeo de conversa, eu nem devia estar 
aqui! 
 Eu sei disso. Mas voc no est colaborando. 
 Ele est me intimidando! 
#
Eu sei disso. Mas vamos deixar por conta da 
Lexie. Ela vai dar um jeito. 


No corredor, Lexie ergueu os olhos para encarar
Rodney.  O que est acontecendo por aqui?  
ela perguntou.
Rodney no a olhou nos olhos; em vez disso, 
continuou a olhar na direo da cela. 
Onde  que voc estava na noite passada?
Ela cruzou os braos.  Eu estava no chal da 
praia.
Com ele? 
Lexie hesitou, imaginando qual seria a melhor 
resposta.  Eu no fui com ele, se  isso o que
est perguntando.
Rodney fez que sim com a cabea, percebendo 
que ela no havia respondido  pergunta
completamente, mas compreendendo subitamente
que no queria saber mais nada. 


 Por que voc o prendeu? Honestamente. 
 Eu no planejei nada. Ele provocou tudo isso. 
 Rodney...
Ele se virou, deixando a cabea cair sobre o peito.
Ele estava dando em cima da Rachel, e voc 
sabe como ela fica quando bebe: toda coquete esem um pingo de bom senso. Quer dizer, eu sei 
que no  da minha conta, mas algum precisa 
tomar conta dela  ele fez uma pausa.  De 
qualquer forma, quando ele estava saindo, eu fuiatrs para falar com esse sujeito, para ver se eleestava pensando em ir at a casa dela e que tipode cara ele era. 
E a ele comeou a me insultar. E 
#
eu no estava no melhor dos meus dias, de 
qualquer forma...
Lexie sabia qual era o motivo, e quando Rodneydeixou as palavras no ar, no fez qualquer 
comentrio. Rapidamente, Rodney sacudiu a 
cabea, como se ainda estivesse tentando se 
justificar.  Mas o fato  que ele tinha bebido eestava pensando em dirigir. E isso  ilegal. 

 Ele havia ultrapassado algum limite de 
velocidade? 
 Eu no sei. Eu no tentei descobrir. 
 Rodney!  ela sussurrou com o tom de voz maisalto. 
Ele me deixou zangado, Lexie. Ele  mal-
educado e esquisito, e estava dando em cima daRachel e me xingando, e a falou que estava trabalhando 
com esse sujeito...  ele apontou com acabea para Jeremy.
Lexie colocou uma das mos em seu ombro.  
Veja se me escuta, est certo? Voc sabe que vaificar encrencado se o mantiver aqui sem motivo.
Principalmente com o prefeito. Se ele descobrir oque voc fez com o cameraman  especialmentedepois de todo o trabalho que ele teve para quedesse tudo certo com 
essa histria , ele pode lhecausar problemas  ela deixou que aquilo fosseassimilado antes de prosseguir.  Alm disso, nsdois sabemos que quanto mais cedo voc 
o deixarsair, tanto mais cedo os dois iro embora. 
Voc realmente acredita que ele vai embora?
Lexie fitou Rodney nos olhos.  O vo dele sai 
amanh. 
#
Pela primeira vez, Rodney sustentou seu olhar.  
Voc vai embora com ele? 
Ela demorou um pouco para responder a pergunta 
que havia feito para si mesma durante toda a 
manh.  No  ela sussurrou.  Boone Creek  

o meu lar. E  aqui que eu vou ficar. 
Dez minutos depois, Alvin estava caminhando peloestacionamento ao lado de Jeremy e de Lexie. 
Rodney ficara parado na porta da cadeia municipal, 
vendo-os partir. 

 No diga nada  Jeremy avisou novamente, 
segurando o brao de Alvin.  Continue andando. 
 Ele  um jeca com uma arma e um distintivo! 
 No, ele no   Lexie falou, a voz firme.  Ele 
 um bom sujeito, no importa o que voc possa 
pensar. 
 Ele me prendeu sem motivo algum! 
 E ele tambm cuida das pessoas que vivem 
aqui.
Eles chegaram no carro, e Jeremy fez sinal para
que Alvin sentasse no banco de trs. 
 Isso no vai ficar assim  Alvin resmungou 
enquanto entrava.  Vou telefonar para o 
promotor. Esse cara vai ser mandado embora. 
 O melhor que tem a fazer  esquecer tudo isto 
Lexie falou, olhando para ele atravs da porta 
aberta. 
 Esquecer tudo isso? Voc ficou maluca? Ele 
estava errado e voc sabe disso. 
 Sim, ele estava. Mas j que ningum foi 
indiciado, voc vai mesmo esquecer tudo. 
 E quem  voc para me dizer isso? 
#
 Sou Lexie Darnell  ela disse, apresentando-se. 
 E no apenas sou amiga de Jeremy como 
tambm tenho de viver neste lugar com Rodney, eno estou mentindo quando digo que me sinto 
muito mais segura sabendo que ele est por perto.
Todos na cidade se sentem mais seguros porcausa dele. Mas voc vai embora amanh, e ele 
no vai incomod-lo novamente  ela sorriu.  E, 
vamos l, voc tem de admitir que isso tudo vairender uma boa histria quando voltar para NovaIorque.
Ele a encarou com um olhar incrdulo antes de 
olhar para Jeremy.   ela?  ele perguntou.
Jeremy fez que sim com a cabea.
Ela  bonita  Alvin observou.  Talvez um 
pouco autoritria, mas bonita.
-Melhor ainda, cozinha como uma italiana. 
To boa quanto sua me?
 Talvez melhor. 
Alvin assentiu com a cabea, em silncio poralguns instantes.  Eu imagino que voc acha queela est certa com esse papo de deixar tudo prl. 
 Eu acho. Ela entende este lugar melhor do que 
eu ou voc, e at agora no me deu qualquer 
informao que no estivesse correta. 
 Ento ela  esperta, tambm, h? 
 Muito. 
Alvin exibiu um sorriso cnico.  Imagino que 
vocs estavam juntos ontem  noite.
Jeremy ficou em silncio. 
 Ela deve ser mesmo uma coisa... 
#
 Eu estou aqui, rapazes!  Lexie finalmente 
interferiu.  Vocs percebem que estou ouvindotudo o que esto dizendo? 
 Desculpe  Jeremy disse.  Velhos hbitos, s 
isso. 
 Podemos ir agora?  Lexie perguntou.
Jeremy olhou para Alvin, que parecia estar 
pensando em quais seriam as alternativas. 
 Claro  ele respondeu, dando de ombros.  E 
no  s isso. Pretendo esquecer que tudo istoaconteceu. Com uma condio. 
 E qual ? Jeremy perguntou. 
 Toda essa conversa sobre comida italiana me 
deixou com fome, e no como nada desde ontem  
noite. Vocs me pagam um almoo e eu no svou deixar tudo de lado, como tambm vou lhes 
contar tudo o que aconteceu durante a filmagemontem  noite. 
Rodney ficou olhando enquanto eles se afastavam,
e depois entrou, cansado devido  falta de sono.
Ele sabia que no devia ter prendido o sujeito;
mesmo assim, no se sentia to mal a respeitodisso. Tudo o que queria era fazer um pouco depresso, e ento o cara comeou a abrir a boca e aagir como um coitado...
Ele coou a cabea, sem querer pensar muito arespeito daquilo. Estava tudo acabado agora. O 
que no estava acabado era o fato de que Lexie eJeremy tinham passado a noite juntos. Uma coisaera a suspeita, e outra bem diferente era a prova,
e ele viu o modo como estavam agindo agora pelamanh. Havia alguma coisa diferente do modo 
como tinham se comportado na festa da noite 
#
anterior, o que significava que algo havia mudado 
entre eles. Ainda assim, ele no tivera certeza 
absoluta at ouvir a resposta enviesada com queela havia tentado responder sem responder. Eu 
no fui com ele, se  isso o que est perguntando.

No, ele tinha sentido vontade de dizer, ele no 
tinha perguntado aquilo. Ele tinha perguntado seela havia passado a noite na praia com Jeremy.
Mas a resposta vaga foi suficiente, e no era 
preciso ser um gnio para descobrir o que tinhaacontecido. 
A compreenso desse fato quase partiu seu 
corao, e mais uma vez ele desejou poder 
entend-la melhor. Houve algumas ocasies no 
passado em que ele chegou a pensar que estavaquase conseguindo descobrir o que a fazia vibrar,
mas isto... bem, isto mostrava que estava errado,
no mostrava? Por que, diabos, ela iria permitirque uma coisa dessas acontecesse de novo? Porque  que ela no tinha aprendido a lio com oprimeiro estranho que 
havia passado pela cidade?
Ser que ela se lembrava de como tinha ficadodeprimida depois de tudo? Ser que no sabia queseria a nica a se machucar de novo? 
Ela devia saber essas coisas, ele pensou, mas 
tinha decidido  pelo menos por uma noite, dequalquer forma  que no se importava. No fazianenhum sentido, e Rodney estava ficando cansadode se preocupar com isso. 
Estava ficando cansadode ser ferido por ela. Sim, ele ainda a amava, masj lhe dera tempo mais do que suficiente para queavaliasse quais eram seus sentimentos por 
ele. 

#
Agora j estava na hora, ele pensou, de Lexie 
tomar uma deciso, qualquer que fosse ela.
J quase esquecendo a raiva, Alvin parou na 
soleira da porta do Herbs ao ver que Jed estavasentado em uma das mesas. Jed lanou um olhar 
mal-humorado e cruzou os braos assim que viuAlvin, Jeremy e Lexie ocuparem seus lugares emuma mesa de canto, perto da janela da frente.
Nosso amigvel conderge no parece muito felizem nos ver  Alvin sussurrou por cima da mesa.
Jeremy olhou-o de relance. Os olhos de Jed 
pareciam pequenos botes.
Puxa, isso  muito estranho. Ele sempre me 
pareceu to amigvel. Voc deve ter feito algumacoisa para deix-lo contrariado. 

 Eu no fiz nada. S me registrei. 
 Talvez ele no goste de sua aparncia. 
 O que h de errado com a minha aparncia?
Lexie ergueu as sobrancelhas, como se dissesse
"Voc deve estar brincando". 
Eu no sei  ele respondeu em voz alta.  
Talvez ele no goste do Metallica.
Alvin olhou rapidamente para a prpria camiseta e
balanou a cabea. 
No importa  ele respondeu.
Jeremy piscou para Lexie; apesar de ter lhe 
devolvido um sorriso, sua expresso era distante,
como se a cabea dela estivesse longe dali.
A filmagem de ontem a noite foi tima  Alvin 
falou, pegando o menu.  Peguei tudo de dois 
ngulos e assisti no playback ontem  noite. O 
material ficou incrvel. As redes de TV vo adorar. 
O que me lembra que preciso telefonar para Nate. 
#
Como ele no conseguiu encontrar voc, ficou 
ligando pra mim a tarde inteira. Eu no consigoentender como voc agenta aquele cara.
Diante da expresso de perplexidade de Lexie, 
Jeremy se inclinou em sua direo.  Ele est 
falando do meu agente. 

 Ele tambm vem pra c? 
 No. Ele est ocupado demais, sonhando com ofuturo de minha carreira. Alm disso, ele no 
saberia o que fazer fora daquela cidade. Ele  o 
tipo de cara que acha que a rea do Central Parkdeveria ser ocupada por apartamentos e ruas 
comerciais. 
Ela exibiu um sorriso rpido.
E quanto a vocs dois?  Alvin quis saber.  
Como foi que vocs se conheceram?
Como Lexie no tivesse feito meno de 
responder, Jeremy voltou a sentar-se de frente 
para Alvin.
Ela  bibliotecria e tem me ajudado com a 
pesquisa que venho fazendo para minha histria 
ele disse vagamente. 
 E voc dois tm passado um bocado de tempojuntos, hein? Com o canto do olho, Jeremy viu 
Lexie desviar o olhar para longe. 
 Havia muita coisa para pesquisar  ele disse.
Alvin olhou para seu amigo, percebendo que haviaalguma coisa estranha. Era como se tivesse havido 
uma briga de namorados e eles j tivessem 
encerrado o assunto, mas ainda estivessem 
cuidando das feridas. O que era um bocado decoisas para acontecer numa nica manh. 
#
 Bom... tudo bem  ele disse, decidindo deixar 
esse assunto de lado. Em vez disso, ele resolveu 
dar uma olhada nas entradas do cardpio, no 
momento em que Rachel se aproximava da mesa. 
 Oi, Lex; oi, Jeremy  ela disse, quando chegou
ao lado deles.  Oi, Alvin. 
Alvin ergueu os olhos.  Rachel! 
 Eu pensei que voc tivesse dito que iria aparecer
para o caf-da-manh  ela disse.  Eu acabei de
desistir de voc. 
 Me desculpe por isso  Alvin falou, e olhou 
rapidamente para Jeremy e para Lexie.  Acho 
que peguei no sono.
Colocando a mo no bolso do avental, Rachel tirou 
um bloquinho de papel, depois pegou a caneta que
levava atrs da orelha.  Ento, o que  que 
vocs vo querer?
Jeremy pediu um sanduche; Alvin pediu um caldo
de lagosta e um sanduche tambm. Lexie 
balanou a cabea.  Eu no estou com muita 
fome  ela disse.  A Dris est por aqui?
No, ela no veio hoje. Estava cansada e decidiu
tirar o dia para descansar. Ela trabalhou at tarde
ontem  noite para preparar todas as coisas para o
fim de semana. 
Lexie tentou ler a expresso de seu rosto. 
-  verdade, Lex  Rachel acrescentou, a voz 
sria.  No h com que se preocupar. Ela parecia
bem ao telefone. 
Talvez seja melhor eu ir at a casa dela para ver 
se est tudo bem, de qualquer forma  Lexie 
falou, olhando ao redor da mesa antes de se le
#
vantar. Rachel mudou de lugar para lhe dar 
passagem. 

 Quer que eu v com voc?  Jeremy perguntou. 
 No, est tudo bem  ela respondeu.  Voc 
tem trabalho a fazer, e eu tambm tenho coisas 
para resolver. Quer me encontrar mais tarde na 
biblioteca? Voc queria dar mais uma olhada nosdirios, lembra? 
 Se voc no se importar  ele disse, atnito 
com a indiferena de seu tom de voz. Ele teria 
preferido passar o resto da tarde com ela. 
 Que tal se nos encontrarmos l s quatro? 
 Pra mim est timo  ele disse.  Mas me avise 
sobre o que est acontecendo, o.k.! 
 Como disse a Rachel, tenho certeza de que ela
est bem. Mas vou pegar o caderno dela no banco
do carro, se voc no se importar. 
 Sim, claro. 
Ela olhou para Alvin.  Foi um prazer conhec-lo, 
Alvin. 
Meu tambm. 
No minuto seguinte, Lexie tinha ido embora e 
Rachel estava a caminho da cozinha. Assim que
ficaram longe do alcance de qualquer ouvido, Alvin
inclinou-se sobre a mesa. 
 Tudo bem, meu amigo, v falando. 
 O que voc quer dizer? 
 Voc sabe muito bem do que estou falando. 
Primeiro voc se apaixona por ela. Depois vocs 
passam a noite juntos. Mas quando vocs apareceram 
na cadeia, agiram como se mal se 
conhecessem. E agora ela aproveitou a primeiradesculpa que apareceu para sumir daqui. 
#
 Dris  a av dela  Jeremy explicou  e Lexie
est preocupada. A sade dela no anda muito 
bem. 
 No importa  Alvin respondeu, sem esconder
seu ceticismo.  O que eu acho  que voc passou
o tempo todo olhando para ela como um cozinho
solitrio, e ela tem feito o possvel para fingir que
no est vendo. Vocs dois brigaram ou aconteceu
alguma coisa desse tipo? 
 No  Jeremy falou. Ento, parou, dando uma
olhada pelo restaurante. Em uma mesa do canto,
ele viu trs membros da assemblia da cidade, 
bem como a senhora que trabalhava como 
voluntria na biblioteca. Todos acenaram para ele.
 Pra falar a verdade, eu no sei o que aconteceu.
Num minuto estava tudo bem, e depois...
Como ele tivesse parado de falar, Alvin se inclinou
novamente sobre a mesa.  T, tudo bem, no ia 
durar muito, de qualquer forma. 
 Mas poderia  Jeremy insistiu. 
 Ah,  mesmo? O qu? Voc estava pensando emse mudar para a regio Alm da Imaginao. Ou 
ela pretendia mudar para Nova Iorque?
Jeremy dobrou e desdobrou o guardanapo sem 
responder, sem querer que o lembrassem do 
bvio. 
No silncio, Alvin ergueu as sobrancelhas.  Eu 
definitivamente preciso passar mais algum tempo 
com essa moa  ele disse.  Eu nunca vi voc 
ficar desse jeito por causa de algum desde Maria.
Jeremy ergueu os olhos sem dizer uma palavra,
sabendo que seu amigo estava certo. 
#
Dris estava na cama, apoiada na cabeceira, 
olhando por cima dos culos de leitura, quandoLexie espiou pela porta do quarto. 

 Dris?  Lexie chamou. 
 Lexie, o que est fazendo aqui? Entre, entre ...
Dris colocou de lado o livro que estava abertosobre seu colo. Ela ainda estava de pijama, e 
tirando o tom um pouco acinzentado da pele, parecia 
estar bem. 
Lexie atravessou o quarto.  Rachel disse que 
voc resolveu ficar em casa por hoje, e eu s 
queria ver se estava tudo bem. 
 Ah, eu estou bem. S um pouco devagar, s isso.
Mas, eu pensei que voc devia estar na praia. 
 Eu estava  ela disse, sentando-se na ponta dacama.  Mas precisei voltar. 
 H? 
 Jeremy apareceu por l.
Dris ergueu as mos como se estivesse se 
rendendo.  No me culpe. Eu no contei a ele 
onde voc estava. E tambm no lhe disse para iratrs de voc. 
 Eu sei!  Lexie apertou suavemente o brao deDris para tranqiliz-la. 
 Ento como  que ele sabia onde encontrar 
voc? 
Lexie juntou as mos sobre o colo.  Eu tinha 
falado a respeito do chal para ele outro dia, e eleapenas cruzou as informaes. Voc nem acreditaa surpresa que foi quando eu o vi caminhando pelapraia.
Dris examinou Lexie atentamente antes de se 
endireitar um pouco mais.  Ento... vocs dois 
#
ficaram no chal da praia a noite passada? Lexieassentiu com a cabea. 
E...? 
Lexie no respondeu imediatamente, mas depoisde algum tempo, seus lbios formaram um sorrisoleve.  Eu fiz o seu famoso molho de tomate paraele. 
 mesmo? 
Ele ficou impressionado  ela disse. Lexie 
passou a mo pelos cabelos.  A propsito, eutrouxe o seu caderno de volta. Est na sala. 
Dris tirou os culos de leitura e comeou a limpar 
as lentes com uma pontinha do lenol.  Mas 
nada disso explica o fato de voc ter voltado.
Jeremy precisava de uma carona. Um amigo delede Nova Iorque  um cameraman  veio filmar as 
luzes. Eles tambm vo filmar hoje  noite.
Como  o amigo dele?
Lexie hesitou, pensando um pouco a respeito.  
Ele parece uma mistura de msico punk e membro 
de uma gangue de motocicletas, mas fora isso... legal.
Quando ela ficou em silncio, Dris esticou o brao 
e pegou na mo de Lexie. Apertando-asuavemente, ela estudou a expresso de sua neta. 

 Voc quer conversar sobre o verdadeiro motivoque a trouxe at aqui? 
 No  Lexie respondeu, passando o dedo pelasdobras da colcha da cama.  Pra falar a verdade, 
no. Acho que vou ter de resolver isso sozinha.
Dris acenou com a cabea. Lexie sempre se faziade forte. Ela sabia que s vezes era melhor nodizer absolutamente nada. 
#
CAPTULO 

DEZESSETE 

Parado em p na varanda do Herbs, Jeremy olhou 
para o relgio, enquanto esperava que Alvin 
terminasse sua conversa com Rachel. Alvin 
estava caprichando na cantada, e Rachel no 
parecia estar com pressa de se despedir, o quenormalmente seria considerado um bom sinal. 
Mas, para Jeremy, Rachel parecia menos 
interessada em Alvin do que em ser 
simplesmente educada, e Alvin no estava 
percebendo suas indiretas. Como sempre, Alvin 
tinha uma certa dificuldade para entender 
indiretas. 
Quando Alvin e Rachel finalmente se 
despediram, Alvin se aproximou de Jeremy, umsorriso cnico no rosto, como se j tivesse 
esquecido dos acontecimentos da noite anterior.
O que era bastante provvel. 

#
 Voc viu aquilo?  ele cochichou quandoestava bem perto.  Acho que ela gosta de mim. 
 E por que no gostaria? 
 Exatamente  ele concordou.  Cara, ela  
mesmo uma coisa. Adoro o jeito dela falar.  
to... sexy. 
 Voc acha tudo sexy  Jeremy observou. 
 Isso no  verdade  ele protestou.  S a 
maioria das coisas. 
Jeremy sorriu.  Bem, talvez voc encontre comela esta noite, no baile. Acho que podemos daruma passada por l antes de irmos filmar novamente. 
Tem um baile esta noite? 
 No velho celeiro de tabaco. Pelo que sei, a 
cidade inteira comparece. Tenho certeza de queela vai estar l. 
 timo  Alvin falou, descendo a escada da 
varanda. Ento, como se estivesse falando parasi mesmo, ele acrescentou:  Por que ser que 
ela no falou nada? 
Rachel folheou o seu talozinho de pedidos 
distraidamente, enquanto observava Alvin 
afastar-se e sair do restaurante com Jeremy.
Ela havia se mostrado um pouco retrada quandoele sentou ao seu lado no Lukilu, mas depois queele contou o que estava fazendo na cidade e queconhecia Jeremy, engataram 
uma conversa e elepassou quase uma hora falando de Nova Iorque.
Do jeito que ele falava, parecia o prprio paraso.
Quando ela disse que esperava poder viajar atl algum dia, ele anotou o nmero de seu 

#
telefone na capa de sua agenda e lhe disse paratelefonar. At prometeu que conseguiria alguns 
ingressos em musicais da cidade, se ela 
quisesse.
Por mais lisonjeira que fosse a oferta, sabia queno iria telefonar. Ela jamais havia gostado muitode tatuagens, e apesar de no ter tido muita sorte 
com os homens ao longo dos anos, j h muito 
tempo havia decidido que jamais iria namorar 
algum que tivesse mais furos na orelha do queela mesma. Mas, ela tinha de admitir, aquele noera o nico motivo para a sua falta de interesse;
Rodney tambm tinha alguma coisa a ver comisso. 
Rodney sempre aparecia no Lukilu para se 
certificar de que ningum iria tentar sair 
dirigindo se estivesse embriagado, e 
praticamente todo mundo que costumava passarpor l sabia que ele poderia aparecer a qualquerhora durante a noite. Ele passeava pelo bar, 
cumprimentava muita gente, e se achasse quevoc tinha ido um pouco alm da conta, iria lhedizer isso e avisar que daria uma olhada no seucarro mais tarde. Apesar 
de parecer intimidativo 

 e provavelmente era, se voc estivesse 
bebendo demais , ele tambm acrescentaria 
que teria prazer em lev-lo para casa. Era sua 
maneira de manter os bbados fora da estrada, e 
nos ltimos quatro anos no tinha havido 
necessidade de fazer uma nica priso. Nem 
mesmo o proprietrio do Lukilu se importavamais com suas visitas; bem, ele havia reclamado 
do fato de ter um policial patrulhando o salo no 
#
comeo, mas como ningum parecia se importar,
acabou se acostumando, e at passou a chamarRodney quando achava que havia algum no 
salo precisando de uma carona.
Na noite passada, Rodney havia aparecido como 
sempre fazia, e no levou muito tempo paradescobrir Rachel sentada no bar. Normalmente, 
ele teria sorrido e se aproximado para conversarum pouco, mas, desta vez, ao perceber que Alvinestava ao seu lado, por um momento ela teve aimpresso de que ele 
havia ficado quase 
magoado. Essa reao foi inesperada, mas 
desapareceu to rapidamente quanto havia 
surgido, e de repente ele pareceu zangado. Decerta forma, parecia que ele estava quase comcimes, e ela imaginou que tinha sido esse o 
motivo que a levou a deixar o bar assim que elesaiu. Enquanto voltava para casa, ela ficou 
relembrando a cena, tentando entender se 
realmente tinha visto o que achava, ou se estavaapenas imaginando coisas. Mais tarde, deitada 
na cama, chegou  concluso de que no ficaria 
nem um pouco chateada se Rodney tivesse 
sentido cimes. 
Talvez, ela pensou, ainda houvesse esperana 
para eles. 

Depois de irem at o carro de Alvin, que haviaficado estacionado na rua perto do Lukilu, Jeremye Alvin foram para o Greenleaf. Alvin tomou umbanho rpido, Jeremy 
trocou de roupa, e os dois 
passaram as horas seguintes conversando a 
respeito das descobertas que Jeremy havia feito. 

#
Para Jeremy, isso funcionava como uma vlvulade escape; a concentrao no trabalho era a 
nica maneira que ele conhecia para evitar ficarse preocupando com Lexie.
As fitas de Alvin eram to extraordinrias quantoele havia dito, especialmente quandocomparadas com as que Jeremy havia gravado. Aclareza e a resoluo, combinadas 
com o 
playback em slow-motion, faziam com que fosse 
muito fcil captar detalhes que Jeremy haviadeixado escapar na pressa do momento. E o queera melhor, havia alguns enquadramentos queJeremy poderia isolar e congelar, 
e ele sabia queisso ajudaria as pessoas a entender o que estavasendo realmente mostrado. 
A partir da, Jeremy colocou Alvin a par dos 
acontecimentos histricos ao longo do tempo,
usando as referncias que ele havia descobertopara interpretar o que estava sendo visto. Mas,
quando Jeremy continuou a exibir as provas emseus detalhes mais intricados  as trs verses 
da lenda; mapas, anotaes sobre as pedreiras,
quadros sobre o sistema de guas e tabelas; 
vrios projetos de construes; e aspectos 
detalhados da refrao da luz , Alvin comeou 
a bocejar. Em nenhum momento ele havia 
mostrado qualquer interesse pelas mincias dotrabalho de Jeremy, e finalmente conseguiu 
convencer Jeremy a lev-lo at a fbrica de 
papel, atravessando a ponte de carro, para queele pudesse ver o lugar por si mesmo. Eles 
ficaram alguns minutos olhando ao redor do 
ptio, vendo a madeira ser carregada para as 

#
plataformas, e no caminho de volta pela cidade,
Jeremy apontou para o lugar que iriam filmar 
mais tarde. Dali, eles foram para o cemitrio, afim de que Alvin pudesse gravar algumas 
imagens com a luz do dia.
Alvin montou a cmera em vrios lugares, 
enquanto Jeremy perambulava por sua prpriaconta, a tranqilidade do cemitrio forando seuspensamentos a se voltarem para Lexie e para 
suas preocupaes em relao a ela. Ele se 
lembrou da noite que haviam passado juntos etentou mais uma vez entender o que a teria feitolevantar da cama no meio da noite. Apesar de ternegado, ele sabia que 
ela estava arrependida,
talvez at sentisse algum remorso em relao aoque havia acontecido, mas nem isso fazia sentidopara ele.
Sim, ele estava indo embora, mas ele havia dito 
inmeras vezes que encontrariam um jeito paraque tudo desse certo. E, sim, era verdade queeles no se conheciam muito bem, mas diante do 
pouco tempo que haviam estado juntos, ele 
havia descoberto o suficiente para saber que 
poderia am-la para sempre. Tudo de que 
precisavam era uma chance.
Mas talvez Alvin estivesse certo, ele pensou.
Quaisquer que fossem suas preocupaes comDris, seu comportamento naquela manh 
sugeria que ela estava esperando por uma 
desculpa para se afastar dele. O que ele no 
tinha certeza, contudo, era se isso se devia ao 
fato de ela estar apaixonada, e por causa dissoachar que seria mais fcil se distanciar dele 

#
agora, ou porque ela no estava, e por isso noqueria mais ficar perto dele.
Na noite passada, ele tinha certeza de que ela 
estava sentindo a mesma coisa que ele. Mas, 
agora...
Ele gostaria que eles tivessem podido passar atarde, juntos. Ele queria saber quais eram suaspreocupaes e tranqiliz-la; queria abra-la ebeij-la, e convenc-la 
de que encontraria umamaneira de fazer sua relao dar certo, no 
importava o quanto isso pudesse ser difcil. Ele 
queria fazer com que ela ouvisse suas palavras:
que ele no conseguia imaginar uma vida semela, que seus sentimentos eram verdadeiros. 
Mas, o mais importante, queria voltar a ter 
certeza de que ela estava sentindo a mesma 
coisa que ele.
Mais ao longe, Alvin estava mudando a cmera e

o trip de lugar, perdido em seu prprio mundo eignorando as preocupaes de Jeremy. Jeremysuspirou antes de perceber que tinha ido para aparte do cemitrio onde 
Lexie havia sumido devista na primeira vez em que a tinha visto ali.
Ele parou por um minuto, hesitante, uma 
suspeita surgindo em sua mente. Ento ele 
comeou a examinar o cho, parando de vez emquando. Levou apenas alguns minutos para queele descobrisse o bvio. Caminhando por um 
sulco estreito, ele parou diante de uma azaliaabsolutamente intocada. Ela estava cercada poralguns ramos e galhos, mas o espao diante delaparecia cuidado. Agachando-se, 
ele afastou as 
flores que Lexie devia estar carregando na bolsa, 
#
e subitamente entendeu porque nem ela nem 
Dris queriam estranhos perambulando pelo 
cemitrio. 
Na luz acinzentada, ele olhou fixamente para otmulo de Claire e de James Darnell, imaginandopor que no tinha pensado nisso antes. 

No caminho de volta do cemitrio, Jeremy deixouAlvin no Greenleaf, para que ele tirasse uma 
soneca, e depois voltou para a biblioteca, 
ensaiando as coisas que queria dizer a Lexie.
Ele percebeu que a biblioteca tinha mais gentedo que o normal, pelo menos do lado de fora. As 
pessoas faziam pequenos crculos na calada, 
formando grupos de duas ou trs, apontandopara cima e admirando a arquitetura, como seestivessem ensaiando para o Passeio pelas CasasHistricas. A maioria parecia 
ter nas mos o 
mesmo folheto que Dris havia enviado para 
Jeremy e lia em voz alta as informaes queressaltavam as caractersticas nicas do edifcio. 
No lado de dentro, a equipe tambm parecia 
estar se preparando. Algumas voluntrias 
estavam varrendo e limpando; duas outras 
estavam colocando mais luminrias Tiffany, e 
Jeremy deduziu que, ao ter incio o passeio 
oficial, as lmpadas do teto seriam desligadas 
para dar  biblioteca uma atmosfera mais 
histrica. 
Jeremy passou pela sala das crianas, 
observando que parecia muito mais 
desorganizada do que no dia anterior, e 
continuou pelas escadas. A porta do escritrio de 

#
Lexie estava aberta, e ele parou por um 
momento, para se recompor antes de entrar. 
Lexie estava curvada perto da mesa, que estavaquase totalmente limpa. Como todas as outras 
pessoas da biblioteca, ela estava fazendo o 
mximo para se livrar da baguna, fazendo 
vrias pilhas embaixo da mesa.
Ol!  ele disse. 
Lexie ergueu os olhos.  Ei, ol!  ela 
respondeu, ficando em p. Ela arrumou a blusa.

 Acho que voc me pegou tentando tornar estelugar apresentvel.
Vocs realmente vo ter um grande fim de 
semana pela frente.
Sim, eu acho que sim. Acho que eu devia tercuidado destas coisas mais cedo  ela falou, 
apontando com a mo para o resto da sala , 
mas imagino que devo ter sucumbido a um surtode procrastinao.
Ela sorriu, linda mesmo estando um pouco 
desalinhada. 
Acontece mesmo com as melhores pessoas.
Sim, bem, normalmente isso no acontece 
comigo. Em vez de ir na direo de Jeremy, elapegou outra pilha, e ento enfiou a cabea denovo embaixo da mesa. 
Como est Dris? 
Bem  ela disse, falando ainda debaixo da 
mesa.  Como disse a Rachel, ela s est um 
pouco indisposta, mas amanh j vai estar 
novinha em folha  Lexie reapareceu, 
alcanando outra pilha de papis.  Se voc 
puder, d uma passadinha por l antes de ir 
#
embora. Tenho certeza de que ela ficaria 
contente. 

Por um momento, ele ficou simplesmente 
olhando para ela, mas quando percebeu as 
implicaes do que ela estava dizendo, deu umpasso em sua direo. Quando ele fez isso, Lexiedeu a volta em torno da mesa, agindo com seno tivesse percebido, mas 
certificando-se de 
que a mesa estava entre eles.
O que est acontecendo?  ele perguntou.
Ela pegou mais algumas coisas de cima da mesa.

 S estou ocupada  ela respondeu.
Eu perguntei o que est acontecendo conosco
 ele disse. 
Nada  a voz dela parecia natural, como se
estivesse falando do tempo.
Voc no est nem olhando pra mim.
Diante disso, ela finalmente olhou para cima, 
encontrando os olhos dele pela primeira vez. Ele
podia sentir a hostilidade fervilhando, embora 
no tivesse certeza se ela estava com raiva dele 
ou com raiva de si mesma. 
Eu no sei o que voc quer que eu diga. Eu j
expliquei que tenho muitas coisas para fazer. 
Acredite ou no, estou na correria por aqui.
Jeremy olhou-a fixamente, sem se mexer, e de 
repente sentiu que ela estava procurando
qualquer desculpa para comear uma briga.
Posso ajudar em alguma coisa?  ele 
perguntou.
No, obrigada. Eu posso cuidar de tudo  
Lexie colocou outra pilha embaixo da mesa.  
#
Como est Alvin?  ela perguntou, sua voz vindo
de baixo. 
Jeremy coou a cabea.  Ele no est mais 
bravo, se  isso o que est perguntando. 


 timo  ela disse.  Vocs dois conseguiram 
fazer o que queriam? 
 A maior parte  ele respondeu.
Ela apareceu de novo, tentando parecer 
ocupada.  Eu tirei os dirios do lugar de novopara voc poder olhar. Esto na mesa da sala delivros raros. 
Jeremy exibiu um sorriso fraco.  Obrigado.
E se lembrar de mais alguma coisa que possaprecisar antes de sair  ela acrescentou , vou 
ficar por aqui durante pelo menos mais uma 
hora. Mas o passeio comea s sete, por isso temde se programar para sair daqui at seis e meia,
o mais tardar, pois desligamos as luzes do teto.
Eu pensei que a sala de livros raros era 
fechada s cinco. 
Como voc est indo embora amanh, achei 
que podia ser um pouco mais liberal com as 
regras s desta vez.
E porque somos amigos, certo?
Claro  ela disse, e sorriu automaticamente.  
Porque ns somos amigos.
Jeremy saiu do escritrio e caminhou at a salade livros raros, refazendo a conversa em sua 
cabea e tentando entender o que havia 
acontecido. Aquele encontro no tinha sido comoele esperava. Apesar da irreverncia do 
comentrio final, ele esperava que ela o 
seguisse, mas de alguma forma sabia que ela 
#
no faria isso. O distanciamento da tarde no 
tinha ajudado a consertar as coisas entre eles; naverdade, elas haviam piorado. Se antes ela 
parecia distante, agora dava a impresso de que

o achava radioativo. 
Por mais que seu comportamento o preocupasse,
em alguns aspectos ele sabia que fazia sentido.
Talvez ela no precisasse ter sido to... fria a 
respeito do assunto, mas tudo girava em tornodo fato de que ele morava em Nova Iorque e elamorava ali. No dia anterior, na praia, tinha sidofcil enganar a si mesmo, 
convencendo-se de 
que as coisas entre eles iriam dar certo num 
passe de mgica. E ele havia acreditado nisso. 
Esse era o problema. Quando as pessoas se 
importavam umas com as outras, sempreencontravam um jeito de fazer as coisas darem 
certo. 
Ele percebeu que estava alguns passos  frentede si mesmo, mas era assim que ele agia quandotinha de enfrentar um problema. Procurava solues, 
fazia suposies, tentava analisar os 
acontecimentos a longo prazo, a fim de avaliarcuidadosamente potenciais desdobramentos. E, 
ele imaginou, era isso o que esperava que elatambm fizesse. 
O que ele no esperava era ser tratado como umpria. Ou que ela agisse como se no tivesseacontecido absolutamente nada entre eles. Ou 
que agisse como se acreditasse que a noite 
anterior tinha sido um erro. 
Ele olhou para a pilha de dirios em cima da 
mesa, enquanto sentava na cadeira. Comeou 
#
separando aqueles pelos quais j tinha dado umapassada de olhos daqueles que no tinha visto,
deixando quatro de lado. At ali, nenhum dos 
outros sete tinha sido particularmente til  doismencionavam funerais familiares que haviam 
sido realizados em Cedar Creek , por isso 
pegou um que no tinha examinado. Em vez deler a partir da primeira anotao, ele encostou ascostas na cadeira e foi virando as folhas paraexaminar algumas passagens 
aleatoriamente, 
tentando determinar se a pessoa que escrevera

o dirio havia falado a respeito de si mesma ouda cidade em que vivia. Ele havia sido escrito 
entre 1912 e 1915 por uma jovem adolescentechamada Anne Dempsey, e era, na maior parte,
um relato dos acontecimentos pessoais de suavida no dia-adia daquele perodo. De quem ela 
gostava, o que ela comia, pensamentos sobre 
seus pais e seus amigos, e o fato de que 
ningum parecia entend-la. Se havia algumacoisa notvel a respeito de Anne, era que suasangstias e preocupaes eram as mesmas quecaracterizavam os jovens de hoje. 
Apesar de 
interessante, ele o deixou de lado, junto com osoutros que rejeitara.
Os outros dois que ele folheou  ambos escritosdurante os anos 20  eram tambm em grandeparte relatos pessoais. Um pescador havia escrito 
a respeito de pesca e das mars praticamente 
nos mnimos detalhes; o segundo, escrito por 
uma loquaz professora, chamada Glenara, 
descrevia seu relacionamento amigvel com umjovem mdico visitante por um perodo de oito 
#
meses, assim como pensamentos a respeito de 
seus alunos e pessoas que ela conhecia na 
cidade. Alm disso, havia algumas anotaes a 
respeito dos eventos sociais da cidade que 
pareciam consistir, em grande parte, na 
observao dos barcos que navegavam pelo rioPamlico, na ida  igreja, no jogo de bridge, e empasseios pela Main Street nas tardes de sbado.
Ele no viu meno alguma a Cedar Creek.
Ele imaginava que o ltimo dirio seria mais umaperda de tempo, mas deixar de v-lo significariasair, e ele no conseguia se imaginar fazendoisso sem tentar falar 
com Lexie novamente, nem 
que fosse apenas para manter as linhas de 
comunicao abertas. No dia anterior, ele teria 
irrompido na sala e dito a primeira coisa que lheviesse  cabea, mas com as ltimas idas e 
vindas do relacionamento, combinadas com seu 
estado nitidamente alterado, era impossvelimaginar exatamente o que ele deveria dizer oufazer. 
Deveria manter-se distante? Deveria tentar falar 
com ela, mesmo sabendo que ela estava ansiosapor uma briga? Ou deveria fingir que nem havianotado sua atitude, e simplesmente agir como seela ainda quisesse saber 
como haviam realmentesurgido as luzes misteriosas? Deveria convid-la 
para jantar? Ou simplesmente tom-la nos 
braos? 
Est vendo, esse era o problema dos 
relacionamentos quando a emoo comeava aembaar as guas. Era como se Lexie esperasseque ele fizesse ou dissesse exatamente a coisa 

#
certa, exatamente na horta certa, qualquer que
fosse ela. E isso, ele decidiu, no era justo.
Sim, ele a amava. E sim, ele tambm estava 
preocupado com o futuro deles. Mas enquanto
ele queria tentar resolver as coisas, ela estava
agindo como se j quisesse jogar a toalha. Ele 
pensou de novo sobre a conversa que haviam
tido. 


Se voc puder, d uma passadinha por l antes 
de ir embora... 
No "se ns pudermos". Se voc... 
E o que dizer de seu ltimo comentrio? Claro, 
ela tinha dito, porque somos amigos. Diante 
disso, tudo o que ele pde fazer foi morder a
prpria lngua. Amigos?, ele deveria ter dito. 


Depois da noite passada, tudo o que voc 
consegue dizer  que somos amigos? Isso  tudo 

o que eu significo para voc?
Aquele no era jeito de falar com algum de 
quem voc gostasse. No era jeito de tratar 
algum que voc esperava ver novamente, e 
quanto mais ele pensava nisso, mais ele queriaresponder na mesma moeda. Voc est dando 
pra trs? Eu posso fazer isso, tambm! Voc querbrigar? Pois estou aqui. Ele no tinha feito nadaerrado, afinal de contas. O que acontecera nanoite passada tinha 
a ver tanto com ela quantocom ele. Ele havia tentado falar com ela sobre 
como se sentia; parecia que ela no estava 
querendo saber. Ele havia prometido que iria 
tentar fazer com que desse tudo certo; ela 
parecia ter descartado a idia desde o comeo. E 

#
no final das contas, ela  quem o tinha levadopara o quarto, e no o contrrio.
Ele ficou olhando pela janela, os lbios 
apertados. No, ele pensou, ele no ia mais fazerseu jogo. Se ela quisesse falar com ele, timo. 
Mas, se no... bom, ento, era dessa maneira 
que as coisas iriam ficar, e, sinceramente, nohavia nada que ele pudesse fazer a respeito. Eleno estava disposto a voltar rastejando para lheimplorar e suplicar, 
por isso estava nas mos 
dela o que quer que fosse acontecer. Ela saberiaonde encontr-lo. Ele tomou a deciso de deixar 
a biblioteca assim que terminasse e seguir para oGreenleaf. Talvez isso desse a ela uma chance 
para avaliar o que realmente queria, ao mesmotempo em que lhe mostraria que ele no estavadisposto a ficar por perto para ser maltratado. 

Assim que ele saiu, Lexie se xingou; gostaria desaber lidar melhor com aquela situao. Tinha 
imaginado que o fato de ter passado algumashoras com Dris iria deixar as coisas mais claras, 
mas tudo o que conseguira fora adiar o 
inevitvel. E ento Jeremy tinha aparecido comose nada tivesse mudado. Agindo como se nadafosse mudar no dia seguinte. Como se ele no 
fosse embora. 
Sim, desde o comeo ela sabia que ele iria 
embora, que a deixaria para trs como havia 
feito o sr. Renascena, mas o conto de fadas queele havia comeado na noite anterior insistia em 
permanecer, alimentando fantasias nas quais aspessoas viviam felizes para sempre. Se ele havia 

#
conseguido encontr-la na praia, se havia tido 
coragem bastante para lhe contar tudo o quehavia contado, ser que no encontraria tambmuma razo para ficar?
L no fundo, ela sabia que ele alimentava a 
esperana de que fosse com ele para Nova 
Iorque, mas no entendia por qu. Ser que eleno conseguia entender que ela no dava a 
mnima para o dinheiro ou para a fama? Ou para 
compras, ou para os shows, ou para o fato de 
poder comprar comida tailandesa no meio da 
noite? A vida no era nada disso. A vida era passar 
o tempo juntos, era ter tempo para caminharjuntos de mos dadas, conversando calmamenteenquanto viam o sol se pr. Isso no era nada 
glamouroso, mas era, em muitos aspectos, o 
melhor que a vida tinha a oferecer. No era issoque dizia o velho ditado? Quem, j no leito de 
morte, dissera alguma vez que desejaria ter 
trabalhado mais? Ou passado menos tempo 
apreciando uma tarde tranqila? Ou passado 
menos tempo com a famlia?
Ela no era ingnua a ponto de negar que a 
cultura moderna tinha seus atrativos. Ser 
famoso, rico e bonito, ir a festas exclusivas: s 
assim voc ser feliz. Em sua opinio, isso era 
uma poro de asneiras, a cano dos desesperados. 
Se no fosse, por que haveria tantas 
pessoas ricas, famosas e bonitas consumindo 
drogas? Por que parecia que eles no 
conseguiam manter um casamento? Por que que eles viviam sendo presos? Por que pareciam 

#
to infelizes quando no estavam sob os 
holofotes? 
Jeremy, ela suspeitava, sentia-se atrado por essemundo, embora no quisesse admitir. Ela haviaadivinhado isso no instante em que se conheceram, 
e havia alertado a si mesma para no seenvolver emocionalmente. Mesmo assim, 
lamentava a maneira como se comportara h 
pouco. Ela no estava preparada para lidar comJeremy quando ele apareceu no escritrio, masimaginou que devia simplesmente ter dito isso,
em vez de manter a mesa entre eles e negar quehouvesse alguma coisa errada.
Sim, ela deveria ter lidado melhor com a 
situao. Quaisquer que fossem suas diferenas,
Jeremy merecia pelo menos isso.
Amigos, ele pensou novamente. Porque somos 
amigos.

A maneira como ela havia dito aquilo ainda 
conseguia deix-lo irritado, e batendo 
distraidamente no caderno com a caneta, Jeremysacudiu a cabea. Ele precisava terminar o queviera fazer ali. Movimentando os ombros para 
aliviar a tenso, ele pegou o ltimo dirio e 
puxou a cadeira para a frente. Depois de abri-lo,
levou apenas alguns minutos para perceber queeste era diferente de todos os outros. 
Em vez de conter passagens curtas, relatos 
pessoais, o dirio era composto por um conjuntode ensaios datados, cada um com um ttulo, 
escritos de 1955 a 1962. O primeiro se referia construo da igreja episcopal St. Richard, em 
1859, e  enquanto o local estava sendo 

#
escavado  a descoberta do que parecia ser umantigo acampamento dos ndios Lumbee. O 
ensaio ocupava trs pginas e era seguido por 
um artigo a respeito do Curtume McTauten, 
construdo no litoral de Boone Creek em 1794. O 
terceiro ensaio, que fez Jeremy erguer as 
sobrancelhas, apresentava a opinio do autor arespeito do que teria realmente acontecido aoscolonos de Roanoke Island em 1587. 
Jeremy, lembrando-se vagamente de que um dosdirios tinha pertencido a um historiador amador,
comeou a folhear as pginas mais depressa...
atentando para os ttulos, procurando nos artigosalguma coisa bvia... virando as pginasrapidamente... folheando... parando de repente,
quando percebeu que havia encontrado algumacoisa... voltou algumas pginas, e ento 
compreendeu que o que ele havia visto...
Ele se recostou na cadeira, piscando os olhos 
enquanto passava os dedos pela pgina. 

Resolvendo o mistrio das Luzes no Cemitrio de 
Cedar Creek 

Durante anos, alguns moradores de nossa cidade 
afirmaram a existncia de fantasmas no 
Cemitrio de Cedar Creek, e trs anos atrs foi 
publicado um artigo relacionado a esse 
fenmeno no Journal of the South. Apesar de no 
terem apresentado uma resposta, eu acredito, 
aps ter realizado uma investigao por minha 
prpria conta, ter resolvido o enigma de por que 

#
as luzes parecem surgir em determinadas 
ocasies e no em outras. 
Posso dizer categoricamente que no existem 
fantasmas. Na verdade, as luzes so da Fbrica 
de Papel Henrickson e so influenciadas pelo 
trem ao cruzar a ponte sobre a ferrovia, pela 
localizao de Riker's Hill e pelas fases da Lua. 

Enquanto prosseguia com a leitura, Jeremy 
prendeu a respirao. Embora o autor no 
tivesse procurado explicar por que o cemitrio 
estava afundando  sem o que as luzes 
provavelmente no seriam vistas de forma 
alguma  suas concluses quanto a tudo o maiseram essencialmente as mesmas de Jeremy.
O escritor, quem quer que fosse, havia 
descoberto tudo quarenta anos atrs. 

Quarenta anos... 

Ele marcou a pgina com um pedao de papel efechou o livro, procurando o nome do autor na 
capa, sua mente relembrando a primeira conversa 
que tivera com o prefeito. E com isso, elesentiu suas suspeitas se juntarem como peas deum quebra-cabea.
Owen Gherkin. 
O dirio havia sido escrito pelo pai do prefeito.
Que, segundo o prefeito Gherkin, "sabia tudo o 
que havia para saber a respeito deste lugar".
Que entendia qual era a causa das luzes. Que, 
sem dvida alguma, havia contado para seu 
filho. Que, ento, sabia que no havia 
absolutamente nada de sobrenatural em relao 
s luzes, embora tivesse simulado o contrrio. 

#
Isso significava que o prefeito Gherkin estiveramentindo o tempo todo, acreditando que poderia 
usar Jeremy para ganhar uns trocados de visitantes 
incautos. 
E Lexie... 
A bibliotecria. A mulher que lhe dera a dica de 
que ele poderia encontrar nos dirios as 
respostas que estava procurando. O quesignificava que ela havia lido o relato de OwenGherkin. O que significava que ela tambm 
estivera mentindo, preferindo jogar o joguinho doprefeito.
Ele ficou imaginando quem mais da cidade 
saberia a resposta. Doris? Talvez, ele pensou.
No, nada disso, ele decidiu rapidamente. Doris 
tinha de saber. Em sua primeira conversa, elafora direto ao assunto e dissera o que as luzesno eram. Mas, como o prefeito e Lexie, no 
havia dito o que eram realmente, embora 
tambm certamente soubesse. 
E isso significava... que tudo aquilo havia sido 
uma piada desde o comeo. A carta. A 
investigao. A festa. A piada, na verdade, era 
ele. 
E agora Lexie estava se afastando, no sem 
antes haver lhe contado a histria de que Dris atinha levado at o cemitrio para que ela visse oesprito de seus pais. E aquela conversa doce 
sobre seus pais desejarem que ela os 
encontrasse. 
Coincidncia? Ou estava tudo planejado? E 
agora, o jeito de ela agir... 

#
Como se quisesse que ele fosse embora. Comose no sentisse nada por ele. Como se soubesse

o que aconteceria...
Ser que tudo havia sido planejado? Mas por 
qu?
Jeremy pegou o dirio e foi at o escritrio de
Lexie, decidido a conseguir algumas respostas.
Ele nem percebeu que, ao sair, batera a porta 
com fora; tambm no reparou no rosto das 
voluntrias que se viraram quando o viram 
passar. A porta de Lexie estava escancarada, e
ele a abriu completamente ao entrar no 
escritrio. 
Com todas as pilhas de livros e papis agora 
escondidas, Lexie tinha nas mos uma 
embalagem de lustra-mveis e estava dando 
lustro no tampo da mesa, fazendo a madeira 
brilhar. Ela olhou para Jeremy quando ele ergueu
o dirio. 
Ei, oi  ela disse, forando um sorriso.  Estou 
quase acabando por aqui.
Jeremy encarou-a.  Voc pode parar de fingir 
ele anunciou. Mesmo estando do outro lado da 
sala, ela conseguiu sentir a raiva, e 
instintivamente colocou uma mecha de cabelo 
atrs da orelha. 
 Do que  que voc est falando? 
 Disto  ele disse, mostrando o dirio.  Voc 
o leu, no  mesmo? 
 Sim  ela disse, reconhecendo o dirio de 
Owen Gherkin.  Eu li. 
Voc sabia que h uma passagem que fala 
sobre as luzes de Cedar Creek? 
#
 Sim  ela disse novamente. 
 Por que no me falou a respeito disto? 
 Eu falei  ela disse.  Eu lhe falei dos dirios 
na primeira vez em que voc veio at a 
biblioteca. E se me lembro bem, eu lhe disse quepoderia encontrar as respostas que estava 
procurando, lembra? 
 No me venha com joguinhos  Jeremy falou, 
apertando os olhos.  Voc sabia o que eu 
estava procurando. 
 E voc encontrou  ela contraps, erguendo otom da voz.  No estou entendendo qual  o 
problema. 
 O problema  que eu estive perdendo meu 
tempo. As respostas estavam neste dirio desde
o comeo. No h nenhum mistrio aqui. Nuncahouve. E voc estava metida neste esquema otempo todo. 
 Que esquema? 
 No perca seu tempo tentando negar  ele 
disse, cortando o que ela dizia. Ele ergueu o 
dirio.  A prova est bem aqui, est lembrada?
Voc mentiu pra mim. Voc mentiu bem na 
minha cara. 
Lexie olhou-o fixamente, sentindo a intensidade 
de sua raiva, sentindo sua prpria voz subir de 
tom.   por isso que voc veio at o meu escritrio? 
Para me acusar? 
Voc sabia! 
Ela colocou as mos nos quadris.  No  ela 
disse , eu no sabia. 
 Mas voc leu o dirio! 
#
 E da?  ela revidou.  Eu tambm li o artigodo jornal. E li os artigos daquelas outras pessoas.
Por que diabos eu deveria imaginar que as 
suposies de Owen Gherkin eram corretas? Atonde eu sei, ele estava fazendo suposies,
como os outros fizeram. E isso, supondo que eu 
me preocupasse com esse assunto. Voc acha, 
sinceramente, que eu alguma vez gastei mais doque um minuto pensando nessas coisas, at vocchegar aqui? Eu no me importo! Nunca me 
importei! Voc  quem est aqui para investigar.
E se tivesse lido o dirio dois dias atrs, tambm 
no teria tanta certeza. Ns dois sabemos quevoc teria feito suas prprias investigaes, dequalquer forma. 
 No  essa a questo  ele falou, ignorando apossibilidade de que ela estivesse certa.  A 
questo  que todo esse negcio tem sido umagrande trapaa. O passeio, os fantasmas, a lenda
  uma fraude, pura e simples. 
 Do que  que voc est falando? O passeio tema ver com as casas histricas e,  claro, eles 
acrescentaram o cemitrio. Oba-oba. Tudo faz 
parte de um fim de semana agradvel no meiode uma temporada montona. Ningum est 
sendo enganado, ningum est sendo magoado.
E, vamos l, voc realmente acha que as pessoasacreditam que existem mesmo os tais 
fantasmas? A maioria simplesmente gosta de 
dizer que sim porque  engraado. 
 Dris sabia?  ele perguntou, interrompendo-a 
novamente. 
#
 A respeito do dirio de Owen Gherkin?  ela 
balanou a cabea, furiosa porque ele se 
recusava a ouvi-la.  Como  que ela poderia 
saber? 
 Escute  ele disse, levantando o dedo, como 
um professor que enfatiza uma questo para oaluno.  Essa  a parte que eu no consigo entender. 
Se voc no queria que o cemitrio 
fizesse parte do passeio, e se Dris no queriaque ele fizesse parte do passeio, por que vocssimplesmente no procuraram os jornais para 
dizer a verdade? Por que vocs quiseram me 
envolver nesse seu joguinho? 
 Eu no quis envolver voc. E isso no  um 
jogo.  um inofensivo fim de semana que vocest transformando em algo totalmente despropositado 
com esse seu exagero. 
 Eu no estou exagerando. Voc e o prefeito que fizeram isso. 
 Ento agora eu sou um dos caras maus nessahistria? 
Como Jeremy tivesse ficado em silncio, ela 
apertou os olhos.  Ento por que eu lhe teriadado o dirio? Por que eu no o escondi de voc? 
 Eu no sei. Talvez tenha algo a ver com o 
caderno de Dris. Vocs duas ficaram 
empurrando aquele caderno pra cima de mim 
desde que cheguei aqui. Talvez tivessem 
imaginado que eu no viria para c por causadele, ento vocs armaram tudo isso. 
 Voc consegue perceber como isso que vocest dizendo parece ridculo?  ela se inclinou 
sobre a mesa, o rosto vermelho. 
#
 Olhe, s estou tentando entender por que que me trouxeram pra c, antes de mais nada.
Ela ergueu as mos, como se estivesse tentandofazer com que parasse.  Eu no quero ouvir 
isso. 
 Aposto que no. 
 Saia daqui  ela disse, atirando a embalagemde lustra-mveis na gaveta da mesa.  Voc nopertence a este lugar e no quero falar com vocnunca mais. Volte para 
o lugar de onde veio.
Ele cruzou os braos.  Pelo menos voc 
finalmente admitiu o que esteve pensando o diatodo. 
 Ah, agora voc tambm consegue ler 
pensamentos? 
 No. Mas no preciso ler pensamentos paraentender por que voc est agindo do modo comvem agindo. 
 Bem, ento me deixe ler seus pensamentos 
tambm, est certo?  ela provocou, cansada 
daquele ar de superioridade, cansada dele.  
Deixe-me dizer-lhe o que eu vejo, o.k.?  Ela 
sabia que estava falando alto o bastante paraque toda a biblioteca ouvisse, mas no estavapreocupada com isso.  Eu vejo algum que  
muito bom para dizer as coisas certas, mas 
quando  pra fazer o que tem de ser feito, nodiz uma palavra verdadeira.
E o que voc quer dizer com isso?
Ela comeou a andar pela sala, a raiva tomandoconta de cada msculo de seu corpo.
O qu? Voc acha que eu no sei o que vocrealmente pensa da nossa cidade? Que no  
#
nada alm de uma parada na estrada? Ou que, lno fundo, voc no consegue entender como  
que algum consegue viver aqui? E que, no 
importa o que tenha dito ontem  noite, a idiade que voc poderia viver aqui  ridcula?
Eu no disse isso. 
E nem precisava!  ela gritou, odiando aquele 
tom arrogante.  Essa  a questo. Quando euestava falando de sacrifcio, eu sabia muito bem 
que voc achava que eu  que deveria abrir mode minhas razes. Que eu deveria deixar minha 
famlia, meus amigos, minha casa, porque NovaIorque  muito melhor. Que eu deveria ser a boamulherzinha que segue seu homem para ondequer que ele ache que ns devemos 
ir. Nunca 
ocorreu a voc a idia de que voc  quem teriade ir embora. 
Voc est exagerando.
Estou, ? Exagerando o qu? Quando disse quevoc esperava que eu deixasse tudo pra trs? Ouvoc estava pensando em procurar um corretorde imveis quando estivesse 
saindo da cidade?
Escute, deixe-me facilitar as coisas pra voc  
ela disse, alcanando o telefone.  O escritrio 
da sra. Reynolds fica do outro lado da rua, e 
tenho certeza de que ela ficaria encantada emlhe mostrar algumas casas esta noite, se estiverinteressado. 
Jeremy simplesmente a olhou fixamente, incapazde negar suas acusaes.
Nada a dizer?  ela gritou, batendo o telefone. 

 O gato comeu sua lngua? Ento veja se 
consegue me explicar uma coisa. O que foi que 
#
voc quis dizer exatamente quando disse que 
encontraramos uma forma de fazer as coisas 
darem certo? Voc achou que eu me contentariaem esperar que me visitasse de vez em quandopara passar a noite comigo na cama, sem quehouvesse a possibilidade de um 
futuro juntos?
Ou voc estava pensando em aproveitar essasvisitas para me convencer de que eu estava 
errada, j que acha que estou desperdiandominha vida aqui e seria muito mais feliz se oacompanhasse em sua vida?
A raiva e a dor em sua voz eram inequvocas;
assim como o significado de tudo o que ela 
estava dizendo. Durante algum tempo, nenhumdos dois disse qualquer coisa.
Por que voc no disse nada disso ontem noite?  ele perguntou, a voz ficando mais fraca. 

 Eu tentei  ela falou.  Mas voc no queria 
ouvir. 
 Ento, por que...?
Ele deixou a pergunta no ar, as implicaes eramclaras. 
Eu no sei  ela desviou o olhar.  Voc  um 
cara legal, os dias que passamos juntos foramtimos. Talvez eu tenha me deixado levar pelo 
momento. 
Ele a encarou.  Foi esse o significado de tudo 
pra voc?
No  ela admitiu, vendo a dor estampada em 
seu rosto.  No ontem  noite. Mas isso no 
muda o fato de que acabou, no ?
Ento voc est caindo fora? 
#
No  ela disse. Consternada, ela sentiu seus 
olhos se encherem de lgrimas.  No jogue aculpa em mim.  voc quem est indo embora.
Voc entrou no meu mundo. E no o contrrio. 
Eu era feliz at voc chegar. Talvez no 
totalmente feliz, talvez um pouco solitria, masestava satisfeita. Eu gosto da minha vida aqui.
Eu gosto de poder visitar Dris se ela no estivernum bom dia. Gosto de ler para as crianas nahora da histria. E gosto inclusive do nosso 
pequeno Passeio pelas Casas Histricas, mesmo 
que voc pretenda transform-lo em algo feio 
para poder causar grande impresso na 
televiso. 
Eles ficaram frente a frente, estticos e sem 
palavras. Depois de terem colocado todas as 
cartas na mesa, depois de terem dito tudo o quehavia para dizer, ambos se sentiam esgotados. 

 No faa isso  ele disse por fim. 
 Fazer o qu? Dizer toda a verdade?
Em vez de esperar que ele respondesse, Lexiepegou seu casaco e sua bolsa. Colocando-os nobrao, ela se dirigiu para a porta. Jeremy deu umpasso para o lado, para 
lhe dar passagem, e ela 
roou levemente seu brao, sem dizer uma 
palavra. Ela estava a alguns passos de distnciado escritrio quando Jeremy finalmente 
recuperou a vontade de falar.  Para onde vocest indo? 
Lexie deu mais um passo antes de parar. Com 
um suspiro, ela se virou.  Estou indo para casa 
 ela disse.  Como voc vai para a sua  ela 
#
completou, enxugando uma lgrima no rosto eendireitando o corpo. 


CAPTULO 

DEZOITO 

Mais tarde, naquela noite, Alvin e Jeremy 
montaram as cmeras perto do passeio de 
madeira junto ao rio Pamlico.  distncia, ouvia-
se a msica que tocava no celeiro de tabaco doMeyer, onde estava acontecendo o baile. O restodas lojas da cidade havia fechado as portas; at

o Lukilu parecia abandonado. Enfiados em seuscasacos, eles pareciam estar sozinhos. 
 E o que aconteceu depois?  Alvin perguntou. 
 Nada  Jeremy falou.  Ela foi embora. 
 Voc no foi atrs dela? 
 Ela no queria que eu fosse. 
 Como  que voc sabe?
Jeremy coou os olhos, relembrando a discussopela milsima vez. Ele havia passado as ltimashoras sentindo-se atordoado. Lembrava vagamente 
de ter voltado para a sala de livros raros; 
#
depois, de ter colocado os dirios em uma pilhana prateleira, e ento fechado a porta atrs de si.
Fez o caminho de volta remoendo as palavrasque ela havia dito, sentindo-se trado e zangado,
e ao mesmo tempo triste e arrependido. Havia 
passado cerca de quatro horas deitado na cama,
no Greenleaf, tentando imaginar o que poderiater feito para lidar melhor com a situao. Ele 
no deveria ter irrompido daquela maneira 
brusca no escritrio. Teria ficado assim to 
zangado por causa do dirio? Com a idia de tersido tapeado? Ou estaria simplesmente zangadocom Lexie e, como ela, procurando uma desculpapara comear uma briga?
Ele no tinha certeza, e Alvin tambm no estava 
conseguindo ajud-lo a encontrar uma resposta,
depois de ter ouvido toda a histria. Tudo o queJeremy sabia era que estava se sentindo exausto 
e, apesar de ter de fazer a filmagem, estava 
lutando contra a vontade de ir at a casa de 
Lexie para ver se conseguia consertar as coisas.
Pressupondo que ela estivesse l. At onde 
sabia, ela estava no baile como todo mundo da 
cidade. 
Jeremy suspirou, Alvin sacudiu a cabea e se 
afastou. Ele no conseguia entender como  queseu amigo tinha se amarrado desse jeito em topouco tempo. Ela nem era to charmosa, e nose encaixava naquela imagem 
que ele tinha dasmulheres sulistas. 
Pacincia. Aquilo tinha sido uma aventura, Alvinsabia, e no tinha dvida de que Jeremy logo iria 

#
superar tudo aquilo, assim que entrasse no avio
para voltar para casa.
Jeremy sempre havia superado. 


No baile, o prefeito Gherkin estava sentado 
sozinho em uma mesa de canto, a mo no 
queixo.
Havia contado com a presena de Jeremy, de 
preferncia com Lexie, mas assim que chegou
ficou sabendo, atravs dos cochichos das 
voluntrias, da discusso na biblioteca. Segundo
essas senhoras, tinha sido uma briga feia, e tinha
algo a ver com um dos dirios e algum tipo de
armao. 
Pensando nisso agora, concluiu que no deveria
ter doado o dirio de seu pai  biblioteca; mas,
na poca, no parecia que fosse to importante,
alm de apresentar relatos pouco exatos a 
respeito da histria da cidade. A biblioteca lhe 
parecera o destino mais bvio para a doao.
Mas quem poderia ter adivinhado o que iria 
acontecer nos quinze anos seguintes? Quem iria
saber que a fbrica txtil seria fechada ou a mina
abandonada? Quem poderia saber que centenas
de pessoas ficariam na rua sem trabalho? Quem
poderia saber que inmeras famlias iriam 
embora para nunca mais voltar? Quem poderia
saber que a cidade acabaria tendo de travar uma
luta por sua sobrevivncia?
Talvez ele no devesse ter includo o cemitrio 
no passeio. Talvez no devesse ter divulgado que
havia fantasmas, quando sabia que eram apenas
as luzes do turno da noite na fbrica de papel. 


#
Mas o fato era que a cidade precisava de algopara se reerguer, algo que motivasse as pessoasa visit-la, algo que fizesse com que as pessoaspassassem alguns dias 
na cidade, para ver comoaquele lugar era maravilhoso. Se um nmero 
razovel de pessoas passasse por ali, quem sabeeles no pudessem acabar se transformando emoutra meca para os aposentados, como Oriental, 
ou Washington ou New Bern. Essa era, ele 
pensou, a nica esperana para a cidade. Os 
aposentados gostavam de lugares hospitaleirospara comer e manter suas contas bancrias, elesqueriam lugares para fazer compras. Isso no iriaacontecer imediatamente, 
mas era o nico planoque ele tinha, e precisava comear por algumlugar. Graas  incluso do cemitrio e suas luzes 
misteriosas, haviam vendido algumascentenas de ingressos extras para o passeio, e a 
presena de Jeremy havia lhes dado a 
oportunidade de uma publicidade em mbito 
nacional. 
Ah, ele sempre achara que Jeremy era 
suficientemente esperto para descobrir tudo por 
sua conta. Essa parte no o preocupava. E da 
que Jeremy expusesse a verdade em rede 
nacional de televiso? Ou at mesmo em sua 
coluna? As pessoas de todo o pas ainda assimiriam ouvir falar de Boone Creek, e algunspoderiam querer conhec-la. Qualquer publicidade 
era melhor do que nenhuma publicidade. A 
menos,  claro, que ele usasse a palavra 
"armao". 

#
Era uma palavra que soava de maneira to 
desagradvel, e no tinha nada a ver com o queestava acontecendo. Claro, ele sabia o que eramas luzes, mas ningum mais sabia; e qual era oproblema, de qualquer 
forma? A questo  quehavia uma lenda, havia as luzes e algumaspessoas acreditavam que elas eram fantasmas.
Outras simplesmente entravam na brincadeira, 
achando que isso fazia a cidade parecer 
diferente e especial. As pessoas precisavam 
disso agora, mais do que nunca.
Jeremy Marsh, tendo lembranas afetuosas da 
cidade, entenderia isso. Jeremy Marsh sem essaslembranas, talvez no. E nesse instante o 
prefeito Gherkin no estava muito certo em 
relao  lembrana que Jeremy estaria levandocom ele no dia seguinte.
O prefeito est parecendo um pouco 
preocupado, voc no acha?  Rodney 
observou. 
Rachel deu uma olhada, sentindo muito orgulhopor terem ficado juntos a maior parte da noite.
Nem mesmo o fato de ele algumas vezes ter 
olhado para a porta, e parecer que estava  
procura de Lexie no meio da multido, conseguiudiminuir essa sensao, pelo simples motivo deque ele tambm parecia estar feliz ao seu lado. 

 Parece. Mas ele est sempre com essa cara. 
 No  Rodney falou , no  a mesma. Ele 
est com alguma preocupao sria. 
 Quer ir falar com ele? 
Rodney pensou no assunto. Assim como o 
prefeito  como todo mundo, pelo visto , ele 
#
ouvira falar da discusso na biblioteca, mas ao 
contrrio da maioria, ele achava que sabia muitobem o que estava acontecendo. Ele achava queera s juntar as peas, especialmente depois dever a expresso do rosto 
do prefeito. O prefeito,
ele percebeu de repente, devia estar preocupadocom a forma como Jeremy iria apresentar seupequeno mistrio para o mundo.
Quanto  discusso, ele havia tentado avisar 
Lexie de que isso iria acontecer. Era inevitvel.
Ela era a mulher mais cabea-dura que ele j havia 
conhecido, algum sempre firme em suas 
posies. Mas podia ser voltil, s vezes, e 
Jeremy havia finalmente tido uma amostra. 
Embora desejasse que ela jamais tivesse se 
colocado naquela situao mais uma vez, 
Rodney estava aliviado por saber que o caso jestava encerrado. 
No, no h muito o que falar  Rodney disse.

 No est mais nas mos dele agora.
Rachel enrugou a testa.  O que no est nas 
mos dele? 
Nada  ele encerrou o assunto com um 
sorriso.  Nada importante.
Rachel analisou sua expresso por um momentoe depois deu de ombros. Eles haviam ficado ali, 
em p, enquanto terminava uma msica e a 
banda comeava outra. Enquanto aumentava onmero de pessoas danando, Rachel batia com 
o p no cho, acompanhando a batida da 
msica. 
Rodney nem parecia notar que as pessoas 
estavam danando, tamanha era sua 
#
preocupao. Ele gostaria de conversar com 
Lexie. No caminho para c, ele passara pela casadela, e visto luzes e o carro na entrada da garagem. 
Antes disso, ele havia sido informado porum colega da polcia que o Garoto da Cidade eseu amigo de histria em quadrinhos estavammontando sua cmera no passeio 
ao lado do rio.
O que significava que a discusso ainda 
precisaria ser resolvida.
Se as luzes da casa de Lexie ainda estivessem 
acesas quando tivesse terminado o baile, talvezele pudesse dar uma passada por ali antes de irpara casa, como fizera na noite em que o sr.
Renascena tinha ido embora. Tinha a sensao 
de que ela no ficaria completamente surpresaem v-lo. Calculou que ela provavelmente ficariaolhando para ele antes de abrir a porta. Ela faria 
um pouco de ch e, como da ltima vez, ele 
sentaria no sof e ficaria ouvindo durante horas, 
enquanto ela se recriminaria por ter sido to 
boba. 
Ele acenou com a cabea para si mesmo. Ele aconhecia melhor do que a si mesmo.
Mesmo assim, ainda no estava preparado paraenfrentar essa situao. No que lhe dizia 
respeito, ela precisava de mais algum temposozinha para poder fazer uma avaliao de tudo 

o que acontecera. Tinha de admitir que estava 
um pouco cansado de ser visto como uma 
espcie de irmo mais velho, e ele no tinha 
certeza de que estava com vontade de ouvi-la.
Afinal, ele estava se sentindo muito bem, e 
#
naquele instante no estava ansioso para 
terminar a noite com uma pessoa deprimida.
Alm disso, a banda que estava tocando era 
muito boa. Muito melhor do que a do ano 
passado. Com o canto do olho, ele conseguia verRachel balanando no ritmo da msica, satisfeito 
por ela o ter procurado para lhe fazer companhia, 
como fizera na festa da noite anterior. Ela 
sempre fora uma companhia agradvel, mas oestranho era que, ultimamente, todas as vezesem que a via, ela parecia ainda mais bonita doque ele lembrava. Sem dvida, 
isso era fruto desua imaginao, mas no conseguia deixar depensar no quanto ela estava bonita esta noite.
Rachel percebeu que ele estava olhando para elae sorriu envergonhada.  Desculpe  ela disse 
, eu gosto dessa msica.
Rodney limpou a garganta.  Gostaria de 
danar? 
Ela ergueu as sobrancelhas.  Est falando 
srio? 

 Eu no sou um grande danarino, mas... 
 Eu adoraria!  ela interrompeu, pegando namo dele. Seguindo-a at a pista de dana, eledecidiu, ento, que mais tarde iria pensar o quefazer com Lexie. 
Dris estava sentada na cadeira de balano da 
sala, os olhos abertos distraidamente na direo 
da janela, pensando se Lexie iria passar por ali.
Sua intuio levava-a a duvidar, mas esse era 
um daqueles momentos em que desejava estarerrada. Ela sabia que Lexie estava abalada  

#
isso era menos uma premonio do que um 
entendimento do bvio , e tinha tudo a ver com 

o fato de Jeremy estar indo embora.
De certa forma, desejou que no tivesse 
empurrado Lexie para ele. Relembrando os fatos,
percebia agora que deveria ter imaginado quepoderia acabar assim. Ento, por que havia feitotudo o que podia para que eles se envolvessemum com o outro? Por que 
Lexie estava sozinha?
Por que Lexie havia cado numa rotina e estavaassim desde que se apaixonara por aquele jovemde Chicago? Por que chegara a acreditar queLexie tinha medo da idia 
de se apaixonar poralgum novamente?
Por que ela no poderia ter simplesmente 
aproveitado a companhia de Jeremy? Na 
verdade, isso era tudo o que havia desejado queLexie fizesse. Jeremy era inteligente e charmoso,
e Lexie simplesmente precisava ver que existiamhomens assim por a. Ela precisava compreenderque nem todos os homens eram como Avery oucomo o jovem de Chicago. Como 
ela o chamavaagora? Sr. Renascena? Tentou lembrar como 
era seu nome verdadeiro, mas sabia que isso noera importante. O importante era Lexie, e Drisestava preocupada com ela.
Ah,  claro que ela acabaria ficando bem, Drissabia disso. Sem dvida, ela aceitaria o quehavia acontecido e encontraria uma maneira de 
seguir em frente. Com o tempo, ela era at capazde se convencer de que tinha sido uma coisaboa. Se tinha uma coisa que havia aprendido a 
#
respeito de Lexie, era que ela era uma 
sobrevivente. 
Dris suspirou. Ela sabia que Jeremy havia se 
apaixonado. Se Lexie estava apaixonada por ele,
ele estava ainda mais apaixonado, mas Lexie havia 
aprendido a arte de deixar os 
relacionamentos para trs e levar sua vida 
fingindo que jamais haviam acontecido.
Pobre Jeremy, ela pensou. Isso no era justo comele. 
No Cemitrio de Cedar Creek, Lexie estava em 
p no meio da densa neblina olhando para o localonde haviam sido enterrados seus pais. Ela sabiaque Jeremy e Alvin estariam no passeio filmando 
a ponte e Riker's Hill, o que significava que 
poderia ficar sozinha com seus pensamentos 
esta noite. 
Ela no pretendia ficar muito tempo, mas poralgum motivo havia sentido necessidade de ir atali. Tinha feito a mesma coisa depois do fim deseu relacionamento com 
Avery e tambm com osr. Renascena, e ao iluminar com a lanterna a 
inscrio com os nomes de seus pais, desejouque eles estivessem ali para conversar com ela.
Sabia que tinha uma viso romantizada em 
relao a eles, que mudava de acordo com seuestado de esprito. s vezes gostava de pensarneles como pessoas amorosas e falantes; outrasvezes gostava de acreditar 
que eram ouvintespacientes. Nesse momento, queria pensar neles 
como criaturas fortes e sbias, pessoas quedariam a ela o tipo de conselho que tornaria tudo 
menos confuso. Estava cansada de cometer 

#
erros na vida. Era o que sempre fizera, ela 
pensou melancolicamente, e agora sabia que 
estava prestes a cometer outro erro, no 
importava o que fizesse. 

Do outro lado do rio, somente as luzes da fbrica 
de papel eram visveis atravs da neblina, e aprpria cidade estava perdida em meio a umacerrao sonolenta. Com o trem se aproximandolentamente  de acordo com 
a programao deJeremy, de qualquer forma , Alvin deu uma ltima 
verificada na cmera voltada para Riker's 
Hill. Essa seria a tomada mais difcil. A da ponteseria fcil, mas como Riker's Hill estava distante 
e coberto pela nvoa, ele no tinha certeza 
absoluta de como a cmera iria registrar a 
imagem. Ela no havia sido feita para fotografar 
a longa distncia, exatamente o que seria 
necessrio agora. Apesar de ter trazido as melhores 
lentes e filmes de alta sensibilidade, 
desejou que Jeremy lhe tivesse falado desse 
pequeno detalhe antes de ele sair de Nova 
Iorque.
Jeremy no estava pensando com muita clareza 
nos ltimos dias, por isso concluiu que isso 
poderia ser perdoado. Normalmente, numa 
situao como essa, Jeremy estaria falando e 
fazendo piadas sem parar, mas desta vez ele nohavia falado muito a respeito de nada durante asltimas horas. Em vez de tranqilas, j que haviaesperado que fosse 
como tirar fotografia nas 
frias, as ltimas horas tinham comeado a 
parecer como se fossem trabalho, principalmente 

#
por causa da friagem. No fora para isso que elehavia se prontificado, mas tudo bem... ele 
simplesmente aumentaria o pagamento e 
mandaria a conta para Nate.
Enquanto isso, Jeremy estava em p junto ao 
peitoril, de braos cruzados, olhando fixamentepara um monte de nuvens.
Eu lhe contei que Nate telefonou esta tarde? 
Alvin perguntou, tentando mais uma vez 
conversar com seu amigo.
Telefonou? 
Quando eu estava tirando uma soneca  Alvin 
falou.  Ele me acordou e comeou a gritarcomigo porque voc no estava com seu celularligado.
Apesar da expresso preocupada, Jeremy sorriu.

 Eu aprendi a mant-lo desligado o mximo detempo possvel. 
 Certo... mas voc podia ter me avisado. 
 O que ele queria?
A mesma coisa. As ltimas novidades. Mas 
escute isto: ele perguntou se voc poderia 
conseguir uma amostra.
Amostra do qu?
Eu imaginei que ele estivesse falando dos 
fantasmas. Se havia lama ou algo parecido. Ele
achou que voc poderia mostrar para os 
produtores na reunio da semana que vem.
Lama? 
Alvin ergueu as mos.  Palavra dele, no 
minha. 
Mas ele sabe que  apenas a luz da fbrica de
papel. 
#
Alvin concordou com a cabea.  Sim, ele sabe. 
Ele s pensou que poderia ser um toque 
interessante. Sabe, alguma coisa para 
impression-los de verdade.
Jeremy sacudiu a cabea, incrdulo. Nate haviatido uma poro de idias malucas nesses anostodos, mas esta merecia um prmio. Mas, ele eraassim mesmo. Qualquer coisa 
que lhe viesse cabea saa pela boca e, na maioria das vezes,
ele nem lembraria de ter dito alguma coisa.
Ele tambm disse para voc telefonar. 

 Eu vou  Jeremy falou.  Mas deixei meu 
celular no Greenleaf.  Ele fez uma pausa.  
Voc no contou a ele sobre o dirio, contou? 
 Eu nem sabia que ele existia  Alvin lembrou. 
 Voc s me contou isso mais tarde. Lembra 
que eu lhe disse que foi ele quem me acordou?
Jeremy fez que sim com um aceno da cabea. 
Se ele telefonar pra voc de novo, no diga nada,
est bem? 
 Voc no quer que ele saiba que o prefeitoarmou essa fraude? 
 No, ainda no. 
Alvin olhou para ele.  Ainda no ou nunca?
Jeremy no respondeu imediatamente. Essa eraa verdadeira questo, no era?  Eu ainda no 
decidi. 
Alvin deu mais uma olhada pela lente.   uma 
deciso difcil  ele falou.  Talvez seja 
suficiente para fazer a matria, voc sabe.  
Quer dizer, as luzes so uma coisa, mas voc 
tem de entender que a explicao no  assimto interessante. 
#
O que voc quer dizer? 

 Para a televiso. Eu no tenho tanta certeza de 
que eles vo se interessar pelo fato de que asluzes so causadas pela passagem do trem. 
 No  s a passagem do trem  Jeremycorrigiu.   a maneira como as luzes da fbricade papel refletidas no trem so vistas em Riker'sHill, e como a densidade da 
neblina, sendo maior 
no cemitrio que est afundando, interfere no 
seu aspecto.
Alvin fingiu um bocejo.  Desculpe, o que voc 
estava dizendo? 
Isso no  to chato  Jeremy insistiu.  Vocno percebe quantas coisas tm de acontecer aomesmo tempo para criar esse fenmeno? Comoas pedreiras provocaram alteraes 
nas camadasde gua e fizeram o cemitrio afundar? A 
localizao da ponte principal? As fases da Lua,
j que em apenas algumas ocasies est escuro 
o bastante para que as luzes sejam vistas? A 
lenda? A localizao da fbrica de papel e o 
horrio do trem? 
Alvin deu de ombros.  Acredite em mim.  
chato com "CH" maisculo. Para ser franco, eu 
ficaria muito mais interessado se voc no tivesse 
encontrado a explicao. O pblico da 
televiso adora mistrios. Especialmente em 
lugares como Nova Orleans e Charleston, ou 
qualquer outro lugar romntico e tranqilo. Masreflexo de luzes em Boone Creek, na Carolina do 
Norte? Voc realmente acha que as pessoas deNova Iorque ou de Los Angeles vo se preocuparcom isso? 
#
Jeremy abriu a boca para dizer alguma coisa e de 
repente lembrou que Lexie havia dito 
exatamente a mesma coisa a respeito do 
fenmeno, e ela vivia aqui. No silncio que seseguiu, Alvin ficou olhando para ele. 

 Se est pensando seriamente nesse negcio deteleviso, vai ter de dar um jeito de apimentaressa histria, e o dirio que voc encontrou talvez 
possa fazer isso. Voc pode fazer uma 
matria seguindo a sua pesquisa e revelar o 
dirio no final. Isso talvez seja suficiente parachamar a ateno dos produtores, se voc fizeras coisas direito. 
 Voc acha que devo atirar a cidade aos lobos?
Alvin sacudiu a cabea.  Eu no disse isso. E, 
francamente, nem tenho certeza de que o dirioseja suficiente. S estou lhe dizendo que se vocno conseguir mostrar um pouco de lama,  
melhor voc encontrar alguma utilidade para odirio, se no quiser ficar com cara de idiota nareunio. 
Jeremy desviou o olhar. O trem, ele sabia, estaria 
se aproximando em alguns minutos.  Lexie 
jamais falaria comigo de novo se eu fizesse umacoisa dessas  ele disse. Ento sacudiu os 
ombros.  Isso, imaginando que ela ainda queirafalar comigo.
Alvin no disse nada. No silncio, Jeremy olhouem sua direo. 
O que voc acha que eu devo fazer?
Alvin respirou profundamente.  Eu acho  Alvinfalou  que tudo se resume ao que  mais 
importante pra voc, voc no acha? 
#
CAPTULO 

DEZENOVE 

Jeremy dormiu muito mal na sua ltima noite noGreenleaf. Ele e Alvin tinham acabado a 
filmagem  quando o trem passou, Riker's Hill 
registrou as luzes refletidas de maneira muito 
fraca  e depois de verem o filme, tanto elequanto Alvin decidiram que havia ficado bom obastante para provar a teoria de Jeremy, a 
menos que se dispusessem a arrumar um 
equipamento melhor.
Porm, quando estavam no caminho de volta 
para Greenleaf, o pensamento de Jeremy estavamuito distante do mistrio ou mesmo do caminho 
que percorriam. Ao contrrio, ele comeou mais 
uma vez a repassar em sua cabea os 
acontecimentos dos ltimos dias. Lembrou-se da 
primeira vez que tinha visto Lexie no cemitrio, eseu animado encontro na biblioteca. Pensou no 
almoo que haviam saboreado em Riker's Hill esua visita ao passeio que seguia ao longo do rio, 

#
lembrou-se de como ficou impressionado com aextraordinria festa em sua homenagem, e decomo havia se sentido na primeira vez em quevira as luzes no cemitrio. Mas, 
acima de tudo, 
ele se lembrava daqueles momentos em quecomeou a perceber que estava se apaixonandopor ela.
Seria realmente possvel que tivesse acontecido 
tanta coisa em apenas alguns dias? Quando 
chegou ao Greenleaf e entrou em seu quarto,
estava tentando definir o momento exato em quetudo tinha comeado a dar errado. Ele no tinha 
muita certeza, mas agora estava com a 
impresso de que ela havia tentado fugir de seusprprios sentimentos, e no apenas dele. Ento,
quando  que ela havia percebido que sentia 
alguma coisa por ele? Na festa, como ele? Nocemitrio? No incio daquela tarde?
Ele no tinha idia de qual era a resposta. Tudo o 
que sabia era que a amava e no conseguiaimaginar como seria no v-la nunca mais.
As horas passaram lentamente; seu vo sairia deRaleigh ao meio-dia, por isso estaria deixando oGreenleaf em breve. Ele se levantou antes das 
seis, terminou de arrumar suas coisas e as 
colocou no carro. Depois de se certificar que aluz no quarto de Alvin tambm estava acesa, elese dirigiu ao escritrio, atravessando o ar geladoda manh. 
Jed, como havia previsto, fez uma cara feia. Seucabelo estava ainda mais desalinhado que o decostume e as roupas todas amassadas, de modoque Jeremy concluiu que 
ele havia acabado de se 

#
levantar. Jeremy colocou as chaves em cima da 
mesa. 

Um lugar e tanto o que voc tem aqui  
Jeremy falou.  Com certeza vou me lembrar derecomendar para os amigos.
Como se fosse possvel, a expresso de Jed ficouainda mais dura, mas Jeremy apenas devolveuum sorriso amigvel. Ao voltar para o quarto, eleviu luzes tremulando 
em meio  neblina, 
enquanto um carro subia pela entrada de 
cascalho. Por um instante, ele pensou que fosseLexie, e sentiu um sobressalto no peito; quando 

o carro finalmente pde ser visto, suas 
esperanas simplesmente evaporaram.
O prefeito Gherkin, enfiado num casaco pesado ecoberto por um cachecol, saiu do carro. Sem aenergia que havia mostrado em encontros anteriores, 
ele caminhou no escuro em direo a 
Jeremy. 
 Fazendo as malas, eu imagino. 
 J arrumei tudo. 
 Jed no atirou a conta na sua cara, atirou? 
 No  Jeremy respondeu.  Alis, obrigado 
por isso.
No tem de qu. Como eu lhe disse, era o 
mnimo que podamos fazer por voc. S espero 
que tenha gostado de sua estada em nossa 
pacata cidade.
Jeremy fez que sim com a cabea, observando oar de preocupao no rosto do prefeito.  Sim, 
eu gostei.
Pela primeira vez desde que Jeremy o conhecera,
Gherkin parecia no saber o que dizer. Enquanto 
#
aumentava o desconforto daquele silncio, ele 
arrumou o cachecol dentro do casaco.  Bom, eu 
s passei para lhe dizer que os moradores daregio gostaram de conhecer voc. Sei que estouaqui falando pela cidade, pois voc causou umatima impresso.
Jeremy colocou as mos nos bolsos.  Por que aenganao?  ele perguntou.
Gherkin suspirou.  Voc est perguntando porque inclumos o cemitrio no passeio?
No. Estou me referindo ao fato de o seu paiter anotado a resposta em seu dirio e de vocter escondido isso de mim. 
Uma expresso triste tomou conta do rosto deGherkin.  Voc est coberto de razo  ele 
falou depois de alguns instantes. Sua voz era 
hesitante.  Meu pai realmente resolveu o 
mistrio, mas acho que isso fazia parte de seudestino.  Ele olhou Jeremy nos olhos.  Voc 
sabe por que meu pai ficou to interessado pelahistria da nossa cidade? 
Jeremy negou com a cabea.
Na II Guerra Mundial, meu pai serviu no 
Exrcito com um homem chamado Lloyd 
Shaumberg. Ele era tenente, meu pai era 
soldado. As pessoas hoje em dia parecem queno entendem que, durante a guerra, eles noeram apenas soldados nos campos de batalha. Amaioria dos que estavam servindo 
eram pessoas 
comuns: padeiros, aougueiros, mecnicos. 
Shaumberg era historiador. Pelo menos era isso oque meu pai falava dele. Na verdade, ele era 
apenas um professor de colgio em Delaware, 

#
mas meu pai jurava que ele era o melhor oficialdo Exrcito. Ele costumava manter seus homens 
entretidos, contando histrias do passado, 
histrias que quase ningum conhecia, e isso 
evitava que meu pai ficasse com medo do queestava acontecendo. De qualquer forma, depoisdo avano das tropas na Itlia, Shaumberg e meupai, junto com o restante 
do peloto, foram 
cercados pelos alemes. Shaumberg disse aos 
homens para recuarem enquanto tentava dar 
cobertura a eles.  Eu no tenho escolha  ele 
teria dito. Era uma misso suicida, todos sabiam. 
Mas assim era Shaumberg.  Gherkin fez uma 
pausa.  De qualquer forma, meu pai ficou vivo 
e Shaumberg morreu, e depois da guerra,
quando meu pai voltou para casa, ele disse quetambm iria se tornar um historiador, para 
prestar uma homenagem ao seu amigo.
Como Gherkin tivesse parado de falar, Jeremy 
olhou para ele com curiosidade.  Por que est 
me contando isso? 
Porque  Gherkin respondeu  do modo comovejo as coisas, eu tambm no tive muita 
escolha. Toda cidade precisa ter alguma coisa ssua, algo para lembrar as pessoas de que seu lar especial. Em Nova Iorque, voc no precisa se 
preocupar com isso. Vocs tm a Broadway e 
Wall Street, e o Empire State Building e a Esttuada Liberdade. Mas, por aqui, depois que tantosnegcios fecharam, olhei em volta e percebi quetudo o que ns tnhamos 
era uma lenda. E as 
lendas... bem, so apenas relquias do passado, euma cidade precisa de mais do que isso para 

#
sobreviver. E isso  tudo o que eu estava 
tentando fazer, procurando um meio de manteresta cidade viva, e ento voc apareceu.
Jeremy desviou o olhar para longe, pensando nasfachadas de lojas fechadas com tapumes que 
tinha visto quando chegara, lembrando-se do 
comentrio de Lexie a respeito do fechamento dafbrica txtil e da mina de fsforo. 

 Ento veio aqui logo cedo para me apresentar
o seu lado da histria? 
 No  Gherkin falou.  Eu vim aqui para lhedizer que tudo isso foi idia minha. A assembliada cidade no tem nada a ver com isso, e nem as 
pessoas que vivem aqui. Talvez eu tenha 
cometido um erro agindo dessa forma. Talvez 
no concorde com o que fiz. Mas fiz o que acheique seria bom para este lugar e para as pessoasque vivem aqui. E tudo o que lhe peo  que, aoescrever sua histria, 
voc se lembre de que nohavia mais ningum envolvido. Se quiser me 
sacrificar, eu posso agentar. E acho que meu 
pai entenderia.
Sem esperar por uma resposta, Gherkin voltoupara seu carro, e rapidamente desapareceu emmeio  neblina. 
Enquanto o amanhecer tingia o cu com um 
cinza-escuro e Jeremy ajudava Alvin a carregar 
as ltimas peas de equipamento, Lexie 
apareceu.
Quando saiu do carro, parecia praticamente a 
mesma de quando a tinha visto pela primeira 
vez, os olhos violeta impenetrveis mesmo 
quando seu olhar encontrou o dela. Trazia nas 
#
mos o dirio de Gherkin. Por um momento os 
dois se olharam como se no soubessem o que
dizer. 
Alvin, parado perto do porta-malas aberto, 
quebrou o silncio.
Bom dia!  ele disse. 
Ela forou um sorriso.  Ei, Alvin. 
Voc levantou cedo. 
Ela deu de ombros, os olhos voltando na direo 
de Jeremy. Alvin olhou de um para outro antes de
virar para o outro lado.
Acho que vou dar uma ltima olhada no quarto 


 ele falou, apesar de que ningum parecia 
estar prestando muita ateno.
Quando ele se afastou, Jeremy respirouprofundamente.  Eu no pensei que voc fossepassar por aqui. 
 Para ser franca, eu tambm no tinha muita 
certeza. 
 Fico feliz por ter vindo  ele disse. A luz 
acinzentada fazia com que se lembrasse do 
passeio na praia perto do farol, e uma dor forteque o remoa por dentro o advertiu do quanto a 
amava. Embora seu primeiro impulso fosse no 
sentido de colocar um fim em tudo o que 
pudesse separ-los, a postura rgida de Lexie 
manteve-o a distncia. 
Ela fez um gesto na direo do carro.  Pelo quevejo voc j arrumou tudo e est pronto parapartir. 
 Sim  ele falou.  Tudo arrumado. 
 E terminou de filmar as luzes? 
#
Ele hesitou, odiando aquela conversa banal.  
Voc realmente veio at aqui para falar do meutrabalho ou para ver se eu j tinha feito as 
malas? 

 No  ela disse.  No  nada disso. 
 Ento, por que veio? 
 Para me desculpar pela forma como o tratei
ontem na biblioteca. Eu no devia ter agido do
modo como agi. No foi justo com voc.
Ele esboou um sorriso fraco.  No se preocupe 
 ele disse.  Eu vou superar. Tambm peo 
desculpas.
Ela estendeu a mo com o dirio.  Eu lhe 
trouxe isto. Eu no sabia se ia querer. 
 Eu pensei que voc no quisesse que eu o 
usasse. 
 Eu no quero. 
 Ento por que me oferecer? 
 Porque eu devia ter lhe contado sobre o queest escrito no dirio e no quero que voc 
pense que h algum envolvido em alguma 
espcie de acobertamento. Posso entender porque voc pode ter pensado que a cidade estavaarmando alguma coisa, e isto  uma oferenda de 
paz. Mas posso lhe garantir que no havia 
nenhum grande esquema...
Eu sei  Jeremy interrompeu.  O prefeito 
passou por aqui agora h pouco.
Ela assentiu com a cabea, abaixando os olhos 
antes de encar-lo novamente. Nesse instante, 
achou que ela ia dizer alguma coisa, mas o quequer que fosse, ela se conteve.  Bem, acho que isso  ela falou, enfiando as mos nos bolsos 
#
do casaco.   melhor eu deixar voc terminar 
de arrumar suas coisas para poder ir embora. Eununca gostei de despedidas longas.
Ento isto  uma despedida?  ele perguntou,
procurando sustentar seu olhar.
Ela parecia quase triste ao jogar a cabea de 
lado.  Tem de ser, no tem? 
Ento,  assim. Voc s passou por aqui paradizer que acabou tudo?  ele passou os dedos 
agitados pelo cabelo, franzindo a testa.  A 
minha opinio no conta nada?
Ela tinha a voz muito calma ao responder.  Nsj discutimos tudo o que devia ser discutido, 
Jeremy. Eu no vim aqui para brigar, e tambmno vim para deixar voc zangado. Vim apenas 
para me desculpar pela forma como o tratei 
ontem. E porque eu no queria que voc 
pensasse que esta semana no significou nadapara mim. Pois significou.
Suas palavras tiveram o efeito de golpes fsicos,
e ele precisou se esforar para falar.  Mas vocpretende acabar com tudo. 

 Eu pretendo tratar a situao de maneira 
realista. 
 E se eu dissesse que te amo.
Ela olhou para ele longamente antes de virar osolhos.  No diga isso. Ele deu um passo em suadireo.  Mas  verdade  ele disse.  Eu te 
amo. No posso evitar o que sinto.
Jeremy... por favor...
Ele foi se aproximando dela, sentindo que estavafinalmente derrubando as barreiras, sua coragem 
#
aumentando a cada passo.  Eu quero fazer isto
dar certo. 
No podemos.
 claro que podemos  ele disse, contornando


o carro.  Podemos dar um jeito. 
 No  ela disse, a voz ficando mais dura. Ela 
deu um passo atrs. 
 Por que no? 
 Porque eu vou me casar com Rodney, 
entendeu? 
Suas palavras o deixaram paralisado.  Do que 
que voc est falando?
Ontem  noite, depois do baile, ele passou em
casa e ns conversamos. Conversamos durante 
muito tempo. Ele  honesto, trabalhador, ele me
ama e est por aqui. Voc no.
Ele a olhou fixamente, atnito com a notcia.  
Eu no acredito em voc. 
Ela tambm o encarou, o rosto impassvel.  
Pode acreditar  ela falou. 
Jeremy no conseguiu dizer mais uma palavra;
ento ela lhe entregou o dirio e fez um breve
aceno com a mo em sinal de despedida, depois 
comeou a andar de costas olhando para ele, 
como fizera no dia em que se conheceram no
cemitrio. 
Adeus, Jeremy  ela disse, antes de se virar 
para entrar no carro.
Ainda paralisado com o choque, Jeremy ouviu o
barulho do motor do carro sendo acionado, e a 
viu olhar por cima do ombro enquanto dava a r
para sair. Ele correu e colocou as mos no cap,
tentando par-la. Mas quando o carro comeou a 
#
ir para a frente, deixou que seu dedos escorregassem 
pela superfcie lisa e finalmente deu umpasso para trs, enquanto o carro seguia para ocaminho de cascalho. 
Por um instante, Jeremy pensou ter visto o 
reflexo de lgrimas nos olhos dela. Mas quandoela olhou para a frente, teve certeza de que nunca 
mais a veria. 
Ele sentiu vontade de gritar, mandar que 
parasse. Queria dizer-lhe que ele poderia ficar,
que queria ficar; que se ir embora significasseperd-la, ento no valia a pena ir para casa.
Mas as palavras ficaram presas na garganta, e oautomvel se afastou lentamente, sumindo na 
entrada de carros. 
Em meio  neblina, Jeremy continuou de p,
olhando enquanto o carro se transformava numasombra e apenas as luzes da traseira ainda eramvisveis. Por fim, quando desapareceu 
completamente, restou apenas o barulho do 
motor, que tambm se perdeu na vegetao. 


CAPTULO 


#
VINTE 


O resto do dia passou como se ele o estivesseassistindo com os olhos de outra pessoa. Ferido ezangado, mal se lembrava de ter seguido Alvinpela estrada at Raleigh. 
Mais de uma vez ele 
olhou pelo espelho retrovisor, vendo o asfalto 
negro que ia ficando para trs, observando oscarros que vinham na mesma direo, esperandoque um deles fosse o de Lexie. Ela havia deixadoperfeitamente clara sua 
vontade de terminar orelacionamento; mesmo assim, ele sentia 
aumentar a adrenalina no sangue cada vez quevia um carro parecido com o dela, e at diminua 
a velocidade para ver melhor. Alvin, enquanto 
isso, ia aumentando a distncia entre eles. 
Jeremy sabia que devia prestar mais ateno estrada diante do pra-brisa; porm, passou amaior parte do tempo olhando para trs.
Depois de entregar o carro alugado, caminhoupelo terminal do aeroporto at o porto de 
embarque. Ao passar pelas lojas cheias de gente,
desviando das pessoas que se interpunham emseu caminho, voltou a pensar no motivo que terialevado Lexie a querer desistir de tudo o que 
haviam vivido juntos.
No avio, seus pensamentos foram interrompidosquando Alvin se sentou ao seu lado. 

 Obrigado por ter dado um jeitinho para que eu 
sentasse do seu lado  Alvin falou, sua voz 
derramando sarcasmo. Ele guardou a mala no 
bagageiro acima deles. 
 Ah?! 
#
 Os lugares. Eu pensei que voc iria avisar parareservarem o lugar ao seu lado quando fizesse o 
check-in. Ainda bem que eu perguntei quando fuipegar meu carto de embarque. Se no tivessefalado nada, iria sentar na ltima fileira. 
 Desculpe  Jeremy disse.  Acho que esqueci. 
 , eu acho que sim.  Alvin se atirou no 
assento ao lado de Jeremy e olhou para ele.  
Voc quer conversar a respeito?
Jeremy hesitou.  Eu no sei se h alguma coisa
sobre a qual possamos conversar. 
 Foi o que voc falou da outra vez. Mas, pelo
que sei, pode ser bom para voc. Voc no tem
acompanhado os programas de entrevistas ultimamente? 
No ouviu falar de coisas como 
expressar seus sentimentos, expurgar as suas 
culpas, coisas do tipo "procure e poder 
encontrar"? 
 Talvez mais tarde  ele resmungou. 
 Faa como quiser  Alvin falou.  Se no quer 
conversar, tudo bem. Vou aproveitar pra tirar 
uma soneca.  Ele se inclinou no assento e 
fechou os olhos. 
Jeremy ficou olhando pela janela, enquanto Alvinpassou praticamente toda a viagem dormindo. 
J dentro do txi que pegara no Aeroporto de LaGuardia, Jeremy foi bombardeado com o barulhoe o ritmo febril da cidade: homens de negcioscorrendo com suas pastas, 
mes puxandocrianas pequenas enquanto tentavam equilibrarsacolas de compras, o cheiro dos escapamentosdos carros, buzinas, sirenes de polcia. Era 

#
perfeitamente normal, o mundo no qual ele haviacrescido e que conhecia bem; o que o 
surpreendeu  que, ao olhar pela janela do carro,
tentando se adaptar  realidade da vida, ele 
pensou no Greenleaf e no silncio profundo quehavia encontrado ali. 
No prdio onde morava, sua caixa de 
correspondncia estava cheia de folhetos de 
propaganda e contas; pegou tudo e subiu as 
escadas. Dentro do apartamento, as coisas 
continuavam do jeito que deixara. Havia revistasespalhadas pelo cho da sala, seu escritrio 
estava bagunado como sempre, e ainda haviatrs garrafas de Heineken na geladeira. Depois 
de colocar a mala no quarto, ele abriu uma 
garrafa de cerveja e levou o computador e a 
mochila at a mesa. 
Estava com todas as informaes que havia 
reunido nos ltimos dias: suas anotaes e 
cpias de artigos, a cmera digital com as fotosque havia tirado do cemitrio, o mapa e o dirio.
Quando comeou a tirar as coisas da mochila, 
um conjunto de cartes-postais caiu sobre a 
mesa, e levou algum tempo para que ele se 
lembrasse de que os havia adquirido em seu 
primeiro dia na cidade. O primeiro carto era 
uma vista da cidade a partir do rio. Retirando oplstico, ele comeou a examin-los, um por um.
Encontrou cartes que mostravam a prefeiturada cidade, uma vista enevoada de uma garaazul, em p nos bancos de areia de Boone Creek,
e barcos se reunindo em uma tarde festiva. Na 

#
metade do pacote, ele parou diante de uma 
imagem da biblioteca.
Ele se sentou, imvel. Pensou em Lexie e, mais 
uma vez, percebeu o quanto a amava.
Mas isso tudo havia acabado, ele lembrou a si 
mesmo, e continuou a remexer nos cartes-
postais. Viu uma fotografia do Herbs 
estranhamente granulada e outra da cidade 
como era vista de Riker's Hill. O ltimo carto-
postal era uma foto da rea central da cidade deBoone Creek, e a ele parou de novo.
O carto-postal, uma reproduo de uma antigafoto preto-e-branco, exibia a imagem da cidadepor volta de 1950. No primeiro plano, estava oteatro, com freqentadores 
muito bem vestidosesperando na fila perto da bilheteria; ao fundo,
havia uma rvore de Natal decorada na pequenarea verde junto  avenida principal. Nas 
caladas, podiam ser vistos casais observando asjanelas decoradas com luzes e guirlandas, ou 
caminhando de mos dadas. Estudando a 
imagem, descobriu-se imaginando como seria acelebrao das festas em Boone Creek cinqentaanos atrs. No lugar de fachadas cobertas com 
tapumes, ele viu caladas ocupadas pormulheres usando estolas e homens de chapu,
com crianas apontando para um pingente feitode gelo, pendurado em um poste de luz.
Enquanto olhava, Jeremy comeou a pensar noprefeito Gherkin. O carto-postal retratava noapenas o estilo de vida de Boone Creek meiosculo atrs, mas tambm a vida 
que Gherkinesperava que a cidade tivesse novamente. Seria 

#
uma existencia parecida com a das pinturas deNorman Rockwell, mas com um jeitinho sulista.
Ele segurou o carto-postal na mo durante 
muito tempo, pensando em Lexie e imaginandomais uma vez o que iria fazer com aquela 
histria. 

A reunio com os produtores de televiso estavamarcada para tera-feira  tarde. Antes, Nate foi 
encontrar-se com Jeremy em seu restaurante 
favorito, o Smith and Wollensky. Nate era a 
animao em pessoa, emocionado por encontrarJeremy e aliviado por ele estar novamente na 
cidade, sob sua atenta vigilncia. Assim que se 
sentou, ele comeou a falar das imagens que 
Alvin havia feito, descrevendo-as como 
fantsticas, como "aquela casa mal-assombrada 
de Amityville, mas de verdade", e garantindo queos executivos da televiso iriam adorar. Na maior 
parte do tempo, Jeremy ficou em silncio, 
ouvindo enquanto Nate tagarelava. Mas quandoviu uma mulher de cabelos escuros saindo do 
restaurante, o comprimento do cabelo 
exatamente igual ao de Lexie, sentiu um n nagarganta e de repente se desculpou e disse queprecisava ir ao banheiro.
Quando voltou, Nate estava analisando o menu. 
Jeremy colocou adoante no ch gelado quehavia pedido. Ele tambm passou os olhos pelo 
menu e disse a Nate que estava pensando empedir o peixe-espada. Nate ergueu os olhos.
Mas este  um restaurante especializado emgrelhados  Nate protestou. 

#
Eu sei. Mas estou com vontade de comer 
alguma coisa mais leve. Nate colocou a mo 
instintivamente no meio de seu peito, enquantopensava se devia fazer a mesma coisa. Por fim,
franziu a testa ao colocar o menu de lado.  
Acho que vou pedir mesmo o bife de tira  ele 
disse.  Passei a manh inteira pensando emcomer um. Mas onde  que ns estvamos?
A reunio  Jeremy lembrou, e Nate se 
inclinou para a frente.
Ento no tem nenhum fantasma, certo?  
Nate falou.  Voc disse ao telefone que tinhavisto as luzes, mas tinha uma explicao muitoboa para elas. 

 No, no so fantasmas  Jeremy confirmou. 
 Ento o que ?
Jeremy pegou suas anotaes e passou os 
minutos seguintes contando a Nate tudo o quehavia encontrado, comeando com a lenda e 
descrevendo em detalhes todo o processo da 
descoberta. At ele conseguia perceber a 
monotonia do seu tom de voz. Enquanto 
escutava, Nate acenava continuamente com a 
cabea, mas quando Jeremy terminou de falar,
pde ver as rugas de preocupao se formandona testa de Nate. 
 A fbrica de papel?  ele disse.  Eu estava 
esperando alguma espcie de teste do governoou algo parecido. Como o teste de um novo aviomilitar ou coisa assim  ele fez uma pausa.  Etem certeza de que no 
 um trem militar? Opessoal do noticirio adora revelar qualquer coisa 
da rea militar. Programas de armas secretas, 
#
coisas do gnero. Ou talvez voc tenha ouvido 
alguma coisa que no consiga explicar. 
 Desculpe  Jeremy falou, a voz aptica.  
Trata-se apenas da luz do trem que ricocheteia.
No havia rumor algum.
Ao observar Nate, Jeremy conseguia ver os 
pensamentos em movimento. Quando se tratavade avaliar as matrias, o instinto de Nate, Jeremyj havia compreendido h muito tempo, era 
muito melhor do que o de seus editores.
No  muita coisa  ele disse.  Voc 
descobriu qual das verses da lenda seria a 
verdadeira? Talvez se pudesse fazer alguma 
coisa sob o ngulo da questo racial.
Jeremy balanou a cabea.  Eu no tive 
condies de confirmar nem mesmo a existncia 
de Hettie Doubilet. Tirando essas lendas, no 
encontrei qualquer registro a respeito dela emqualquer documento oficial. E Watts Landing 
acabou faz tempo.
Olhe, eu no quero bancar o chato, mas vocprecisa dar uma realada na mercadoria, se quer 
mesmo conseguir esse trabalho. Se voc no 
mostrar algum entusiasmo, eles tambm no voficar muito animados. Estou certo ou estou certo? 
 claro que eu estou certo. Mas vamos l, sejahonesto comigo. Voc descobriu mais alguma 
coisa, no descobriu? 
Do que  que voc est falando?
Alvin  Nate falou.  Quando ele passou paradeixar as fitas, eu lhe perguntei a respeito dessahistria, s para sentir a opinio dele, e ele falou 

#
que voc havia descoberto mais alguma coisa eque era interessante.
A expresso de Jeremy no se alterou.  Ele 
disse isso? 
Palavras dele, no minhas  Nate falou, 
parecendo satisfeito consigo mesmo.  Mas ele 
no me disse o que era. Ele falou que s voc poderia 
contar. O que deve significar que  
importante.
Olhando para Nate, ele quase conseguia sentir odirio fazendo um buraco atravs do tecido da 
mochila. Sobre a mesa, Nate brincava com seu 
garfo, virando-o para cima e para baixo, 
esperando. 

 Muito bem  Jeremy comeou, sabendo que 
seu tempo para tomar uma deciso tinha 
finalmente acabado. 
Como ele tivesse parado de falar, Nate se 
inclinou para a frente.  Ento? 
Naquela noite, depois de terminada a reunio,
Jeremy se sentou sozinho em seu apartamento,
observando distraidamente o mundo l fora. 
Tinha comeado a nevar, e os flocos de neve 
formavam uma massa hipntica, que girava sob

o brilho das luzes da rua. 
A reunio havia comeado bem; Nate instigara 
os produtores de tal forma que eles ficaram 
paralisados com as imagens que viram. Nate 
havia feito o melhor que podia. Depois disso, 
Jeremy lhes falou da lenda, observando seu 
interesse crescente enquanto falava de Hettie 
Doubilet, e da maneira cuidadosa com que 
#
conduzira a investigao. Ele intercalou a histriade Boone Creek com os outros trabalhos 
investigativos envolvendo o mistrio, e mais de 
uma vez reparou que os executivos se 
entreolhavam, certamente tentando imaginar 
como iriam encaix-lo no programa.
Mas quando se sentou sozinho, mais tarde 
naquela noite, com o dirio no colo, ele sabia queno iria trabalhar com eles. Sua matria  o 
mistrio do cemitrio de Boone Creek  estava 
mais para um romance excitante com final fraco.
A soluo era muito simples, muito conveniente, 
e ele sentiu o desapontamento deles no 
momento em que se despediram. Nate havia 
prometido manter contato, assim como eles, masJeremy sabia que no haveria mais telefonemaalgum.
Quanto ao dirio, ele no contaria a ningum,
como no tinha contado para Nate antes.
Mais tarde, fez um telefonema para o prefeitoGherkin. A proposta de Jeremy era simples: 
Boone Creek no iria mais prometer aos 
visitantes que participassem do Passeio s CasasHistricas uma chance de ver os fantasmas no 
cemitrio. A palavra "mal-assombrado" seria 
retirada do folheto, assim como qualquer 
afirmao de que as luzes tinham qualquer 
relao com fenmenos sobrenaturais. Em vez 
disso, a histria da lenda seria contada na 
ntegra, e os visitantes poderiam ser informadosde que teriam a chance de testemunhar algo 
espetacular. Embora alguns turistas pudessemachar que as luzes tinham alguma ligao com 

#
os fantasmas da lenda, os voluntrios que 
estivessem servindo de guias no passeio 
deveriam ser instrudos a jamais fazer tal 
sugesto. Finalmente, Jeremy pediu ao prefeitoque retirasse as camisetas e as canecas da lojade departamentos do centro da cidade.
Em troca, Jeremy prometeu que jamais iria falarqualquer coisa a respeito do Cemitrio de CedarCreek na televiso, em sua coluna, ou em 
qualquer artigo. Ele no revelaria o plano do 
prefeito para transformar a cidade em uma 
verso fantasmagrica de Roswell, no Novo 
Mxico. E tambm no contaria a ningum dacidade que o prefeito sabia de toda a verdadedesde o comeo. 
O prefeito Gherkin aceitou a proposta. Depois dedesligar, Jeremy telefonou para Alvin, que jurouguardar segredo. 


CAPTULO 

VINTE E UM 

#
Nos dias seguintes  malfadada reunio com osprodutores, Jeremy concentrou sua ateno natentativa de retomar sua rotina anterior. Ele foi 
conversar com seu editor da Scientific American. 
Consciente de que estava atrasado em relaoao prazo para entregar alguma matria para arevista, e lembrando vagamente o que Nate 
havia sugerido, ele concordou em colocar em suacoluna um texto sobre os possveis perigos de 
uma dieta baseada no baixo consumo de 
carboidratos. Passou horas na internet, 
pesquisando em inmeros jornais, procurandopor outras matrias que pudessem ser de alguminteresse. Ficou desapontado ao saber queClausen  com a ajuda de uma grande 
empresada rea de publicidade, em Nova Iorque  haviaconseguido acalmar a tempestade causada pelaparticipao de Jeremy no Primetime e ainda 
estava negociando seu prprio programa de 
televiso. A ironia da situao no escapou a 
Jeremy, e ele passou o resto do dia lamentando aingenuidade dos crdulos.
Pouco a pouco, ele estava fazendo as coisas 
entrarem nos eixos novamente. Ou, pelo menos, 
pensou que estivesse. Embora ainda pensasse 
em Lexie com freqncia, imaginando se ela 
estaria muito ocupada preparando seu 
casamento com Rodney, fez o possvel paraafastar esses pensamentos de sua cabea. Eramdolorosos demais. Em vez disso, procurou fazerum balano da vida que havia 
vivido antes deconhecer Lexie. Na sexta-feira  noite, foi a uma 
boate. No deu muito certo. Em vez de se 

#
enturmar e tentar atrair a ateno da mulher queestava mais prxima, ele sentou no balco dobar e passou a maior parte da noite acariciandouma nica garrafa de cerveja, 
saindo muito antesdo que sairia normalmente. No dia seguinte, foivisitar sua famlia no Queens, mas ao ver seus 
irmos com as mulheres, brincando com as 
crianas, voltou a desejar uma coisa que para eleseria impossvel.
Na segunda de manh, quando se aproximavaoutra tempestade de inverno, ele se convenceude que realmente estava tudo acabado. Ela nohavia telefonado e nem ele. s 
vezes, tinha a 
impresso de que aqueles poucos dias passados 
com Lexie no tinham sido outra coisa seno 
uma iluso, como a que havia investigado. Nopodia ter sido real, dizia a si mesmo, mas ao se 
sentar diante da mesa, via-se remexendo nos 
cartes-postais novamente, at finalmente 
pregar na parede o da biblioteca.
Ele pediu o almoo do restaurante chins queficava perto de sua casa pela terceira vez 
naquela semana, e ento se encostou na cadeira,
pensando nas escolhas que havia feito. Por uminstante, imaginou se Lexie tambm estaria 
comendo naquela mesma hora, mas esse 
pensamento foi interrompido pelo barulho do 
interfone. 
Ele pegou a carteira e andou at a porta. Em 
meio  esttica do aparelho, ouviu uma voz 
feminina. 
- A porta est aberta. Pode subir. 

#
Ele remexeu as notas, pegou uma de vinte, evirou a maaneta no momento em que ouviu abatida. 
Hoje foi rpido  ele disse.  Normalmente, 
demora... 
Sua voz ficou no ar quando abriu a porta e viuquem estava diante dele.
No silncio, ele e sua visitante ficaram se 
olhando, at que Dris abriu finalmente um 
sorriso. 
Surpresa!!!  ela disse.
Ele piscou.  Dris?
Ela sacudiu a neve de seus sapatos.  Est 
caindo uma nevasca l fora  ela falou , e est 
to frio que eu no tinha certeza se iria conseguirchegar at aqui. O txi veio escorregando por 
todo o caminho. 
Ele continuou olhando para ela, tentando 
entender sua visita repentina.
Ela tirou a bolsa do ombro e olhou-o nos olhos.  
Voc vai me deixar aqui, em p no corredor, ouvai me convidar a entrar? 
Sim... claro. Por favor...  ele falou, indicando-
lhe que entrasse.
Dris passou por ele e colocou sua bolsa sobre amesinha de canto que estava junto da porta.
Examinou o apartamento com os olhos e tirou o 
casaco.   agradvel  ela disse, caminhando 
pela sala.   maior do que eu imaginava. Mas 
essas escadas me mataram. Voc realmente 
precisa mandar consertar o elevador.
... eu sei. 

#
Ela parou junto  janela.  Mas a cidade  
bonita, mesmo com a tempestade. E to... 
movimentada. Posso entender porque algumas 
pessoas gostariam de viver aqui. 

 O que voc est fazendo aqui? 
 Vim falar com voc,  claro. 
 A respeito de Lexie?
Ela no respondeu imediatamente. Em vez disso,
suspirou, e ento falou calmamente.  Entre 
outras coisas.  Ao perceber um vinco se formarna testa de Jeremy, ela sacudiu os ombros.  Poracaso voc teria um ch? Ainda estou com um 
pouco de frio.
Mas... 
Temos muito o que conversar  ela disse, a 
voz mantendo-se firme.  Sei que voc tem 
muitas perguntas, mas vai ser uma conversa 
longa. Por isso, que tal um ch?
Jeremy foi at a pequena cozinha e esquentouuma xcara de gua no micro-ondas. Depois decolocar um saquinho de ch, levou a xcara paraa sala, onde encontrou Dris 
sentada no sof. Ele 
lhe deu a xcara, e ela tomou um gole quase queimediatamente. 
 Desculpe por no ter telefonado. Sei quedeveria ter feito isso. Voc deve estar assustado. 
Mas eu queria falar com voc pessoalmente. 
 Como voc soube onde me encontrar? 
 Falei com seu amigo Alvin. Ele me disse. 
 Voc falou com Alvin? 
 Ontem  ela disse.  Ele deixou o nmero do 
telefone com Rachel, por isso telefonei para ele, 
e ele foi muito gentil me fornecendo seu 
#
endereo. Gostaria de ter tido a oportunidade deconhec-lo quando esteve em Boone Creek. Eleme pareceu um perfeito cavalheiro.
Jeremy sentiu que a conversa trivial era sinal demuito nervosismo, por isso no disse nada. Sabiaque ela estava apenas tentando achar as palavras 
para dizer o que quer que tivesse para dizer.
O interfone tocou novamente e Dris olhou paraa porta.   meu almoo  ele disse, aborrecidocom a interrupo.  Espere s um minuto, estbem? 
Ele se levantou, atendeu o interfone e apertou oboto para abrir a porta; enquanto esperava, viuque Dris passava a mo pela blusa para ficarmais arrumada. Um minuto 
depois, ela repetiu ogesto, e por algum motivo o fato de ela estar 
nervosa ajudou-o a controlar seu prprio 
nervosismo. Ele respirou profundamente e saiu 
para o corredor, encontrando o entregador no 
alto da escada. 
Jeremy voltou e estava prestes a colocar o 
pacote com a comida no balco da cozinha, 
quando ouviu a voz de Dris s suas costas. 

 O que voc pediu? 
 Carne com brcolis e arroz com carne de porco
frita. 
 O cheiro  bom. 
O jeito como ela disse aquilo, com toda a 
certeza, foi o que fez com que ele sorrisse.  
Que tal se eu preparasse dois pratos para ns
comermos? 
Eu no quero tirar sua comida. 
#
Aqui tem bastante para ns dois  ele disse, 
alcanando dois pratos.  Alm disso, no foi 
voc quem me disse que gostava de conversardiante de uma boa refeio? 
Ele dividiu a comida, depois a trouxe para a 
mesa; Dris sentou-se perto dele.
Mais uma vez, ele decidiu que deveria deix-lafalar primeiro, e eles comeram em silncio 
durante alguns minutos.
Isso est delicioso  ela disse finalmente.  
Eu no comi nada de manh, e acho que nopercebi o quanto estava com fome. Foi uma viagem 
e tanto para chegar at aqui. Tive de sairquando amanhecia e meu vo atrasou. O temposegurou todos os vos, e eu cheguei a pensar 
que nunca sairia de l. Eu tambm estava 
nervosa. Foi a primeira vez na vida que andei deavio. 
Srio? 
Nunca tive motivo para isso. Lexie me pediupara vir visit-la quando morou aqui, mas o meumarido no estava bem de sade e nunca tive 
muita vontade de fazer isso. E a ela voltou. Ela 
estava um trapo. Eu sei que voc deve achar queela  forte e durona, mas isso  exatamente o 
que ela quer que as pessoas pensem. No fundo,
ela  como todo mundo, e ficou muito abalada 
com o que aconteceu com Avery.  Dris 
hesitou.  Ela lhe falou a respeito dele, no 
falou? 
Sim. 
Ela sofreu em silncio, manteve a fachada de 
forte, mas eu sei o quanto ficou abalada. No 

#
havia nada que eu pudesse fazer por ela. Ela se 
manteve ocupada para esconder, andando de 
um lado para outro, conversando com todo 
mundo e tentando garantir que tivessem a 
impresso de que ela estava bem. Voc no 
imagina o quanto eu me senti impotente. 

 Por que est me contando isso? 
 Porque ela est fazendo a mesma coisa agora.
Jeremy mexeu na comida com o garfo.  No fuieu quem terminou tudo, Dris. 
 Eu sei disso tambm. 
 Ento por que conversar comigo? 
 Lexie no me ouve. 
Apesar da tenso, Jeremy riu.  Acho que isso
significa que voc me acha um galinha morta. 
 No  ela disse.  Mas o que espero  que
voc no seja to teimoso quanto ela. 
 Mesmo que eu estivesse disposto a tentar de
novo, ainda depende dela.
Dris o olhou atentamente.  Voc realmente 
acredita nisso? 
Eu tentei falar com ela. Eu disse que queria 
encontrar um modo de fazer nosso 
relacionamento dar certo. 
Em vez de responder a esse comentrio, Dris
perguntou:  Voc j foi casado, no foi?
Muito tempo atrs. Lexie lhe contou isso?
No  ela disse.  Eu sei disso desde a 
primeira vez que conversamos.
Habilidades medinicas de novo. 
No, no  nada disso. Tem mais a ver com a 
maneira como voc interage com as mulheres.
Voc demonstra um tipo de confiana que muitas 
#
mulheres acham atraente. Ao mesmo tempo, tive 
a sensao de que voc entende o que as 
mulheres querem, mas por algum motivo vocno quer se entregar completamente.
E o que  que isso tem a ver com a nossaconversa? 
As mulheres gostam do conto de fadas. Nemtodas as mulheres,  claro, mas a maioria das 
mulheres cresce sonhando com o tipo de homemque arriscaria tudo por elas, mesmo sabendo quepoderia se machucar.  Ela fez uma pausa.  
Coisas como a que voc fez quando foi atrs deLexie na praia. Foi por isso que ela se apaixonoupor voc. 

 Ela no est apaixonada por mim. 
 Sim, ela est. 
Jeremy abriu a boca para negar, mas no 
conseguiu. Em vez disso, sacudiu a cabea.  
Isso no importa mais, de qualquer forma. Ela vaicasar com Rodney.
Dris o encarou.  No, no vai. Mas antes quepense que esse foi o jeito que ela encontrou paraafast-lo, precisa saber que ela s disse isso 
porque achou que assim no ficaria rolando na 
cama acordada todas as noites, pensando porque voc nunca voltou para ela, caso realmentetivesse ido embora.  Ela parou de novo, 
deixando que ele assimilasse aquilo.  Alm 
disso, voc no acreditou mesmo nessa histria, 
acreditou? 
A maneira de Dris falar lembrou-o de qual tinhasido sua primeira reao, quando Lexie lhe falarapela primeira vez a respeito de Rodney. No, ele 
#
compreendeu subitamente, ele no havia 
acreditado. 
Dris esticou o brao por cima da mesa e pegousua mo. 
Voc  um bom homem, Jeremy. E merecia 
saber a verdade, foi por isso que vim at aqui.
Ela se levantou.  Preciso pegar o avio. Se novoltar esta noite, Lexie vai saber que aconteceualguma coisa. Eu prefiro que ela no saiba queeu vim at aqui. 

  uma viagem e tanto. Voc podia 
simplesmente ter telefonado. 
 Eu sei. Mas precisava ver seu rosto. 
 Por qu?
Queria saber se voc tambm estava 
apaixonado por ela.  Ela deu um tapinha com a
mo no ombro dele antes de voltar para a sala
de estar, onde pegou sua bolsa. 
 Dris? Jeremy chamou.
Ela se virou.  Sim? 
 Voc encontrou a resposta que esperava 
encontrar? 
Ela sorriu.  A verdadeira questo  se voc 
encontrou. 
#
CAPTULO 

VINTE E DOIS 

Jeremy ficou andando pela sala. Precisava 
pensar, avaliar suas opes, para saber o quefazer. 
Passou a mo pelo cabelo antes de sacudir a 
cabea. No havia tempo para a indeciso. No 
agora, sabendo o que sabia. Precisava voltar. 
Pegar o primeiro avio e ir ao encontro dela 
novamente. Falar com ela, tentar convenc-la de 
que nunca havia dito algo to srio em toda asua vida, como quando disse que a amava. Dizer-
lhe que no conseguia imaginar a vida sem ela.
Dizer-lhe que faria o que fosse preciso para queeles pudessem ficar juntos.
Antes mesmo que Dris tivesse feito sinal paraum txi ao chegar na rua, ele estava pegando notelefone e ligando para a companhia area.
Foi deixado na espera durante o que pareceu 
uma eternidade, ficando mais irritado a cada 
minuto que passava, at finalmente conseguir 
falar com um atendente. 
O ltimo vo para Raleigh iria partir em uma 
hora e meia. Mesmo com tempo bom, s a 
viagem de txi tomaria pelo menos meia horadesse tempo, mas ou pegava esse vo ou teriade esperar at o dia seguinte.
Ele tinha de andar depressa. Pegando uma 
mochila no closet, colocou duas calas jeans,
algumas camisetas, meias e cuecas. Vestiu suajaqueta e enfiou o celular no bolso. Pegou o 

#
carregador que estava em cima da mesa. 
Laptop? No, no iria precisar dele. Que mais?
Ah, sim. Correu para o banheiro e conferiu se a 
ncessaire tinha tudo o que precisava. Lembroudo barbeador e da escova de dentes. Apagou asluzes, desligou o computador e pegou sua 
carteira. Deu uma examinada e verificou que 
tinha dinheiro suficiente para chegar at o 
aeroporto  era o que bastava, por enquanto. 
Com o canto do olho, viu o dirio de Owen 
Gherkin meio escondido embaixo de uma pilhade papis. Enfiou o dirio e a ncessaire na 
mochila, tentou pensar se precisava de mais 
alguma coisa, mas desistiu. No tinha tempo 
para isso. Pegou as chaves na mesa de cantoperto da porta, deu uma ltima olhada em volta,
ento trancou a porta e desceu as escadas.
Fez sinal para um txi, disse ao motorista queestava com pressa, e sentou no banco de trs,
suspirando profundamente, esperando que 
acontecesse o melhor. Dris estava certa: por 
causa da neve, o trnsito estava pssimo, e 
quando pararam sobre a ponte que cruza o EastRiver, ele praguejou baixinho. Para facilitar a 
passagem pela segurana do aeroporto, tirou ocinto e guardou-o na mochila, junto com suas 
chaves. O motorista olhou-o pelo espelhoretrovisor. Sua expresso era de tdio, e emboradirigisse com rapidez, no demonstrava qualquernoo de urgncia. Jeremy 
mordeu a lngua, 
sabia que no adiantava nada irrit-lo.
Os minutos passavam. A neve, que havia paradotemporariamente, voltou a cair, diminuindo ainda 

#
mais a visibilidade. Quarenta e cinco minutos 
para o vo.
O trnsito piorou de novo, e Jeremy soltou outrosuspiro enquanto olhava para o relgio 
novamente. Trinta minutos para o vo. Dez 
minutos depois, chegaram na sada que levavapara o aeroporto e seguiram at o terminal.
Finalmente. 
No instante em que o txi parou, ele abriu a 
porta e atirou duas notas de vinte para o 
motorista. No interior do terminal, parou por 
apenas um segundo diante do painel queindicava as partidas, para descobrir o nmero doporto de embarque. Pegou uma fila 
misericordiosamente pequena para obter seu 
carto eletrnico, e ento se dirigiu  rea de 
segurana. Sentiu o corao desfalecer quandoviu o tamanho das filas, mas achou uma brecha 
quando abriram uma nova. As pessoas queestavam esperando comearam a mudar para afila nova; na corrida, Jeremy passou por trs 
delas. 
O avio iria fechar as portas em menos de dezminutos, e depois de passar pela segurana,
Jeremy comeou a andar mais depressa, e depoiscorreu. Abrindo caminho entre as pessoas, pegoua carteira de motorista e foi com ela na mo 
contando os portes.
Respirava com dificuldade quando chegou no 
porto de embarque e sentiu que estava 
comeando a transpirar.
Consegui?  ele perguntou, ofegante. 

#
Somente porque tivemos um pequeno atraso

 disse a mulher do balco, digitando no tecladodo computador. A atendente que estava perto daporta olhou para ele.
Depois de pegar seu carto, a atendente fechoua porta assim que Jeremy comeou a descer arampa. Ele ainda estava tentando recuperar o flego 
quando entrou no avio.
Estaremos deixando o porto daqui a pouco. Osenhor  o ltimo, por isso pode escolher 
qualquer lugar  disse a comissria de bordo, aoabrir passagem para ele.
Obrigado.
Ele seguiu pelo corredor, atnito por ter 
conseguido, e notou um assento vazio perto de 
uma janela no meio do corredor. Estava 
guardando sua mochila no maleiro quando 
avistou Dris, trs fileiras atrs dele. 
Devolvendo-lhe o olhar, ela no disse nada; 
apenas sorriu. 
O avio aterrissou em Raleigh s trs e meia, e 
Jeremy caminhou ao lado de Dris pelo terminal.
Perto da sada, ele fez um sinal por cima do 
ombro. 
Preciso alugar um carro  ele falou.
Terei o maior prazer em lev-lo  ela disse. 
Estou indo para aqueles lados.
Quando viu sua hesitao, ela sorriu.  E vou 
deixar que v dirigindo  ela disse.
Ele foi o tempo todo acima de oitenta, e com isso
conseguiu reduzir quarenta e cinco minutos da
viagem de trs horas; estava anoitecendo 


#
quando chegaram nos arredores da cidade. Comlembranas aleatrias de Lexie flutuando em sua 
mente, ele no havia percebido a passagem dotempo, e tambm no lembraria muita coisa dopercurso. Ele tentou pensar no que queria dizer etambm imaginar o que ela 
poderia responder,
mas percebeu que no tinha idia do que poderiaacontecer. No importava. Mesmo que estivessevoando s por voar, no conseguia imaginar-sefazendo qualquer outra coisa.
As ruas de Boone Creek estavam tranqilasquando eles chegaram no centro da cidade. Drisvirou-se para ele.
Voc se importa de me deixar em casa?
Ele a olhou de relance, percebendo que mal 
haviam se falado desde que haviam deixado oaeroporto. Com a mente fixa em Lexie, ele nemhavia percebido.
Voc no vai precisar do carro?
No at amanh de manh. Alm disso, est 
muito frio pra ficar andando a p esta noite.
Seguindo as instrues de Dris, Jeremy chegouna casa dela e parou o carro. Diante da pequenacasa pintada de branco, reparou no jornal jogadona porta. A lua crescente 
aparecia bem acima dalinha do telhado, e, sob a pouca claridade, eledeu com sua imagem no espelho retrovisor. Sabendo 
que dali a poucos minutos iria encontrar-
se com Lexie, passou a mo pelos cabelos.
Dris percebeu seu gesto de nervosismo e deu-
lhe um tapinha na perna.  Vai dar tudo certo 
ela disse.  Confie em mim. 

#
Jeremy forou um sorriso, tentando ocultar suas
dvidas.  Algum conselho de ltima hora?
No  ela falou, mexendo a cabea.  Alm 
disso, voc j se apossou do que eu tinha para
dar. Voc est aqui, no est?
Jeremy assentiu com a cabea, e Dris se 
inclinou no banco para dar-lhe um beijo no rosto.
Seja bem-vindo ao lar  ela sussurrou. 


Jeremy manobrou o carro, cantando os pneus 
quando largou em direo  biblioteca. Lexie 
havia dito que a biblioteca ficava aberta para as
pessoas que apareciam depois do trabalho, no
havia? Em uma de suas conversas? Sim, ele 
pensou, tinha certeza que sim, s no conseguia
se lembrar quando. Tinha sido no dia em que se
conheceram? No dia seguinte? Ele suspirou,
reconhecendo que a necessidade compulsiva de
relembrar a histria deles era apenas uma 
tentativa para acalmar os nervos. Deveria ter 
vindo? Ela ficaria feliz em v-lo? Toda a sua 
confiana ia evaporando  medida que se 
aproximava da biblioteca.
O centro da cidade surgiu nitidamente  sua 
frente, contrastando com as imagens indistintas,
nebulosas, de que se lembrava. Ele passou pelo
Lukilu e viu meia dzia de carros estacionados na 
frente, viu tambm outro grupo de carros perto
da pizzaria. Um grupo de adolescentes matava o
tempo na esquina, e se a princpio achou que
estivessem fumando, logo percebeu que era 
apenas o ar quente da respirao em contato
com o ar frio. 


#
Ele virou de novo; do outro lado do cruzamento, 
viu as luzes da biblioteca brilhando nos dois 
andares. Estacionou o carro e saiu para o frio danoite. Respirando profundamente, caminhou a 
passos largos at a porta da frente e a abriu.
No havia ningum na recepo, ento ele olhoupelas portas de vidro que davam para o interiorda rea que ficava no trreo. Nenhum sinal de 
Lexie entre os freqentadores. Ele passounovamente os olhos pela sala para ter certeza.
Imaginando que Lexie estivesse em seu 
escritrio ou na sala principal, ele correu pelocorredor e subiu as escadas, olhando de novo ao 
redor, antes de se dirigir para o escritrio. De 
longe, percebeu que a porta estava fechada, semnenhuma luz saindo pela fresta de baixo. Ele foiconferir, mas a porta estava trancada, ento 
procurou nos outros corredores enquanto seguiana direo da sala de livros raros. 
Trancada. 
Ele andou em ziguezague pelo salo principal,
caminhando apressadamente, ignorando os 
olhares das pessoas que sem dvida o estavamreconhecendo, e depois desceu as escadas 
correndo. Ao dirigir-se para a porta da frente, 
percebeu que deveria ter verificado se o carro deLexie estava por ali, e ento ficou pensando porque no estaria.
Nervosismo, respondeu uma voz dentro de suacabea. 
No importava. Se ela no estava ali, 
provavelmente estava em casa. 

#
Uma das voluntrias mais velhas apareceu
carregando uma poro de livros, e seus olhos
brilharam quando o viram aproximar-se.
Sr. Marsh!  ela falou alto com a voz 
melodiosa.  Eu no esperava v-lo novamente!
O que est fazendo por aqui?
Estou procurando por Lexie.
Ela saiu h mais ou menos uma hora. Acho que
estava indo para a casa de Dris, para ver se
estava tudo bem. Sei que ela j havia telefonado,
mas Dris no estava atendendo. 
Jeremy manteve sua expresso inalterada.   
mesmo? 


 E Dris no estava no Herbs, pelo que sei. 
Tentei dizer a Lexie que Dris podia ter sado
para dar uma volta, mas voc sabe como Lexie
fica preocupada. Parece uma mezona. s vezes
Dris fica maluca, mas sabe que esse  seu jeito
de mostrar que se importa.  Ela fez uma pausa,
percebendo, subitamente, que Jeremy no havia
dado qualquer explicao para o fato de ter 
reaparecido. Mas antes que pudesse dizer 
qualquer outra coisa, Jeremy falou. 
 Escute, eu adoraria ficar e conversar um 
pouco, mas eu realmente preciso falar com 
Lexie. 
 Sobre aquela histria de novo? Talvez eu possa
ajudar. Tenho a chave da sala de livros raros, se
precisar. 
 No, no  preciso. Mas, obrigado.
Ele j havia passado por ela quando ouviu sua
voz pelas costas. 
#
 Se ela voltar, quer que eu lhe diga que esteveaqui? 
 No  ele falou por cima do ombro.   uma 
surpresa.
Ele tremeu quando saiu de novo no frio e correu 
para o carro. Pegou a estrada principal, fez a 
curva no sentido dos arredores da cidade, e 
observou o cu que estava ainda mais escuro.
Por cima das rvores, podia ver as estrelas, 
milhares delas. Milhes. Por um instante, 
imaginou como seria v-las do alto de Riker's 
Hill. 
Ele entrou na rua de Lexie, viu a casa, e sentiu 
um vazio ao perceber que no havia luzes acesasno interior ou na entrada de carro. Relutando em 
acreditar no que viam seus olhos, passou pelacasa lentamente, esperando estar enganado.
Se no estava na biblioteca, se no estava em 
casa, onde estaria? 
Ser que tinha passado por ele quando estavaindo para a casa de Dris? Ele tentou pensar.
Teria passado por algum? No que lembrasse, 
mas realmente no tinha prestado ateno. 
Estava certo, porm, de que teria reconhecidoseu carro, de qualquer forma.
Decidiu voltar at a casa de Dris s para ter 
certeza, e  cruzando a cidade em alta 
velocidade enquanto procurava o carro dela  
chegou  casinha branca.
Precisou apenas de uma olhada rpida para verque Dris j tinha ido para a cama.
Mesmo assim, parou diante da casa, tentando 
imaginar para onde Lexie poderia ter ido. A 
#
cidade no era to grande e as opes eram 
poucas. Ele pensou imediatamente no Herbs, 
mas se lembrou de que no ficava aberto  noite.
No tinha visto seu carro no Lukilu  ou em 
qualquer outro lugar da cidade. Calculou que ela
talvez estivesse fazendo alguma coisa rotineira:
compras na mercearia, devolvendo uma fita de
vdeo ou pegando a roupa na lavanderia... ou... 
ou... 
E ento ele compreendeu onde  que ela estava. 


Jeremy agarrou o volante, procurando fortalecer-
se para o final de sua jornada. Sentia um aperto
no peito e podia perceber que sua respirao estava 
acelerada, igual ao que havia sentido 
naquela tarde, quando ocupara seu lugar no 
avio. Era difcil acreditar que havia comeado o
dia em Nova Iorque pensando que nunca mais
iria ver Lexie de novo, e agora ali estava ele em
Boone Creek, preparando-se para fazer o que ele
achava que fosse impossvel. Ele dirigiu pelas 
estradas escuras, ainda nervoso em relao  
reao de Lexie quando o visse.
O luar tingia o cemitrio com uma cor quase
azulada, e as lpides pareciam brilhar como se
estivessem sendo iluminadas por uma luz fraca
que vinha do interior. A cerca de ferro batido 
dava um toque fantasmagrico ao cenrio 
etreo. Quando Jeremy se aproximou da entrada
do cemitrio, viu o carro de Lexie parado perto
do porto.
Estacionou atrs dele. Desceu do carro de Dris 
ouvindo o barulho do motor desaquecendo. 


#
Folhas secas faziam barulho sob seus ps e elerespirou profundamente. Colocou a palma da 
mo sobre o cap do carro de Lexie e sentiu ocalor irradiando atravs de sua mo. Ela havia 
chegado h pouco tempo.
Ele atravessou o porto e viu a magnlia, suasfolhas pretas e brilhantes, como se tivessem sidomergulhadas em leo. Pulou um galho e se lembrou 
da dificuldade que teve para andar pelo 
cemitrio naquela noite nebulosa com Lexie, 
quando ele no conseguia enxergarabsolutamente nada. Quando j estava no meiodo cemitrio, ouviu o barulho de uma coruja, 
escondida no meio das rvores. 
Saiu do caminho principal e contornou uma 
cripta caindo aos pedaos, caminhando 
lentamente para fazer o mnimo de barulho, 
acompanhando a ligeira inclinao. Acima dele, alua brilhava no cu como se estivesse pregadaem veludo escuro. Ele pensou ter escutado ummurmrio; e quando parou 
para ouvir, sentiu 
uma injeo de adrenalina acelerar o batimentocardaco. Ele tinha vindo para encontr-la, para 
encontrar a si mesmo, e seu corpo o estava 
preparando para o que viria em seguida. Ele 
subiu pela pequena colina, sabendo que os paisde Lexie estavam enterrados do outro lado. 
J no era sem tempo. Iria ver Lexie num minutoe ela o veria. Iriam acertar tudo de uma vez portodas, exatamente ali onde tudo havia 
comeado. 
Lexie estava no lugar em que ele havia 
imaginado que estaria, banhada por uma luz 

#
prateada. Seu rosto tinha uma expresso aberta,
quase melanclica, e seus olhos eram de umaluminosa cor violeta. Estava preparada para 
enfrentar o frio  um cachecol em volta do 
pescoo, luvas pretas que faziam suas mos 
parecerem apenas sombras.
Falava com suavidade, mas ele no conseguiaentender suas palavras. Enquanto estava ali 
observando, ela parou de repente e ergueu o 
olhar. Por um momento que pareceuinterminvel, seus olhares se encontraram. 
Lexie parecia congelada, enquanto sustentava 
seu olhar. Finalmente, desviou os olhos. Ela 
voltou a olhar para os tmulos, e Jeremypercebeu que no tinha idia do que ela poderia 
estar pensando. Subitamente, ele sentiu quetinha sido um erro vir at ali. Ela no o queria ali,
ela no o queria de modo algum. Sentiu um 
aperto na garganta, e estava prestes a se virarquando percebeu que Lexie tinha um leve sorriso 
no rosto. 
Voc sabe que no devia encarar as pessoasdesse jeito  ela disse.  As mulheres gostamdos homens que sabem ser sutis.
O alvio tomou conta de seu corpo, e ele sorriu aodar um passo para a frente. Quando chegouperto o bastante para toc-la, estendeu o brao ecolocou a mo em suas 
costas. Ela no se 
afastou; em vez disso, encostou-se nele. Dris 
estava certa. 
Ele estava em casa. 
No  ele sussurrou em seu cabelo , as 
mulheres gostam de homens que as sigam at o 

#
fim do mundo, ou at Boone Creek, se for 
preciso.
Puxando-a mais para perto, ele levantou seu 
rosto e a beijou, sabendo que nunca mais a 
deixaria. 


EPLOGO 

Jeremy e Lexie estavam sentados, abraados 
debaixo de uma coberta, olhando para a cidade,
abaixo de onde estavam. Era uma quinta-feira noite, trs dias depois do retorno de Jeremy aBoone Creek. No meio das bruxuleantes luzes 
brancas e amarelas da cidade, intercaladas 
ocasionalmente por verdes e vermelhas, Jeremypodia ver a fumaa saindo das chamins. A guado rio corria preta como se fosse carvo lquido,
espelhando o cu. Alm dele, as luzes da fbricade papel se espalhavam em todas as direes,
iluminando a ponte sobre a ferrovia.
Nos ltimos dias, Lexie e ele haviam passadomuito tempo conversando. Ela se desculpou porter mentido a respeito de Rodney e confessouque sair dirigindo enquanto 
Jeremy ficava parado 

#
na entrada de cascalho do Greenleaf tinha sido 
uma das coisas mais difceis que ela j haviafeito. Ela revelou o mistrio da semana em queestiveram separados, sentimento bem 
compreendido por Jeremy. De sua parte, ele 
contou que Nate no havia ficado muito animadocom sua mudana, mas seu editor da Scientific 
American estava disposto a permitir que ele 
enviasse seus trabalhos de Boone Creek, desde 
que aparecesse em Nova Iorque regularmente.
Entretanto, Jeremy no contou que Dris tinhaido visit-lo em Nova Iorque; em sua segundanoite na cidade, Lexie o havia levado para jantarna casa de Dris, e esta 
o tinha puxado para olado e lhe pedira para no contar nada.
Eu no quero que Lexie fique pensando que eume intrometi na vida dela  Dris disse, os olhos 
brilhando.  Acredite ou no, ela acha que eu 
sou invasiva. 
s vezes, achava difcil de acreditar querealmente estava ali com ela; por outro lado, eraainda mais difcil acreditar que algum dia ele 
tivesse partido. Estar com Lexie parecia a coisamais natural do mundo, como se ela fosse o lar 
que ele estivera procurando. Embora Lexie 
parecesse sentir a mesma coisa, ela no deixouque ele ficasse em sua casa.  Eu no gostaria 
de dar a essas pessoas motivo para qualquer 
fofoca.  Mas ele at que se sentia 
razoavelmente confortvel no Greenleaf, mesmo 
que Jed ainda no tivesse dado um sorriso 
sequer. 

#
 Ento voc acha que  srio entre Rodney eRachel?  Jeremy perguntou. 
 Parece que sim  Lexie falou. - Eles tm 
passado muito tempo juntos ultimamente. Ela 
parece iluminada cada vez que ele aparece noHerbs, e sou capaz de jurar que ele fica 
ruborizado. Acho que vo ser realmente bons um 
para o outro.
Eu ainda no acredito que voc me disse queiria se casar com ele. Ela encostou seu ombro no 
dele.  Eu no quero voltar a falar disso.
J pedi desculpas. E gostaria que no ficasse melembrando disso para o resto da vida; muito 
obrigada.
Mas  uma histria to boa. 
Voc acha isso porque fica parecendo que voc o cara legal e eu sou a m da histria.
Eu fui um cara legal.
Ela o beijou no rosto.  E, voc foi.
Ele a puxou para perto, observando uma estrelacadente que cruzava o cu. Ficaram em silnciodurante algum tempo. 
 Voc vai estar muito ocupada amanh?  ele 
perguntou. 
 Depende  ela respondeu.  O que voc estplanejando?
Telefonei para a sra. Reynolds, e vou dar umaolhada em algumas casas. Gostaria que voc 
viesse junto. Num lugar como este, no gostariade ficar no meio da vizinhana errada. 
Ela o abraou mais forte.  Eu adoraria ir junto. 
#
 E eu tambm gostaria de levar voc para NovaIorque. Algum dia nas prximas semanas. Minhame est insistindo que precisa conhecer voc. 
 Eu tambm gostaria de conhec-la. Alm disso, 
sempre gostei daquela cidade. Algumas das 
melhores pessoas que conheci so de l.  
Jeremy olhou para cima. Pequenos flocos de 
nuvens passavam flutuando diante da lua, e, nohorizonte, ele pde ver que uma tempestade seaproximava. Dentro de poucas horas certamenteiria cair uma chuva, mas 
a Lexie e ele j 
estariam bebericando vinho na sala de estar, 
escutando as gotas da chuva batendo no 
telhado. 
Nesse momento, ela se virou para ele.  
Obrigada por ter voltado. Por se mudar para c...
por tudo. 
 Eu no tive escolha. O amor faz coisas 
engraadas com as pessoas. Ela sorriu.  Eu 
tambm te amo, sabe? 
 Sim, eu sei. 
 O qu? Voc no vai dizer? 
 Tenho mesmo? 
Pode apostar que sim. E tambm use o tom 
certo. Tem de dizer como se estivesse sentindo. 
Ele sorriu, pensando se ela iria dirigir o seu "tom"
para sempre.  Eu te amo, Lexie.
O apito de um trem soou ao longe, e Jeremy viu 
um pontinho de luz na paisagem escura. Se 
aquela fosse uma noite com neblina, as luzes 
logo estariam aparecendo no cemitrio. Lexie 
parecia ter acompanhado seus pensamentos. 
#
Ento me diga, sr. Jornalista Cientfico, ainda 
duvida da existncia de milagres?
Eu j lhe disse. Voc  meu milagre.
Ela encostou a cabea em seu ombro por umminuto, antes de procurar sua mo.  Estou 
falando de milagres de verdade. Quando 
acontece uma coisa que voc jamais acreditouque fosse possvel.
No  ele disse.  Acho que existe sempreuma explicao para quem realmente procurarbastante. 
Mesmo que um milagre estivesse para 
acontecer conosco? 
Sua voz era tranqila, quase um sussurro, e eleolhou para ela. Podia ver o reflexo das luzes dacidade brilhando em seus olhos. 
Do que  que voc est falando?
Ela respirou profundamente.  Dris me 
confidenciou uma notcia hoje de manh.
Jeremy examinou seu rosto, incapaz de entender

o que ela estava dizendo, mesmo quando suaexpresso mudou de hesitante para animada e,
depois, para esperanosa. Ela continuava 
olhando para ele, esperando que ele dissesse 
algo, e sua mente ainda se recusava a registrar oque ela havia dito.
Havia a cincia e havia o inexplicvel, e Jeremy 
passara a vida tentando conciliar os dois. Ele 
lidava com a realidade, zombava da magia e 
sentia pena dos crdulos. Mas ao olhar para 
Lexie, tentando entender o que ela estava 
dizendo, percebeu que sua velha sensao de 
certeza se desfazia. 
#
No, ele no conseguia explicar e, no futuro, 
jamais conseguiria. Desafiava as leis da biologia,
derrubava as certezas sobre o homem que 
acreditava ser. Era simplesmente impossvel, 
mas quando ela pegou sua mo e a colocou 
suavemente sobre sua barriga, ele acreditou, 
com certeza sbita e eufrica, nas palavras quejamais pensou que pudesse ouvir algum dia.
 Aqui est o nosso milagre  ela sussurrou. 
 uma menina. 

#
